Deleuze e os manicômios: “A batalha nunca passa por onde a gente acredita”

Então, é muito ambíguo, porque é verdade que os mais ativos na esquerda estão certos ao lutar pela abolição das prisões, pela abolição do hospital psiquiátrico etc. Porém é preciso ver que seus inimigos não são os velhos, uns pobres caras que fazem de palhaços falando: “Sim aos hospitais psiquiátricos! Sim às prisões!” Seus inimigos são os controladores, que concordam absolutamente com eles e falam: “Sim, viva! Não mais prisões!” A batalha não passa por onde a gente acredita, nunca passa por onde a gente acredita. A estratégia, como diria Foucault, passa por outro lado. A estratégia, a verdadeira luta, está entre os abolicionistas da pena de morte. Não entre os conservadores da pena de morte e os abolicionistas.

(…) O que significam os hospitais-dia, os hospitais-noite, as equipes de cuidadores domiciliares, a setorização? Não passa mais por meios de clausura; passa pelo controle e, se necessário, pelo controle domiciliar. Eu não quero dizer que seja pior… Vocês compreendem que, quando enfrentamos problemas como este, já não se trata de saber o que é melhor ou pior, mas de saber por que e contra que vocês lutam num determinado momento. Então, não é preciso perder muito tempo lutando contra a pena de morte. Mais uma vez, ainda que alguém tente restabelecer a pena de morte hoje, é preferível atentar para os procedimentos de controle que virão a substituí-la. Ou seja, temos que fazer tudo junto? Eu não sei… Tudo? … Ufa! [risos] Precisamos manter, sobretudo, muito a alegria diante dos horrores por vir, pois nunca será suficiente [risos].

 

El poder. Curso sobre Foucault, 1986.

Tradução de trechos: Damian Kraus

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