Farmacopornografia e o que tende ao Comum

Uma autora espanhola, Beatriz Preciado, denuncia o que ela, Preciado, chama de regime farmacopornográfico. Ela mostra como “durante o século XX, a libido, a consciência, e mesmo a homosexualidade e heterossexualidade, foram sendo “transformadas em realidades tangíveis, em substancias químicas, em moléculas comercializáveis, em corpos, em biotipos “humanos”, em bens de intercâmbio gestionáveis pelas multinacionais farmacêuticas”. O êxito da ciência estaria em transformar a depressão em Prozac, a masculinidade em testosterona, a ereção em Viagra, etc. Diante dessa molecularização, e o termo é concreto, não é uma metáfora, do biopoder, mesmo reconhecendo o valor da teorização dos italianos que eu mencionei há pouco, ela considera provocativamente que a descrição dos teóricos italianos se detém quando chega à cintura, donde a pergunta dela que vou ler para vocês rirem um pouco: “mas, se fossem na realidade os corpos insaciáveis da multidão, seus paus e seus clitóris, seus ânus e seus hormónios, suas sinapses neurosexuais, seu desejo e sua sexualidade, sua excitação e sedução, o prazer da multidão, fossem eles o motor da criação de valor na economia contemporânea? Se a cooperação fosse uma cooperação masturbatória e não simplesmente uma cooperação entre cérebros?” Mais radicalmente a questão se amplia: “ousemos as hipóteses: as verdadeiras matérias primas do processo produtivo atual são a excitação, a ereção, a ejaculação, o prazer e o sentimento de autocomplacência e de controle onipotente. O verdadeiro motor do capitalismo atual é o controle farmacopornográfico da subjetividade, cujos produtos são a serotonina, a testosterona, os antiácidos, a cortisona, os antibióticos, o estradiol, o álcool e o tabaco, a morfina, a insulina, a cocaína, o viagra e todo aquele complexo material-virtual que pode ajudar na produção de estados mentais e psicossomáticos de excitação, relaxamento e descarga, onipotência de controle total. Aqui inclusive o dinheiro se torna o significante abstrato e psicotrópico. O corpo adicto e sexual, o sexo e todos os seus derivados semióticos são hoje o principal recurso do capitalismo pós-fordista”. Dificilmente se encontrará descrição mais provocativa sobre o niilismo biopolítico e capitalístico contemporianeo. Não por acaso, rigorosamente fiel à lógica de Moebius que eu descrevi no início, a autora, ao mesmo tempo chama a atenção para a matéria que está aí sendo vampirizada pelo capitalismo. Diz ela: “é a força orgásmica” ( ela ainda dá o nome em latim, porque quando criança estudou em colégio religioso, onde ela pôde, como mocinha, paquerar todas as mocinhas livremente ). Diz ela: “essa potentia gaudeme, que é a potência de excitação global de cada molécula viva que, espinosamente falando, tende a uma ampliação ilimitada e dificilmente pode ser reduzida a um objeto privado e comercializável, dada justamente essa sua natureza expansiva e que tende ao comum. Mas, o biopoder se acapara desse corpo tecno-vivo, diz ela, desse tecno-eros e o que estaria em jogo aí seria precisamente a força orgásmica, que segundo ela não pode ser pensada como uma matéria inerte ou passiva a não ser quando ela é reduzida pela farmacopornografia, quando é expropriada e reduzida ao que se poderia chamar de vida nua. Bom, é óbvio que a descrição de Preciado, num certo sentido, crava na carne do presente e percorre a latitude do biocorpo, às voltas com o que ela chama, a seu modo sempre polêmico, de lucro ejaculante, do qual estariam por ora excluídas massas inteiras do planeta, para o bem e para o mal.Em todo o caso, para além da descrição viva de um contexto que nosso pudor tem dificuldade de nomear, Preciado teve o mérito de oferecer o próprio corpo como uma espécie de laboratório, em que ela experimenta “voluntariamente” certas derivas da sensibilidade e do erotismo a partir de um protocolo de intoxicação “voluntária” à base de gel de testosterona. Ela esclarece em seu livro, que pode ser lido como um manual de bioterrorismo de gênero na escala molecular, bem como um exercício de desmontagem da subjetividade. Bom, se o capitalismo mobiliza tudo prá interromper, ou melhor, ao mesmo tempo vampirizar e interromper a proliferação das intensidades do desejo… Se o capitalismo esmaga as virtualidades não finalizadas do desejo, seria preciso retomar tudo isso à luz de uma perspectiva que justamente coloca no centro a questão do desejo. O desejo, segundo Deleuze e Guattari, é o irracional de toda a racionalidade. Implica uma ruptura de causalidade. Rompe com causas e metas. A única causa do desejo é uma ruptura de causalidade e embora se possa e se deva assinalar nas séries atuais os fatores objetivos que tornaram possível tal ruptura, com elos mais frágeis, só o que é da ordem do desejo e de sua irrupção dá conta da realidade. É uma posição assumida de maneira muito categórica por Deleuze e Guattari, desde o Anti- Édipo até o final de sua obra.O desejo tem a ver com todos esses acontecimentos que não podem ser reduzidos à história da qual eles desviam. O desejo tem algo a ver com (…) os agenciamentos que fazem saltar pelos ares o esfriamento ou esse monitoramento biopolítico do sócius.

PPP

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