Masserah

Ordem e progresso, nessa ordem

Masserah é um cidade dura sob todos os aspectos imagináveis. Quando o viandante desconhece a história dela e não repara nos detalhes do cotidiano, a princípio quase imperceptíveis, pode julgá-la apenas como uma urbe qualquer, sem maiores atrativos nem defeitos. Porém, se houver alguma sagacidade no olhar do visitante, logo de cara observará os traços marcantes desta cidade fundada e, sobretudo, habitada por conspícuos torturadores aposentados, antigos tiranetes e quadros exonerados das diferentes forças da segurança pública pela sua periculosidade e insânia. O que alerta o observador sensível é menos o apego à ordem excessiva, que parece mesmo ser cultivado por lá, e mais o tom ameaçante com que as autoridades de Masserah alardeiam por toda a parte. Da mais pueril iconografia municipal até as leis e os decretos locais, tudo em Masserah é feito basicamente a partir de proibições e promessas de punição. Paira sobre a cidade uma sensação opressiva incessante e uma severíssima vigilância sobre seus habitantes ‒ e também sobre os forasteiros. O que diferencia uns dos outros, no entanto, é a fruição obscena e o deleite íntimo que parecem sentir os locais diante de tudo aquilo que envolva um sadismo repressivo.

No cair da tarde, os bulevares ficam lotados de sedãs macabros, que circulam quase que a passo de homem, vigiando tudo e todos. É interessante visitar o Museu Punitivo Municipal, localizado num casarão de percursos tortuosos cujo mote não fica de todo claro. Alguns visitantes afirmam se tratar de um museu que ilustra as crueldades de uma pedagogia abominável com intuito de controle social; outros dizem que expõe o dia a dia de uma cadeia extinta, e há também quem opine ‒ com bastante critério e perspicácia ‒ que Masserah, na verdade, é uma enorme prisão ou um quartel. Ou uma mistura repulsiva das duas coisas.

 

 

 

Álvaro Labarrère, do livro Las ciudades invivibles

Tradução: Damian Kraus

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