Amkel Zu Nord

A química como controle social

Pretensiosa como poucas é a cidade alpina de Amkel Zu Nord. Tudo nela reluz, e tudo está organizado à exasperação. Seus habitantes dispensam ao estrangeiro uma cortesia empolada que, vista com bons olhos, assemelha-se mais ao desdém que à hospitalidade, tendo a capacidade de inibir qualquer aproximação factual possível. Fora isso, os amkelinos são bastante honestos em suas transações comerciais. Em Amkel tudo ocorre em tempo e forma, nada fica fora do tom e nem tampouco há surpresas. No entanto, essa ordem impoluta responde menos à natureza de seus habitantes e mais ao monstruoso sistema de segregação de classes que condiciona todos os aspectos da vida por lá. Pode-se afirmar que em Amkel Zu Nord funciona o mais bem-sucedido sistema de apartheid jamais imaginado.

Tal sistema passa despercebido para a maioria dos visitantes, tamanha a sua eficácia. A primeira coisa que costuma atiçar a curiosidade dos forasteiros mais ou menos sensíveis é que eles nunca ‒ isso apesar de Amkel ser una cidade pequena ‒ poderão, ao passearem pelas suas avenidas principais, achar algum nativo executando funções subalternas. Muito pelo contrário, nesses passeios, será inevitável deparar repetidamente com o gerente do banco local, com quadros do alto escalão da Prefeitura e com prósperos comerciantes. Tais encontros não são casuais, já que, em Amkel, o sistema social encontra-se organizado a partir de grupos que dependem da renda e da atividade que cada um executa. A rígida estrutura amkelina desconhece o conceito de “mobilidade social” e, de quebra, segrega geograficamente às pessoas conforme tais grupos, impedindo de um jeito truculento e ao mesmo tempo original a confraternização entre os vários existentes.

Com base nesse arranjo, aos serventes é concedida a Zona Sul, território sugerido a eles pelas autoridades locais como área de residência e lazer. À proibição tácita de acesso à Zona Norte é acrescido um engenhoso sistema de pedágio bioquímico: as calçadas, as ruas, as construções e as árvores de Amkel Nord estão impregnadas de substâncias hiperalergênicas. Todos os residentes do Norte são medicados desde que nascem, de forma que são absolutamente imunes a tais substâncias. Os amkelinos da classe baixa, pelo contrário, precisam tomar anti-histamínicos providenciados pelos seus patrões para ter acesso à Zona Norte e nela trabalhar. Quando acabam suas tarefas, os amkelinos do Sul se retiram rapidamente, para não ficar expostos às consequências de um choque alérgico severo. Qualquer amkelino do Sul que tente visitar Amkel Nord sem a proteção do remédio adequado sofrerá transtornos respiratórios severos e urticárias furiosas, o que colocará a sua vida em risco e evidenciará a sua condição de invasor indesejável. Em caso de sobreviver, o transgressor será preso pela polícia e expulso da cidade. Os amkelinos do Norte, pelo contrário, não têm restrições e, teoricamente, podem visitar o setor Sul da cidade. Mas só fazem isso muito de vez em quando ‒ e sempre por motivos de caridade.

Álvaro Labarrère,

do livro Las ciudades invivibles

Tradução: Damian Kraus

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