O valor decisivo de uma ação reside naquilo que nela é não-intencional, precisamente no que tem de não-intencional, e que tudo o que tem de intencionalidade, tudo o que se pode ver ou saber dela (tornado consciente), pertence ainda à superfície, à sua pele que, como toda pele, revela algo, mas sobretudo esconde?

Pensamento vem de fora e pensa que vem de dentro.

Arnaldo Antunes

 

Hoje não temos mais compaixão pelo conceito de ‘livre-arbítrio’: sabemos bem demais o que é – o mais famigerado artifício (…) de “sacerdotes” que há, com o objetivo de fazer a humanidade ‘responsável’ no sentido deles, isto é, de torná-la deles dependente… Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo ‘tornar responsável’. – Onde quer que responsabilidades sejam buscadas, costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é despojado de sua inocência, quando se faz remontar esse ou aquele modo de ser à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes à frente das velhas comunidades (e hoje há sucessores científicos), quiseram criar para si o direito de impor castigos – ou criar para Deus esse direito…Os homens foram considerados ‘livres’ para poderem ser julgados, ser punidos – ser culpados: em consequência, toda ação teve de ser considerada como querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência (assim, a mais fundamental falsificação de moeda in psychologicis [em questões psicológicas] transformou-se em princípio da psicologia mesma. Hoje, quando encetamos o movimento inverso , quando nós, imoralistas, buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito de culpa e o conceito de castigo, e deles “purificar” a psicologia, a história, a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos, adversários mais radicais do que os “novos sacerdotes”, que, mediante o conceito de ‘ordem moral do mundo’ (tudo é natural e já sabido ), continuam a empestear a inocência da vida com ‘culpa’ e ‘castigo’ (…) O que podemos aprender neste ponto? Que nada dá ao homem suas qualidades, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e antepassados, nem ele mesmo. Nada é responsável pelo fato do homem existir, seja desta ou da outra maneira, encontrasse em tais condições em tal meio. A fatalidade de seu ser não pode separar-se da fatalidade de tudo o que foi e será. O homem não é a conseqüência duma “intenção própria”, duma “vontade”, dum fim; com ele não se fazem ensaios para obter-se um ideal de humanidade; um ideal de felicidade ou um ideal de moralidade; é absurdo desviar seu ser para um fim qualquer. Nós inventamos a idéia do fim; na realidade não existe o fim … Somos necessários, somos um fragmento do destino, formamos parte de um todo aberto, estamos no todo; não há nada que possa julgar, medir, comparar e condenar nossa existência, pois isto eqüivaleria a julgar, medir, comparar e condenar o todo. E não há nada fora do todo aberto! Nada pode ser responsabilizado: as categorias do ser não podem ser referidas a uma causa primeira, o mundo não é uma unidade, nem como mundo sensível, nem como inteligência; apenas esta é a grande questão, deste modo a inocência do devir fica[1] (…)

***

Durante[2] a era mais longa da “história humana” — a pré-história — o valor ou não valor de uma ação era deduzido de suas consequências. O próprio ato importava tão pouco quanto suas origens, mais ou menos como acontece, hoje em dia, na China, onde os filhos recebem honra ou vergonha como herança dos pais; era o efeito retroativo do êxito ou do fracasso o que induzia a pensar bem ou mal de uma ação. Convenhamos, pois, que aquele foi o período pré-moral da humanidade. O imperativo “conhece-te a ti mesmo” era, pelo contrário, desconhecido. No decurso dos últimos dez milênios, em largas regiões da terra, mudou-se o caminho e agora, o valor é atribuído não às conseqüências da ação, mas à sua origem (INTENÇÕES). Isto representa um acontecimento importante, produto de um grande refinamento do juízo, o efeito distante e inconsciente dos valores aristocráticos, da crença na “origem”, o sinal distintivo de um período que poderíamos denominar de período moral no senso estrito, definitivamente o primeiro passo para o conhecimento de si mesmo (autoconhecimento). Por isso a ação ocorre ao inverso e em lugar de se procurarem as conseqüências, trata-se de encontrar a origem. Que inversão de perspectiva! Uma inversão que é fruto de longos combates e hesitações, na verdade, uma nova superstição de funestas consequências, uma singular estreiteza de interpretação, que chegou para dominar atravessando este caminho. Atribuiu-se a origem de um ato, no sentido mais estrito do termo, a uma intenção e se esteve de acordo com a crença de que o valor de um ato reside no valor de sua intenção (ORIGEM NA DELIBERAÇÃO). A intenção era por si só a origem e a pré-história da ação; e por este preconceito se diferenciou até nossos dias o louvor e a censura, formularam-se juízos e inclusive se filosofou moralmente. Hoje não deveríamos sentir a necessidade de uma inversão total dos valores, graças a um novo retorno sobre nós mesmos, a uma nova sondagem do homem? Não chegamos ao princípio de um novo período ao qual se qualifica, negativamente desde o começo, de extramoral, posto que entre nós, pelo menos, imoralistas, se começa a entrever que o valor decisivo de uma ação reside naquilo que nela é não-intencional, precisamente no que tem de não-intencional, e que tudo o que tem de intencionalidade, tudo o que se pode ver ou saber dela (tornado consciente), pertence ainda à superfície, à sua pele que, como toda pele, revela algo, mas sobretudo esconde? Resumindo, vemos que a intenção nada mais é que um signo e um sintoma que tem necessidade de ser interpretado, um signo carregado de demasiadas significações para ter uma única para ele. Mantemos a opinião de que a moral, tal como foi concebida até hoje, a moral das intenções foi um preconceito, um juízo precipitado e provisório que a coloca no mesmo lugar que a astrologia e a alquimia e em todo caso, algo que deve ser superado. A superação da moral e o triunfo desta sobre si mesma, seria a denominação da larga e misteriosa tarefa reservada às consciências sutis e honestas e também às mais maliciosas da atualidade, na condição de viventes pedras de toque da alma.

N.

***

“Que é que junta em mim as coisas que leio e vejo? Que forças em mim me fazem ver isso? Que forças em mim me fazem expressar assim o que “estou pensando”? Que forças já me dominam? Com que forças me alio[3] ?”

[3] Frases de Luiz Orlandi transcritas do vídeo Orlandi e Giacóia. Acesso em 31/01/2015. Disponível in:http://www.youtube.com/watch?v=Hem6s9cvJKI

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s