A cortina carmesim. Jules Barbey d’Aurevilly [1808-1889]

Really.

Há muitíssimos anos, fui caçar animais aquáticos nos pântanos do Oeste, e como não havia, naquela época, ferrovias na região para onde eu devia viajar, tomei a diligência de *** que passava no cruzamento do castelo de Rueil e que, naquele momento, não tinha, em seu compartimento, mais do que uma pessoa. Essa pessoa, muito notável sob todos os aspectos, e que eu conhecia por tê-la encontrado muitas vezes, era um homem que eu lhes pedirei a permissão para chamar de Visconde de Brassard. Precaução provavelmente inútil! Aquelas poucas centenas de pessoas que, em Paris, se consideram como sendo o mundo, são certamente capazes de substituí-lo por seu verdadeiro nome… Era cerca de cinco horas da tarde. O sol iluminava com seus enfraquecidos raios uma estrada empoeirada, marginada por uma fileira de choupos e por uma extensa campina, e sobre a qual nós nos lançamos, ao galope de quatro vigorosos cavalos, cujas traseiras musculosas nós víamos se erguer pesadamente a cada golpe de chicote do cocheiro, cuja imagem é a de quem sempre estala exageradamente seu chicote na hora da partida!

O Visconde de Brassard estava naquela fase da vida em que não se estala mais o seu chicote… Mas trata-se de um desses temperamentos dignos dos ingleses (ele foi educado na Inglaterra), os quais, feridos de morte, jamais se entregam, e morrem sustentando que continuam vivos. Tem-se, no mundo, e mesmo nos livros, o hábito, quando se é jovem, de ridicularizar as pretensões daqueles que ultrapassaram essa idade feliz da inexperiência e da ignorância, e se tem razão, quando a forma dessas pretensões é ridícula; mas quando ela não é, – quando, ao contrário, ela é imponente como a altivez que não se deixa curvar e que a inspira, não digo que isso não seja insensato, pois isso é inútil, mas que é uma coisa tão bela quanto tantas outras coisas insensatas!… Se o sentimento da guarda que morre e não se rende é uma coisa heróica em Waterloo, ela não o é menos face à velhice, que não tem, essa, a poesia das baionetas para nos golpear. Ora, para cabeças construídas de uma certa maneira militar, nunca se render é, sempre, a propósito de tudo, a verdadeira questão, como em Waterloo!

O Visconde de Brassard, que não se rendeu (ele ainda vive, e, mais tarde, eu direi como, pois vale a pena sabê-lo), o Visconde de Brassard era, pois, no momento em que subi na diligência de ***, aquilo que o mundo, feroz como uma jovem mulher, chama, deslealmente, de “um belo velho”. É verdade que para aquelas pessoas que não economizam palavras ou números nessa questão da idade, na qual não se tem, nunca, a não ser aquilo que se parece ter, o Visconde de Brassard poderia passar por “belo”, sem qualquer outra qualificação. Pelo menos, nessa época, a Marquesa de V…, que era especializada em jovens e que tinha tosquiado uma dezena deles, como Dalila tosquiara Sansão, portava com uma certa ostentação, sobre um fundo azul, em um bracelete xadrez muito grande, dourado e preto, uma ponta do bigode do Visconde que o diabo tinha tornado ainda mais ruço que o tempo… Velho ou não, cuidem apenas para não atribuir a essa expressão de “belo”, que o mundo criou, nada de frívolo, por mais que ela seja fraca ou exígua, pois vocês não terão uma idéia justa de meu Visconde de Brassard, no qual, intelecto, modos, fisionomia, tudo era grande, pleno, opulento, cheio de lentidão aristocrática, como convinha ao mais magnífico dândi que conheci, eu, que vi Brummel enlouquecer e d’Orsay morrer!

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Ele, o Visconde de Brassard era realmente um dândi. Se ele o fosse menos, ele teria se tornado certamente Marechal da França. Ele tinha sido, desde sua juventude, uma dos mais brilhantes oficiais do fim do Primeiro Império. Ouvi, muitas vezes, de seus camaradas de regimento, a afirmação de que ele se distinguia por uma bravura do tipo da de Murat, misturada com a de Marmont. Com isso, – e com uma cabeça muito sensata e muito fria, quando o regimento não estava a toque de caixa, – ele poderia, em muito pouco tempo, ter se elevado às primeiras fileiras da hierarquia militar. Mas o dandismo!… Se vocês combinarem o dandismo com as qualidades que produzem um oficial: o sentimento da disciplina, a regularidade no serviço, etc., etc., vocês verão o que restará do oficial nessa combinação e se ele não vai pelos ares como a poeira! Se, em alguns momentos de sua vida, o oficial Brassard não foi pelos ares, foi porque, como todos os dândis, ele tinha sorte. Mazarin o teria empregado, – suas sobrinhas também, mas por uma outra razão: ele era soberbo.

Ele tivera essa beleza que é necessária mais ao soldado que ao civil, pois não há juventude sem a beleza, e o exército é a juventude da França! Essa beleza, de resto, que não seduz apenas as mulheres, mas as próprias circunstâncias, – essas libertinas!, – não tinha sido a única proteção que tinha se estendido sobre a cabeça do Capitão Brassard. Ele era, creio, da raça normanda, da raça de Guilherme, o Conquistador, e ele tinha, dizia-se, muito conquistado… Depois da abdicação do Imperador, ele passou naturalmente para o lado dos Bourbons e, durante a Guerra dos Cem Dias, muito naturalmente, permaneceu-lhes fiel. Igualmente, quando os Bourbons retornaram pela segunda vez, o Visconde foi nomeado Chevalier de Saint-Louis pelo próprio Carlos X (então Monsieur). Durante todo o tempo da Restauração, não houve uma única vez em que o belo Brassard fizesse a guarda nas Tulherias sem que a Duquesa d’Angoulème não lhe dirigisse, ao passar, algumas amáveis palavras. Ela, cuja infelicidade tinha lhe tirado a graça, sabia encontrá-las para ele. O ministro, vendo esse favor, teria feito tudo pela promoção do homem que Madame assim distinguia; mas, com a melhor vontade do mundo, que fazer por esse enraivecido dândi que – num dia de revista – tinha tirado a espada, à frente da bandeira de seu regimento, contra seu inspetor geral, por causa de uma observação de serviço?… Já foi o bastante ter conseguido poupá-lo do Conselho de Guerra! Esse desprezo impassível pela disciplina, o Visconde de Brassard demonstrava-o em toda parte. Exceto em expedições militares, quando o oficial se mostrava em sua plenitude, ele nunca se submetia às obrigações militares. Muitas vezes, ele era visto, por exemplo, sob o risco de ser submetido a detenções infinitamente prolongadas, deixar furtivamente sua guarnição para ir se divertir em uma localidade vizinha e não regressar a não ser para os dias de parada ou de revista, advertido por algum soldado que gostava dele, pois se os chefes não se importavam de ter sob suas ordens um homem à cuja natureza repugnava toda espécie de disciplina e de rotina, seus soldados, por sua vez, o adoravam. Ele era excelente para eles. Ele não exigia senão que fossem corajosos, muito minuciosos e muito elegantes, fazendo o tipo, enfim, do antigo soldado francês, sobre o qual três ou quatro velhas canções, que constituem obras-primas, nos deixaram uma imagem tão exata e tão cativante. Ele os pressionava, talvez um pouco exageradamente, ao duelo, mas ele tinha a convicção que esse era o melhor meio que ele conhecia de desenvolver neles o espírito militar. “Não são sou um governo, dizia ele, e não tenho decorações a lhes dar quando eles se batem bravamente entre si; mas as decorações das quais eu sou o grande-mestre (ele era muito rico, por causa de sua fortuna pessoal), são as luvas, os implementos de couro para fazer a recarga das armas, e tudo aquilo que lhes pode adornar, desde que as prescrições não o impeçam”. Da mesma forma, a companhia que ele comandava apagava, pela beleza de seu porte, todas as outras companhias de granadeiros dos regimentos da Guarda, que já eram bastante brilhantes. Era assim que ele exaltava exageradamente a personalidade do soldado, sempre pronto, na França, à fatuidade e à galanteria, essas duas provocações permanentes, uma pelo tom que ela assume, a outra pela inveja que ela suscita. Compreender-se-á, depois

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disso, que as outras companhias de seu regimento tivessem inveja da sua. Lutava-se para entrar na sua companhia e lutava-se mais ainda para não sair dela.

Essa era, sob a Restauração, a posição inteiramente excepcional do Capitão Visconde de Brassard. E como não havia, naquela época, todas as manhãs, como sob o Império, o recurso do heroísmo em ação, que tudo faz perdoar, ninguém teria certamente podido prever ou adivinhar quanto teriam durado esses atos de insubordinação que surpreendiam seus camaradas, e que ele exercia contra seus chefes com a mesma audácia com que ele teria posto em jogo sua vida se fosse enviado ao campo de batalha, caso a Revolução de 1830 lhes tirasse, se eles a tivessem, a precaução, e ele, o imprudente capitão, a humilhação de uma destituição que o ameaçava mais a cada dia. Ferido gravemente na Guerra dos Três Dias, ele se recusou a prestar serviço sob a nova dinastia dos Orleans, os quais ele desprezava. Quando a Revolução de Julho os fez donos de um país que eles não souberam cuidar, ela encontrou o capitão em seu leito, enfermo de um ferimento que ele teve no pé quando dançava – como ele o teria expressado – no último baile da Duquesa de Berry. Mas ao primeiro rufar dos tambores, ele não deixou de se levantar para juntar-se à sua companhia e como não lhe era possível calçar botas, por causa do ferimento, ele foi à insurreição como ele teria ido ao baile, com sapatos de verniz e meias de seda, e foi assim que ele tomou o comando de seus granadeiros na Praça da Bastilha, encarregado como estava, de liberar, em toda a sua extensão, o bulevar. Paris, onde as barricadas ainda não estavam erguidas, tinha um aspecto sinistro e temível. A cidade estava deserta. O sol caía a prumo, como uma primeira chuva de fogo à qual outra se deveria seguir, uma vez que todas as janelas, cobertas com suas persianas, iriam, em seguida, expelir a morte… O Capitão de Brassard organizou seus soldados em duas linhas, ao longo e o mais perto possível das casas, de maneira que cada fileira de soldados não ficasse exposta aos golpes de fuzil que lhes chegavam de frente, e ele, mais dândi que nunca, assumiu o meio do pavimento. Sob a mira, pelos dois lados, de milhares de fuzis, de pistolas e de carabinas, desde a Bastilha até a Rua de Richilieu, ele não foi atingido, apesar da largura de um peito de que ele se orgulhava um tanto exageradamente, pois o Capitão de Brassard oferecia seu peito ao fogo, como uma bela mulher, num baile, que põe seu seio em julgamento, quando, chegado à frente de Frascati, na esquina da Rua de Richilieu, e no momento em que ordenava à sua tropa que se concentrasse atrás dele para arrastar a primeira barricada que ele encontrou erguida em seu caminho, ele recebeu uma bala em seu magnífico peito, duplamente contundente, primeiramente, por sua largura e, depois, pelos longos alamares de prata que resplandeciam de um ombro ao outro, e ele teve o braço atingido por uma pedra, – o que não o impediu de tomar de assalto a barricada e de ir até à Madeleine, à frente de seus entusiasmados homens. Ali, duas mulheres em uma caleche, que fugiam da Paris em revolta, ao ver esse oficial da Guarda ferido, coberto de sangue e deitado sobre os blocos de pedra que rodeavam, nessa época, a Igreja da Madeleine, a qual ainda estava em obras, colocaram seu carro à disposição, e ele foi conduzido por elas ao Gros-Caillou, onde se encontrava então o Marechal de Raguse, ao qual ele disse, militarmente: “Marechal, não viverei talvez mais que duas horas, mas durante essas duas horas, posicione-me onde o senhor quiser!”. Só que ele estava enganado… Ele ia viver mais que duas horas. A bala que o tinha atravessado não o matara. Faz mais de quinze anos que o conheci e ele afirmava então, à revelia da medicina e de seu médico, que o havia expressamente proibido de beber durante todo o tempo que havia durado a febre de seu ferimento, que só tinha se salvado da morte certa por beber vinho de Bordeaux.

E ao bebê-lo, como ele bebia!, pois, dândi em tudo, ele era, em sua maneira de beber, como em tudo o resto… ele bebia como um polonês. Ele mandou fazer um esplêndido copo em cristal da Boêmia no qual cabia uma garrafa inteira de Bordeaux, e ele o bebia de um gole só! Ele acrescentava, após haver bebido, que ele fazia tudo nessa mesma medida, e era verdade! Mas em uma época em que a força, sob todas as formas, vai

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diminuindo, pode-se considerar, talvez, que não haja nada de quê se orgulhar. Ele era orgulhoso como Bassompierre e ele suportava o vinho como ele. Eu o vi beber de uma só vez doze doses de seu copo de Boêmia, e ele não dava a mínima impressão de tê-lo feito! Eu o vi ainda, freqüentemente, nessas refeições que as pessoas decentes chamam de “orgias”, e ele não ultrapassava, após esses grandes goles, aquele grau de embriaguez que ele chamava, com uma graça ligeiramente soldadesca, de “estar um tanto alegrinho”, fazendo o gesto militar de colocar um pompom em seu boné. [trocadilho intraduzível: “être um peu pompette” – “estar um tanto alegrinho”, fazendo um trocadilho entre pompette e pompom]. Eu, que muito gostaria de fazer com que vocês compreendessem o tipo de homem que ele era, no interesse da história que vai se seguir, por que eu não lhes diria que eu vi esse bom braguard [palavra há muito em desuso, como diz o próprio autor, do século XVI, que se poderia traduzir como “homem altivo, vaidoso] do século XIX – como o teria chamado o século XVI, com sua língua pitoresca – com sete amantes titulares de uma vez só. Ele as intitulava poeticamente de “as sete cordas de sua lira” e, na verdade, eu não aprovo essa maneira musical e leviana de falar de sua própria imoralidade! Mas, que é que vocês querem? Se o Capitão Visconde de Brassard não fosse tudo que tive a honra de lhes dizer, minha história seria menos picante e, provavelmente, eu não teria pensado em lhes contar.

É certo que eu não esperava encontrá-lo ali, quando subi na diligência de ***, no cruzamento do castelo de Rueil. Havia muito tempo que não nos víamos e gostei de reencontrá-lo, com a perspectiva de passar algumas horas junto a um homem que ainda era de nossa época e que, ao mesmo tempo, já diferia tanto dos homens de nossa época. O Visconde de Brassard, que podia entrar na armadura de François I e com ela se mover tão à vontade quanto em seu elegante fraque de oficial da Guarda Real, não se parecia, nem pelo estilo, nem pelas proporções, com os mais glorificados dos jovens do presente. Esse sol poente, de uma elegância grandiosa e por tão longo tempo radiosa, teria feito com que esses pequenos ascendentes da moda que se levantam agora no horizonte parecessem bem magricelas e bem pálidos! Belo, do tipo da beleza do Imperador Nicolau, que ele lembrava pelo torso, mas menos ideal no rosto e menos grego no perfil, ele cultivava uma barba curta, que continuava escura, tal como seus cabelos, por um mistério de organização ou de toalete… impenetrável, e essa barba espalhava-se até o alto de suas faces, com um colorido animado e masculino. Sob uma fronte da mais alta nobreza, – uma fronte curva, sem nenhuma ruga, branca como o braço de uma mulher, – e que o boné de couro de granadeiro, que faz cair os cabelos, tal como o capacete, descobrindo-o um pouco no alto da testa, tinha tornado mais ampla e mais altiva, o Visconde de Brassard quase escondia, de tão afundados que estavam sob a arcada das sobrancelhas, dois olhos cintilantes, de um azul muito escuro, mas muito brilhantes em sua profundidade e que daí se sobressaíam como duas safiras pontiagudas! Esses dois olhos não se preocupavam em escrutar, mas eles eram penetrantes. Nós trocamos um aperto de mão e nos pusemos a conversar. O Capitão de Brassard falava lentamente, com uma voz vibrante que imaginávamos ser capaz de abarcar todo o Champ-de-Mars com as ordens que ele dava. Educado desde a infância, como lhes disse, na Inglaterra, ele pensava talvez em inglês; mas essa lentidão, sem prejuízo do resto, dava um volteio muito particular ao que ele dizia, e até mesmo às suas brincadeiras, pois o Capitão gostava das brincadeiras, até mesmo daquelas um pouco arriscadas. Ele tinha aquilo que chamamos de viva resolução. O Capitão de Brassard ia sempre demasiado longe, dizia a Condessa de F…, essa alegre viúva, que não veste mais que três cores depois que se tornou viúva: preto, violeta e branco. Era preciso que ele se encontrasse em muito boa companhia para que não fosse freqüentemente encontrado em má companhia. Mas quando se está em má companhia, vocês sabem muito bem que acontece de tudo no faubourg Saint-Germain!

Uma das vantagens da conversa quando se está viajando de carro, é que ela pode parar quando não se tem mais nada a dizer, e isso sem nenhum constrangimento para ninguém. Em uma sala de visitas, não se tem

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essa liberdade. A polidez impõe-nos o dever de falar de qualquer maneira e somos freqüentemente punidos por essa hipocrisia inocente, pelo vazio e pelo enfado dessas conversações em que os idiotas, mesmo que tenham nascido silenciosos (e existem os desse tipo), se esforçam e fazem o impossível para dizer alguma coisa e serem amáveis. Em um carro público, todo mundo está em sua casa, ao mesmo tempo que na dos outros, – e pode- se, sem parecer inconveniente, mergulhar no silêncio que agrada e que faz com que o devaneio se suceda à conversação… Infelizmente, os acasos da vida são terrivelmente monótonos, e outrora (pois já é outrora), subia-se vinte vezes em um carro público, – como, hoje, sobe-se vinte vezes em um vagão, – sem encontrar uma pessoa cuja conversa seja animada e interessante… O Visconde de Brassard trocava comigo, inicialmente, algumas idéias que os acidentes da estrada, os detalhes da paisagem e algumas recordações do mundo em que havíamos nos encontrado outrora tinham feito nascer; depois, o dia que terminava fez, com seu crepúsculo, cair sobre nós o seu silêncio. A noite que, no outono, parece cair a pique do céu, de tão rápida que ela vem!, tomou conta de nós, com seu ar fresco, e nós nos enrolamos em nossos casacos, buscando com a cabeça o duro canto que é o travesseiro daqueles que viajam. Não sei se meu companheiro adormeceu em seu canto do compartimento; mas, quanto a mim, continuei acordado no meu. Eu estava tão indiferente ao trajeto que fazíamos e que eu tinha tantas vezes feito, que eu mal prestava atenção aos objetos exteriores, que desapareciam no movimento do carro, e que pareciam correr na noite, em sentido oposto ao daquele que nós corríamos. Atravessamos vários lugarejos, espalhados, aqui e lá, por essa longa estrada que os cocheiros de carros postais ainda chamavam, orgulhosamente, de “ruban de queue” [literalmente, fita para prender cabeleiras masculinas tipo “rabo de cavalo”; aqui, tem o sentido de uma longa estrada que se perde de vista diante do viajante], em recordação de sua própria “fita de rabo de cavalo” que, no entanto, já há muito tinha sido cortada. A noite tornou-se negra como um forno extinto, – e, nessa obscuridade, essas cidades desconhecidas pelas quais passávamos eram estranhas fisionomias e davam a ilusão que estávamos no fim do mundo… Essa espécie de sensação que anoto aqui, como a recordação das últimas impressões de um estado de coisas desaparecido, não existem mais e não regressarão nunca para ninguém. Nos tempos atuais, as ferrovias, com suas estações à entrada das cidades, não permitem mais ao viajante apreender de uma só vez, em uma rápida vista d’olhos, o panorama fugidio de suas ruas, como se pode fazer ao galope dos cavalos de uma diligência que vai, em seguida, fazer a troca dos cavalos, para voltar a partir. Na maior parte dessas pequenas cidades que atravessávamos, os reflexos, esse luxo tardio, eram raros, e via-se, aí, certamente, bem menos que nas estradas que acabávamos de deixar. Ali, ao menos, o céu tinha sua amplidão, e a grandeza do espaço lançava uma vaga luz, enquanto que aqui, a aproximação das casas que pareciam se beijar, suas sombras projetadas sobre as ruas estreitas, o pouco de céu e de estrelas que se percebiam entre as duas fileiras de tetos, tudo se acrescentava ao mistério dessas vilas adormecidas, nas quais o único homem que se encontrava era – à porta de algum albergue – um garoto de cavalariça, com sua lanterna, que conduzia os cavalos de revezamento, e que afivelava as correias de sua atrelagem, assobiando ou praguejando contra seus cavalos recalcitrantes ou demasiadamente ariscos… Fora isso e a eterna interpelação, sempre a mesma, de algum viajante, tonto de sono, que baixava uma janela e gritava na noite, que se tornava mais sonora por causa do silêncio: “Onde estamos, cocheiro?…”, não se escutava nada de vivo e nada se via ao redor e nem nesse carro cheio de pessoas que dormiam, nessa cidade adormecida, na qual, talvez, algum sonhador, como eu, buscava, através da vidraça de seu compartimento, discernir a fachada das casas encobertas pela noite, ou suspendia seu olhar e seu pensamento à vista de alguma janela ainda iluminada a essa hora avançada, nessas pequenas cidades de costumes regrados e simples, para as quais a noite foi feita, sobretudo, para dormir. A vigília de um ser humano, – mesmo a de um sentinela, – quando todos os outros seres estão mergulhados nesse torpor que

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é o torpor da animalidade fatigada, tem sempre algo de imponente. Mas a ignorância daquele que se deixa ficar em vigília por detrás de uma janela com cortinas abaixadas, em que a luz indica a vida e o pensamento, acrescenta a poesia do sonho à poesia da realidade. Ao menos, para mim, não pude nunca ver uma janela, – em uma noite iluminada, – em uma cidade adormecida, pela qual eu passava, – sem ligar a esse quadro de luz um mundo de pensamentos, – sem imaginar, por detrás dessas cortinas, intimidades e dramas… E agora, sim, ao cabo de tantos anos, tenho ainda na cabeça essas janelas que aí permanecem eterna e melancolicamente luminosas, e que me fazem freqüentemente dizer, quando ao pensar nelas, eu as revejo em meus devaneios:

“Que havia, pois, por detrás dessas cortinas?”.

Bem, uma das que mais permaneceram na minha memória (mas logo em seguida vocês compreenderão a razão disso) é uma janela de uma das ruas da cidade de ***, pela qual passávamos nessa noite. Ela está situada três casas – vejam como minha lembrança é precisa – acima do hotel diante do qual nós fazíamos o revezamento dos cavalos; mas essa janela, eu tive o prazer de considerá-la por mais tempo que o tempo de um simples revezamento de cavalos. Tinha acabado de ocorrer um acidente a uma das rodas de nosso carro e alguém foi em busca da pessoa que podia consertá-la, a qual foi preciso que fosse acordada. Ora, acordar um tal pessoa, em uma cidade adormecida de província, e fazê-la levantar-se para apertar uma porca de parafuso da roda de uma diligência que não tinha concorrentes nessa linha, não era um caso simples, de apenas alguns minutos… Se ele tivesse tão adormecido em seu leito quanto nós estávamos em nosso carro, não iria ser fácil despertá-lo… De meu compartimento, eu ouvia, através da divisória, os roncos dos viajantes da parte inferior, mas nenhum dos viajantes da parte superior – os quais, como se sabe, têm a mania de sempre descer assim que a diligência pára, provavelmente (pois a vaidade se esconde em toda parte na França, mesmo na parte superior dos carros) para mostrar sua destreza em voltar a subir – tinha descido… É verdade que o hotel diante do qual nós tínhamos parado estava fechado. Nós não ceamos aí. Nós havíamos ceado na troca anterior de cavalos. O hotel, tal como nós, dormia. Nada aí denunciava a vida. Nenhum ruído perturbava o profundo silêncio… a não ser o golpe de uma vassoura, monótono e enfadonho, de alguém (homem ou mulher… não se sabia, a noite estava muito escura para que se pudesse perceber) que varria, então, o grande pátio desse hotel mudo, cujo portão permanecia habitualmente aberto. Esse golpe arrastado de vassoura, sobre o pavimento, também parecia dormir, ou, ao menos, parecia ter uma enorme vontade de dormir! A fachada do hotel estava escura como as outras casas da rua, nas quais não havia nenhuma luz a não ser numa única janela… essa janela que precisamente eu tenho carregado na minha memória e que tem estado sempre, ali, bem à frente!… A casa, na qual não se podia dizer que essa luz brilhava, pois ela estava suavizada por uma dupla cortina carmesim e cuja espessura ela misteriosamente atravessava, era uma casa grande que só tinha dois andares, mas o segundo andar era bem alto…

– É singular!, disse o Conde de Brassard, como se estivesse falando para si mesmo, dir-se-ia que é ainda a mesma cortina!

Voltei-me para ele, como se eu o pudesse ver em nosso escuro compartimento; mas a lâmpada, colocada sobre o assento do cocheiro, e que serve para iluminar os cavalos e a estrada, acabava de se apagar… Eu achava que ele dormia, mas não, e ele estava impressionado, como eu, pela atmosfera que cercava essa janela; mas, mais adiantado que eu, ele sabia, por que ele estava impressionado!

Ora, o tom com que ele se pôs a dizer isso – uma coisa de uma tal simplicidade! – era tão baixo na voz do dito Visconde de Brassard e me impressionou tão fortemente que eu quis satisfazer imediatamente a curiosidade de ver seu rosto, o que me fez riscar um fósforo como se eu quisesse acender meu charuto. A luz azulada do fósforo interrompeu a escuridão.

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Ele estava pálido, não como um morto… mas como a própria Morte.

Por que ele estava pálido?… Essa janela, de um aspecto tão particular, essa reflexão e essa palidez de um homem que, em geral, empalidecia tão pouco, pois ele era sanguíneo, e a emoção, quando ele estava emocionado, devia fazê-lo ruborizar até o crânio, o frêmito que senti correr nos músculos de seu forte bíceps, que se chocava, então, com meu braço, na intimidade do carro, tudo isso produzia o efeito de ocultar alguma coisa… que eu, caçador de histórias, poderia, talvez, vir a descobrir, se eu procedesse adequadamente.

– O senhor também viu, pois, essa janela, capitão, e o senhor a reconheceu?, disse-lhe eu com esse tom de indiferença que parece não esperar resposta e que constitui a hipocrisia da curiosidade.

– Por Deus!, como a reconheço!, disse ele, com seu tom normal de voz, ricamente timbrada e que enfatizava as palavras.

A calma já tinha retornado a esse dândi, o mais firme e o mais majestoso dos dândis, os quais – vocês o sabem! – desprezam toda emoção, considerando-a inferior, e não acreditam, tal como esse tolo do Goethe, que a surpresa possa representar, alguma vez, uma posição honrosa para o espírito humano.

– Não passo por aqui com freqüência, – continuou, então, muito tranqüilamente, o Visconde de Brassard, – e até mesmo evito de passar por aqui. Mas há coisas que não esquecemos. Não são muitas, mas elas existem. Conheço três delas: o primeiro uniforme que vestimos, a primeira batalha que travamos, e a primeira mulher que tivemos. Bem, para mim, essa janela é a quarta coisa que não posso esquecer.

Ele se deteve, baixou a vidraça que estava à frente dele… Era para ver melhor essa janela de que me falava?… O condutor tinha ido buscar a pessoa para consertar a carroça e não tinha voltado. Os cavalos de revezamento, imóveis em sua fadiga, estafados, ainda não desatrelados, a cabeça caindo sobre as pernas, nem sequer conseguiam golpear, com impaciência, o silencioso pavimento, sonhando com a cavalariça em que descansariam. Nossa diligência adormecida parecia um carro encantado, paralisado pelo condão das fadas, em um cruzamento de clareira, na floresta da Bela Adormecida.

– O fato é que, – disse eu, – que para um homem de imaginação, essa janela tem uma fisionomia.

– Não sei qual ela tem para o senhor, – replicou o Visconde de Brassard, – mas eu sei qual ela tem para mim. É a janela do quarto que foi meu primeiro quarto de meu período de guarnição. Eu morava lá… Diabos!, parece que foi agora, faz trinta e cinco anos!, por detrás dessa cortina… que parece não ter mudado nesses anos todos, e que eu vejo iluminada, absolutamente iluminada, como ela estava quando…

Ele se deteve outra vez, reprimindo seu pensamento; mas eu estava disposto a arrancá-lo.

– Isso se passou quando o senhor estudava sua tática, capitão, em suas primeiras vigílias de subtenente?

– O senhor me faz muita honra, respondeu ele. Eu era, é verdade, subtenente nessa época, mas as noites que eu passava então, eu não as passava estudando minha tática, e se eu matinha minha lâmpada acesa, a essas horas indevidas, como dizem as pessoas ordeiras, não era para ler o Marechal de Saxe.

– Mas, – disse eu, ligeiro como um golpe de raquete, – era, talvez, de qualquer forma, para imitá-lo? Ele me devolveu a bola.
– Oh, – disse ele, – não era nessa época que eu imitava o Marechal de Saxe, como parece ser sua

compreensão… Isso foi muito mais tarde. Nessa época, eu não passava de um modesto subtenente, bem aprumado em meu uniforme, mas muito desajeitado e muito tímido com as mulheres, embora elas nunca quisessem acreditar nisso, provavelmente por causa de minha grande estatura… nunca tirei, com elas, vantagem de minha timidez. De resto, eu não tinha mais que dezessete anos nessa maravilhosa época. Eu estava saindo da Escola Militar. Saía-se da Escola Militar no momento em que, atualmente, nela se entra, pois se

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o Imperador, esse terrível consumidor de homens, tivesse durado, ele teria acabado por ter soldados de doze anos, tal como os sultãos da Ásia têm odaliscas novas.

“Se ele se põe a falar do Imperador e das odaliscas, – pensei eu, – ficarei sem saber de nada.

– E, entretanto, Visconde, – retomei eu o fio da conversa, – eu apostaria que o senhor não teria tão presente a lembrança dessa janela, que se ilumina ali no alto, se não fosse porque havia, para o senhor, uma mulher por detrás da cortina!

– E o senhor ganharia a aposta, – disse ele gravemente.

– Ah, por Deus!, – continuei eu, – eu estava certíssimo disso! Para um homem como o senhor, em uma pequena cidade de província, pela qual o senhor não passou, talvez, dez vezes, desde sua primeira guarnição, só um cerco que o senhor possa ter sustentado ou alguma mulher que o senhor tenha conquistado, por uma tomada de assalto, poderia tornar-lhe sagrada, de uma forma tão viva, a janela de uma casa que o senhor vê hoje iluminada de uma certa maneira, na obscuridade!

– Não sustentei, entretanto, nenhum cerco… ao menos militarmente, – respondeu ele, sempre sério; mas ser sério era freqüentemente sua maneira de brincar, – e, por outro lado, quando a rendição se dá tão rapidamente, podemos chamar isso de cerco?… Mas quanto a conquistar uma mulher com ou sem tomada de assalto, eu lhe disse, eu era, nessa época, inteiramente incapaz disso.. Além disso, não foi uma mulher que foi conquistada aqui: fui eu!

Eu o saudei. Ele conseguiu perceber o meu gesto nesse compartimento sombrio?
– Tínhamos tomado Berg-op-Zoom, – disse-lhe eu.
– E os subtenentes de dezessete anos, – acrescentou ele, – não são, em geral, como Berg-op-Zoom, em

termos de sensatez e de continência inexpugnáveis!
– Assim, – digo eu alegremente, – uma senhora ou uma senhorita Putifar…
– Tratava-se de uma senhorita, – interrompeu ele, com uma bonomia um tanto cômica.
– A ser colocada na pilha de todas as outras, Capitão! Apenas que, aqui, o José era militar… um José

que não fugiu…
– Que, ao contrário, fugiu completamente, – continuou ele, com o maior sangue-frio, – embora

demasiadamente tarde e com um medo!!! Com um medo que me fez compreender a frase do Marechal Ney que escutei pessoalmente e que, vindo de um homem como ele, confesso, me aliviou um pouco: “Eu gostaria de saber qual o desgraç… (o marechal não terminou a palavra) que disse que jamais teve medo!…”

– Uma história na qual o senhor teve esse tipo de sensação deve ser merecidamente interessante, Capitão!

– Por Deus!, – disse ele, bruscamente, – posso perfeitamente, se o senhor está curioso, contar-lhe essa história, que foi um acontecimento, corrosivo sobre a minha vida como um ácido sobre o aço, e que marcou para sempre com uma mancha negra todos os meus prazeres de pessoa de vida desregrada! – acrescentou ele, com uma melancolia que me impressionou, nesse folgazão formidável que eu acreditava ser forrado de cobre como um brique grego.

E ele levantou a vidraça que ele havia baixado, seja porque ele temia que o som de sua voz ultrapassasse os limites de nosso compartimento e que se ouvisse, de fora, o que ele ia contar, embora não houvesse ninguém em volta desse carro, que continuava imóvel e como que abandonado; seja porque aquele regular golpe de vassoura, que ia e vinha, e que arranhava tão pesadamente o pavimento do grande pátio do hotel, parecia-lhe um acompanhamento inoportuno para sua história; – e eu o escutava, – atento unicamente à sua voz, – às mínimas nuances de sua voz, – uma vez que eu não podia ver seu rosto, nesse escuro e fechado

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compartimento, – e os olhos fixados mais que nunca nessa janela, na cortina carmesim, que brilhava ainda com a mesma e fascinante luz e sobre a qual ele ia me falar:

“Eu tinha então dezessete anos; e eu saía da Escola Militar, – retomou ele o curso da conversação. – Nomeado subtenente em um simples regimento de infantaria de linha, que esperava, com a impaciência que tínhamos nessa época, a ordem de partir para a Alemanha, onde o Imperador conduzia essa campanha que a história chamou de “A Campanha de 1813”, eu não tivera senão o tempo para ir cumprimentar meu pais no interior de sua província, antes de me reunir, na cidade onde agora estamos, ao batalhão de que eu fazia parte; pois essa minúscula cidade de, no máximo, alguns milhares de habitantes, não tinha, como guarnição, senão nossos dois primeiros batalhões… Os dois outros haviam sido distribuídos pelos povoados vizinhos. O senhor que, provavelmente, não fez mais do que passar por esta cidade onde estamos agora, quando o senhor voltava para o seu Oeste, o senhor não pode duvidar do que ela significa – ou ao menos do que ela significava há trinta anos – para quem é obrigado, como eu era então, a aí permanecer. Era certamente a pior guarnição, na qual o acaso – que eu creio ser sempre o diabo e, especificamente, nessa época, o ministro da guerra – podia me enviar para minha estréia. Deus do céu!, que monotonia! Não me lembro de ter tido, em qualquer outro lugar, desde então, uma estada tão enfadonha e tão aborrecida. Apenas que, com a idade que eu tinha, e com a primeira embriaguez pelo uniforme, – uma sensação que o senhor não conhece, mas que conhecem todos aqueles que o vestiram, – eu praticamente não sentia aquilo que, mais tarde, me iria parecer insuportável. No fundo, o que me causava essa morna cidade de província?… Eu a habitava, afinal, muito menos que meu uniforme, – uma obra-prima de Thomassin e Pied, que me extasiava! Esse uniforme, pelo qual eu era fascinado, funcionava como um filtro que embelezava, para mim, todas as coisas; e era – isso vai lhe parecer forte, mas é a pura verdade! – esse uniforme que era, literalmente, minha verdadeira guarnição! Quando eu me aborrecia demasiado nessa cidade sem movimento, sem interesse e sem vida, eu me colocava em uniforme de gala, – todos os adornos expostos, – e o enfado fugia diante de meu colarinho alto! Eu era como essas mulheres que não deixam de fazer sua maquilagem quando elas estão sozinhas e não estão esperando por ninguém. Eu me vestia… para mim. Eu me comprazia solitariamente com minhas dragonas e com o afiador de meu sabre, que brilhava ao sol, em alguma esquina de avenida deserta, onde, em torno das quatro horas, eu tinha o hábito de passear, sem procurar ninguém para ser feliz e, ali, eu inchava o peito, tanto que, mais tarde, no bulevar de Grand, ouvi dizerem, às minhas costas, quando eu dava o braço a alguma mulher: “É preciso concordar que vai ali uma altiva figura de oficial!”. Só havia, aliás, nessa pequena cidade muito pouco rica, e que não tinha nenhum comércio ou atividade de qualquer espécie, antigas famílias mais ou menos arruinadas, que mostravam indiferença pelo Imperador, uma vez que não se devia, como elas diziam, fazer concessões aos ladrões da Revolução, e que, por essa razão, celebravam muito pouco seus oficiais. Portanto, nem reuniões, nem bailes, nem saraus, nem diversões. No máximo, no domingo, um pobre fim de avenida, onde, depois da missa do meio-dia, quando fazia bom tempo, as mães iam passear e exibir suas filhas até às duas horas, – a hora das Vésperas, que, ao som da primeira badalada, fazia arrebanhar todas as saias e esvaziava essa infeliz avenida. Aliás, essa missa de meio-dia, na qual nós nunca íamos, eu a vi se transformar, sob a Restauração, em uma missa militar à qual o estado-maior dos regimentos era obrigado a assistir, e era, ao menos, um acontecimento vivo nessa terra de ninguém de guarnições mortas! Para rapazes que estavam, como nós, naquela época da vida em que o amor, a paixão pelas mulheres, ocupavam um lugar tão importante, essa missa militar era um consolo. Excetuando-se dois de nós que faziam parte do destacamento de serviço armado, todo o corpo de oficiais se dispersava e se colocava, como era de sua preferência, na nave da igreja. Quase sempre nós nos instalávamos atrás das mulheres mais bonitas que vinham a essa missa, onde elas estavam certas de que iriam

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ser vistas, e nós lhes dávamos o máximo de distração possível, ao falar, entre nós, à meia-voz, de maneira a podermos ser ouvidos por elas, sobre o que elas tinham de mais atraente em seu rosto ou em seu porte. Ah!, a missa militar. Eu vi começar aí muitos romances. Eu vi se insinuar nos regalos que essas jovens deixavam sobre os bancos, quando elas se ajoelhavam perto de suas mães, muitos bilhetes ternos, aos quais elas davam resposta, nos mesmos regalos, no domingo seguinte! Mas, sob o regime do Imperador, não havia nenhuma missa militar. Nenhum meio, conseqüentemente, de se aproximar das jovens, como seria preciso, nessa pequena cidade onde elas não passavam, para nós, de sonhos mais ou menos ocultos, sob véus, e vistas apenas de longe! Não havia nenhuma compensação para essa perda estéril da população mais interessante da cidade de ***. Não, não havia… As estalagens para caravanas, sobre as quais, como o senhor sabe, não se fala quando se está na companhia de pessoas decentes, eram horrorosas. Os cafés nos quais afogamos tantas nostalgias, nessas terríveis horas ociosas das guarnições, eram tais que era impossível ali colocar os pés, por menos que se respeitasse suas dragonas… Tampouco havia, nessa pequena cidade, na qual o luxo desenvolveu-se agora como em toda parte, um único hotel onde pudéssemos ter uma mesa de oficial razoável, sem sermos roubados como em um bosque, tanto assim que muitos de nós tínhamos renunciado à vida coletiva e se tinham dispersado pelas pensões particulares, na casa de burgueses pouco ricos, que lhes alugavam quartos pelo preço mais caro possível, e acrescentavam, assim, alguma coisa à penúria ordinária de suas mesas e à mediocridade de suas rendas.

“Eu era um desses. Um de meus camaradas que permanecia aqui, no Correio montado, no qual havia um quarto, pois o Correio montado ficava nesta rua, naquela época – veja só!, à distância de algumas portas atrás de nós, e talvez, se fosse dia, o senhor ainda veria, sobre a fachada desse Correio montado, a pintura de um velho sol dourado, destacando-se, pela metade, de seu fundo de alvaiade, e que parecia o mostrador de um relógio com sua inscrição: “Ao sol nascente!” – Um de meus camaradas tinha encontrado, para mim, um apartamento em sua vizinhança; – nessa janela que está colocada tão lá no alto, e que tem o efeito, nesta noite, de continuar parecendo ser a minha, como se fosse ontem! Deixei-me alojar por ele. Ele era mais velho que eu, estava há muito tempo no regimento, e ele gostava de me guiar nesses primeiros momentos e nesses primeiros detalhes de minha vida de oficial, em minha inexperiência, que era feita também de uma certa despreocupação! Eu lhe disse, excetuando-se a sensação do uniforme sobre o qual me apóio, uma vez que reside aí uma sensação sobre a qual a sua geração, congregada em torno da paz e dos falatórios filosóficos e humanitários não teria, tão cedo, a mínima idéia, e a esperança de ouvir ressoar o canhão na primeira batalha em que deveria perder (permita-me utilizar essa expressão soldadesca!) minha virgindade militar, para mim tanto fazia! Eu só vivia dessas idéias, – da segunda, sobretudo, uma vez que ela era uma esperança, e que se vive mais na vida quando não se tem senão a vida que se tem. Eu não amava para amanhã, como o avaro, e eu compreendia perfeitamente os devotos que se reúnem sobre esta terra como nos reunimos em um lugar perigoso no qual não temos que passar mais que uma noite. Nada se assemelha mais a um monge que um soldado, e eu era soldado! Era assim que me reunia com minha guarnição. Excetuando-se as horas de refeição que eu fazia com as pessoas que me alugavam o apartamento e sobre as quais eu lhe falava há pouco, e as horas do serviço e das manobras de todos os dias, eu vivia a maior parte de meu tempo em meu quarto, deitado sobre um enorme canapé de marroquim azul escuro, cujo frescor me causava o efeito de um banho frio após o exercício, e eu não me levantava a não ser para os exercícios militares e para algum jogo de cartas na casa de meu amigo que morava em frente: Louis de Meung, o qual era menos ocioso que eu, uma vez que ele tinha conseguido, dentre as garotas modestas da cidade, uma jovenzinha bastante divertida, que ele tinha adotado como amante, e que lhe servia, como ele dizia, para matar o tempo… Mas o que eu conhecia das

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mulheres não me estimulava muito a imitar meu amigo Louis. O que eu sabia disso tinha vulgarmente aprendido ali onde os alunos de Saint-Cyr aprendem nos dias de saída… E, depois, há temperamentos que despertam tardiamente… O senhor conheceu Saint-Rémy, o sujeito mais desregrado de toda uma cidade, célebre por seus sujeitos desregrados, que nós chamamos de “Minotauro”, não por causa dos chifres, embora ele os tivesse, uma vez que ele havia matado o amante de sua mulher, mas por causa das jovens que ele consumia?…”.

– Sim, eu o conheci, – respondi eu, – mas velho, incorrigível, se corrompendo cada vez mais, a cada ano que lhe caía sobre a cabeça. Por Deus!, como eu o conheci, esse grande corrompido de Saint-Rémy, como dizemos em Brantôme!

– Ele era, com efeito, um homem de Brantôme, – replicou o Visconde.

– Bem! Saint-Rémy, chegado aos vinte e sete anos, não tinha ainda tocado nem um copo nem uma saia. Ele mesmo lhe dirá, se o senhor desejar! Aos vinte e sete anos, ele era, em questão de mulheres, tão inocente quanto a criança que vem de nascer e que, embora não chupasse mais o seio de sua nutriz, não tinha, entretanto, bebido senão leite e água.

– Ele alegremente recuperou o tempo perdido!, disse eu.

– Sim, – disse o Visconde, – e eu também! Mas eu tive menos dificuldade em recuperar o tempo perdido! Quanto a mim, meu primeiro período de sensatez, não passou, praticamente, da época em que vivi nesta cidade de ***; e embora eu não tivesse a virgindade absoluta de que fala Saint-Rémy, eu vivia, entretanto, meu Deus!, como um verdadeiro cavalheiro de Malta, o que eu era, como era esperado desde o berço… O senhor sabia disso? Eu teria inclusive sucedido a um de meus tios em seu papel de comandante, se não fosse a Revolução que aboliu a Ordem, cuja faixa, ainda que abolida, foi-me permitida, algumas vezes, carregar. Uma fatuidade!

“Quanto aos anfitriões que me couberam, ao alugar seu apartamento, – continuou o Visconde de Brassard, – eles eram tudo o que o senhor puder imaginar de mais burguês. Eles eram apenas dois, o marido e a mulher, ambos idosos. Eles não tinham uma má atitude; pelo contrário. Em suas relações comigo, eles tinham inclusive essa polidez que não se encontra mais, sobretudo em sua classe, que é como que o perfume de um tempo desaparecido. Eu não estava na idade em que se observa por observar, e eles me interessavam muito pouco para que eu pensasse em penetrar no passado dessas duas velhas pessoas a cujas vidas eu me misturava da maneira mais superficial duas horas por dia, – ao meio-dia e à noite, – para o almoço e para a ceia com eles. Nada transpirava desse passado em suas conversas diante de mim, as quais tratavam, em geral, das coisas e das pessoas da cidade, que elas me davam a conhecer e das quais elas falavam, o marido com uma ponta de alegre maledicência, e a mulher, muito piedosa, com mais reserva, mas certamente com não menos prazer. Acredito, entretanto, ter ouvido o marido dizer que ele tinha viajado em sua juventude por causa de não sei quem e de não sei o quê, e que ele tinha voltado tarde para esposar sua mulher… que o tinha esperado. Eles eram, em suma, pessoas muito corajosas, de maneiras muito polidas e com vidas muito calmas. A mulher passava a vida a tricotar meias caneladas para seu marido, e o marido, amante da música, a arranhar seu violino com a música antiga de Viotti, em um quarto no sótão, acima do meu… Talvez eles tivessem sido mais ricos. Talvez alguma perda de fortuna que eles não queriam revelar os tenha forçado a admitir um inquilino em sua casa; mas, excetuando-se o fato de haver um inquilino, não se percebia nada disso. Tudo em sua residência respirava o conforto dessas casas dos tempos de outrora, abundantes em roupas brancas que cheiram bem, em prataria pesada, e cujos móveis pareciam imóveis, tão pouca era a preocupação em renová-los! Eu me sentia bem aí. A mesa era boa, e eu desfrutava amplamente da permissão de deixá-la desde que eu tivesse, como dizia a velha Olive que nos servia, “as barbas limpas”, o que constituía evidentemente uma honra, pois não se

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podia chamar de “barbas” aos três pelos de gato do bigode de um subtenente que não passava de um garoto que não tinha ainda acabado de crescer!

Eu estava, pois, ali, aproximadamente há um semestre, tão tranqüilo quanto meus hospedeiros, dos quais não ouvi nunca uma única palavra que dissesse respeito à existência da pessoa que eu iria encontrar na casa deles, quando um dia, ao descer para cear na hora costumeira, percebi, em um canto da sala de refeições uma pessoa alta que, de pé e na ponta dos pés, pendurava pelas faixas seu chapéu a um cabide que estava colocado bem no alto, como uma mulher que se sentia como se estivesse em sua casa e que tivesse acabado de regressar. Curvada exageradamente, como ela estava, para pendurar seu chapéu nesse cabide colocado muito no alto, ela exibia o corpo magnífico de uma dançarina que se inclina, e esse corpo estava preso (é a palavra certa, de tanto que ela estava enlaçada!) no corpete brilhante de um casaquinho de seda verde de pregas que caíam sobre seu vestido branco, um desses vestidos dos tempos de outrora, que se apertavam na altura dos quadris e que não tinham receio de mostrá-los, quando se os tinha… O braço ainda no ar, ela se voltou ao me ouvir entrar, e imprimiu à sua nuca uma torção que me fez ver seu rosto; mas ela realizou seu movimento como se eu não estivesse lá, olhou se ela não tinha amarrotado as fitas do chapéu aos suspendê-lo, e isso tudo feito lentamente, atentamente e quase impertinentemente, pois, afinal, eu estava ali, de pé, esperando, para cumprimentá-la, que ela me desse atenção. Ela me concedeu, enfim, a honra de me olhar com dois olhos negros, muito frios, aos quais seus cabelos, cortados à maneira de Titus e encaracolados sobre a fronte, davam uma espécie de profundidade que esse penteado dá ao olhar… Eu não sabia quem podia ser, a essa hora e nesse lugar. Não havia nunca ninguém para cear na casa de meus hospedeiros… Entretanto, ela vinha provavelmente para cear. A mesa estava posta, e havia quatro conjuntos de talheres… Mas minha surpresa em vê-la ali foi amplamente ultrapassada pela surpresa de saber quem ela era, quando eu o soube… quando meus dois hospedeiros, entrando na sala, apresentaram-na a mim como sendo sua filha que estava saindo do internato e que ia, a partir de agora, viver com eles.

Sua filha! Não havia mais ninguém tão impossível de ser filha de pessoas como aquelas como essa jovem que ali estava! Não que as mais belas jovens do mundo não possam nascer de todo tipo de pessoas. Eu conheci alguns desses casos… e o senhor também, não é verdade? Fisiologicamente, o ser mais feio pode produzir o ser mais belo. Mas ela!, entre ela e eles, havia o abismo de uma raça… Aliás, fisiologicamente, pois que eu me permito usar essa palavra pedante, que é da sua época e não da minha, não se podia destacá-la senão pelo jeito que ela tinha, e que era singular em uma jovem tão jovem quanto ela, pois era uma espécie de jeito impassível, muito difícil de caracterizar. Ela não era daquelas sobre as quais se podia dizer: “Eis aí uma jovem bela!” e tampouco se poderia pensar sobre ela como se pensa sobre todas essas jovens belas que encontramos por acaso; e às quais se dá esse qualificativo, para nunca mais se pensar, depois, nelas. Mas esse jeito… que a separava, não apenas de seus pais, mas de todos outros, dos quais ela não parecia ter nem as paixões, nem os sentimentos, esse jeito nos fazia calar… de surpresa, nos deixando imóveis… O “Infante com cães” [?], de Velasquez, poderia, se o senhor o conhece, lhe dar uma idéia desse jeito, que não era nem arrogante, nem desdenhoso, nem de desprezo, não!, mas apenas simplesmente impassivo, pois o jeito arrogante, desdenhoso, de desprezo, diz às pessoas que elas existem, pois quem tem esse jeito se dá ao trabalho de os desdenhar ou de os desprezar, enquanto que o jeito de que estou falando diz tranqüilamente: “Para mim, você nem sequer existe”. Admito que essa fisionomia me obrigou a fazer, nesse primeiro dia e em muitos outros, a pergunta que, para mim, é ainda hoje insolúvel: como essa jovem alta, que ali estava, tinha saído desse tipo atarracado, que se vestia com uma sobrecasaca de amarelo esverdeado e com um colete branco, que tinha uma aparência que era da cor dos doces de sua mulher, que tinha uma excrescência sobre a

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nuca, a qual sobressaía de sua gravata de musselina bordada, e que gaguejava?… E se o marido não desconcertava, pois o marido nunca desconcerta nesse tipo de questão, a mãe me parecia inteiramente impossível de explicar. A Senhorita Albertine (esse era o nome dessa arquiduquesa das alturas, caída do céu, indo parar na casa desses burgueses como se o céu tivesse querido zombar deles), a Senhorita Albertina, que seus pais chamavam de Alberte por uma questão de brevidade, mas que era um nome que combinava muito melhor com seu porte e com toda a sua pessoa, não parecia ser filha nem de um nem de outro… Nessa primeira ceia, como naquelas que se seguiriam, ela me pareceu uma jovem bem educada, sem afetação, habitualmente silenciosa, que, quando falava, dizia com palavras adequadas o que ela tinha a dizer, mas que não ultrapassava nunca essa linha… De resto, ela devia ter todo o espírito que eu ignorava que ela tinha, que ela não tinha quase tido a ocasião de mostrar nas ceias que fazíamos. A presença de sua filha tinha necessariamente modificado os mexericos dos dois velhos. Eles tinham suprimido os pequenos escândalos da cidade. Literalmente, não se falava mais, nessa mesa, senão de coisas tão interessantes quanto a chuva e o bom tempo. Além disso, a Senhorita Albertine ou Alberte, que tinha me impressionado tanto, inicialmente, por seu jeito impassível, não tendo absolutamente senão isso para me oferecer, logo me cansou com aquele seu jeito… Se eu a tivesse encontrado no mundo para o qual eu era feito, e no qual eu iria viver, essa impassibilidade teria com toda certeza me excitado vivamente… Mas, para mim, ela não era uma jovem à qual eu pudesse fazer a corte… nem mesmo com os olhos. Minha posição relativamente a ela, como inquilino que eu era de seus pais, era delicada, e um nada qualquer poderia dar errado… Ela não estava o suficientemente perto ou o suficientemente longe de mim, na vida, para que pudesse significar alguma coisa para mim… e eu logo respondi, naturalmente, à sua impassibilidade, e sem intenção alguma de qualquer tipo, com a mais completa indiferença.

E isso não foi nunca desmentido, nem de seu lado nem do meu. Não houve entre nós mais do que a polidez mais fria, a mais parca em palavras. Ela não era para mim senão uma imagem que eu mal via; e eu, para ela, o que eu era?… Uma mesa, – nós não nos encontrávamos a não ser ali, – ela olhava mais para a rolha da garrafa ou para o açucareiro que para minha pessoa… O que ela aí dizia, muito corretamente, sempre muito bem dito, mas insignificante, não me fornecia nenhuma chave do caráter que ela podia ter. E, depois, de resto, o que isso me importava?… Eu teria passado toda minha vida sem pensar apenas nessa calma e insolente jovem, com um jeito tão deslocado quanto o do Infante… Para isso, foi preciso a circunstância que vou lhe contar, e que me atingiu como um raio, como um raio sem ter havido trovoada!

Uma noite, fazia mais ou menos um mês que a Senhorita Alberte tinha voltado à casa e nós nos pusemos à mesa para cear. Ela estava sentada ao meu lado, e eu prestava tão pouca atenção a ela que eu não tinha ainda me dado conta desse detalhe de todos os dias que iria me impressionar: que ela estivesse à mesa ao meu lado em vez de estar entre sua mãe e seu pai, quando, no momento em que eu desdobrava meu guardanapo sobre meus joelhos… não, nunca poderei lhe dar a idéia dessa sensação e dessa surpresa!, senti que uma mão tomava atrevidamente a minha por debaixo da mesa. Pensei que estava sonhando… ou, antes, eu não pensava absolutamente nada… Não tive senão a incrível sensação dessa mão atrevida, que vinha buscar a minha até por debaixo de meu guardanapo! E isso foi tão inaudito quanto inesperado! Todo meu sangue, exaltado por esse ato, se jogou de meu coração para essa mão, como se extraído por ela, depois subiu furiosamente, como impelido por uma bomba, de volta, até meu coração! Vi tudo escuro… meus ouvidos zumbiam. Devo ter ficado de uma palidez pavorosa. Pensei que ia desmaiar… que ia me dissolver na indizível voluptuosidade causada pela carne espessa dessa mão, um pouco grande, forte como a de um jovem homem, que se tinha fechado sobre a minha. – E, como, o senhor sabe, nessa primeira idade da vida, a voluptuosidade

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tem seu pavor, eu fiz um movimento para retirar minha mão dessa insensata mão que a tinha prendido, mas que, apertando-a, então, com o crescimento do prazer que ela tinha consciência de me proporcionar, privava-a de autoridade, vencida como minha vontade, e no envolvimento mais caloroso, deliciosamente sufocado… Faz trinta e cinco anos que isso aconteceu, e o senhor me faria honra se acreditasse que minha mão se tornou um pouco indiferente ao estreitamento da mão das mulheres; mas tenho ainda ali, quando penso nisso, a impressão daquela mão que estreitava a minha com um despotismo tão insensatamente apaixonado! Tomado como presa dos milhares de frêmitos que essa envolvente mão lançava a todo o meu corpo, eu temia denunciar o que eu experimentava diante desse pai e dessa mãe, cuja filha, sob seus olhos, demonstrava essa ousadia… Envergonhado, entretanto, por ser menos homem do que essa atrevida jovem que se expunha a ser flagrada, e cujo incrível sangue-frio disfarçava o desvario, mordi meus lábios até sair sangue, em um esforço sobre-humano para deter o frêmito do desejo, que podia tudo revelar a essas pobres pessoas que de nada desconfiavam, e foi então que meus olhos procuraram a outra dessas duas mãos que eu não tinha notado e que, nesse perigoso momento, apertava friamente o botão de uma lâmpada que tinha acabado de ser posta sobre a mesa, pois o dia começava a ir embora… Eu a fitei… Era, pois, a irmã dessa mão que eu sentia penetrando a minha, como um foco de onde se irradiavam e se estendiam ao longo de minhas veias imensas ondas de fogo! Essa mão, um pouco espessa, mas de dedos longos e bem torneados, na ponta dos quais a luz da lâmpada, que caía a prumo sobre ela, iluminava transparências rosas, não tremia e fazia seu pequeno trabalho de arranjo da lâmpada, para fazê-la funcionar, com um movimento que era uma de firmeza, de uma facilidade e de uma graça incomparáveis! Entretanto, nós não podíamos continuar assim… Nós precisávamos de nossas mãos para cear… A da Senhorita Alberte deixou, pois, a minha; mas no momento em que deixou, seu pé, tão expressivo quanto a mão, se apoiou com a mesma ousadia, a mesma paixão, a mesma soberania, sobre meu pé, e aí ficou todo o tempo que durou essa ceia demasiadamente curta, a qual me deu a sensação de um desses banhos, de início insuportavelmente ferventes, mas aos quais nos acostumamos, e nos quais acabamos por nos sentir tão bem que acreditamos de bom grado que um dia os condenados às penas eternas poderiam se sentir tão bem nas brasas do inferno, como os peixes na água!… Deixo a seu cargo pensar se eu ceei nesse dia, e se eu me envolvi muito nos pequenos assuntos de meus honestos hospedeiros, que não desconfiavam, em sua placidez, do drama misterioso e terrível que se representava sob sua mesa. Eles não perceberam nada; mas eles poderiam ter percebido alguma coisa e, positivamente, eu me preocupava por eles… por eles, muito mais que por mim e por ela. Eu tinha a honestidade e a comiseração de meus dezessete anos… Eu me dizia: “É ela impudente? É ela insensata?”. E eu a olhava pelo canto do olho, essa insensata que não perdia uma única vez, durante a ceia, seu jeito de Princesa em cerimônia, e cujo rosto continuava tão calmo como se seu pé não tivesse dito e feito sobre o meu todas as loucuras que pode dizer e fazer um pé! Admito que eu estava ainda mais surpreso de sua ousadia que de sua insensatez. Eu tinha lido muito desses livros leves em que a mulher não é tratada com o devido respeito. Eu tinha recebido uma educação de escola militar. Utopicamente, ao menos, eu era o Lovelace de fatuidade que são mais ou menos todos os jovens que crêem serem belos rapazes e que colheram uma porção de beijos por detrás das portas e nos degraus das escadas, dos lábios das criadas de suas mães. Mas isso desconcertava minha pequena ousadia de Lovelace de dezessete anos. Isso me parecia mais forte do que aquilo que eu havia lido, do que tudo que eu tinha ouvido dizer sobre como a mentira era natural às mulheres, – sobre a força do disfarce que elas podem dar às suas mais violentas ou às suas mais profundas emoções. Pense, pois!, ela tinha dezoito anos! Será que os tinha mesmo? … Ela saíra de um internato do qual eu não tinha nenhuma razão para suspeitar, com a moralidade e a piedade da mãe que o tinha escolhido para sua filha. Essa ausência de qualquer constrangimento, digamos a palavra, essa falta absoluta de pudor, essa dominação

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segura de si mesma, ao fazer as coisas mais impudentes, as mais perigosas para uma jovem, na qual nenhum gesto, nenhum olhar havia prevenido o homem ao qual ela se entregava por uma ousadia tão enorme, tudo isso me subia à cabeça e aparecia claramente a meu espírito, apesar da agitação de minhas sensações… Mas nem nesse momento, nem mais tarde, me detive a filosofar ali, naquele quarto cuja janela estamos vendo agora. Não mostrei nenhum falso horror pela conduta dessa jovem de uma tão extraordinária precocidade no mal. De resto, não era na idade que eu tinha e nem mesmo muito mais tarde que considerávamos como depravada a mulher que – ao primeiro olhar – se entrega a nós. Estamos quase dispostos a achar isso, ao contrário, muito natural, e se dizemos “A pobre mulher!” é muito mais por decoro que por piedade. Enfim, se eu era tímido, eu não queria ser um idiota! A grande razão francesa para fazer sem remorso tudo o que há de pior. Eu sabia certamente, não há dúvida sobre isso, que o que essa jovem experimentava por mim não era o amor. O amor não procede com esse impudor e essa impudência , e eu sabia perfeitamente que, além disso, o ela me fazia experimentar não era o amor. Mas, amor ou não… seja o que fosse, eu o queria!… Quando me levantei da mesa, eu estava decidido… A mão dessa Alberte, na qual eu não pensara um minuto antes que ela tivesse pego a minha, me tinha deixado, até ao fundo de meu ser, com o desejo de me jogar todo inteiro a ela, por sua vez, também toda inteira, tal como sua mão estava enlaçada à minha mão!

“Subi até meu quarto como um louco, e quando consegui me acalmar um pouco pela reflexão, perguntei-me o que eu iria fazer para travar um belo namoro, como se diz na província, com uma jovem tão diabolicamente provocante. Eu sabia mais ou menos – como um homem que não procurou sabê-lo com certeza – que ela não deixava nunca sua mãe; – que ela trabalhava habitualmente perto dela, na mesma mesa de costura, situada no vão dessa sala de refeições, que lhes servia de sala de estar; – que ela não tinha nenhuma amiga na cidade que a viesse ver, e que ela não saía a não ser no domingo para ir à missa e às vésperas com seus pais. Tudo isso não era nada encorajador!… Eu começava a me arrepender de não ter vivido um pouco mais com essas duas pessoas que eu havia tratado sem altivez, mas com a polidez indiferente e às vezes distraída que se tem por aqueles que não têm, para nós, senão um interesse secundário na vida; mas eu disse a mim mesmo que eu não podia modificar minhas relações com eles, sem me expor a lhes revelar ou a lhes fazer suspeitar o que eu queria lhes esconder… Eu não tinha, para falar secretamente com a Senhorita Alberte, senão os encontros nos degraus da escada, quando eu subia para o meu quarto ou quando dele descia; mas, sobre os degraus da escada, nós podíamos nos ver e falar… O único recurso à minha disposição, nessa casa tão bem arrumada e tão estreita, na qual todo mundo se acotovelava, era escrever; e uma vez que a mão dessa jovem atrevida sabia tão bem buscar a minha sob a mesa, essa mão não faria, provavelmente, muitas cerimônias para apanhar o bilhete que eu lhe deixaria e que lhe escrevi. Foi o bilhete da circunstância, o bilhete suplicante, imperioso e arrebatado, de um homem que já havia bebido um primeiro gole de felicidade e que exigia um segundo… Só que, para remetê-lo, era preciso esperar a ceia do dia seguinte, e isso me parecia muito tempo; mas, enfim, essa ceia chegou! A provocante mão, cujo contato eu sentia sobre a minha mão há vinte e quatro horas, não deixou de voltar a buscar, sob a mesa, a minha, como no dia anterior. A Senhorita Alberte tateou meu bilhete e o pegou firmemente, como eu havia previsto. Mas o que eu não havia previsto é que com esse jeito de Infante que desafiava tudo por sua indiferente altivez, ela o meteu no centro de seu corpete, no qual ela levantou uma renda dobrada, com um pequeno e rápido movimento, e tudo isso com uma tal naturalidade e com uma tal presteza que sua mãe que, com os olhos postos no que fazia, que era servir a sopa, não percebeu nada, e que seu imbecil pai, que sempre entoava alguma coisa, pensando em seu violino, quando ele não o tocava, nada viu”.

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– Isso é muito comum nessa situação, Capitão! – interrompi eu, alegremente, porque me parecia que sua história estava se transformando muito rapidamente em uma indiscreta aventura de guarnição; mas eu não desconfiava do que ia se seguir! – Escute só! Há não muitos dias, havia na Ópera, em um camarote ao lado do meu, uma mulher provavelmente do gênero de sua Senhorita Alberte. Ela tinha mais de dezoito anos, por exemplo; mas eu lhe dou minha palavra de honra que raramente tenho visto uma mulher com mais decência. Durante toda a duração da peça, ela permaneceu sentada e imóvel como sobre uma base de granito. Ela não se voltou, uma única vez, nem para a direita nem para a esquerda; mas, provavelmente, ela via pelas costas, que ela as tinha bem à mostra e bem belas, um jovem que também estava no meu camarote e, conseqüentemente, atrás de nós dois, que parecia tão indiferente quanto ela a tudo que não fosse a ópera que se representava nesse momento. Eu posso certificar que esse jovem não fez um único dos sinais que os homens fazem às mulheres nos lugares públicos, e que podemos chamar de declarações a distância. Apenas quando a peça terminou e que, na espécie de tumulto geral dos camarotes que se esvaziam, a dama se levantou, em seu camarote, para apanhar seu casaco, eu a ouvi dizendo a seu marido, com a voz mais conjugalmente imperiosa e mais clara: “Henri!, pega meu capuz!”, e, então, por cima das costas de Henri, que se precipitou de pernas para o ar para cumprir sua ordem, ela estendeu o braço e a mão e apanhou um bilhete do jovem, tão simplesmente quanto se tivesse pego das mãos de seu marido seu leque ou seu buquê. Ele se tinha levantado, o pobre homem!, segurando o capuz – um capuz de cetim vermelho, mas menos vermelho que seu rosto, e que ele tinha encontrado do jeito que pôde, e sob o risco de sofrer uma apoplexia, sob os pequenos bancos… Meu Deus!, depois de ter visto isso, eu me fui, pensando que em vez de entregá-lo à sua mulher, ele poderia ter muito bem ficado com esse capuz, a fim de esconder, sob sua cabeça, aquilo que, de repente, aí acabava de nascer!

– Sua história é boa, – disse o Visconde de Brassard, muito friamente; – em um outro momento; talvez ele tenha tirado mais prazer dela; mas deixe-me terminar a minha. Admito que com uma jovem como essa, não me inquietei mais do que durante dois minutos com o destino de meu bilhete. Por mais que estivesse sempre pendurada à cintura de sua mãe, ela logo encontrou um meio de ler os meus bilhetes e de me responder. Eu contava mesmo, para todo um futuro de conversação por escrito, com esse pequeno correio sob a mesa que acabávamos de inaugurar, quando, no dia seguinte, ao entrar na sala de refeições com a certeza, muito alimentada no fundo de minha pessoa, de ter, no mesmo instante, uma resposta muito categórica ao meu bilhete da véspera, eu acreditei estar tendo visões ao ver que o jogo de talheres tinha sido mudado, e que a Senhorita Alberte estava colocada ali onde sempre deveria ter estado, entre seu pai e sua mãe… E por que essa mudança?… Que se tinha, pois, passado que eu não sabia?… O pai ou a mãe tinham desconfiado de alguma coisa? Eu tinha a Senhorita Alberte à minha frente, e eu a olhava com essa intenção fixa que quer ser compreendida. Havia vinte e cinco pontos de interrogação nos meus olhos; mas os seus estavam tão calmos, tão mudos, tão indiferentes quantos nos outros dias. Eles me olhavam como se não me vissem. Não vi nunca olhares mais perturbadores do que esses longos olhares tranqüilos que caem sobre nós como sobre uma coisa. Eu fervilhava de curiosidade, de contrariedade, de inquietude, de uma porção de sentimentos agitados e frustrados… e eu não compreendia como essa mulher, tão segura de si mesma que se podia acreditar que em vez de nervos, ela tinha sob sua fina pele quase tantos músculos quanto eu, – parecia não ousar fazer um sinal de compreensão que me advertisse, – que me fizesse pensar, – que dissesse, tão rapidamente quanto possível, que nós nos entendíamos, – que nós éramos coniventes e cúmplices no mesmo mistério, fosse ele o do amor ou não!… Era de se perguntar se era verdadeiramente a mesma mulher das mãos e dos pés sob a mesa, do bilhete apanhado e deslizado na véspera, tão naturalmente, em seu corpete, diante de seus pais, como se ela tivesse aí

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feito deslizar uma flor! Ela havia feito tanta coisa que não devia ficar constrangida em me enviar um olhar. Mas não! Não tive nada. A ceia se passou inteiramente sem esse olhar que eu espreitava, que eu esperava, que eu queria que refletisse o meu, e que não refletia! “Ela teria achado alguma coisa que me responder”, dizia-me eu, ao sair da mesa e ao subir para o meu quarto, não pensando que uma tal pessoa pudesse recuar, depois de ter tão incrivelmente avançado; – não admitindo que ela pudesse temer qualquer coisa e poupar qualquer coisa, quando se tratava de suas fantasias, e por Deus!, francamente, não podendo crer que ela não tivesse ao menos uma delas por mim!

“Se seus pais não suspeitavam, – dizia-me eu, – se foi o acaso que fez essa mudança de talheres à mesa, amanhã me encontrarei de novo perto dela… “Mas nem no dia seguinte, nem nos outros dias, eu fui colocado perto da Senhorita Alberte, que continuou a ter a mesma e incompreensível fisionomia e o mesmo e incrível tom desenvolto para dizer as insignificâncias e as coisas comuns que tínhamos o hábito de dizer nessa mesa de pequenos burgueses. O senhor pode perfeitamente adivinhar que eu a observava como um homem interessado. Ela não demonstrava, além disso, quase nenhuma contrariedade, enquanto eu ia até à cólera, – uma cólera que me partia em dois e que era preciso esconder. E esse jeito, que ela não perdia nunca, me colocava ainda mais longe dela que essa mesa interposta entre nós! Eu estava tão violentamente exasperado que acabaria por não mais temer comprometê-la ao olhar para ela, e ao apoiar sobre seus grandes e impenetráveis olhos, que permaneciam gelados, o peso ameaçador e inflamado dos meus! Essa sua conduta era um jogo? Era uma estratégia de sedução? Não passava de um capricho após o outro,… ou simplesmente estupidez? Conheci, mais tarde, sobre essas mulheres, inicialmente, uma elevação da razão, e então, depois, toda espécie de estupidez! “Se a gente soubesse o momento!”, dizia Ninon. O momento de Ninon tinha já passado? Entretanto, eu ainda esperava… o quê? uma palavra, um sinal, uma mínima e arriscada manobra, em voz baixa, ao me levantar da mesa sob o ruído das cadeiras que a gente desarranja, e como isso não vinha, eu meu atirei às idéias insensatas, a tudo o que havia no mundo de mais absurdo. Meti na cabeça que, com todas as impossibilidades que nos cercavam na casa, ela me escreveria pelo correio; – que ela seria suficiente hábil, quando ela saísse com sua mãe, para deixar cair um bilhete na caixa postal e, sob o domínio dessa idéia, eu roía, regularmente, as unhas, duas vezes ao dia, uma hora antes que o carteiro passasse pela casa… Nessa hora, eu dizia duas vezes à velha Olive, com uma voz abafada: “Há cartas para mim, Olive?” e ela sempre me respondia impertubavelmente: “Não, Senhor, não há”. Ah!, a impaciência acaba por ser demasiadamente aguda! O desejo iludido se transforma em ódio. Eu me pus a odiar essa Alberte, e, por causa do ódio produzido por esse desejo iludido, a explicar sua conduta comigo pelos motivos que mais me podia fazer-me desprezá-la, pois o ódio tem sede de desprezo! O desprezo é o néctar do ódio! “Vagabunda, que tem medo de uma carta!”, eu me dizia. O senhor vê, eu chegava a usar palavras grosseiras. Eu a insultava em meu pensamento, não pensando que, ao insultá-la, eu a caluniava. Eu me esforçava até mesmo em não mais pensar nela. Eu lhe dirigia os epítetos mais militares quando eu falava a Louis de Meung, pois eu falava sobre isso com ele!, pois o excesso à qual ela me havia lançado tinha apagado em mim toda espécie de cavalheirismo, – e eu tinha contado toda minha aventura ao meu bravo amigo Louis, que havia enrolado seu longo bigode loiro ao me escutar, e que me havia dito, sem se perturbar, pois nós não éramos moralistas no 27o Regimento:

“– Faz como eu! Uma paixão cura a outra. Adota por amante uma costureirinha da cidade, e não pensa mais nessa maldita jovem!”

“Mas não segui o conselho de Louis. Para isso, eu estava demasiadamente envolvido. Se houvesse a possibilidade de ela ficar sabendo que eu havia adotado uma amante, eu teria talvez adotado uma para lhe espicaçar o coração ou a vaidade por ciúme. Mas ela não o saberia. Como poderia ela sabê-lo?… Ao trazer, se

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eu o fizesse, uma amante para meu quarto, como Louis, em sua hospedaria do Correio, eu estaria rompendo com as boas pessoas na casa das quais eu morava, e que teriam imediatamente exigido que fosse procurar um outro alojamento; e eu não queria renunciar, se eu não pudesse ter senão isso, à possibilidade de reencontrar a mão ou o pé dessa maldita Alberte, que, depois do que ela havia ousado fazer, continuava ainda a ser a grande e impassível Senhorita.

“– Admite que se trata de uma coisa impossível” – dizia Louis, que me ridicularizava.

“Um mês inteiro se passou, e malgrado minhas resoluções a me mostrar tão distante e tão indiferente quanto ela, em colocar mármore contra mármore e frieza contra frieza, não vivi mais que a vida tensa da espreita, – da espreita que eu detesto, mesmo quando estou na caça! Sim, Senhor, isso não era mais que uma espreita perpétua nos meus dias! Espreita quando eu descia para cear e esperava encontrá-la sozinha na sala de refeições como da primeira vez! Espreita na ceia, na qual meu olhar alvejava de frente ou de lado o dela que ele encontrava inteira e infernalmente calmo e que não evitava o meu, mas também não lhe correspondia! Espreita depois da ceia, pois eu ficava um pouco ali, após a ceia, vendo essas damas retomar seus trabalhos, no vão em que faziam suas costuras e tricôs, prestando atenção se ela não deixaria cair alguma coisa, seu dedal, sua tesoura, um pedaço de pano, que eu pudesse juntar, e ao lhe devolver, tocar sua mão, – essa mão que eu tinha agora atravessada no cérebro! Espreita em meu quarto, quando eu subia para me recolher, e imaginando ainda ouvir ao longo do corredor esse pé que tinha tocado o meu, com uma vontade tão absoluta. Espreita até nos degraus da escada, nos quais eu acreditava poder reencontrá-la, e nos quais a velha Olive me surpreendeu um dia, para minha grande confusão, em posição de sentinela! Espreita em minha janela – essa janela que o senhor agora vê – na qual eu me colocava quando ela tinha que sair com sua mãe, e da qual eu não saía antes que ela tivesse voltado, mas tudo isso era tão vão quanto o resto! Quando ela saía, escondida em seu xale de jovem mulher, – um xale de listas vermelhas e brancas: eu não esqueci nada! tingido de flores negras e amarelas, ela não voltava seu torso insolente uma única vez, e quando ela voltava, sempre ao lado de sua mãe, ela não levantava nem a cabeça nem os olhos para a janela em que eu esperava! Esses eram os miseráveis exercícios aos quais eu me havia condenado! Certamente eu sei muito bem que as mulheres nos fazem mais ou menos servir-lhes de criado, mas a esse ponto! O velho orgulhoso que deveria estar morto em mim ainda se revolta! Ah!, eu não pensava mais na felicidade de meu uniforme! Quando eu tinha terminado o serviço do dia, – após o exercício da revista, – eu voltava ligeiro para casa, mas não mais para ler as pilhas de memórias ou de romances, minhas únicas leituras nessa época. Eu não ia mais à casa de meu amigo Louis de Meung. Eu não tocava mais em meus floretes de esgrima. Eu não tinha o recurso do fumo que entorpece as horas vazias quando elas nos devoram, e que vocês, que são mais jovens e que me seguiram na vida, têm! Nós não fumávamos no 27o Regimento, a não ser entre os soldados, no corpo de guarda, quando jogávamos carta sobre os tambores… Eu ficava, pois, com meu corpo na inatividade, a me roer… não sei se era o coração, sobre esse canapé que não fazia mais o bom frio que eu adorava nesses seis pés quadrados de quarto, onde eu me agitava como um leãozinho em sua jaula, quando ele sente carne fresca a seu lado.

“E se assim era o dia, ocorria a mesma coisa durante uma grande parte da noite. Eu ia me deitar tarde. Eu não dormia mais. Ela me fazia ficar acordado, essa infernal Alberte, que tinha me inflamado as veias e que tinha, depois, se afastado, como o incendiário que não volta nem mesmo a cabeça para ver o fogo inflamar-se por detrás dele! Eu baixava, tal como está lá, na noite de hoje”, – aqui o Visconde passou sua luva sobre a vidraça do carro que estava diante dele, para secar o vapor que começava a verter” – essa mesma cortina carmesim, nessa mesma janela, que tinha tantas persianas quanto as que tem agora, a fim de que os vizinhos, mais curiosos na província que em outros lugares, não vislumbrassem o fundo de meu quarto. Era um quarto

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daqueles que havia naquela época, – um quarto do Império, assoalhado à maneira húngara, sem tapete, no qual o bronze revestia, em toda parte, a madeira, começando pelas cabeças de esfinges nos quatro cantos da cama e pelas patas de leões nos quatro pés e terminando, em todas as gavetas da cômoda e da escrivaninha, por camafeus em forma de caras de leão, com anéis de cobre caindo de suas bocas esverdeadas, e que empunhávamos quando se queria abri-las. Uma mesa quadrada, de uma madeira mais rosada que o resto dos móveis, com um topo de mármore cinza, com fios de cobre, estava colocada à frente da cama, contra a parede, entre a janela e a porta de um grande quarto de banho; e, em frente à lareira, o grande canapé de marroquim azul do qual já lhe falei… Em todos os cantos desse quarto de uma grande altura e de um enorme espaço, havia cantoneiras de falso laque da China, e sobre uma delas via-se, misterioso e branco, no escuro do canto, um velho busto de Niobé, à maneira antiga, que era surpreendente que estivesse ali, na casa desses burgueses vulgares. Mas essa incompreensível Alberte, não era, ela, ainda mais surpreendente? As paredes, revestidas de lambril e pintadas a óleo, de um branco amarelado, não tinham nem quadros, nem gravuras. Eu tinha ali apenas minhas armas, acomodadas em grandes suportes de cobre dourado. Quando eu tinha alugado esse grande apartamento que se parecia com uma enorme cabaça, – como dizia elegantemente o Tenente Louis de Meung, que não costuma poetisar as coisas, – eu tinha colocado no meio uma grande mesa redonda que eu cobria de mapas militares, de livros e de papéis: era meu escritório. Eu aí escrevia quando eu tinha que escrever… Bem!, uma tarde, ou, antes, uma noite, eu tinha arrastado o canapé para junto dessa grande mesa, e eu desenhava sob a lâmpada, não para me distrair do único pensamento que me submergia há um mês, mas para me afundar ainda mais, pois era a cabeça dessa enigmática Alberte que eu desenhava, era o rosto desse demônio de mulher de que eu estava possuído, como os devotos dizem quando se trata do diabo. Era tarde. A rua, – na qual passavam, cada noite, duas diligências em direções inversas, – como hoje, – uma à meia noite e quinze e a outra às dez e meia da manhã, e que se detinham, as duas, no Hotel do Correio, para fazer o revezamento dos cavalos, – a rua estava silenciosa como o fundo de um poço. Dava para se ouvir uma mosca voando; mas se, por acaso, houvesse uma em meu quarto, ela devia dormir em algum canto de vidro ou em uma das dobras caneladas dessa cortina, de um espesso tecido de seda tramada, que eu tinha tirado de seu suporte e que caia sobre a janela, perpendicular e imóvel. O único ruído que havia em torno de mim, nesse profundo e completo silêncio, era eu que o fazia com meu lápis e meu esfuminho. Sim, era ela que eu desenhava, e Deus sabe com que toque de mão e com que preocupação inflamada! De repente, sem qualquer ruído de fechadura que pudesse ter me advertido, minha porta se entreabriu, produzindo esse som agudo das portas cujas dobradiças estão ressecadas, e permaneceu assim entreaberta, como se ela tivesse tido medo do som que havia emitido! Eu levantei os olhos, acreditando ter fechado mal essa porta que, por si mesma, inopinadamente, se abria, ao emitir esse som queixoso, capaz de fazer estremecer na noite aqueles que estão acordados e de acordar aqueles que dormem. Levantei-me de minha mesa para ir fechá-la; mas a porta entreaberta se abriu mais ainda e sempre muito suavemente, mas recomeçando o som agudo que se arrastava como um gemido na casa em silêncio, e eu vi, quando se abriu inteiramente, Alberte! – Alberte que, malgrado as precauções de um medo que devia ser imenso, não tinha sido capaz de impedir essa maldita porta de ranger!

“Ah!, meu Deus!, eles falam de visões, aqueles que nelas crêem; mas a visão mais sobrenatural não teria me dado a surpresa, a espécie de golpe no coração que eu senti e que se repetiu e palpitações insensatas, quando vi chegar até mim, – dessa porta aberta, – Alberte, assustada com o ruído que essa porta acabara de fazer ao se abrir, e que iria começar outra vez se ela a fechasse! Lembre-se o senhor que eu não tinha nem dezoito anos! Ela viu talvez meu terror diante do seu: ela reprimiu, por um gesto enérgico, o grito de surpresa que poderia me escapar, – que teria certamente me escapado sem esse gesto, – e ela fechou a porta, não mais

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lentamente, uma vez que essa lentidão a teria feito ranger, mas rapidamente, para evitar esse rangido das dobradiças, – que ela não evitou, e que recomeçou mais claramente, mais abertamente, de uma vez só e extremamente agudo; – e, a porta fechada e a orelha colocada contra a porta, ela escutava se um outro ruído, que poderia ser mais inquietante e mais terrível, não respondia a esse ruído aqui… Eu acreditei vê-la vacilar… Eu me joguei e a peguei imediatamente em meus braços.

– Mas ela se saiu bem, sua Alberte, – disse eu ao Capitão.

– O Senhor crê, talvez, – retomou ele a sua fala, como se ele não tivesse escutado minha brincalhona observação, que ela caíra, em meus braços, de terror, de paixão, de enlouquecimento, como uma jovem perseguida ou que se pode perseguir, – que não sabe mais o que faz quando ela faz a última das loucuras, quando ela se abandona – como se diz – a esse demônio que têm todas as mulheres, em toda parte, e que seria o Grão-Senhor sempre, se não houvesse outros dois nelas, – a Covardia e a Vergonha, – para contrariar aquele outro! Bem, não, não era isso! Se o Senhor acreditou que era isso, o Senhor se enganou… Ela não tinha nada desses medos vulgares e ousados… Não fui eu que a tomei em meus braços; foi, antes, ela que me tomou nos seus… Seu primeiro movimento tinha sido de jogar sua fronte contra meu peito, mas ela a ergueu e me olhou, os olhos bem abertos, – olhos imensos! – como para ver se era mesmo eu que ela tinha, assim, em seus braços! Ela estava horrivelmente pálida. Eu não a tinha nunca visto pálida!; mas seus traços de Princesa não tinham mudado. Eles tinham ainda a imobilidade e a firmeza de uma medalha. Só que sua boca, com os lábios ligeiramente inchados, divagavam por não sei qual devaneio, que não era o da paixão feliz ou que vai, de repente, se transformar em tal! E esse devaneio tinha alguma coisa de tão sombrio em um momento como aquele que, para não vê-lo, eu depositei sobre seus lábios encarnados e eréteis, o robusto e fulminante beijo do desejo triunfante e senhor de si! A boca se entreabriu… mas os olhos negros, de uma negrura profunda, e cujas longas pálpebras quase tocavam, naquele momento, minhas pálpebras, não se fecharam, – nem sequer palpitaram, – mas bem no fundo, como sobre sua boca, eu vi passar sua demência! Presa nesse beijo de fogo e como que arrebatada pelos lábios que penetravam os seus, aspirada pelo sopro que a respirava, eu a conduzi, ainda colada a mim, para o canapé de marroquim azul, – minha grelha de São Laurêncio, durante esse mês em que aí eu me debatia pensando nela, – e cujo marroquim se pôs voluptuosamente a estalar sob suas costas nuas, pois ela estava semi-nua. Ela saíra de seu leito e para vir até ao meu quarto, ela tinha… o senhor pode acreditar?, sido obrigada a atravessar o quarto em que seu pai e sua mãe dormiam! Ela o tinha atravessado tateando, as mãos à frente, para não se chocar com algum móvel que pudesse fazer ressoar seu choque e que poderia acordá-los.

– Ah!, – exclamei eu, – ela foi mais corajosa do que um soldado na trincheira. Ela era digna de ser a amante de um soldado!

– E ela o foi desde essa primeira noite, continuou o Visconde. – Ela o foi tão violenta quanto eu, e eu lhe juro que eu o fui! Mas não importa… essa foi a minha revanche! Nem ela nem eu pudemos esquecer, nos mais vivos de nossos arrebatamentos, a temível situação em que ela havia nos colocado, aos dois. No interior dessa felicidade que veio buscar e me oferecer, ela estava, então, como que estupefata pelo ato que realizava com uma vontade, entretanto, tão firme, com uma obstinação tão inarredável. Eu não me surpreendia com isso. Quanto a mim, eu estava bastante estupefato! Eu tinha certamente, sem dizer-lhe e sem demonstra-lhe, a mais terrível ansiedade no coração, enquanto ela me pressionava, ao ponto de me asfixiar, sobre o seu. Eu escutava, através de seus suspiros, através de seus beijos, através do aterrorizante silêncio que pesava sobre essa casa adormecida e confiante, uma coisa horrível: e se sua mãe se acordasse, se seu pai se levantasse! E até por cima de suas costas, eu verificava por detrás dela, se essa porta, da qual ela não tinha tirado a chave, pelo medo do

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ruído que poderia fazer, não iria se abrir novamente e me mostrar, pálidas e indignadas, essas duas cabeças de Medusa, esses dois velhos, que nós enganávamos com uma vileza tão ousada, surgir de repente na noite, imagens da hospitalidade violada e da Justiça! Até esses voluptuosos estalidos do marroquim azul, que tinham sido postos a soar pela Diana do Amor, me faziam tremer de medo… Meu coração batia contra o seu, que parecia me repercutir suas batidas… Era inebriante e frustrante, ao mesmo tempo, mas era terrível! Acostumei- me a tudo isso mais tarde. À força de renovar impunemente essa imprudência sem nome, tornei-me tranqüilo nessa imprudência. À força de viver nesse risco de ser surpreendido, eu me tornei indiferente. Eu não pensava mais no que fazia. Eu não pensava mais que em ser feliz. Desde aquela primeira e formidável noite, que devia ter o mesmo terror das outras, ela tinha decidido que ela viria até ao meu quarto de duas em duas noites, uma vez que eu não podia ir ao seu aposento, – seu quarto de jovem mulher não tendo outra saída senão aquela que dava para o apartamento de seus pais, – e ela vinha ao meu quarto regularmente a cada duas noites; mas ela nunca perdeu a sensação, – a surpresa da primeira vez! O tempo não produziu sobre ela o efeito que produziu sobre mim. Ela não se tornou indiferente ao perigo, que era afrontado a cada noite. Ela ainda continuava, até quando estava sobre meu coração, silenciosa, mal me falando com a voz, pois, de resto, o senhor pode perfeitamente adivinhar que ela era eloqüente; e quando, mais tarde, a calma me voltou, por causa do risco afrontado e do bom resultado, e quando eu lhe falei, como se fala à amante, daquilo que já tinha se passado entre nós, – dessa frieza inexplicável e desmentida, uma vez que eu a tinha em meus braços, e sobre o que tinha acontecido durante suas primeiras audácias; quando eu lhe dirigi, enfim, todos os insaciáveis porquês do amor, que não passam, no fundo, de curiosidade, ela não me respondeu nunca senão por longos abraços. Sua boca triste continuava inteiramente muda… exceto quanto aos beijos! Há mulheres que dizem: “Eu me perco por você”; há outras que lhe dizem: “Você vai certamente me desprezar”; e essas são maneiras diferentes de exprimir a fatalidade do amor. Mas ela, não! Ela não dizia uma palavra… Coisa estranha! Mais estranha ainda a pessoa! Ela me produzia o efeito de uma espessa e dura tampa de mármore que queimava, aquecida por baixo… Eu acreditava que chegaria um momento em que o mármore se fundiria, enfim, sob o calor ardente, mas o mármore não perdeu nunca sua rígida densidade. Nas noites em que ela vinha, ela nem demonstrava mais abandono, nem dizia mais palavras e, permito-me essa palavra eclesiástica, ela continuou tão indisposta a se confessar quanto na primeira noite em que ela veio. Eu não conseguia extrair nada dela… No máximo, extraía um monossílabo, de obsessão, desses belos lábios pelos quais eu estava tanto mais apaixonado por tê-los visto mais frios e mais indiferentes durante o dia e, além disso, um monossílabo que não lançava grandes luzes sobre a natureza dessa jovem, que me parecia mais esfinge, ela sozinha, que todas as Esfinges cujas imagens se multiplicavam em torno de mim, nesse apartamento do tempo do Império.

– Mas, Capitão, interrompi eu mais uma vez, – isso tudo teve, entretanto, um fim? O senhor é um homem forte, e todas as Esfinges são animais fabulosos. Não há outra coisa na vida, e o senhor certamente acabou por descobrir, que o diabo!, aquele que ela tinha em seu colo, essa sua amiguinha!

– Um fim! Sim, teve um fim, – disse o Visconde de Brassard, baixando bruscamente a vidraça do compartimento, como se tivesse faltado a respiração ao seu monumental peito e como se ele tivesse necessidade de ar para concluir aquilo que ele tinha a contar. – Mas o colo, como o senhor diz, dessa singular jovem não se tornou mais aberto por isso. Nosso amor, nossa relação, nosso caso, – chame-se isso como se queira, – nos deu, ou, melhor, deu a mim, sensações que eu não acredito que tenha jamais experimentado, desde então, com mulheres mais amadas que essa Alberte, que talvez não me amasse, que eu talvez não tenha amado!! Nunca compreendi bem o que eu tinha por ela e o que ela tinha por mim, e isso durou mais de seis meses! Durante esses seis meses, tudo o que eu compreendi foi que era um tipo de felicidade de que não se

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tem idéia na juventude. Compreendi a felicidade daqueles que se escondem. Compreendi o gozo do mistério na cumplicidade, que, mesmo sem a esperança de ser bem-sucedido, ainda assim produziria conspiradores incorrigíveis. Alberte, à mesa de seus pais, como por toda parte, era sempre a Madame Infante, que me tinha impressionado no primeiro dia em que a vi. Sua fronte neroniana, sob seus cabelos azuis de tão negros, que se encaracolavam todo e tocavam suas sobrancelhas, não deixavam transparecer nada da noite culpável, que não deixava em sua face nenhum traço de rubor. E eu, que tentava ser tão impenetrável quanto ela, mas que, estou certo disso, deveria me denunciar dez vezes se ficasse frente a observadores, eu me comprazia orgulhosa e quase sensualmente, no mais profundo de meu ser, com a idéia de que toda essa magnífica indiferença era certamente por minha causa e que ela tinha por mim todas as baixezas da paixão, caso a paixão possa, alguma vez, ser qualificada de baixa! Ninguém mais, além de nós, sobre a terra, sabia sobre aquilo… e era delicioso esse pensamento! Ninguém, nem mesmo meu amigo, Louis de Meung, com o qual me tornei discreto desde que me tornei feliz! Ele tinha tudo adivinhado, provavelmente, uma vez que ele era tão discreto quanto eu. Ele não me interrogava. Retomei, com ele, sem esforço, meus hábitos de intimidade, os passeios no pátio, vestidos de maneira formal ou informal, o jogo de cartas, a esgrima e a bebida! Por Deus!, quando sabemos que a felicidade virá, sob a forma de uma bela jovem que tem como que uma forte dor dentes no coração, nos visitar regularmente cada duas noites, à mesma hora, isso simplifica alegremente os dias!”.

– Mas eles dormiam, pois, como os Sete Dorminhocos, os pais dessa Alberte? – disse eu, gracejando, claramente interrompendo as reflexões do velho dândi com uma brincadeira, e para não parecer demasiadamente envolvido por sua história, que me envolvia, pois, com os dândis, não se conta senão com as brincadeiras para se dar um pouco de respeito.

– O Senhor acredita, pois que procuro causar efeitos de contador de casos, ao contar coisas fora da realidade? – disse o Visconde. – Mas eu não sou romancista! Algumas vezes, Alberte não vinha. A porta, cujas dobradiças lubrificadas estavam agora macias como o algodão, simplesmente não se abriu uma noite, e o que ocorreu foi que, então, sua mãe a havia ouvido e pôs-se a gritar, ou foi seu pai que a tinha percebido fugindo ou tateando através do quarto. Só que Alberte encontrava, a cada vez, com sua cabeça fria, um pretexto. Ela estava doente… Ela estava procurando pelo açucareiro sem levar uma vela, com medo de despertar alguém…

– Essas cabeças frias não são tão raras quando o senhor parece pensar, Capitão! – interrompi eu, uma vez mais. Eu estava a contrariá-lo. – Sua Alberte, afinal, não era mais forte que a jovem que recebia todas as noites, no quarto de sua avó, adormecida por detrás de suas cortinas, um amante que entrava pela janela e que, não tendo canapé de marroquim azul, se estabelecia, sem cerimônias, sobre o tapete… O Senhor sabe tão bem quanto eu a história. Uma tarde, aparentemente estimulado pela jovem demasiadamente feliz, um suspiro mais forte que os outros acordou a avó, que emitiu, de debaixo de suas cortinas um: “Que tens, minha pequena?”, que fez a jovem se desvanecer contra o coração de seu amante; mas ela não deixou, por sua vez, de responder: “É minha boca, vovó, que me dói, por procurar minha agulha que caiu sobre o tapete, e eu não consegui encontrá-la!”.

– Sim, conheço a história, continuou o Capitão de Brassard, que eu creio ter humilhado, por ter feito uma comparação com sua Alberte. – Era, se me recordo bem, uma jovem de sobrenome Guise, aquela sobre a qual o senhor fala. Ela se comportou como uma jovem digna de seu sobrenome; mas o senhor não diz que a partir dessa noite, ela não mais abriu a janela para seu amante, que era, creio, o Monsieur de Noirmoutier, enquanto que Alberte retornava no dia seguinte ao desses terríveis imprevistos, e se expunha, bela como sempre, ao temido risco, como se nada tivesse acontecido. Eu não passava, então, de um subtenente bem

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medíocre em matemática e dela me ocupava muito pouco; mas era evidente, para quem sabe o mínimo do cálculo das probabilidades, que um dia… uma noite… haverá um desenlace…

– Ah, sim! – disse eu, me lembrando das palavras que ele tinha dito antes de começar sua história, – o desenlace que deveria fazer com que o Senhor fosse conhecer a sensação do medo, Capitão.

– Precisamente, – respondeu ele, com um tom mais grave e que contrastava com o tom leve que eu afetava. – O senhor percebeu, não é mesmo?, desde minha mão agarrada sob a mesa até ao momento em que ela surgiu naquela primeira noite, como uma aparição na moldura de minha porta aberta, Alberte não me havia poupado a emoção. Ela me tinha feito passar na alma mais de um tipo de frêmito, mais de um tipo de terror; mas isso não tinha sido ainda senão a impressão das balas que silvam ao redor de nós e das balas de canhão cujo vento nós sentimos; nós estremecemos, mas nós vamos em frente. Bem, isso não aconteceu mais. O que ocorreu foi o medo, o medo completo, o verdadeiro medo, e não mais por Alberte, mas por mim, e unicamente por mim! O que eu experimentei foi positivamente essa sensação que deve tornar o coração ainda mais pálido que o rosto; foi desse pânico que faz um regimento inteiro pôr-se em fuga. Eu, que agora lhe falo, eu vi Chamboran fugir, a toda velocidade, o heróico Chamboran, levando, em seu amedrontado grupo, seu coronel e seus oficiais! Mas nessa época eu ainda não tinha visto nada, e eu conheci… aquilo que eu acreditava impossível.

“Escute, pois… Era uma noite. Com a vida que nós levávamos, não podia ser senão uma noite… uma longa noite de inverno. Não diria que era uma de nossas noites mais tranqüilas. Elas eram todas tranqüilas, nossas noites. Elas se tornaram tranqüilas por serem felizes. Nós dormíamos sobre esse canhão carregado. Nós não tínhamos a mínima preocupação, ao fazer amor sobre essa lâmina de sabre colocada através de um abismo, como a ponte do inferno dos turcos! Alberte tinha vindo mais cedo que de costume, para ficar por mais tempo. Quando ela vinha assim, minha primeira carícia, meu primeiro movimento de amor era por seus pés, seus pés que não calçavam, então, mais seus sapatinhos verdes ou de cor de hortênsia, esses dois feitiços e essas minhas duas delícias, e que, nus para não fazer ruído, me chegavam transidos de frio dos tijolos sobre os quais ela havia andado, ao longo do corredor que levava do quarto de seus pais ao meu quarto, situado no outro extremo da casa. Eu os aquecia, esses pés gelados por minha causa, que talvez pegassem, por mim, ao sair de uma cama quente, alguma horrível doença pulmonar… Eu sabia qual método utilizar para aquecer esses pés pálidos e frios e dar-lhes uma cor rosa ou vermelha; mas nessa noite meu método falhou… Minha boca foi impotente para fazer surgir no peito desse pé arqueado e fascinante a camada de sangue que, de um vermelho- papoula, eu freqüentemente adorava fazer surgir… Alberte, nessa noite, estava mais silenciosamente amorosa que nunca. Seus abraços tinham esse langor e essa força que eram para mim uma linguagem, e uma linguagem tão expressiva que, se eu ainda lhe falava, se eu ainda lhe contava todas as minhas demências e todos os meus êxtases, eu não lhe exigia mais que ela me respondesse e que me falasse. Mas seus abraços, a esses eu escutava. De repente, eu não a escutei mais. Seus braços pararam de me pressionar sobre o coração, e eu pensei que ela tivera um desses desmaios que ela freqüentemente tinha, embora em geral ela conservasse, em seus desvanecimentos, a força contraída do abraço… Não há pudores entre nós dois. Somos dois homens e podemos falar como dois homens… Eu tinha a experiência dos espasmos voluptuosos de Alberte, e quando eles a tomavam, eles não interrompiam minhas carícias. Eu continuava como eu estava, sobre seu coração, esperando que ela voltasse à vida consciente, e que o raio que a tinha atingido a ressuscitaria ao voltar a atingi- la.. Mas minha experiência se enganou. Eu a olhei como ela estava, unida a mim, sobre o canapé azul, esperando o momento em que seus olhos, desaparecidos sob suas longas pálpebras, me voltassem a mostrar suas belas órbitas de veludo negro e de fogo; no qual seus dentes, que se cerravam e rangiam ao ponto de

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partir o esmalte ao menor beijo aplicado bruscamente sobre seu pescoço e prolongado longamente sobre suas costas, deixavam, ao se abrir, passar seu hálito. Mas nem os olhos voltaram a se abrir, nem os dentes voltaram a descerrar-se… O frio dos pés de Alberte subiu até seus lábios e sob os meus… Quando senti esse horrível frio, levantei-me a meio corpo para melhor vê-la; eu me separei em sobressalto de seus braços, dos quais um deles caiu sobre ela e o outro pendia, do canapé sobre o qual ela estava deitada, sobre o chão. Apavorado, mas ainda lúcido, eu coloquei minha mão sobre seu coração… Não havia nada! nada nos pulsos, nada nas têmporas, nada nas artérias carótidas, nada em parte alguma… uma vez que a morte estava em toda parte, e já com sua terrível rigidez!

Eu estava certo de sua morte… e eu não queria acreditar nisso! A cabeça humana tem dessas vontades estúpidas contra a clareza mesma da evidência e do destino. Alberte estava morta. De quê?… Eu não sabia. Eu não era médico. Mas ela estava morta; e embora eu visse com a claridade do dia que qualquer coisa que eu fizesse era inútil, fiz, entretanto, tudo que me parecia tão desesperadamente inútil. Na falta absoluta de tudo, de conhecimentos, de instrumentos, de recursos, eu lhe esvaziei sobre a fronte todos os frascos de minha toalete. Eu lhe golpeei firmemente as mãos, correndo o risco de provocar ruídos, nessa casa em que o menor ruído nos fazia tremer. Eu tinha ouvido um de meus tios, chefe de esquadrão do 4o regimento de dragões, dizer que um dia ele tinha salvado um de seus amigos de uma apoplexia ao lhe sangrar imediatamente com um desses instrumentos que se utiliza para sangrar os cavalos. Eu tinha uma porção de armas em meu quarto. Eu massacrei esse braço esplêndido de onde o sangue nem sequer corria mais. Algumas gotas se coagularam. Ela estava rígida. Nem beijos, nem sucções, nem mordidas puderam galvanizar esse corpo rígido, que se transformara em cadáver sob meus lábios. Não sabendo mais o que fazer, acabei por me estender por cima dela, que era o meio que empregavam (diziam as velhas histórias) os Taumaturgos ressuscitadores, não esperando fazer com que a vida voltasse aí a se aquecer, mas fazendo como se eu o esperasse! E foi sobre esse corpo gelado que uma idéia, que não tinha se despregado do caos no qual a perturbadora morte súbita de Alberte me havia jogado, me apareceu claramente… e eu tive medo!

Oh!, … mas um medo… um medo imenso! Alberte morreu no meu quarto, e sua morte dizia tudo! Que iria ser de mim? Que seria preciso fazer?… Com esse pensamento, senti a mão, a mão física dessa pobre horrenda, em meus cabelos que tinham se transformado em agulhas! Minha coluna vertebral se fundira em uma gelatina gelada, e eu queria lutar – mas em vão – contra essa desonrada situação… Eu disse a mim mesmo que era preciso ter sangue-frio.. que eu era, afinal, um homem.. que eu era militar. Coloquei a cabeça entre as mãos e quando o cérebro me voltou ao crânio, me esforcei por raciocinar sobre a situação horrível em que eu tinha me colocado… e por deter, para fixá-las e examiná-las, todas as idéias que me fustigavam o cérebro como um pião cruel, e que iam, todas, a cada vez, se chocar com o cadáver que estava no meu quarto, com esse corpo inanimado de Alberte que não podia mais voltar a seu próprio quarto, e que sua mãe devia encontrar no dia seguinte no quarto do oficial, morta e desonrada! A idéia dessa mãe, cuja filha eu tinha talvez matado, ao desonrá-la, me pesava mais sobre o coração que o próprio cadáver de Alberte… Não se podia ocultar a morte; mas a desonra, experimentada pelo cadáver em meu quarto, não haveria um meio de ocultá-la? … Essa era a questão que eu me fazia, que eu contemplava, e que tomava as proporções de uma impossibilidade absoluta. Alucinação apavorante!, por alguns momentos o cadáver de Alberte me parecia preencher todo o meu quarto e não poder dali sair. Ah!, se o seu quarto não estivesse situado atrás do apartamento de seus pais, eu a teria, correndo todo o risco, levado de volta à sua cama! Mas poderia eu fazer, com seu corpo morto em meus braços, o que ela fazia, já tão imprudentemente, quando viva, e me aventurar, assim, a atravessar um quarto que eu não conhecia, no qual eu jamais havia entrado, e no qual repousavam adormecidos do sono leve dos velhos, o

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pai e a mãe da infeliz?… E, entretanto, o estado de minha cabeça era tal, o medo do dia de amanhã e desse cadáver que estava em meu quarto me perseguiam com tanta fúria que foi essa idéia, essa temeridade, essa loucura de levar Alberte de volta ao seu quarto que se apoderou de mim como o único meio de salvar a honra da pobre jovem e de me poupar a vergonha das reprovações do pai e da mãe, de me livrar, enfim, dessa ignomínia. O senhor acreditaria? Eu mal acredito em mim próprio, quando penso nisso! Eu tive a força de tomar o cadáver de Alberte e, levantando-o pelos braços, colocá-los sobre minhas costas. Horrível carga, mais pesada, convenhamos, que esses condenados, no inferno de Dante! Foi preciso carregá-la, como eu o fiz, essa carga de uma carne que me fazia ferver o sangue de desejo não havia mais de uma hora e que agora me fazia enregelar!… Seria preciso tê-la carregado para saber do que se tratava! Abri minha porta assim carregado e, pés descalços como ela, para fazer menos ruído, me enfiei pelo corredor que conduzia ao quarto de seus pais, e cuja porta estava no fundo, me detendo a cada passo, pouco seguro sobre minhas pernas desfalecidas, para escutar o silêncio da casa na noite, que eu não ouvia mais, por causa das batidas de meu coração! Isso durou por muito tempo. Nada se mexia… Um passo seguia um outro… Só que quando cheguei, apesar de tudo, à terrível porta do quarto de seus pais, – pela qual eu precisava passar e que ela não tinha, ao se dirigir ao meu quarto, fechado inteiramente para encontrá-la aberta ao retornar, e quando ouvi as duas respirações longas e tranqüilas desses dois pobres velhos que dormiam com toda a confiança de sua vida, eu não ousei ir adiante!… Não ousei mais ultrapassar esse limiar negro e escancarado nas trevas… Eu recuei; fugi com meu fardo! Voltei ao meu quarto cada vez mais apavorado. Voltei a colocar o corpo de Alberte sobre o canapé e recomecei, agachado sobre os joelhos, ao lado dela, a fazer as suplicantes perguntas: “Que fazer? Qual seria o futuro?…” Na ruína que se abria diante de mim, a idéia insensata e atroz de jogar o corpo da bela jovem, minha amante por seis meses!, pela janela, me percorreu o espírito. Despreze-me! Abri a janela… afastei a cortina que o Senhor está vendo ali… e olhei para o buraco negro ao fundo do qual estava a rua, pois estava muito escuro nessa noite. Não se via o pavimento. “Vão achar que foi um suicídio”, pensei eu, e eu voltei a pegar Alberte e a levantei… Mas eis que uma luz de bom senso atravessou minha loucura! “De onde teria ela se matado? De onde teria ela caído se ela for encontrada amanhã sob minha janela?…”, perguntava-me eu. A impossibilidade daquilo que eu queria fazer me fustigava! Eu ia voltar a fechar a janela cujo fecho rangia. Afastei a cortina da janela, mais morto que vivo por causa dos ruídos que eu fazia. De resto, pela janela, – sobre a escada, – no corredor, – por toda parte em que eu pudesse deixar ou jogar o cadáver, eternamente acusador, a profanação era inútil. O exame do cadáver revelaria tudo, e o olho de uma mãe, tão cruelmente advertida, veria tudo o que o médico ou o juiz desejaria lhe esconder… O que eu experimentava era insuportável, e a idéia de me matar com um tiro de pistola, no vil estado em que se encontrava minha desmoralizada alma (uma palavra do Imperador que mais tarde vim a compreender!), me atravessou a mente, ao ver reluzir minhas armas contra a parede de meu quarto. Mas o que queria o senhor?… Serei franco: eu tinha dezessete anos e eu amava… minha espada. Era por gosto e sentimento de raça que eu era soldado. Eu nunca tinha visto o fogo de uma arma e eu queria vê-lo. Eu tinha a ambição militar. No regimento nós ridicularizávamos Werther, um herói da época, que nos causava piedade, a nós, os outros oficiais! O pensamento que me impediu de me subtrair, ao me matar, ao ignóbil medo de que eu ainda estava tomado, me conduziu a um outro que me pareceu a própria salvação, no impasse em que eu me retorcia! “Se eu fosse procurar o Coronel?, disse-me eu. – O Coronel é a paternidade militar, – e eu me vesti como nos vestimos quando soa o toque de reunir, em uma situação de surpresa… Peguei minhas pistolas por uma precaução de soldado. Quem sabia o que poderia acontecer?… Abracei uma última vez, com o sentimento que se tem aos dezessete anos, – e somos sempre sentimentais aos dezessete anos, – a boca muda, e que sempre o tinha sido, dessa bela Alberte falecida, e que me satisfazia há seis meses com seus mais

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inebriantes favores… Desci sobre as pontas dos pés os degraus da escada dessa casa em que eu deixava a morte… Ofegando como um homem que se salva, gastei uma hora (essa era, ao menos, minha impressão!) a destravar a porta da rua e a girar a grande chave em sua enorme fechadura, e depois de tê-la voltado a fechar com a precaução de um ladrão, corri, como um desertor, para a casa de meu coronel.

Toquei a campainha como se estivéssemos numa batalha. Eu a fiz ressoar como uma trombeta, como se o inimigo estivesse no ato de raptar a bandeira do regimento! Eu investi contra tudo, até contra o ordenança que queria se opor a que eu entrasse, a tal hora, no quarto de seu senhor, e uma vez o coronel despertado pela tempestade do ruído que eu fazia, eu lhe contei tudo. Confessei-me de um fôlego só e profundamente, rápida e corajosamente, pois os minutos premiam, suplicando-lhe que me salvasse…

Era um homem esse coronel! Ele viu imediatamente o horrível abismo em que eu me debatia… Ele teve piedade do mais novo de seus meninos, como ele me chamava, e creio que eu estava, então, em um estado de dar dó! Ele me disse, com o palavrão mais francês, que era preciso começar por desaparecer imediatamente da cidade, e que ele se encarregaria de tudo… que ele veria os pais assim que eu partisse, mas que era preciso partir, tomar a diligência que iria fazer o revezamento dos cavalos em dez minutos no Hotel do Correio, chegar até uma cidade à qual ele me indicou e para a qual ele me escreveria… Ele me deu dinheiro, pois eu havia esquecido de apanhá-lo, me aplicou cordialmente sobre a face seus velhos bigodes grisalhos, e dez minutos depois dessa entrevista, eu subi (não havia senão este lugar vago) na parte superior da diligência, que fazia o mesmo serviço no qual estamos atualmente, e passei a galope sob a janela (o senhor pode adivinhar que olhares eu lhe lançava!) do fúnebre quarto em que eu tinha deixado Alberte morta, e que estava iluminada como ela está esta noite”.

O Visconde de Brassard se deteve, sua forte voz um pouco alquebrada. O silêncio não foi longo entre nós.

– E depois? – perguntei-lhe eu.

– Bem, aí é que está – respondeu ele, não houve um depois! É isso que há muito tempo atormenta minha curiosidade exasperada. Segui cegamente as instruções do coronel. Esperei com impaciência uma carta que me desse a conhecer o que ele havia feito e o que tinha acontecido após minha partida. Esperei por cerca de um mês; mas, ao fim desse mês, não foi uma carta que recebi do coronel, que não escrevia senão com seu sabre sobre a figura do inimigo; foi a ordem de mudança de regimento. Ele me ordenou que eu me reunisse ao 35o Regimento, que ia entrar em campanha, e que era preciso que, em vinte e quatro horas, eu chegasse ao novo regimento ao qual agora eu pertencia. As imensas distrações de uma campanha, e era a primeira!, as batalhas das quais eu fazia parte, as fadigas e também as aventuras com mulheres que se seguiram àquela que aconteceu aqui, me fizeram esquecer de escrever ao coronel, e me desviaram da lembrança cruel da história de Alberte, sem poder, entretanto, apagá-la. Eu a guardei como uma bala que não se pode extrair… Eu dizia a mi mesmo que um dia ou outro eu voltaria a encontrar o coronel, que me poria, enfim, ao corrente do que eu desejava saber, mas o coronel também tinha se matado um mês antes… É também desprezível, isso, – acrescentou o capitão, – mas tudo se adormece mesmo na alma mais robusta, e talvez justamente porque ela é a mais robusta… A curiosidade devoradora de saber o que se passou depois de minha partida acabou por me deixar tranqüilo. Eu poderia, passados tantos anos, e mudado como eu estava, ter voltado sem ser reconhecido, a esta pequena cidade e, ao menos, ter me informado sobre aquilo que se sabia, sobre o que havia transparecido de minha trágica aventura. Mas alguma coisa que não é certamente o respeito da opinião alheia, a qual eu ridicularizei toda minha vida, alguma coisa que se assemelhava a esse medo que eu não queria sentir uma segunda vez, sempre me impediu de fazer isso”.

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Ele se calou novamente, esse dândi que tinha me contado, sem o menor dandismo, uma história de uma realidade tão triste. Eu sonhava, sob a impressão dessa história, e eu compreendia que esse brilhante Visconde de Brassard, a flor não das ervilhas, mas das mais altivas papoulas vermelhas do dandismo, o grandioso bebedor de vinho, à maneira inglesa, estava como que transformado em um outro homem, um homem mais profundo do que aquele que ele aparentava ser. Voltou-me à mente a palavra que ele me havia dito, ao começar, sobre a mancha negra que, durante toda sua vida, tinha afligido seus prazeres de pessoa desregrada… quando, de repente, para me impressionar ainda mais, ele me tomou o braço bruscamente:

– Escuta!, – disse-me ele, olha para a cortina!
A sombra esbelta de uma cintura de mulher acabava de passar por ali, desenhando-se sobre a cortina. – A sombra de Alberte! – disse o Capitão. – O acaso está demasiadamente inclinado à zombaria esta

noite, acrescentou ele com amargor.
A cortina tinha já voltado a deixar transparecer apenas sua vidraça vazia, vermelha e iluminada. Mas o

consertador de carroças, que, enquanto o Visconde falava, fazia o seu trabalho, tinha terminado sua tarefa. Os cavalos de revezamento estavam prontos e batiam os pés com impaciência e faziam o pavimento faiscar. O condutor do carro, com seu boné de astracã sobre as orelhas, com o registro da viagem grudado aos dentes, tomou as rédeas e se levantou, e uma vez erguido sobre o banco da parte superior do carro, gritou, na noite, com sua voz clara, a palavra de ordem:

“A rodar!”.

E nós rodamos, e logo ultrapassamos a misteriosa janela, que ainda vejo nos meus sonhos, com sua cortina carmesim.

Trad. TT

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