Luiz B. L. Orlandi ‒ Idealismo da expressão e múltiplos mundos na clínica e na pesquisa (11 minutos com a transcrição do vídeo)

Excerto de uma aula em 2006, na PUC-SP/Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade. Imagens: Rafael Adaime.

Idealismo da expressão, ou seja, eu compreender ou considerar… se eu vou contar para mim mesmo o que se passa com essa pessoa que está na minha clínica… e eu for contar para mim mesmo, em termos de expressão, ele está exprimindo de alguma maneira, estou dizendo que ele está exprimindo de alguma maneira o seu estar no mundo. O seu estar no mundo. Então tem que se envolver, eu tenho que procurar… ter as categorias que me ajudam a dizer isso através de um campo filosófico também. Eu tenho que ver o que é que esse mundo cria, que mundo é esse que esse cara está exprimindo? É como se tivesse um mundo e ele exprimindo esse mundo que ele habita – isso tudo é possível de estar acontecendo. Para quando eu for ao detalhe, quando eu precisar das linhas que vão detalhar esse estar no mundo dele, eu vou precisar de palavras tais como angústia, medo – que é uma das palavras dessa linha filosófica. O mundo foi ficando num lugar estranho e o medo, a angústia… eu tenho uma parafernália de palavras que vocês vão encontrar no Ser e Tempo, de Heidegger. Vocês façam uma pesquisa e vocês vão encontrar. Essas palavras ficam sugerindo maneiras de ver o estar no mundo, o que eu chamaria de estruturas fundamentais do dasein, do estar no mundo, do ser-aí. Você está sentindo o quê?… Por que eu posso dizer que isso é idealismo: você está indo das palavras, do campo filosófico, e encaixando os sinais da pessoa nessas palavras, nessas linhas. No fundo você está exercendo uma… você está se apropriando dos sinais emitidos pela vítima… está se apropriando e dando uma direção para eles, para esses sinais, conforme o seu conceito de angústia, conforme o seu conceito de medo, conforme… Difícil, hein!. Difícil. Você pode ficar… em vez de você levar a sério os sinais por eles mesmos, e o papo do sujeito por ele mesmo. Como é que isto se intrinca? Então, vamos fazer assim. Em vez de os sinais e das categorias… que categorias são essas? As categorias que pensam as estruturas básicas do estar no mundo. Elas vão reunir os sinais… e esses sinais são expressões do ser-no-mundo através das categorias. Esse é o problema. Se as categorias dizem as estruturas fundamentais do ser-no-mundo… por exemplo medo, por exemplo angústia, você vai capturar os sinais emitidos pelo paciente debaixo dessas categorias. Você vai reorientar os sinais conforme essas categorias. Sobrou um problema para vocês, o uso das categorias disponíveis tanto nas psicologias quanto nas filosofias, quaisquer. Se você diz isso, então: os sinais são expressões do estar no mundo do paciente. Sim, só que os sinais você está procurando sob o império de categorias que, na filosofia de fulano, dizem as estruturas fundamentais do estar-no-mundo. O que você não está levando verdadeiramente a sério? Essa é a questão. Os sinais e os signos daquilo que você não conhece, pô! Você não pode dizer que sabe. Nós não podemos dizer que sabemos. Então tem um impedimento de usar categorias? Não, não tem impedimento nenhum. Pode usar a definição dele, Kant, quem for. Contanto que você deixe de lado. Eu quero ver como é que os sinais mastigam essa… como é que você mastiga o medo? O que que você sente quando tem medo? Ele é que tem que dar a estrutura do medo dele. Que é que abre para você um mundo cheio de capacidade de pôr um medo nele. No fundo é o seguinte: troca as categorias, põe em suspenso. Vamos convidá-lo a Husserl até… aqui você tem Heidegger – Husserl, caminho. Para Husserl dizer: Vamos às coisas elas mesmas. Suspenda o uso das palavras, vamos às coisas elas mesmas. Vamos ver o que é lá. Vamos ver qual é a produtividade interna que está pondo este cara de pé aqui. Ou qual são as diferenciações… a que mundos remetem os seus sinais. Eu não posso dizer ao mundo. Ao mundo… esse é um palavrão complexo. O mundo é uma das ideias problemáticas em Kant, ele não é um. Quantos mundos de medo estão se abrindo para você? Eu tenho medo à noite, eu tenho medo durante o dia, eu tenho medo de ir para o Rio de Janeiro. Cazzo! São sinais de mundos múltiplos! É preciso ir ao processo produtivo desses sinais. Vê-los como signos de algo que eu não conheço. Essa oscilação entre o sinal capturado pela categoria que detém o todo, no fundo… ela tem o direito à existência na filosofia dela, ela tem o direito até de ser transformada em operador metodológico. O Lévi-Strauss propõe na antropologia. Claro, é um operador em relação ao qual você mantém a distância porque a indagação primeira é ver a produtividade interna do desejo aqui e agora, nos seus sinais absolutamente confusos. E que remetem a universos desconhecidos. Sem medo de ficar lendo, pegando… põe em gavetas como se você testasse. Mas o medo sob a liderança da observação direta …, do contato direto, do susto direto. Ou seja… qual é o comportamento? Lembra de uma aula em que… o que é que o Deleuze aprende com os animais? Estar à espreita. Estar à espreita é a atitude que você tem quando é atacado pelos signos. O cachorro dá sempre sinais, pela orelha, do estar à espreita, porque ele é atacado por signos. Ou seja, ele tem sempre que desvendar os sinais do mundo para ele. O mundo cheio de mundos. O mundo, Leibniz dizia, não é um. Aliás, isso é no entendimento de Deus, múltiplos mundos na cabeça de Deus. Este mundo é como se fosse os mundos que estão possíveis na cabeça de Deus. Este mundo aqui são uma multiplicidade de mundos… é claro que você não pode dizer que ele está exprimindo o seu ser-no-mundo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s