Na gaiola. Henry James

1

Tinha-lhe passado pela cabeça, logo no começo, que, como uma pessoa jovem que levava uma vida de confinamento atrás de uma grade de arame, feito um porquinho da índia ou uma arara, ela conhecia muitíssimas pessoas sem que elas, por sua vez, a considerassem como conhecida. Isso tornava ainda mais viva – embora singularmente rara e sempre, mesmo assim, em uma situação ainda muito reprimida – a emoção de ver entrar qualquer pessoa que ela conhecia de fora da agência postal, como ela dizia, qualquer pessoa que pudesse acrescentar alguma coisa à aridez de sua função. Sua função consistia em ficar sentada lá com dois rapazes – um outro telegrafista, como ela, e o atendente de balcão; ficar atenta ao receptor telegráfico, que estava sempre soando, distribuir selos e encomendas postais, pesar cartas, responder perguntas idiotas, fazer trocos difíceis e, mais do que qualquer outra coisa, contar palavras tão inumeráveis quanto o número de grãos de areia do mar: as palavras dos telegramas que eram empurrados, de manhã à noite, pelo buraco que havia no gradeado superior, e que iam parar na prateleira abarrotada que fazia doer seu antebraço de tanto roçá-la.

Essa tela transparente dividia, deixando fora ou dentro, dependendo de que lado do estreito balcão se jogava a

sorte humana, o canto mais sombrio de uma sala saturada, quase sempre, no inverno, pelo veneno de um gás

perpétuo e, sempre, pela presença de presunto, queijo, peixe seco, sabão, verniz, parafina e outros sólidos e

fluidos que ela acabara por conhecer perfeitamente por seus respectivos cheiros, mas que ela se negava a

conhecê-los por seus nomes.

A barreira que separava a pequena agência postal – um misto de correio e telégrafo – da mercearia era

uma frágil estrutura feita de madeira e arame; mas a separação, social, profissional, era um golfo que o destino,

por um golpe bastante notável, tinha-lhe poupado da necessidade de contribuir expressamente, sob qualquer

forma, para diminuir. Quando os rapazes do Senhor Cocker saíam de trás do outro balcão para trocar uma nota

de cinco libras – e a situação do Senhor Cocker, que tinha como clientes a nata do “Guia da Corte” e os

habitantes dos mais cobiçados edifícios de apartamentos mobiliados (que tinham nomes tais como Simpkin’s,

Ladle’s, Thrupp’s), localizados logo ali, na próxima esquina, era tão especial que seu estabelecimento era

inteiramente perpassado pelo cristalino tilintar desses símbolos –, ela empurrava as libras de ouro como se o

cliente não fosse, para ela, mais do que uma das aparições momentâneas, praticamente indistinguíveis, da

grande procissão; e isso ocorria, além disso, como resultado do fato mesmo da conexão (que ela só reconhecia,

na verdade, quando estava do lado de fora) à qual ela se prestara com uma inconseqüência ridícula. Ela

reconhecia os outros ainda menos porque ela tinha reconhecido, finalmente, de uma forma extremamente

reservada, extremamente irredimível, o Senhor Mudge. Seja lá como fosse, ela estava um pouco envergonhada

de ter que admitir para si mesma que a promoção do Sr. Mudge para uma esfera mais alta – isto é, para uma

posição de maior autoridade, embora para um bairro de classe mais baixa – deveria ser caracterizada como um

privilégio e não como a simples solução para uma situação embaraçosa, que era como ela se contentava em

caracterizá-la. Ele tinha deixado, de qualquer maneira, de estar o dia todo diante de seus olhos, e isso fazia com

que eles tivessem algo novo com o qual pudessem ocupar o seu descanso dominical. Durante os três meses

dessa feliz permanência do Sr. Mudge no estabelecimento do Sr. Cocker, e que se seguiram ao consentimento

que ela dera ao noivado entre eles, ela tinha, muitas vezes, se perguntado o que o casamento poderia

acrescentar a uma familiaridade que parecia já ter sido totalmente esgotada. No lado oposto, por trás do balcão

do qual, com sua estatura superior, com seu avental mais branco, com seus crespos cabelos mais densos e mais

presentes, demasiadamente presentes, ele tinha sido, por uns bons dois anos, o principal ornamento, ele tinha,

ora se aproximado, ora se afastado dela, no diminuto e arenoso chão do futuro de seu noivado. Ela estava

consciente agora da vantagem de não ter que assumir seu presente e seu futuro de uma vez só. O máximo com

que ela podia lidar era considerá-lo de forma separada.

Ela tinha, entretanto, que pensar seriamente naquele assunto sobre o qual o Senhor Mudge tinha outra

vez lhe escrito, que consistia na idéia de ela se candidatar a uma transferência para um estabelecimento muito

parecido com este – ela não podia ainda ter expectativas de ser transferida para um estabelecimento maior –,

[3]

em que estivesse sob o mesmo teto em que ele era o chefe, de forma que, colocado diante dela a cada minuto

do dia, ele poderia vê-la, como dizia ele, “toda hora”, e em um bairro, o distante distrito N. W., no qual, com

sua mãe, ela economizaria, só com o aluguel de seus dois quartos, quase três xelins. Não era nada atraente

trocar Mayfair por Chalk Farm e essa questão a consumia tanto que ela não podia nem sequer iniciar uma

conversa. Entretanto, não a consumia tanto quanto a tinham consumido as preocupações dos primeiros tempos

de uma vida de grande miséria, não apenas a sua, mas também a de sua mãe e a de suas irmãs mais velhas.

Essas últimas tinham passado por toda espécie de sofrimento, exceto a fome total, quando, como mulheres

conscienciosas e incrédulas, subitamente enlutadas, traídas, destruídas, elas tinham entrado em uma crescente

decadência, da qual apenas ela tinha conseguido se recuperar. Não foi o que aconteceu com sua mãe. Essa

última tinha se limitado a se queixar e a resmungar, decaindo cada vez mais, não fazendo, a respeito de bebida,

palavrões e comportamentos inadequados, nenhum esforço de qualquer ordem – o que significava

simplesmente cheirar a uísque a maior parte do tempo.

[4]

2

Enquanto o contingente dos habitantes dos edifícios Ladle’s e Thrupp’s e de todos os outros bairros

importantes estavam no almoço ou, como os jovens funcionários costumavam vulgarmente dizer, enquanto os

animais estavam se alimentando, reinava uma grande calma no estabelecimento do Senhor Cocker. Ela tinha

quarenta minutos antes desse horário para ir para casa para fazer sua própria refeição. E quando ela voltava e

um dos rapazes assumia seu turno, havia freqüentemente uma meia hora durante a qual ela podia adiantar

algum trabalho ou ler um livro – um romance bastante seboso impresso em uma letra minúscula, tendo, em

geral, como tema central a vida de pessoas ricas e elegantes e que ela alugava pela quantia de meio xelim ao

dia. Essa pausa sagrada era uma das muitas maneiras pelas quais o estabelecimento ficava a par da moda e

entrava no ritmo da vida mais ampla. Tinha algo a ver, em um dia qualquer, com o brilho particular de um

cliente importante que chegava, de uma senhora cujas refeições eram aparentemente irregulares, embora essa

senhora estivesse destinada, como ela depois descobriu, a não ser esquecida por ela. Nossa jovem amiga

ostentava um ar blasée; nada podia se ajustar mais, como ela sabia perfeitamente, ao intenso caráter público

de sua profissão; mas ela tinha uma mente extravagante e um sangue-frio surpreendente; ela estava sujeita,

em suma, a lampejos repentinos de antipatia e de simpatia, que eram como que rubras cintilações em meio às

cinzentas e ordinárias necessidades que ela tinha que observar e com as quais ela tinha que se preocupar:

estranhos caprichos da curiosidade. Ela tinha uma amiga que tinha inventado uma nova profissão para as

mulheres – a de ir às casas das pessoas para cuidar de suas flores. A Senhorita Jordan tinha uma maneira

própria de expressar a natureza dessa nova profissão; “as flores”, em seus lábios, situavam-se em bairros

fantásticos, em lares felizes; elas eram tão comuns quanto o carvão destinado ao aquecimento ou os jornais

diários. Ela tomava conta dessas flores, de qualquer maneira, em todos os quartos, no mínimo, uma vez por

mês, e as pessoas logo descobriam o que significava transferir esse estranho dever dos bem-tratados pela vida

à viúva de um clérigo. A viúva, por sua vez, ampliando as oportunidades que lhe tinham, assim, sido

concedidas, tinha sido esplêndida em explicar à sua jovem amiga como ela tomava conta das casas maiores –

como ela sentia, especialmente, que quando ela preparava mesas para jantares, freqüentemente posta para

vinte pessoas, faltava apenas um estágio posterior para transformar toda sua posição social. Quando

perguntada, então, se ela se limitava a circular em uma espécie de solidão tropical, com os serventes

domésticos de grau superior no papel de nativos exóticos, e com ela tendo que aceitar esse olhar

condescendente para com suas limitações, ela tinha encontrado uma resposta à pergunta invejosa da garota.

“Você não tem nenhuma imaginação, minha querida!” – isso porque uma porta aberta um pouco mais que a

metade para uma vida em uma classe mais alta não podia ser chamada simplesmente de uma minúscula

abertura. A imaginação da Senhorita Jordan facilmente substituía a falta de imaginação alheia.

Nossa jovem amiga não tinha simplesmente assumido o seu cargo: ela lidava com ele com bom-humor,

porque ela sabia perfeitamente o que ele significava para ela. Era, ao mesmo tempo, uma de suas mais caras

queixas e um de seus consolos mais secretos o fato de que as pessoas não a compreendiam e,

conseqüentemente, era indiferente para ela o fato de que a Senhora Jordan não compreendesse, embora a

Senhora Jordan, tal como ela, descaída de seu estado inicial de nobreza e, também como ela, vítima de reveses,

fosse o único membro de seu círculo em que ela reconhecia uma igual. Ela estava perfeitamente consciente de

que era em sua vida imaginativa que ela gastava a maior parte de seu tempo; e ela estava pronta a afirmar, se

fosse preciso, que, uma vez que sua ocupação exterior não a matava, essa vida imaginativa devia ser realmente

forte. Combinações de flores e de coisas verdes, isso sim! Combinações de homens e mulheres, dizia para si,

isso é que era uma coisa com a qual ela podia lidar facilmente. Sua única fraqueza estava na abundância

forçada de seu contato com a horda humana; isso era tão constante, tinha um tal efeito em diminuir sua

felicidade, que havia longos períodos nos quais a inspiração, a intuição e o interesse desciam a níveis bastante

baixos. O importante eram os lampejos, o súbito renascer, todos eles simples acidentes: nada disso era coisa

para ser levada a sério ou para ir contra. Alguém tinha apenas que, às vezes, passar-lhe uma moeda para pagar

[5]

um selo e tudo nela mudava. Ela era de uma natureza tão estranha que esses eram literalmente os momentos

que compensavam – compensavam a prolongada rigidez de ficar lá sentada no setor de depósitos, compensava

a maliciosa hostilidade do Senhor Buckton e a importuna solidariedade do balconista, compensava a carta diária,

terrivelmente floreada, do Senhor Mudge, compensava até mesmo a mais aterradora de suas preocupações: a

raiva, em certos momentos, de não saber como sua mãe tinha adquirido seu vício.

Ela tinha se entregado, além disso, recentemente, a uma certa expansão de sua consciência; algo que

podia, talvez, ser simplesmente explicado pelo fato de que, à medida que a explosão da temporada de férias

soava cada vez mais alta, à medida que as flutuações se refletiam cada vez mais sobre o balcão, havia mais

impressões a serem colhidas e realmente – pois era isso o que importava – mais vida a ser vivida. Sim, não

havia dúvida, foi na época em que o mês de maio já ia bem adiantado que o tipo de companhia que ela

mantinha no estabelecimento do Senhor Cocker começou a aparecer-lhe como um motivo – que ela quase podia

apresentar para justificar sua decisão de adiar as coisas. Parecia uma coisa tola, obviamente, naquele momento,

alegar um tal motivo, especialmente na medida em que a fascinação que o lugar exercia sobre ela era, afinal,

uma espécie de tormento. Mas era um tormento em que ela se comprazia; era um tormento do qual ela sentiria

saudade em Chalk Farm. Era inteligente e nada ingênuo, portanto, da parte dela, deixar que a amplitude que

Londres lhe concedia durasse um pouco mais, distanciando-a, assim, da austeridade da vida que a esperava em

Chalk Farm. Em suma, embora ela ainda não tivesse tido a coragem de dizer ao Senhor Mudge que qualquer

oportunidade que ela tivesse para exercer sua imaginação, numa semana qualquer, valia os três xelins que ele

desejava ajudá-la a economizar, ela viu, ainda assim, acontecer algo ao longo do mês que, no mais íntimo de

seu coração, valia como uma resposta para a delicada questão de decidir se ela deixava ou não seu emprego

para ir viver em Chalk Farm com o Senhor Mudge. Esse acontecimento estava ligado, precisamente, à aparição

da memorável dama.

[6]

3

Ela empurrou três formulários garatujados que a mão da moça foi rápida em pegar, uma vez que o

Senhor Buckton demonstrava muito freqüentemente um perverso instinto para captar, antes que todos,

qualquer visitante que parecesse prometer o tipo de prazer pelo qual ela tinha particular predileção. As

diversões dos cativos estão plenas de uma desesperada inventividade, e um dos romances baratos lidos por

nossa jovem amiga tinha sido a cativante história de “Picciola”. Era a lei do lugar, naturalmente, que eles nunca

deviam prestar qualquer atenção particular, como dizia o Senhor Buckton, a quem eles estavam atendendo;

mas isso tampouco impedia que se praticasse, incluindo certamente o mencionado senhor, o que ele gostava de

descrever como o jogo da mão furtiva. Seus dois colegas, aliás, não faziam qualquer segredo do número de

favoritas que eles tinham entre as mulheres; apesar dessas doces familiaridades, ela tinha, repetidamente,

surpreendido cada um deles em equívocos e enganos, confusões de identidade e erros de observação que

nunca deixavam de lembrá-la como a esperteza dos homens acaba onde a das mulheres começa. “Marguerite,

Regent Street. Prova às seis. Todo em renda espanhola. Pérolas. Todo comprimento”. Aquele foi o primeiro; não

tinha assinatura alguma. “Senhora Agnes Orme, Hyde Park Place. Impossível jantar hoje Haddon. Ópera

amanhã, prometeu Fritz, mas podia tocar quarta. Trocaria Haddon pelo Savoy, e qualquer coisa no mundo que

você queira, se você puder conseguir Gussy. Domingo, Montenero. Visitar Mason segunda, terça. Marguerite

horrorosa. Cissy”. Esse foi o segundo. O terceiro, a garota notou, ao pegá-lo, que estava escrito em um

formulário estrangeiro: “Everard, Hotel Brighton, Paris. Só compreenda e acredite. De 22 a 26, e certamente 8 e

  1. Talvez outros. Venha. Mary”.

Mary era muito bonita, a mulher mais bonita, ela percebeu no mesmo momento, que ela jamais tinha

visto – ou talvez fosse apenas Cissy. Talvez fosse ambas, pois ela tinha visto coisas mais estranhas que aquela –

mulheres passando telegramas para diferentes pessoas sob diferentes nomes. Ela tinha visto todo tipo de coisas

e feito ligações entre todo tipo de mistérios. Houve uma, certa vez, fazia muito tempo, que, sem pestanejar,

enviou cinco telegramas sob cinco diferentes assinaturas. Talvez ela representasse cinco diferentes amigas que

lhe tinham pedido para passar os telegramas para elas, todas mulheres, exatamente como, talvez agora, Mary e

Cissy, ou uma ou outra delas, estavam telegrafando. Algumas vezes ela se envolvia muito naquilo; outras vezes

ela se envolvia muito pouco; e, em qualquer dos casos, tudo acabava rebatendo nela, pois ela tinha capacidade

extraordinária para guardar pistas. Quando ela notava, ela notava; não tinha outro jeito. Havia dias e dias, até

semanas às vezes, de ausência do balcão, a qual resultava, freqüentemente, dos demoníacos e bem-sucedidos

subterfúgios do Senhor Buckton para mantê-la junta ao receptor telegráfico sempre que parecesse surgir algo

que a divertisse. O receptor telegráfico, que estava, igualmente, sob a responsabilidade do Senhor Buckton, era

a cela mais interior do cativeiro, uma jaula dentro da jaula, separada do resto por um quadro de vidro espesso.

Ela poderia ter facilmente manipulado o ajudante de balcão; mas o ajudante de balcão estava realmente

reduzido à idiotia como efeito de sua paixão por ela. Ela, além disso, altaneiramente se auto-elogiava, por nunca

ter cedido a seus assédios, por causa da desconfortável visibilidade dessa paixão. O máximo que ela podia fazer

era encarregá-lo, sempre que podia, do registro de cartas, uma tarefa que ela particularmente odiava. Após

longos períodos de letargia, acabava sempre surgindo, subitamente, algo que continha um pungente e diferente

sabor; esse sabor estava na sua boca antes que ela soubesse; estava em sua boca neste exato momento.

Quanto a Cissy, quanto a Mary, não importa quem ela fosse, ela se dava conta de que sua curiosidade

saía num jato, numa muda efusão que refluía para ela, como uma maré alta: a cor viva e o esplendor da bela

cabeça, a luz dos olhos que pareciam refletir coisas que eram tão diferentes das medíocres coisas que estavam

realmente diante deles; e, sobretudo, a simples e nobre compreensão de que ela tinha um jeito de ser que,

mesmo nos maus momentos, demonstrava uma atitude extraordinária e que era da própria essência das

inumeráveis coisas – sua beleza, seu berço, seu pai e sua mãe, seus primos e todos os seus ancestrais – das

quais sua possuidora não poderia se livrar mesmo que ela quisesse. Como poderia nossa obscura e

insignificante funcionária pública saber que para a senhora dos telegramas esse era um mau momento? Como

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poderia ela adivinhar todo o tipo de coisas impossíveis, tais como, quase no exato momento em que

aconteciam, o desenrolar de um drama que estava em seu estágio crítico e a natureza do vínculo que essa

dama mantinha com o cavalheiro que estava no Hotel Brighton? Mais do que nunca, chegava até ela, através

das barras da jaula, que essa era, afinal, a grande realidade, a perturbadora verdade que ela tinha, até agora,

apenas vislumbrado e adivinhado: que essa era uma das criaturas, em suma, em quem todas as condições para

a felicidade realmente se reuniam, e que, na atmosfera que elas criavam, florescia com uma involuntária

insolência. O que ela acabou compreendendo foi a maneira pela qual essa insolência era atenuada por algo que

era igualmente parte daquela vida de distinção: o gesto de inclinar-se, tal como uma flor, em direção aos menos

afortunados – uma fragrância exalada, um único e rápido sopro, mas que, de fato, tudo penetrava e permanecia

no ar. A dama que fazia essa aparição era muito jovem, mas certamente casada, e nossa fatigada amiga tinha

um estoque suficiente de comparações mitológicas para poder reconhecer o porte de Juno. Marguerite podia ser

“horrorosa”, mas ela sabia como vestir uma deusa.

Pérolas e rendas espanholas – ela própria, certamente, podia imaginá-las, e também o “todo o

comprimento”, e também os laços de veludo vermelho, os quais, dispostos na renda, de uma maneira particular

(ela poderia tê-los colocado com um rápido movimento da mão) – eram, naturalmente, como em um retrato,

para adornar a frente de um vestido negro de brocado. Entretanto, nem Marguerite, nem Lady Agnes, nem

Haddon, nem Fritz, nem Gussy constituíam o motivo pelo qual a pessoa que portaria essa vestimenta tinha

vindo. Ela tinha vindo por Everard – e esse, sem dúvida, tampouco era seu verdadeiro nome. Se nossa jovem

amiga não tinha nunca, antes, chegado a tais conclusões, era simplesmente porque ela nunca tinha sido tão

afetada. Mas agora ela tinha chegado a uma conclusão definitiva. Mary e Cissy tinham estado rondando juntas,

na pele dessa única e esplêndida pessoa, para vê-lo – ele devia morar na próxima esquina. Elas tinham

descoberto que, em conseqüência de algum problema sobre o qual elas tinham vindo, precisamente, para fazer

as pazes ou para ter outra discussão a respeito, ele tinha ido embora. Ele tinha ido embora de propósito, para

fazer com que elas se comovessem. Como resultado, elas tinham vindo, juntas, ao estabelecimento do Senhor

Cocker, já que essa era a agência postal mais próxima, onde elas tinham entregado os três formulários

telegráficos, em parte para não entregar apenas um, justamente aquele que era o importante. Os outros dois

serviam para encobrir o que era importante, para abafá-lo, para dissimulá-lo. Oh, sim, ela tinha chegado a uma

conclusão definitiva, e isso constituía um exemplo de como ela freqüentemente agia. Ela reconheceria aquela

caligrafia, outra vez, em qualquer momento. Era uma caligrafia que tinha a mesma elegância e todas as outras

e mesmas qualidades de sua possuidora. A própria mulher tinha, ao saber de sua fuga, conseguido passar

desapercebida pelo criado de Everard e entrar em seu escritório; ela tinha escrito sua missiva na mesa dele e

utilizado sua própria pena. Tudo isso, em cada um de seus detalhes, estava no leve perfume que ela exalava e

que deixou, em sua passagem, um impacto que, como eu disse, permanecia no ar. E entre as coisas de que a

garota estava certa era de que ela, felizmente, voltaria a vê-la.

[8]

4

Ela a viu, de fato, e apenas dez dias mais tarde; mas desta vez ela não estava sozinha, e era

exatamente esse aspecto que constituía o que de sorte havia nisso. Não era sem uma certa consciência – como

poderia ela não tê-la, dado o que ela havia observado? – da gama de possibilidades que lhe estavam sendo

oferecidas que nossa jovem amiga tinha, desde então, desenvolvido, em sua mente, uma dúzia de teorias

conflitantes sobre quais seriam a aparência e a personalidade de Everard. Ela sentiu que o problema estava

resolvido no instante mesmo em que eles entraram na agência, atingindo-a com um golpe surdo que parecia,

de alguma forma, estar dirigido diretamente ao seu coração. Esse órgão começou, literalmente, a bater mais

forte com a aproximação do cavalheiro que estava, desta vez, com Cissy, e que, visto da gaiola, transformarase,

instantaneamente, na mais bela das belas aparências que sua mente tinha imaginado para o amigo de Fritz

e Gussy. Ele fazia uma bela figura, de fato, com seu cigarro nos lábios. Como sua costumeira e cadenciada fala

havia chamado a atenção de sua companhia, ele colocou sobre o balcão a meia dúzia de telegramas que lhes

tomaria, aos dois juntos, vários minutos para despachar. E, aqui, ocorreu, de uma maneira um tanto estranha,

que, enquanto um pouco antes, o interesse da garota na dama que o acompanhava tinha aguçado sua

sensibilidade para as mensagens que eram então transmitidas, a visão, sem nenhuma mediação, que ela teve

dele em pessoa, produziu o efeito, enquanto ela contava suas setenta palavras, de impedi-la que as

compreendesse. As palavras dele eram meros números, elas não lhe diziam absolutamente nada; e depois que

ele foi embora, ela não tinha em sua posse nenhum nome, nenhum endereço, nenhum significado, nada, a não

ser um som vago e doce e um grande impacto. Ele não tinha estado lá por mais do que cinco minutos, ele tinha

soltado a fumaça do cigarro em seu rosto e, ocupada com seus telegramas, com o lápis que golpeava o papel e

com a consciência do perigo, da odiosa traição que viria de um engano, ela não tinha tido nenhuma chance de

lançar seus olhares errantes nem de aplicar suas astuciosas artes. E mesmo assim ela o tinha notado; ela sabia

tudo; ela tinha se decidido.

Ele tinha voltado de Paris; tudo tinha sido rearranjado; o par estava, outra vez, lado a lado, em seu

supremo encontro com a vida, em seu imenso e complicado jogo. Nossa jovem amiga sentia que, enquanto eles

permaneciam na loja, o sutil e silencioso pulsar desse jogo estava no ar. Enquanto eles permaneciam? Eles

permaneciam o dia todo; a presença deles continuava e grudava nela, estava em tudo o que ela fazia até o cair

da noite, nas milhares de outras palavras que ela contava, que ela transmitia, em todos os selos que ela

separava e nas cartas que ela pesava e nos trocos que ela dava; ela estava, de forma igualmente inconsciente e

infalível, em cada um desses detalhes, e sem que ela, à medida que a agitação na pequena agência aumentava,

no período da tarde, levantasse os olhos para um só dos horríveis rostos que se sucediam diante do seu guichê,

sem que ela realmente ouvisse as estúpidas perguntas que ela, paciente e perfeitamente, respondia. Toda

paciência do mundo era possível agora, depois das perguntas dele, todas as outras eram estúpidas, depois do

rosto dele, todos os outros eram horríveis. Ela estava certa de que veria a dama outra vez; e agora, ela até a

veria, talvez, ela a veria, provavelmente, com freqüência. Mas quanto a ele, era totalmente diferente; ela nunca,

nunca mais, o veria. Ela queria tanto, tanto, vê-lo. Ela havia chegado à conclusão, com sua farta experiência, de

que havia uma espécie de desejo que contribuía para que ele se tornasse realidade; e havia um outro tipo de

desejo que era fatal. E, dessa vez, era do tipo fatal; tratava-se daquele tipo de desejo, ela o sabia, que impede

sua realização.

Bem, ela o viu logo no dia seguinte, e nessa segunda ocasião foi bem diferente; o sentido de cada sílaba

pela qual ele estava pagando era inteiramente distinto. Ela, na verdade, sentia o avanço de seu lápis,

esfregando, como se fosse uma leve carícia, as marcas que ele próprio havia deixado no formulário; ela punha

sua vida em cada movimento do lápis. Ele ficou lá por um bom tempo – ele não havia trazido seus formulários

já preenchidos, tendo que fazer isso em um canto do balcão. E havia, além disso, outras pessoas, um

aglomerado cambiante e exigente, e ela tinha que se preocupar com todos ao mesmo tempo e fazer,

[9]

interminavelmente, o troco certo e dar as informações necessárias. Mas ela conseguiu acompanhá-lo o tempo

todo; ela continuava tendo com ele, na sua imaginação, uma relação tão próxima quanto aquela que, por trás

do odioso e espesso vidro, o Senhor Buckton, alegremente, continuava tendo com o receptor telegráfico. Nesta

manhã tudo havia mudado, mas essa mudança ia mais na direção da monotonia; ela teve que aceitar a negação

de sua teoria sobre desejos fatais, o que ela fez sem problemas e, na verdade, com absoluta presteza.

Entretanto, se era agora flagrante que ele morava bem perto dali (no edifício Park Chambers) e pertencia, no

mais alto grau, à classe que telegrafava tudo, até mesmo seus custosos sentimentos (de uma forma tal que,

embora ele, evidentemente, nunca tivesse registrado isso, sua correspondência lhe custava, semanalmente,

libras e libras, e ele podia entrar e sair da loja cinco vezes por dia), havia, mesmo assim, na visão de futuro que

se abria diante dela, e em razão de seu claro excesso de luz, uma perversa melancolia, uma infelicidade

gratuita. Com isso, situo, ao mesmo tempo, todas essas coisas em uma ordem de sentimentos sobre a qual

devo comentar em seguida.

Nesse ínterim, por um mês, ele foi bastante constante. Cissy, Mary, não voltaram a aparecer com ele;

ele estava sempre só ou acompanhado apenas por algum cavalheiro que estava encantado com o brilho de sua

glória. Havia outro sentimento, entretanto – e, na verdade, havia mais do que um – no qual ela descobria-se,

sobretudo, incluindo a esplêndida criatura com a qual ela o tinha originalmente vinculado. Ele não se dirigia a

essa correspondente nem como Mary nem como Cissy; mas a garota estava certa a quem, em Eaton Square,

ele estava constantemente telegrafando – e tudo de uma maneira tão irreprovável! – sob o nome de Lady

Bradeen. Lady Bradeen era Cissy, Lady Bradeen era Mary, Lady Bradeen era a amiga de Fritz e de Gussy, a

cliente de Marguerite e a íntima aliada (era isso que ela era, só que a garota não tinha encontrado ainda um

termo que descrevesse perfeitamente essa idéia), em suma, do mais magnífico dos homens. Nada podia igualar

a freqüência e a variedade das comunicações que ele fazia à sua dama a não ser a extraordinária, a admirável

propriedade desses telegramas. Tratava-se apenas do tipo de conversa – tão profusa, às vezes, que ela se

perguntava o que sobrava para seus encontros reais – que era própria das pessoas mais felizes do mundo. Seus

encontros reais deviam ser constantes, pois a metade das mensagens era constituída apenas de sugestões e

alusões, todas flutuando em um mar de mais alusões ainda, enredadas em um complexo de questões que

traçavam uma maravilhosa imagem da vida que os dois levavam. Lady Bradeen era Juno, mas tudo o mais era

igualmente olímpico. Era em vão que a garota, não conhecendo as respostas, ou seja, as mensagens da divina

dama, desejava que o estabelecimento do Senhor Cocker fosse umas das agências que não apenas enviasse

mas também recebesse uma quantidade enorme de telegramas. Havia, mesmo assim, certas maneiras para

trazer o romance ainda mais para perto de si, em virtude da quantidade mesma de imaginação que ele exigia e

consumia. De qualquer maneira, ela sabia agora como esse novo amigo, que é como ela passou a denominá-lo,

passava seus dias e suas horas e, não importando o que mais ela pudesse saber, ela queria ir ainda mais além.

Na verdade, ela foi mesmo além; ela foi bem longe, suficientemente longe.

Mas ela não podia, entretanto, mesmo após um mês, distinguir se os cavalheiros que vinham com ele

eram os mesmos ou eram outros; e isso, a despeito do fato de que eles estavam sempre expedindo cartas e

passando telegramas, lançando a fumaça de seus cigarros no seu rosto, e assinando ou não assinando seus

telegramas. Os cavalheiros que vinham com ele não eram nada quando ele estava lá. Em outras ocasiões, eles

apareciam sozinhos e, então, ela podia situá-los minimamente. Era ele, quer estivesse presente, quer estivesse

ausente, que era tudo. Ele era muito alto, muito claro, e tinha, a despeito de suas graves preocupações, um

bom humor que era esplêndido, sobretudo porque era esse bom humor que, muitas vezes, fazia com que ele

permanecesse por mais tempo na agência. Ele poderia passar na frente de qualquer pessoa e qualquer uma

delas – não importa quem – o teria permitido; mas ele era de uma cortesia tão extraordinária que ele, muito

pacientemente, esperava na fila, nunca balançando coisas no ar na direção dela, fora de sua vez, nem dizendo

“aqui”, com uma estridência insuportável. Ele esperava pela vez de senhoras velhas, com suas insignificantes

mensagens, de estúpidos criados, dos constantes porteiros de libré do edifício Thrupp. E em tudo isso o que ela

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mais teria gostado de pôr à prova era a possibilidade de lhe dar uma identidade pessoal que pudesse ter, de

uma forma particular, um certo atrativo. Havia momentos nos quais ela realmente tinha a impressão de que ele

estava do seu lado, de que ele estava disposto a ajudá-la, a apoiá-la, a salvá-la.

Mas tão singular era a personalidade de nossa jovem amiga que ela conseguia fazer, para si própria,

com uma certa pontada de dor, a advertência de que quando as pessoas – pessoas dessa classe – tinham

modos assim tão educados era porque esses modos não faziam distinção. Esses modos eram iguais para todo

mundo, e poderia ser tristemente inútil para um alguém qualquer pretender ter alguma atenção particular e

ganhar algum destaque por parte desse tipo de pessoa. O que ele dava como coisa garantida era ter à

disposição todo tipo de conforto; e sua extrema simpatia, a maneira como ele reacendia os cigarros enquanto

esperava, as oportunidades que ele, de maneira natural, dava para os outros, os favores, os obséquios, tudo

isso fazia parte de sua magnífica segurança, do instinto que lhe dizia que não havia nada, numa existência como

a dele, que ele algum dia pudesse perder. Ele era, ao mesmo tempo, muito alegre e muito sério, muito jovem e

inteiramente maduro; mas, não importando como ele se mostrasse em um momento qualquer, tratava-se

sempre, tanto quanto tudo o resto, do simples florescimento de sua felicidade. Ele era, às vezes, Everard, como

ele tinha sido no Hotel Brighton, e ele era, às vezes, o Capitão Everard. Ele era, às vezes, Philip, com seu

sobrenome e, às vezes, Philip, sem ele. Em alguns círculos, ele era simplesmente Phil, em outros, ele era

simplesmente Capitão. Havia relações nas quais ele não era nenhuma dessas coisas, mas uma pessoa bem

diferente – “o Conde”. Havia vários amigos para os quais ele era Williams. Havia vários para os quais, em

alusão, talvez à sua aparência, ele era o “Rosado”. Uma vez, por sorte apenas uma vez, ele tinha, curiosamente,

milagrosamente, estado na agência, ao mesmo tempo que outra pessoa também próxima dela: “Mudge”. Sim,

seja lá o que ele fosse, isso fazia parte da felicidade dele – seja lá o que ele fosse e provavelmente o que ele

não fosse. E a felicidade dele fazia parte – foi uma coisa que foi acontecendo aos poucos – de algo que, quase a

partir do momento em que começou a trabalhar no estabelecimento do Senhor Cocker, ela trazia

profundamente consigo.

[11]

5

Essa era, nem mais nem menos, a estranha amplitude de sua experiência, a vida dupla que, na gaiola,

ela se acostumara, afinal, a levar. À medida que as semanas passavam, ali ela vivia, mais e mais, no mundo de

baforadas e de vislumbres, ali ela descobria que suas intuições agiam mais rapidamente e se ampliavam ainda

mais. À medida que a pressão crescia, formava-se uma visão prodigiosa, um panorama alimentado de fatos e

figuras, inundado por uma torrente de cor e acompanhado por um som maravilhoso que vinha do mundo

exterior. O resultado disso, nesse período, foi, principalmente, a formação de uma imagem de como Londres se

divertia. A constante observação de um tal cenário, feita por uma testemunha que não passava, realmente, de

uma testemunha, acabava, na maior parte das vezes, por resultar em um endurecimento do coração. O aroma

do buquê que era formado por esse espetáculo roçava o nariz dessa observadora, mas não estava, realmente,

ao seu alcance colher sequer uma simples margarida. A única coisa que conservava a aparência de novo em sua

rotina diária era a enorme disparidade, a diferença e o contraste que havia entre cada instante e cada

movimento das diferentes classes que passavam diante de seu guichê. Havia momentos nos quais todos os

telegramas do país pareciam ter origem naquele cubículo recortado por um buraco no qual ela batalhava por

ganhar a vida, e no qual, no arrastar dos pés, no farfalhar dos “formulários”, na confusão dos selos e no tilintar

dos trocos sobre o balcão, as pessoas que ela se habitou a recordar e a associar com outras e sobre as quais ela

tinha suas teorias e interpretações desfilavam, diante dela, sua longa procissão e sua constante rotatividade. O

que a atingia profundamente em seus órgãos vitais era a maneira pela qual os esbanjadoramente ricos

espalhavam em torno de si, numa extravagante tagarelice sobre seus extravagantes prazeres e pecados, uma

quantidade tal de dinheiro que poderia ter sustentado, por toda uma vida, o miserável lar de sua aterrorizante

infância, sua pobre e sofrida mãe e seu atormentado pai e seu desnorteado irmão e sua faminta irmã. Durante

suas primeiras semanas, ela tinha, muitas vezes, contido a respiração, diante das somas que as pessoas

estavam dispostas a pagar pelas palavras que elas transmitiam – os “muito amor”, os “horrorosos”

arrependimentos, os elogios e as manifestações de surpresa e os vãos e vagos gestos que custavam o preço de

um novo par de sapatos. Naquela época ela tinha adquirido o hábito de olhar, com interesse, os rostos das

pessoas, mas ela não demorou a aprender que se ela quisesse se tornar uma telegrafista, ela tinha que parar,

imediatamente, de mostrar qualquer interesse. Seu talento para distinguir diferentes tipos de pessoas chegava,

entretanto, ao nível da genialidade, e havia aquelas que ela gostava e aquelas que ela odiava. Seu sentimento

relativamente às últimas tinha se transformado em uma verdadeira obsessão, em um certo instinto para a

observação e para a dedução de detalhes sobre suas vidas. Havia as mulheres desavergonhadas, que era como

elas as chamava, tanto nos níveis sociais mais altos quanto nos mais baixos, cujo esbanjamento e cuja avidez,

cujas lutas e cujos segredos, casos amorosos e mentiras, ela acompanhava e retinha em sua memória, até

chegar ao ponto de ter, em alguns momentos, quando a sós, um triunfante e perverso sentimento de controle e

prazer, a sensação de carregar seus tolos e censuráveis segredinhos em seu bolso, em seu pequeno e fiel

cérebro, o que fazia com que ela soubesse muito mais sobre elas do que elas suspeitavam ou do que gostariam

de acreditar. Havia aquelas que ela gostaria de trair, de colocar em apuros, de humilhar com palavras irônicas e

definitivas, o que se devia a uma hostilidade pessoal provocada pelos mais sutis sinais, por detalhes no tom e na

atitude dessas pessoas, pelo tipo particular de relação que essas pessoas faziam questão de manter com ela e

que ela sempre acabava, instantaneamente, por perceber.

Havia impulsos de vários tipos, que se alternavam entre o suave e o severo, aos quais ela era, por

temperamento, inclinada e os quais eram determinados pelos menores acidentes. Ela era inflexível

relativamente à norma de fazer com que os próprios clientes colassem os seus selos, e encontrava, a esse

respeito, um prazer especial em se encarregar do atendimento de algumas das damas que se achavam

demasiadamente importantes para realizar essa tarefa. Ela se orgulhava, assim, de saber exercer um

refinamento e uma sutileza que eram maiores do que qualquer refinamento ou sutileza de que ela pudesse ser

o objeto; e embora as pessoas fossem, em sua grande maioria, demasiadamente estúpidas para se dar conta

[12]

disso, tratava-se de algo que lhe proporcionava um número incontável de pequenas compensações e vinganças.

Ela reconhecia, na mesma proporção, aquelas pessoas de seu sexo que ela teria gostado de ajudar, de

aconselhar, de resgatar, de ver mais vezes; e esse outro lado de seu temperamento também se punha em ação

pelo acaso da simpatia pessoal, por sua facilidade para ver as tramas de prata que se teciam e os raios de lua

que deixavam seu rastro e por seu talento para guardar na memória as pistas que ela percebia e encontrar,

assim, seu caminho no emaranhado da vida. As tramas de prata e os raios de lua apresentavam-lhe, em certos

momentos, a única imagem do pouco que ela poderia fazer para ser feliz. Por mais que toda essa visão se

tornasse, muitas vezes, inevitável ou misericordiosamente, confusa e vazia, ela podia, ainda assim, olhando por

entre fendas e gretas, se mostrar surpreendida, especialmente por algo que, a despeito de todas as atenuantes,

atingia o local mais doído de sua consciência: a revelação de que havia uma chuva de ouro flutuando no ar sem

que sobrasse sequer um fio dourado para ela própria. Nunca deixou de parecer-lhe uma coisa prodigiosa a

quantidade de dinheiro que seus refinados amigos finos eram capazes de gastar para obter ainda mais dinheiro

ou até mesmo para se queixar aos refinados amigos deles próprios sobre a necessidade por que passavam. Os

prazeres que eles propunham só se igualavam àqueles que eles recusavam, e eles, muitas vezes, gastavam

tanto para marcar seus compromissos sociais que ela se perguntava sobre a natureza desses deleites, quando

sua simples via de acesso estava pavimentada com tanto dinheiro. Ela se arrepiava, às vezes, só em pensar

nessa ou naquela pessoa que ela simplesmente gostaria de ter a chance de ser. Sua presunção, sua

desconcertante vaidade, eram possivelmente enormes; ela, certamente, se entregava, muitas vezes, à insolente

convicção de que ela seria capaz de fazer tudo isso muito melhor do que essas pessoas. Mas o seu maior

consolo estava, sobretudo, na visão comparativa que ela tinha dos homens; com isso estou me referindo

àqueles que eram, inconfundivelmente, verdadeiros cavalheiros, pois ela não tinha nenhum interesse nos

ilegítimos ou nos descuidados, nem a mínima misericórdia pelos que eram pobres. Quando estava do lado de

fora da jaula, ela podia dar uma moeda a alguém que aparentasse necessidade; mas sua imaginação, tão alerta

sob certos aspectos, não mostrava o menor sinal de reação diante de qualquer sinal de pobreza. Além disso, os

homens cujos passos ela acompanhava, ela o fazia, sobretudo, com respeito a uma única relação, aquela

relação, ela acreditava, que a vida na gaiola tinha lhe convencido, mais que do qualquer outra coisa, ser

certamente a mais bem difundida de todas.

Em suma, ela flagrava suas damas quase sempre em comunicação com seus cavalheiros, e seus

cavalheiros com suas damas, e ela era capaz de ler, na imensidão de suas interações, histórias e significados

sem fim. Incontestavelmente, ela se acostumara a pensar que os homens faziam o melhor papel; e, nesse

particular, como em muitos outros, ela chegou a uma filosofia própria, toda feita de observações e descrenças

pessoais. O que era mais surpreendente na sua atividade, por exemplo, é que eram muito mais as mulheres,

em geral, que estavam atrás dos homens do que o contrário. Era literalmente visível que a atitude geral de um

dos sexos constituía em ser o objeto que era perseguido e que estava na defensiva, do objeto que se

desculpava e que procurava atenuar as coisas. Por outro lado, a compreensão que lhe proporcionava a natureza

de seu próprio sexo ajudava-a a deduzir, com certo grau de exatidão, qual era a atitude do outro sexo. Talvez

ela própria tenha chegado a ceder um pouco ao costume de ser perseguida, ao, ocasionalmente, afrouxar seu

rigor, mas só em favor dos cavalheiros, quanto à questão da colagem dos selos. Em suma, ela tinha, bem

cedinho, naquele dia, decidido que eles tinham as melhores maneiras; e se ela não notava nenhum deles

quando o Capitão Everard estava lá, havia muitos que ela podia situar e traçar e nomear em outras ocasiões,

muitos que, por seu jeito de se mostrarem “simpáticos” para com ela e de lidar, como se seus bolsos fossem

caixas registradoras pessoais, com massas misturadas e soltas de prata e ouro, constituíam visões tão

agradáveis que ela os podia invejar sem nenhum traço de hostilidade. Eles nunca tinham que lhe dar troco –

eles só tinham que recebê-lo. Eles percorriam toda a gama, todos os níveis da fortuna, o que, evidentemente,

incluía, na verdade, uma grande quantidade tanto de má quanto de boa sorte, descendo até mesmo ao nível em

que se situava o Senhor Mudge e suas modestas mas seguras economias, e subindo, por arranques violentos e

[13]

vôos vertiginosos, quase até às proximidades daquilo que ela considerava como sendo o mais alto padrão.

Assim, de mês a mês, ela os acompanhava, a todos, através de mil altos e baixos e mil tormentos e

indiferenças. O que virtualmente acontecia era que, na horda mista que passava diante dela, a maior parte

simplesmente passava – apenas uma certa proporção, mas igualmente apreciável, permanecia. A maior parte

das pessoas passava direto, em ondas flutuantes, perdidas no mar sem fundo das pessoas pouco notáveis e, ao

fazê-lo, realmente deixavam uma página em branco. Na límpida superfície, portanto, aquilo que ela realmente

retinha, destacava-se de maneira nítida; era isso que ela prendia e agarrava, que ela revolvia e que entrelaçava.

[14]

6

Ela encontrava a Senhora Jordan quando podia, e por ela ficara sabendo, cada vez com mais detalhes,

que as pessoas importantes, depois de sentirem seu gentil aperto de mão e depois de terem se cansado de

comprar tudo o que precisavam nas lojas comuns, estavam se dando conta da vantagem de colocar nas mãos

de uma pessoa realmente refinada como ela aquela tarefa à qual os comerciantes dessas lojas davam o nome

vulgar de “decorações florais”. Esses comerciantes podiam ter sua utilidade; mas havia, por outro lado, uma

mágica especial no exercício do gosto de uma dama que apenas tinha que se lembrar, ainda que com algum

esforço, de todas as delicadas mesas que ela tinha posto na casa em que ela vivia com o vigário, de todos os

delicados potes e de todos os delicados jarros e de todos os outros delicados arranjos e também da maravilha

em que ela tinha transformado o jardim da casa paroquial. Esse pequeno domínio, que sua jovem amiga nunca

tinha visto, florescia no discurso da Senhora Jordan como um novo Éden, e ela convertia o passado em um

canteiro de violetas, a julgar pelo tom com o qual ela afirmava: “naturalmente, você sempre soube dessa minha

paixão!”. De qualquer forma, ela, obviamente, vinha, agora, ao encontro de uma grande e contemporânea

necessidade, que podia ser medida pela rapidez com que as pessoas estavam sentindo que podiam confiar nela

sem a mínima vacilação. Isso lhes dava uma tranqüilidade que, especialmente durante o quarto de hora que

precedia o jantar, tinha, para elas, um valor, que o reles pagamento que elas lhe tinham feito não poderia

jamais expressar. Um reles pagamento que era feito, entretanto, de maneira razoavelmente pontual; o contrato

que ela fazia era mensal, pois ela se encarregava de tudo. Devemos dizer, em respeito à nossa heroína, que

houve uma tarde na qual ela voltou à carga para tentar convencê-la a assumir, juntamente com ela, esse tipo

de atividade. “As encomendas não param de crescer, e vejo que tenho realmente que dividir o trabalho. Preciso

de uma sócia – mas de uma sócia que seja como eu, compreende? Você sabe a aparência que elas querem dar

aos arranjos florais – elas querem que eles pareçam ter vindo, não de uma florista, mas de uma pessoa de seu

próprio meio. Bem, estou convencida de que você pode dar essa aparência, porque você é desse tipo. Assim,

nós certamente venceremos. Portanto, só lhe peço que venha trabalhar comigo”.

“E deixar a agência postal?”

“Use a agência postal, a partir de agora, simplesmente para receber suas próprias cartas. Você receberá

muitíssimas, tenho certeza: encomendas, principalmente, e depois de um certo tempo, elas virão em profusão”.

Era daí que, no devido tempo, viria a grande vantagem: “Parece que passamos a viver de novo com as pessoas

de nossa classe”. Foi necessário que se passasse um certo tempo (ela haviam se separado, imersas na agitação

de seus problema para, depois, à pálida luz da aurora, finalmente, se verem novamente) até que cada uma

delas pudesse admitir que a outra era, em seu círculo privado, a única que podia ser considerada sua igual; mas

essa aceitação veio, quando veio, com um sincero lamento; e já que que a igualdade tinha sido nomeada, cada

uma delas via uma grande vantagem pessoal em exagerar a singular importância da outra. A Senhora Jordan

era dez anos mais velha que a outra, mas sua jovem amiga estava admirada com a pouca importância que isso

tinha agora: tinha tido importância, por outro lado, na época em que, mais como uma amiga de sua mãe do que

dela mesma, a enlutada senhora, sem um centavo de poupança e vivendo de trabalhos temporários, tal como

sua própria família, tinha pedido emprestado – através do sórdido espaço para o qual se abriam as portas

opostas das casas onde viviam essas duas infelizes senhoras e ao qual elas estavam fatalmente presas – carvão

e guarda-chuvas, que eram pagos com batatas e selos postais. Não tinha sido nenhuma vantagem, naquela

época, para mulheres que se afundavam, que se debatiam, que se matavam para sobreviver, que davam

braçadas para permanecer vivas, o fato de que elas fossem mulheres; mas isso podia ser uma vantagem, na

medida em que outras vantagens desapareciam, e tinha se tornado uma vantagem bastante grande, agora,

numa época em que o fato de serem mulheres era o único vestígio de vantagem que lhes restava. Elas tinham

visto com seus próprios olhos como essa vantagem ia tomando para si uma parte da substância de cada uma

das outras vantagens que iam desaparecendo. E era prodigioso que elas pudessem, agora, falar sobre isso entre

elas, que elas pudessem olhar retrospectivamente para isso, considerando o deserto de resignado aviltamento

[15]

pelo qual tinham passado e, sobretudo, que elas pudessem, juntas, cultivar um certo otimismo relativamente a

isso, um otimismo a que nenhuma delas poderia, separadamente, ter chegado. O que era realmente

impressionante era que a necessidade que elas sentiam de cultivar muito mais essa lenda, depois de terem

mergulhado seus pés e mantido seus estômagos na mais obscura profundidade, era muito maior do que a

necessidade que elas haviam sentido na atmosfera superior dos freqüentes sobressaltos. O que elas podiam

agora mais freqüentemente dizer uma à outra era que elas sabiam do que estavam falando; e o sentimento de

que, em geral, elas sabiam o que sabiam equivalia, praticamente, a uma promessa de não mais se separarem.

Neste momento, a Senhora Jordan estava bastante excitada sobre a questão da forma como, na prática

de sua bela arte, que era como ela a chamava, ela mais do que simplesmente observava a casa dos outros – ela

penetrava nelas. Não havia nenhuma dessas casas importantes – e se tratava naturalmente apenas desse tipo

de casa, verdadeiras casas de luxo – na qual ela não percorresse, dada a velocidade com que as pessoas

adquiriam agora coisas, todos os seus cantos. Diante dessa imagem, a garota sentiu, tal como ela sentia

quando estava na gaiola, o frio hálito dos deserdados da sorte; ela sabia, além disso, o quanto ela deixava que

isso transparecesse, pois a experiência de pobreza tinha começado muito cedo em sua vida, e sua ignorância

das exigências das casas de luxo tinha desenvolvido nela, juntamente com outros saberes que ela tinha, uma

profunda simplificação do que aí se passava. Como conseqüência, ela tinha se dado conta, no início, que, nessas

conversas, ela podia apenas fingir que compreendia. Educada muito rapidamente, como ela tinha sido, pelas

oportunidades que ela tivera nos estabelecimentos do Senhor Cocker, havia, ainda assim, estranhas lacunas em

sua aprendizagem – ela nunca teria sabido, tal como podia a Senhora Jordan, como se virar em uma única das

“casas”. Pouco a pouco, entretanto, ela tinha conseguido compensar essas lacunas, sobretudo ao observar de

que forma a recuperação da Senhora Jordan a tinha transformado materialmente, quase que outorgando-lhe,

embora os anos e as lutas não tivessem, obviamente, contribuído para corrigir qualquer de seus traços físicos,

um certo ar de distinção. Havia mulheres que entravam e saíam do estabelecimento do Senhor Cocker que eram

bastante simpáticas e que, apesar disso, não tinham boa aparência; enquanto que a Senhora Jordan tinha boa

aparência e, apesar disso, com seus dentes extraordinariamente protuberantes, não era, absolutamente,

simpática. Parecia que, de algum modo que não dava para entender, essa carência de simpatia vinha realmente

de toda a grandeza com a qual ela convivia. Era agradável vê-la falar tão freqüentemente da preparação de

ceias para vinte pessoas e de como ela as preparava, dizia ela, exatamente da maneira como ela queria. Ela

falava, aliás, como se fosse ela que fizesse os convites. “Eles simplesmente me fornecem a mesa – tudo o resto,

todos os outros efeitos, vêm depois”.

[16]

7

Então, você realmente os vê?”, a garota perguntou outra vez.

A Senhora Jordan hesitou e, na verdade, esse assunto tinha sido, antes, tratado de forma ambígua.

“Você quer dizer os convidados?”.

Sua jovem amiga, cautelosa quanto a uma exposição indevida de ingenuidade, não estava muito

segura. “Bem – as pessoas que vivem lá”.

“Lady Ventnor? A Senhorita Bubb? Lord Rye? Sim, querida. Claro, eles gostam das pessoas”.

“Mas as pessoas os conhecem pessoalmente?”, continuou nossa jovem amiga, já que essa era a forma

de se falar. “Quero dizer, socialmente, você sabe, como você me conhece?”.

“Eles não são tão simpáticos quanto você!”, retrucou, de forma encantadora, a Senhora Jordan. “Mas eu

verei, cada vez mais, um número maior deles”.

Ah, essa era a velha história. “Mas quando isso acontecerá?”.

“Bem, qualquer dia desses. Naturalmente”, a Senhora Jordan francamente acrescentou, “eles estão

quase sempre fora”.

“Então por que eles querem flores por todos os lugares da casa?”.

“Oh, isso não faz a menor diferença”. A Senhora Jordan não estava filosofando; ela só tinha,

evidentemente, decidido que não devia fazer a menor diferença. “Eles estão terrivelmente interessados em

minhas idéias, e é inevitável que eles me recebam em suas casas”.

Sua interlocutora podia ser bastante insistente. “O que você chama de suas idéias?”.

A resposta da Senhora Jordan foi refinada. “Se você me visse algum dia com mil tulipas, você

descobriria”.

“Mil?” – a garota ficara impressionada com a revelação da escala do empreendimento; ela se sentiu, por

um momento, um tanto fora de lugar. “Bem, não é verdade que eles, realmente, nunca a encontram

pessoalmente?”, insistiu, ainda assim, de forma pessimista.

“Nunca? Eles freqüentemente me encontram, sim – e evidentemente, de forma propositada. Nós temos

longas e importantes conversas”.

Havia algo em nossa jovem amiga que ainda a impedia de pedir à Senhora Jordan que fizesse uma

descrição pessoal dessas aparições, o que deixaria à mostra a ansiedade que ela tinha por saber mais. Mas

enquanto ela pensava, ela olhou, de cima abaixo, como se pela primeira vez, a viúva do pastor. A Senhora

Jordan não podia esconder a protuberância de seus dentes; em troca, suas mangas mostravam claramente sua

ascensão no mundo social. Mil tulipas a um xelim cada claramente fazia uma pessoa subir mais na escala social

mais que mil palavras a um centavo cada; e a noiva do Sr. Mudge, cuja percepção de que a vida era uma

competição era sempre aguda, deu por si perguntando-se, com uma pontada de sua exacerbada inveja, se

também para ela, não seria, afinal, melhor, isto é, melhor do que onde ela estava atualmente, ir por esse

caminho. No lugar onde ela atualmente estava, o cotovelo do Sr. Buckton podia atingir, à vontade, seu lado

direito e a respiração do ajudante de balcão – havia algo errado com seu nariz – podia penetrar em seu ouvido

esquerdo. Não era pouca coisa ter um emprego em um estabelecimento que trabalhava para o Governo, e ela

sabia muito bem que havia lugares ainda piores que a loja Cocker; mas não era preciso ter um gosto muito

refinado para poder comparar, desfavoravelmente, a imagem de servidão e promiscuidade que estava associada

com seu emprego, com a visão de liberdade que lhe era prometida pela proposta da Senhora Jordan. O aperto

na jaula era tão grande e sua margem de liberdade era tão pequena que ela precisava de muito mais astúcia do

que a que ela jamais poderia ter para ao menos fingir que ela podia ter com uma pessoa que ela conhecesse –

digamos, com a própria Senhora Jordan, que corria para a agência, como freqüentemente acontecia, para

passar um telegrama amigável para a Senhora Bubb – qualquer relação que se pudesse ser qualificada como

sendo de “elegante intimidade”. Ela se lembrava do dia em que a Senhora Jordan tinha, de fato, por uma

grande sorte, entrado na loja com cinqüenta e três palavras para Lord Rye e uma nota de cinco libras para

[17]

pagar pelo telegrama. Foi dessa forma dramática que elas tinham se reencontrado – o momento em que elas se

deram conta de que elas já se conheciam de outros tempos foi um grande evento! A garota podia, no início, vêla

apenas da cintura para cima e pouco compreendia do longo telegrama para Lord Rye. Foi uma daquelas

estranhas voltas que a vida dá que converteu a viúva do pastor em um membro daquela classe social que ia

além dos seis tostões.

O mais importante é que nada do que se passara naquela ocasião jamais se apagou de sua memória;

menos ainda o jeito com o qual, enquanto sua amiga, já recobrada, erguia sua cabeça, parando de contar as

palavras, a Senhora Jordan tinha simplesmente proclamado, à guisa de explicação, através dos dentes e através

das barras da gaiola: “Eu trabalho com flores, compreende?”. Nossa jovem amiga sempre tivera, com seu dedo

mínimo levemente curvado, um jeito gracioso de contar as palavras de um telegrama. E ela não tinha esquecido

a pequena e secreta vantagem – um sentimento exacerbado de triunfo, na verdade, é como se podia chamar o

que ela sentira – que ela tivera nesse momento, ao pensar na incoerência da mensagem de sua amiga, que

consistia numa ininteligível enumeração de números, cores, dias, horas, o que a fez sentir-se vingada. A

correspondência das pessoas que ela não conhecia era uma coisa; mas a correspondência das pessoas que ela

conhecia tinha um significado especial para ela, até mesmo quando ela não podia compreendê-la. O discurso

por meio do qual a Senhora Jordan tinha definido sua posição e anunciado sua nova profissão foi como o soar

de uma campainha. Mas no que lhe dizia respeito, a única idéia que ela tinha sobre flores era que as pessoas as

recebiam nos seus funerais e o único vestígio de brilho que ela, neste momento, via nas flores, era que os

lordes provavelmente eram os que as recebiam em maior quantidade. Quando, um minuto depois, ela

observou, através das barras da gaiola, o farfalhar da saia de sua visitante, ao sair, a visão que ela então teve

foi da cintura para baixo. E quando o ajudante de balcão, depois de uma olhada tipicamente masculina, dissera,

com uma intenção claramente perversa, “Mulher bonita!”, ela lhe dirigira a mais fria de suas frases: “Ela é a

viúva de um bispo”. Ela achava que nunca conseguia dar o tom exato ao falar com o ajudante de balcão, para

fazê-lo sentir qual era seu lugar, pois o que ela desejava era demonstrar-lhe o máximo de seu desprezo, mas

esse era um elemento de seu temperamento que não estava bem definido. A expressão “um bispo” era a

expressão exata para fazê-lo sentir qual era seu lugar, mas as insinuações do ajudante de balcão eram

realmente odiosas. Na noite que se seguiu a esse episódio, quando, tendo todo o tempo do mundo, a Senhora

Jordan mencionou as longas e importantes conversas que tinha com seus clientes, a garota trouxe, finalmente,

o assunto à baila: “Eu os verei, quero dizer, se eu decidisse deixar tudo para trabalhar com você?”

Ao ouvir isso, a Senhora Jordan retrucou, não sem uma certa malícia: “Eu a encarregaria de atender

todos os solteiros!”.

Uma observação desse tipo podia lembrar à jovem telegrafista que ela, em geral, impressionava sua

amiga por sua beleza. “ Eles têm suas flores?”.

“Milhares. E elas são das mais especiais”. Ah, tratava-se de um mundo maravilhoso! “Você deveria ver

as de Lord Rye!”.

“Suas flores?” “Sim, e suas cartas. Ele me escreve páginas e páginas – com os mais adoráveis desenhos

e esboços. Você deveria ver seus diagramas!”.

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8

A garota tivera, no devido tempo, a oportunidade de inspecionar esses documentos, e eles a tinham

desapontado um pouco. Mas nesse ínterim, elas tiveram outras conversas, numa das quais, incerta sobre a

garantia que a Senhora Jordan lhe dava de que ela poderia ter, se mudasse de trabalho, uma vida de elegância,

ela fora levada a dizer à sua amiga: “Bem, eu vejo cada um deles no meu local de trabalho”.

“Cada um?”.

“Uma porção de pessoas importantes. Elas vêm aos bandos. Elas moram todas ali perto, compreende? E

o lugar se enche de todas as pessoas inteligentes, todas as pessoas brilhantes, aquelas cujos nomes estão nos

jornais – mamãe ainda assina o Morning Post – e que vêm para o verão.

A Senhora Jordan, inteligentemente, aceitou a afirmação da jovem. “Sim, e ouso dizer que são alguns

desses seus mesmos clientes que eu atendo”.

Sua companheira consentiu, mas fez uma distinção. “Duvido que você os atenda do mesmo jeito que

eu! Seus problemas, seus compromissos e arranjos, seus pequenos jogos e segredos e vícios – todas essas

coisas passam por mim”.

Essa era uma imagem que podia fazer a viúva de um pastor ficar, visivelmente, de boca aberta; tratavase,

além disso, de uma resposta intencionalmente dirigida à questão das mil tulipas. “Seus vícios? Elas têm

vícios?”.

Nossa jovem crítica fitou-a, de maneira ainda mais visível, fixamente; e disse, então, colocando um

toque de desprezo em sua divertida maneira de falar: “Você não descobriu isso?”. As casas de luxo não tinham,

pois, segundo esse raciocínio, tantas coisas a oferecer. “ Eu descubro tudo”.

A Senhorita Jordan, no fundo uma pessoa de bom coração, estava visivelmente impressionada.

“Compreendo. Você realmente as conhece”.

“Ah, isso não tem importância alguma. Que vantagem isso me traz?”.

A Senhora Jordan, após um instante, recobrou sua superioridade. “Não – não leva a muita coisa”. Suas

próprias atividades levavam, claramente, a muita coisa. Apesar de tudo, para mostrar que não era invejosa, ela,

afinal, ainda assim, admitiu: “Deve haver um charme nisso”.

“Em vê-los?”. Ao ouvir isso, a garota, subitamente, entregou-se. “Eu os odeio. Esse é o charme!”

A Senhora Jordan ficou, outra vez, boquiaberta. “Os verdadeiramente ‘inteligentes’?”.

“É assim que você qualifica a Senhora Bubb? Sim – agora me lembro: conheço a Senhora Bubb. Não

creio que ela tenha vindo em pessoa, mas há coisas que têm sido trazidas por sua criada. Bem, minha querida!”

– e a jovem telegrafista da agência Cocker, lembrando-se dessas coisas e refletindo sobre elas, parecia,

subitamente, ter tantas coisas a dizer. Ela não as disse, entretanto; ela fez, antes, uma seleção, limitando-se a

dizer: “Sua criada, que é horrível, essa deve conhecê-la bem!” E, então, ela continuou, com indiferença: “Eles

são demasiadamente reais! Eles são uns selvagens egoístas”.

A Senhora Jordan refletiu sobre isso e adotou, finalmente, o plano de tratar a questão com um sorriso.

Ela queria aparentar ser liberal. “Bem, é claro que eles realmente se exibem”.

“Eles me aborrecem mortalmente”, sua companheira insistiu, um tanto mais moderadamente.

Mas isso estava indo longe demais. “Ah, isso é porque você não tem nenhuma compaixão por eles!”

A garota deu uma gargalhada irônica, apenas replicando que ninguém que tivesse que contar, todos os

dias, as palavras do dicionário podia tê-la, uma afirmação com a qual a Senhora Jordan até que concordava,

ainda mais que ela tremia diante da idéia de alguma vez não estar à altura da dádiva que ela devia à moda – a

“loucura do momento”, que era como ela a chamava – que a tinha arrebatado. Sem compaixão – ou sem

imaginação, pois a coisa se resumia, de novo, a isso –, como ela conseguiria preparar as grandes ceias para

aquelas pessoas situadas no meio da escala social, isso para não falar daquelas situadas nas posições mais

inferiores? O problema não eram as combinações, que essas eram facilmente manipuláveis: a tensão estava nas

coisas simples, mas inefáveis, aquelas sobre as quais os solteiros, sobretudo, e Lord Rye, talvez mais do que

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qualquer outro, faziam tantos esboços – eles simplesmente os expeliam como baforadas de cigarro. A noiva do

Senhor Mudge, de qualquer maneira, aceitava a explicação dada pela Senhora Jordan, a qual tivera o efeito,

como acontecia com praticamente qualquer outro tema de sua conversa, de conduzi-la, de novo, à grande

questão que dizia respeito àquele cavalheiro. Atormentava-a o desejo de extrair da Senhorita Jordan, sobre esse

assunto, aquilo que – ela estava certa disso – estava na ponta da língua da Senhora Jordan; e extraí-lo,

estranhamente, nem que fosse apenas para descarregar a irritação que esse assunto produzia nela. Ela sabia o

que sua amiga já teria se arriscado a dizer se ela não tivesse sido tímida e confusa: “Deixe-o, sim, deixe-o: você

verá que, com as oportunidades que você certamente terá, sua sorte vai melhorar muito”.

Nossa jovem amiga intuía que bastaria que aquela possibilidade lhe fosse apresentada com uma certa

pitada de desprezo pelo pobre Senhor Mudge para que ela, prontamente, como era seu dever moral, a

repudiasse. Mas ela estava consciente de que ainda não a tinha repudiado como deveria. Ela percebia que a

Senhora Jordan também estava consciente de algo e que ela estava esperando que elas chegassem a um certo

nível de confiança para expressá-lo, o qual só viria aos poucos. Houve um dia em que a garota teve um

vislumbre do que ainda estava faltando à sua amiga para fazê-la sentir-se forte: nada menos do que a

possibilidade de, no futuro, ser capaz de anunciar a culminação de certos sonhos pessoais. A associada da

aristocracia tinha certos cálculos pessoais, o que lhe dava matéria para meditar e sonhar e até mesmo escusas

para espiar, não sem uma migalha de esperança, por detrás das cortinas de isoladas mansões. Em suma, se ela

fazia arranjos de flores para os solteiros, não esperava ela que isso tivesse conseqüências muito diferentes

daquelas da situação, que ela considerava inteiramente sem esperanças, de quem trabalhava na agência

Cocker? A verdade é que parecia haver algo de auspicioso na mistura de solteiros e flores, mesmo que, quando

olhada diretamente nos olhos, a Senhora Jordan ainda não estivesse preparada para dizer que ela esperava

que fosse surgir uma proposta definitiva por parte de Lord Rye. Apesar disso, nossa jovem amiga tinha

chegado, finalmente, a uma imagem definitiva do que se passava na mente da Senhora Jordan, ou seja, de que

essa tinha o forte pressentimento de que a prometida do Senhor Mudge certamente a odiaria, a menos que

fosse antecipadamente tranqüilizada pela perspectiva de um feliz resgate da vida que presentemente levava, no

dia em que ela tivesse que anunciar uma certa e muito especial notícia. De que outra maneira poderia essa

infeliz jovem suportar ouvir aquilo que, sob a proteção de Lady Ventnor, era, afinal, tão possível de acontecer?

[20]

9

Nesse meio tempo, uma vez que a irritação servia, algumas vezes, para aliviá-la, a prometida do Senhor

Mudge sentia-se em débito com aquele seu admirador em um grau que era perfeitamente proporcional à

fidelidade que lhe devotava. Ela sempre passeava com ele aos domingos, geralmente no Regent’s Park, e com

certa freqüência, uma ou duas vezes ao mês, ele a levava, ao Strand ou algum outro local próximo, para ver

uma peça que estava sendo representada. As produções que ele sempre preferia eram aquelas realmente boas

– as de Shakespeare, as de Thompson ou alguma coisa americana divertida; o que lhe dava motivo, uma vez

que ela também odiava peças vulgares, para lhe fazer o que era provavelmente o mais caro de seus galanteios:

a teoria de que seus gostos eram, felizmente, exatamente os mesmos. Ele estava sempre lembrando-a a

respeito dessa coincidência, regozijando-se que fosse assim e mostrando-se carinhoso e espirituoso a respeito

dessa concordância. Havia momentos em que ela se perguntava como, por amor de Deus, ela podia “suportálo”,

como ela podia suportar qualquer homem tão presunçosamente inconsciente da enorme diferença que ela

representava. Se ele realmente a amava, era justamente por essa diferença que ela queria ser amada, e se essa

não fosse a fonte da admiração do Senhor Mudge, ela, então, se perguntava o quê, por amor de Deus, poderia

sê-lo. Ela não era diferente em apenas um aspecto, ela era completamente diferente, exceto, talvez, na

verdade, pelo fato de admitir que ela, praticamente, pertencia ao gênero humano, uma qualidade que, por sua

vez, ela tinha dúvidas se podia atribuir a ele. Ela fazia enormes concessões em outros casos: não havia qualquer

limite, por exemplo, para as concessões que ela estava disposta a fazer relativamente ao Capitão Everard; mas

a que eu acabei de mencionar era a concessão máxima que ela estava disposta a fazer no caso do Senhor

Mudge. Era porque ele era diferente que, muito estranhamente, ela gostava dele ao mesmo tempo que também

o deplorava, o que era, afinal, uma prova de que a disparidade, se eles chegassem ao ponto de reconhecê-la

abertamente, não tinha por que ser necessariamente fatal. Ela sentia que, por mais meloso que ele fosse , e ele

podia ser muito meloso, ele era, de alguma forma, comparativamente primitivo: ela o tinha visto uma vez,

naquele período em que o horário de trabalho dele, no estabelecimento, coincidia com o dela, pegar pelo

pescoço um soldado bêbado, um homem enorme e violento que, tendo vindo, com um companheiro, para

receber uma ordem postal, tinha passado a mão no dinheiro antes que seu amigo pudesse tê-lo alcançado e

tinha, assim, provocado, em meio aos porquinhos da índia e aos queijos e aos imediatos e alarmantes protestos

dos inquilinos do edifício Thrupp, uma cena de escândalo e consternação. O Senhor Buckton e o ajudante de

balcão tinham se agachado no interior da gaiola, mas o Senhor Mudge tinha triunfalmente – com um

movimento bastante sutil, mas rápido, em torno do balcão, demonstrando o ar de uma autoridade que estava

em pleno controle da situação, fato que ela nunca esqueceria – feito sua intervenção no tumulto, separando os

combatentes e aquietando o delinqüente. Ela se orgulhara dele naquele momento e sentira que se a relação

entre eles não estivesse ainda decidida, a precisão de sua atuação a teria deixado sem resistência em assumir o

compromisso de casamento.

Sua relação tinha sido decidida por outras coisas: pela evidente sinceridade da paixão dele e pela

sensação de que seu amplo e branco avental guardava alguma semelhança com a fachada de um edifício

ornada de muitas flores. Tinha tido um grande peso em sua decisão o fato de que ele lhe parecia capaz de

montar um grande negócio, uma qualidade que era visível na maneira como ele se portava. Era apenas uma

questão de tempo: ele teria todo o Piccadilly no lápis que carregava atrás da orelha. Isso já constituía, em si,

um grande mérito, para uma garota que tinha conhecido o que ela tinha conhecido. Havia horas nas quais ela

chegava a achá-lo bonito, embora, francamente, por mais que se esforçasse, ela não conseguia imaginar que

um alfaiate ou um barbeiro fosse capaz de fazer com que ele se parecesse, ainda que remotamente, com um

cavalheiro do mundo da alta sociedade. Sua real beleza era a de um merceeiro e nem mesmo o melhor futuro

que se pudesse imaginar não seria capaz de proporcionar muita oportunidade para que ela se desenvolvesse de

forma consistente. Em suma, ela tinha se apegado à perfeição de uma imagem ideal, e praticamente qualquer

tipo de perfeição, qualquer coisa que fosse direita, lisa e inteira, pesava muito para uma pessoa que ainda

[21]

estava demasiadamente auto-consciente de não passar de um simples e avariado fragmento de um navio

naufragado. Mas ajudava muitíssimo, no presente momento, seguir as duas linhas paralelas: as de sua

experiência na gaiola e as de sua experiência fora dela. Após ter se mantido calada, por algum tempo, sobre

essa oposição, ela, subitamente, numa tarde de domingo, sentada em uma cadeira de ferro, das grandes, de

braços, que se alugam por dois pence, no Regent’s Park, começou a insinuar, para ele, de forma caprichosa e

desconcertante, o que isso significava. Ele vinha, naturalmente, pressionando-a cada vez mais para que ela

fosse trabalhar em um local onde ele pudesse vê-la a cada hora. E ele pedia para que ela reconhecesse que,

como ela não lhe tinha, até agora, dado qualquer razão sensata para adiar essa decisão, ele nem precisava

descrever sua incapacidade em imaginar o que ela tinha em mente. Como se, com as absurdas e confusas

razões que lhe ocorriam, ela pudesse começar a contar-lhe o que se passava! Algumas vezes, ela pensava que

seria divertido jogá-las todas na cara, pois ela sentia que ela morreria a menos que, de vez em quando, ela o

surpreendesse; e algumas vezes ela pensava que isso seria repugnante e até mesmo fatal. Ela gostava,

entretanto, que ele pensasse que ela era uma tola, pois isso lhe proporcionava a ampla margem de manobra de

que ela sempre precisaria; e a única dificuldade, quanto a isso, era que ele não tivera suficiente imaginação

para satisfazê-la. Sua estratégia produziu, entretanto, algo do efeito desejado, que era deixá-lo simplesmente se

perguntando por que, quanto à questão de trabalharem juntos, ela não cedia a seus argumentos. Então,

finalmente, como se simplesmente por acaso e apenas para espantar o tédio, em um dia bastante comum, ela

caprichosamente apresentou seus próprios argumentos. “Bem, espera um pouco. Onde estou, ainda consigo ver

coisas”. E ela falava com ele de maneira ainda pior, se é que isso era possível, do que tinha falado com a

Senhora Jordan.

Pouco a pouco, para seu próprio espanto, ela foi se dando conta de que ele estava tentando

compreender o que ela queria dizer e que ele não estava nem surpreso nem zangado. Ah, o comerciante

britânico! Isso dava à nossa jovem amiga uma idéia dos recursos que ele próprio possuía! O Senhor Mudge só

ficaria zangado com uma pessoa que, como o soldado bêbado na loja, pudesser causar um efeito desfavorável

sobre os negócios. Ele parecia, por enquanto, compreender inteiramente, e sem a mínima manifestação de

ironia ou ataque de riso, os caprichosos motivos pelos quais ela extraía alguma alegria da clientela do

estabelecimento do Senhor Cocker e, instantaneamente, imaginar tudo aquilo a que essa situação, como tinha

dito a Senhora Jordan, podia levar. O que ele tinha em mente não era, claro, o que a Senhora Jordan tinha em

mente: estava inteiramente fora de suas cogitações, como é óbvio, que sua namorada pudesse encontrar um

marido durante o período de trabalho. Ela podia perceber perfeitamente que ele nem sequer pensara, em

nenhum momento, que ela pudesse sonhar com tal possibilidade. O efeito que ela lhe tinha causado tinha sido

simplesmente o de levar ainda mais sua imaginação em direção à obscura vastidão do mundo dos negócios. Era

só para isso que ele estava atento e ela tinha agitado diante dele a suave fragrância de uma possível “conexão”.

Isso era o máximo que ele podia perceber em qualquer explicação que ela pudesse dar dos motivos pelos quais

ela desejava continuar mantendo contato, por quaisquer e indiretos meios, com pessoas que pertenciam à

aristocracia; e quando, chegando ao fundo da questão, ela rapidamente passou a mostrar-lhe o tipo de

inspeção a que ela submetia esse tipo de gente e a dar-lhe um esboço do que aquela inspeção havia revelado,

ela o reduziu àquele especial estado de prostração com o qual ele ainda se divertia.

[22]

10

“Eles são uns grandes desgraçados, posso lhe assegurar – toda essa gente lá”.

“Então por que você quer permanecer entre eles?”

“Meu querido, precisamente por isso. Isso faz com que eu os odeie tanto”.

“Odiá-los? Pensei que você gostasse deles”.

“Não seja tolo. O que eu ‘gosto’ é precisamente de odiá-los. Você não imagina o que se passa sob meus

olhos”.

“Então por que você nunca me disse? Você não mencionou qualquer coisa antes que eu saísse”.

“Ah, eu ainda não tinha me dado conta. É o tipo de coisa que no começo não acreditamos; temos que

olhar um pouco em volta e então passamos a compreender. Nós vamos elaborando essa idéia aos poucos”.

“Além disso”, a garota continou, “esta é a época do ano em que chegam os da pior espécie. Eles simplesmente

se amontoam naquelas ruas elegantes. Não me venha falar da quantidade de pobres! O que eu posso garantir é

que há uma grande quantidade de ricos! Há novos ricos a cada dia e eles parecem se tornar cada vez mais

ricos. Ah, eles realmente surgem!”, exclamou ela, fazendo, para seu próprio deleite, uma imitação – ela estava

certa de que o Senhor Mudge não a ouviria – do tom de voz grave do ajudante de balcão.

“E de onde eles surgem?”, perguntou, de forma sincera, seu acompanhante.

Ela teve que pensar por um momento, mas logo depois ela encontrou o que dizer. “Das ‘reuniões de

primavera’. Eles apostam somas enormes”.

“Bem, eles apostam somas enormes em Chalk Farm, é só isso”.

“ Não é só isso. Isso é apenas uma milionésima parte!”, ela retrucou com alguma rispidez. “Trata-se de

uma grande diversão” – ela tinha que provocá-lo. Então, tal como ela tinha ouvido a Senhorita Jordan dizer e tal

como as senhoras que freqüentavam o estabelecimento do Senhor Cocker às vezes escreviam nos telegramas,

ela disse: “É muito horrível!”. Ela podia sentir plenamente que era a extrema polidez do Senhor Mudge – ele

tinha horror às atitudes grosseiras e freqüentava uma igreja metodista – que o impedia de perguntar por

detalhes. Mas mesmo sem que ele perguntasse, ela forneceu-lhe alguns dos detalhes mais inócuos, fazendo-o

ver, sobretudo, como, em Simpkin e Ladle, chovia dinheiro. Era, na verdade, o que ele gostava de ouvir: a

conexão não era direta, mas as pessoas se encontravam, de alguma forma, no lugar mais apropriado onde

chovia dinheiro do que onde ele estava caindo de forma escassa e rara. Esse tipo de agitação era muito mais

comum, ele tinha que reconhecer, naquela área da cidade na qual sua amada estava tão estranhamente situada

do que em Chalk Farm. Ela podia perceber que ela lhe passava a inquietante idéia de que se tratava de

conexões que não deviam ser abandonadas; elas constituíam germens, possibilidades, pálidas antevisões – só

Deus saberia dizer de quê – de uma iniciação cujo acesso poderia se mostrar lucrativo quando, no devido

tempo, ele tivesse seu próprio negócio em algum paraíso desse tipo. O que realmente o afetava – isso se podia

perceber – era a maneira viva com que ela alimentava a imaginação dele pela simples menção dessa

possibilidade, mantendo diante dele, como se fosse um leque, a imagem do farfalhar das velozes notas de

dinheiro sendo contadas e o charme da existência de uma classe que a Providência tinha criado para a benção

dos proprietários de mercearias. Ele gostava de pensar que essa classe estava lá, que sempre esteve lá, e que

sua noiva contribuía, em um grau modesto mas apreciável, para mantê-la assim. Ele teria sido incapaz de

formular uma teoria sobre essa questão, mas a riqueza da aristocracia era uma vantagem para o comércio, e

tudo formava uma trama cujo padrão era de uma tal riqueza que era um prazer segui-lo com as pontas do

dedo. Ele sentia-se confortável ao ser, assim, assegurado de que não havia nenhum sinal de decadência. O que

fazia o sonorizador, que era como ela chamava o receptor telegráfico, quando habilmente manejado, senão

manter esse mecanismo social em funcionamento?

O que importava para o Senhor Mudge, portanto, era que todos prazeres estavam, por assim dizer,

inter-relacionados, e que quanto mais as pessoas tinham, mais elas queriam ter. Quanto mais flertes houvesse,

mais queijos e pickles haveria – era como ele, um tanto vulgarmente, poderia ter expressado essa idéia. Ele

[23]

tinha até mesmo, ao seu próprio e modesto jeito, ficado levemente surpreso com a doce ligação que havia entre

a terna paixão e o champanhe barato. O que ele teria gostado de dizer, se ele tivesse a capacidade de

desenvolver seu pensamento até às suas últimas conseqüências, era: “Eu percebo, eu percebo. Incite-os, pois,

conduza-os, faça com que eles continuem: não será impossível que acabe sobrando, em algum momento,

alguma vantagem para nós”. Entretanto, ele se perturbava com a suspeita de que sua acompanhante cultivava

certas sutilezas que podiam arruinar essa imagem demasiadamente simples das coisas. Ele não podia

compreender que as pessoas odiassem aquilo de que gostavam ou que gostassem daquilo que odiavam;

magoava-o, sobretudo, em alguma parte de sua sensibilidade – pois ele também a tinha – a idéia de que se

pudesse extrair outra coisa que não daqueles que lhe eram superiores. Ele considerava que era um tanto errado

ser demasiadamente curioso ou tomar qualquer outra liberdade relativamente às classes superiores; a única

coisa que lhe parecia claramente correta era ser próspero a qualquer preço. Não era só porque eles estavam lá

no alto que eles eram lucrativos? De qualquer forma, ele chegou a uma conclusão, a qual ele comunicou à sua

jovem amiga: “Se é impróprio para você permanecer no estabelecimento do Senhor Cocker, então isso coincide

exatamente com as outras razões que eu lhe apresentei para a sua transferência”.

“Impróprio?” – seu sorriso transformou-se em um prolongado desafio. “Meu caro rapaz, não existe

ninguém como você!”

“Ousaria concordar com isso”, ele deu uma risada, “mas isso não responde à sua pergunta”.

“Bem”, ela retrucou, “não posso renunciar a meus amigos. Estou fazendo mais dinheiro até mesmo que

a Senhora Jordan”.

O Senhor Mudge ficou pensando. “Quanto ela está ganhando?”

“Oh, meu querido tolo!” e, embora estivessem no Regent’s Park, ela deu-lhe um tapinha em sua

bochecha. Era num momento como esse que ela se sentia inteiramente tentada a dizer-lhe que ela gostava de

estar próxima do edifício Park Chambers. Fascinava-lhe a idéia de verificar se, ao mencionar o Capitão Everard,

ele não faria o que ela achava mais provável, isto é, se a óbvia vantagem que essa conexão poderia ter para ele

não valeria mais que a objeção óbvia que ele poderia colocar à sua intenção de permanecer trabalhando no

estabelecimento do Senhor Cocker. A vantagem, naturalmente, não poderia senão parecer-lhe fantástica; mas

era sempre bom se manter o controle quando se tinha o controle, e mencionar o Capitão Everard implicaria,

além disso, colocar em dúvida a fidelidade dela. Essa era uma coisa da qual ela, absolutamente, nunca

duvidara: o Senhor Mudge acreditava nela com a maior das crenças! Aliás, ela própria acreditava nela: se havia

uma coisa no mundo da qual ninguém poderia acusá-la era de que ela pudesse ser uma espécie de garçonete

barata que limpava copos e vivia falando gíria. Por isso, ela se absteve de falar, por enquanto, no Capitão

Everard; ela não tinha falado nem mesmo para a Senhorita Jordan; e o silêncio que, em seus lábios, rodeava o

nome do Capitão mantinha-se como uma espécie de símbolo do sucesso que, até o momento, tinha

acompanhado algo – ela não poderia dizer o quê – que ela se comprazia em chamar, sem palavras, de sua

relação com ele.

[24]

11

Ela teria admitido, na verdade, que essa relação se resumia ao fato de que suas ausências, embora

freqüentes e longas, sempre terminavam com sua reaparição. Não era da conta de mais ninguém a não ser dela

mesma se esse fato continuava a ser suficiente para ela. Não era, naturalmente, suficiente em si; o que o fazia

suficiente era o extraordinário domínio de certos elementos da vida dele que sua memória e atenção tinham

acabado por lhe fornecer. Houve um momento em que esse domínio por parte da garota realmente passou a

significar que eles se compraziam em um mútuo e tácito reconhecimento, quando seus olhos se encontravam,

que era, de um lado, como que uma brincadeira, mas, de outro, de uma solenidade profunda. Ele sempre lhe

cumprimentava agora com um “bom dia”; ele, freqüentemente, lhe fazia um leve cumprimento com o chapéu.

Ele fazia alguma observação quando havia tempo ou oportunidade, e uma vez ela chegou ao ponto de lhe dizer

que fazia “séculos” que não o via. “Séculos” foi a palavra que ela consciente e cuidadosamente, embora de um

modo levemente trêmulo, utilizou; “séculos” era exatamente o que ela queria dizer. A isso ele replicou em

termos que eram, sem dúvida, escolhidos com uma ansiedade menor, mas que, talvez, por isso mesmo, não

eram menos notáveis. “Ah, sim, não tem estado terrivelmente úmido?”. Essa espécie de troca entre eles servia

para alimentar sua fantasia de que jamais havia se estabelecido sobre a terra uma forma de tão transcendente

e tão pura de intercurso. Tudo, na medida em que eles tinham decidido que assim seria, podia significar quase

qualquer coisa. A falta de espaço dentro da gaiola, quando ele espiava através das barras, perdeu qualquer

importância. Tratava-se de uma desvantagem apenas nas transações superficiais com outras pessoas. Com o

Capitão Everard, ela tinha simplesmente todo o espaço do universo. Pode-se imaginar, portanto, como a

impronunciável referência deles a tudo que ela sabia sobre ele podia, nessa imensidão, exercer-se com toda

facilidade. Cada telegrama que ele lhe passava representava um acréscimo ao conhecimento que ela tinha dele:

que outra coisa poderia querer dizer o constante sorriso dele? Ele nunca entrou no posto telegráfico sem

expressar-se dessa maneira: “Ah, sim, você me tem, neste momento, tão completamente em suas mãos que

não importa o mínimo o que eu vou lhe dar agora para telegrafar. Você se tornou um conforto para mim, isso

eu posso lhe assegurar!”.

Ela tinha apenas dois tormentos, o maior dos quais era que ela não podia, nem mesmo uma única vez,

falar com ele sobre qualquer fato específico. Ela teria dado qualquer coisa para poder ser capaz de aludir a um

dos amigos dele pelo nome, a um de seus compromissos pela data, a um de seus problemas pela solução. Ela

teria dado quase tanto apenas pela oportunidade certa – teria que ser extremamente certa – para mostrar-lhe,

de alguma forma claramente terna que ela tinha perfeitamente percebido qual era o maior desses problemas e

vivia agora, na posse desse conhecimento, uma espécie de heroísmo que tinha sua base na solidariedade. Ele

estava apaixonado por uma mulher para quem, e sob todos os aspectos, uma telegrafista-mulher, e

especialmente uma que passava a vida entre presuntos e queijos, era como a areia no chão. Apesar disso, o

desejo de seus sonhos era que, de alguma forma, ele compreendesse que o interesse que ela tinha por ele

podia assumir a forma de uma atitude pura e nobre a respeito de uma tal paixão e mesmo de uma tal falta de

correção. Por enquanto, entretanto, ela só podia ir vivendo com a esperança de que um acidente, mais cedo ou

mais tarde, pudesse dar-lhe a oportunidade para que ela pudesse pensar em algo que pudesse surpreendê-lo e,

talvez, até mesmo, algum belo dia, ajudá-lo. O que as pessoas pretendiam, além disso, pessoas vulgarmente

sarcásticas, ao não perceber tudo que se podia obter a partir de comentários sobre o tempo? Ela percebia tudo,

e parecia, literalmente, perceber mais quando ela cometia erros evidentes, quando falava dos dias sufocantes

como sendo frios, dos dias frios como sendo sufocantes, deixando, assim, escapar que ela não podia quase

dizer, a partir de sua posição na gaiola, se fazia tempo bom ou tempo ruim. No posto telegráfico Cocker o ar

era, aliás, sempre sufocante e ela, finalmente, resolveu fixar-se na afirmativa segura de que o tempo lá fora

estava sempre “mudando”. Tudo aquilo com o qual ele concordasse de forma tão radiante tinha que ser

verdadeiro.

[25]

Esse era, na verdade um pequeno exemplo de como ela cultivava maneiras insidiosas para tornar as

coisas fáceis para ele – maneiras sobre as quais, naturalmente, ela não podia estar absolutamente segura de

que ele realmente fizesse justiça. A justiça real não era deste mundo: ela tinha muito freqüentemente sido

obrigada a voltar a essa conclusão; entretanto, estranhamente, a felicidade era deste mundo, e os artifícios que

ela utilizava para fazê-la acontecer tinham que ser desenvolvidos de uma maneira que não fossem percebidos

pelo Senhor Buckton e pelo ajudante de balcão. O máximo que ela podia esperar, à parte a questão, que

constantemente surgia e depois se evaporava, da divina chance de ele gostar dela de forma consciente, seria

que, sem muita análise, ele deveria chegar à vaga conclusão de que o estabelecimento do Senhor Cocker era,

digamos, atrativo: mais cômodo, mais simpático, socialmente mais brilhante, levemente mais pitoresco, em

suma, mais propício, em geral. aos pequenos negócios deles, do que qualquer outro estabelecimento dos

arredores. Ela estava bastante consciente de que eles não podiam ser, num buraco tão apertado,

particularmente rápidos; mas ela descobriu vantagens na lentidão – ela certamente poderia suportá-la se ele

pudesse. Sua grande aflição era a de que os arredores estavam cheios de agências postais. Ela estava sempre

vendo-o, na imaginação, em outros lugares e com outras garotas. Mas ela desafiaria qualquer outra garota a

segui-lo como ela o seguia. E embora eles não fossem, por tantas e variadas razões, particularmente rápidos na

agência do Senhor Cocker, ela podia apressar-se para ele, quando, por meio de uma insinuação tão tênue

quanto o ar, ela se dava conta de que ele estava com pressa.

Era ainda melhor quando a rapidez era impossível por causa da coisa mais prazerosa de todas, isto é,

por causa de um aspecto específico do contato entre eles – ela chamaria esse contato de “sua amizade” – que

consistia na maneira quase engraçada com que ele grafava algumas de suas palavras. Eles não teriam, talvez,

desenvolvido nem a metade da intimidade que tinham se ele não tivesse, graças aos céus, preenchido alguns de

seus formulários telegráficos de um maneira um tanto estranha. Era certo que dificilmente teria sido mais

estranha se ele tivesse feito isso com o deliberado propósito de fazer com que suas cabeças se juntassem sobre

o formulário tanto quanto era possível para cabeças que se situavam em lados diferentes da moldura de arame.

Ela não precisou verdadeiramente de mais do que uma ou duas vezes para dominar esses truques, mas, ao

custo de impressioná-lo, talvez, como sendo estúpida, ela ainda podia lançar mão deles quando as

circunstâncias eram favoráveis. A mais favorável de todas era que ela, algumas vezes, realmente acreditava que

ele sabia que ela apenas fingia perplexidade. Se ele sabia disso, era, então, porque ele o tolerava; se ele o

tolerava, ele retornaria; e se ele retornava é porque ele gostava dela. Esse era o seu sétimo céu; e ela não

exigia muito desse gosto que ele podia sentir por ela – ela só pedia que atingisse o ponto em que ele não se

afastasse por causa do gosto que ela mesma sentia por ele. Ele tinha, às vezes, que se afastar por semanas; ele

tinha que levar sua vida; ele tinha que viajar – havia lugares para os quais ele estava constantemente

telegrafando para reservar “quartos”: tudo isso ela admitia que ele fizesse, ela o perdoava por tudo isso; na

verdade, a longo prazo, ela literalmente o bendizia e o agradecia por isso. Era precisamente o fato de ter que

levar sua vida que fazia com que ele a levasse, em grande parte, por meio do telégrafo: portanto, era uma

benção que ele viesse quando podia. Isso era tudo que ela pedia – que ele não a privasse inteiramente de sua

presença.

Algumas vezes, ela quase sentia que ele não poderia tê-la privado mesmo que ele quisesse, em virtude

da rede de revelações que tinha se tecido entre eles. Ela tremia só de pensar no quê, com tanto material dessa

espécie, uma garota má faria. Seria uma cena melhor do que muitas das que ocorriam em nos romances

baratos que ela alugava: visitá-lo, ao cair da noite, no edifício Park Chambers e dar-lhe, enfim, o merecido

castigo. “Eu sei agora muitíssimas coisas sobre uma certa pessoa que, por assim dizer, perdoe-me por se tão

direta, mais vale para você comprar meu silêncio. Vamos, pois, compre-me!”. Havia um ponto, na verdade, em

que essas evasões da realidade tinham que ser interrompidas: era quando, no momento devido, ela tinha que

nomear o meio de compra, atitude que ela se considerava incapaz de tomar. Não seria certamente nada tão

vulgar quanto o dinheiro, e a questão, conseqüentemente, permanecia um tanto vaga, tanto mais que ela não

[26]

era uma garota má. Não era por nenhuma razão desse tipo, a qual poderia ter atiçado a imaginação de uma

garota vulgar, que ela, freqüentemente, esperava que ele trouxesse outra vez Cissy. Essa dificuldade,

entretanto, lhe estava muito presente, pois o tipo de entendimento que eles tinham e que dependia muito da

situação criada no interior da agência postal, se sustentava no fato de que Cissy e ele estavam muito

freqüentemente em lugares diferentes. Ela conhecia agora todos esses lugares – Suchbury, Monkhouse,

Whiteroy, Finches – e até mesmo como se arranjavam os grupos nessas ocasiões; mas sua sutileza descobrira

formas de fazer com que seu conhecimento realmente protegesse e promovesse, como ela ouvira a Senhorita

Jordan dizer, o contato entre eles. Assim, quando ele, algumas vezes, realmente sorria como se ele

efetivamente sentisse o desconforto de lhe dar, outra vez, um dos mesmos e antigos endereços, todo o seu ser

se expandia no desejo – cuja expressão se mostrava, de maneira visível, no seu rosto – de que ele

reconhecesse o fato de que ela se negava a criticá-lo como sendo um dos sacrifícios mais nobres e ternos que

uma mulher jamais tinha feito por amor.

[27]

12

Seja como fosse, ela sentia, ocasionalmente, que esses sacrifícios, por maiores que fossem, não eram

nada em comparação com aqueles que a paixão do capitão pela sua correspondente lhe tinha imposto. Mas ela

também se perguntava se, na verdade, não era, em vez disso, a paixão de sua cúmplice que o tinha arrebatado

e o estava fazendo girar como uma roda movida a vapor. Ele estava, de qualquer modo, sob o forte controle de

um destino esplêndido e vertiginoso; o impetuoso vento que era sua vida tinha-o colocado diretamente diante

desse destino. Não era verdade que ela surpreendia, em seu rosto, às vezes, por detrás do seu sorriso e do seu

jeito alegre de ser, o reflexo daquela palidez com que uma desnorteada vítima apela, ao passar, aos olhares

compassivos de alguém? Talvez nem mesmo ele soubesse quão assustado ele estava; mas ela sabia. Eles

estavam correndo perigo: o Capitão Everard e Lady Bradeen estavam correndo perigo. Era algo que tinha uma

dimensão maior do que aquilo que ocorria em qualquer dos romances baratos que ela lia. Ela pensou no

Senhor Mudge e na segurança de seu sentimento; ela pensou em si própria e ficou ainda mais ruborizada pela

morna resposta que ela dava àquele sentimento. Era um consolo para ela, em tais momentos, sentir que, em

outra relação – em uma relação que fornecesse aquela afinidade com a sua natureza que o Senhor Mudge,

iludida criatura, nunca forneceria –, ela teria sido tão pouco morna quanto Lady Bradeen. Suas mais profundas

especulações se resumiam, em duas ou três ocasiões, a pensar que, quase com certeza, se ela ousasse, o

amante de Lady Bradeen encontraria alívio em lhe “fazer confidências”. Ela literalmente imaginou, uma ou duas

vezes, que, entregue, como ele estava, a seu destino e com todo o ruído que chegava a seus ouvidos, eram os

olhos dela que o atingiam como sendo aqueles olhos compassivos em meio à multidão. Mas como podia ele

falar-lhe enquanto ela permanecesse ali sentada, espremida entre o ajudante de balcão e o receptor telegráfico?

Ela tinha, há muito tempo, em suas idas e vindas, se tornado familiarizada com o edifício Park Chambers

e ficava pensando, enquanto erguia os olhos para sua luxuosa fachada, que ele, naturalmente, forneceria o

cenário ideal para a conversa ideal. Não havia nenhuma outra coisa em Londres que, no decorrer daquela

estação, estivesse mais gravada em sua mente. Esse não era o caminho mais curto para ela e, por isso, ela

tinha que fazer um desvio para poder passar pela frente do edifício; ela passava pelo lado oposto da rua e

sempre olhava para cima, embora ela tivesse levado um certo tempo para descobrir qual conjunto de janelas

pertencia a seu apartamento. Ela chegou, finalmente, a essa descoberta por um ato de audácia que, na época,

tinha quase feito parar o seu coração e que, depois, ao recordá-lo, fazia-a ruborizar intensamente. Em um certo

fim de tarde, ela tinha se detido por mais tempo e tinha ficado esperando pelo momento em que o porteiro, que

estava uniformizado e geralmente ficava parado na entrada do edifício, tivesse entrado com um visitante. Então,

corajosamente, ela também entrou, calculando que ele tinha conduzido o visitante a um andar superior e que o

saguão do edifício estaria livre. O saguão estava livre, e a luz elétrica estava focalizada sobre o dourado painel

que, em grandes letras, mostrava os nomes e os ocupantes dos diferentes andares. Aquele que ela queria

estava bem diante de seus olhos – o nome do Capitão Everard apontava para o terceiro andar. Foi como se, na

imensa intimidade que esse reconhecimento proporcionava, eles estivessem, por um instante e pela primeira

vez, fora da gaiola, frente a frente. Mas, que pena! Eles estavam frente a frente, mas apenas por um segundo

ou dois: ela foi tomada pelo pânico de que ele poderia estar entrando ou saindo naquele exato momento. O

pânico, na verdade, sempre a acompanhava em seus ousados desvios de rota: ele quase nunca a deixava e

estava sempre misturado, muito estranhamente, com depressões e desapontamentos. Era aterrorizante,

pensava ela, tremendo, correr o risco de olhar para ele como se ela estivesse sempre, de forma humilhante,

rondando por ali; e, contudo, era também aterrorizante ser obrigada a passar por ali apenas naqueles

momentos que tornavam tal encontro impossível.

Na terrível hora em que ela chegava, no início da manhã, à agência postal, ele sempre estava – era o

que se podia supor – aninhado na cama; e na hora em que ela deixava o posto telegráfico, ele estava,

naturalmente se vestindo para a ceia – ela tinha esses cálculos todos nas pontas dos dedos. Não é preciso dizer

que, se ela não podia ficar rondando seu edifício até que ele tivesse terminado de se vestir, era simplesmente

[28]

porque um tal processo, para uma pessoa como ele, podia ser terrivelmente demorado. Quando ela saía, no

meio da tarde, para fazer sua própria ceia, ela tinha muito pouco tempo para fazer qualquer outra coisa que não

fosse tomar o caminho reto, embora se deva acrescentar que, se ela estivesse realmente certa de poder

encontrá-lo, ela teria alegremente passado sem aquela refeição. Ela tinha decidido que não havia, pensando

bem, nenhum pretexto decente para justificar o fato de ficar rondando por ali, como que por acaso, depois das

três horas da manhã. Essa era a hora na qual, se os romances baratos que ela lia estavam certos, ele

provavelmente voltava para casa para dormir. Ela estava, pois, reduzida à mais vã das fantasias de um encontro

milagroso contra o qual conspiravam uma centena de impossibilidades. Mas se nada era mais impossível que o

fato, nada era tampouco mais intenso que a imaginação. Trata-se de algo sobre o qual não podemos senão

especular: o que não pode se passar na percepção ligeiramente embotada de uma pessoa jovem dotada de

uma ardente personalidade? Toda a distinção natural de nossa humilde amiga, todo o refinamento de sua

personalidade, todos os seus traços hereditários, todo o seu orgulho encontravam um refúgio naquele pequeno

e pulsante ponto; pois quanto mais ela estivesse consciente do caráter abjeto de sua vaidade e do aspecto

patético de suas pequenas movimentações e manobras, tanto mais era certo que o consolo e a redenção

acabariam por brilhar diante dela na forma de algum signo que mal se percebia. Ele realmente gostava dela!

[29]

13

Ele nunca trouxe Cissy de volta, mas Cissy veio um dia sem ele, com um frescor tão intenso quanto o de

antes, depois de ter passado pelas mãos de Marguerite ou, já que estávamos no fim da estação, com um

frescor que era apenas ligeiramente menos intenso. Ela estava, entretanto, claramente menos serena. Ela não

tinha trazido nada com ela e olhava ao redor, com impaciência, procurando os formulários e um lugar para

escrever. O local destinado a isso era escuro e pouco apropriado e sua voz clara tinha um leve tom de protesto,

nunca demonstrado por seu amante, quando ela respondeu com um “Lá?” de surpresa ao gesto feito pelo

ajudante de balcão em resposta à sua irritada pergunta. Nossa jovem amiga estava ocupada com uma meia

dúzia de pessoas, mas ela as tinha despachado com a sua mais profissional competência no momento em que

Lady Bradeen irradiou, através das barras, a luz de sua reaparição. O desembaraço com que, nesse momento, a

garota conseguiu receber a missiva que Lady Bradeen trazia consigo era o resultado da mesma concentração

que tinha feito os selos voar em suas mãos durante os poucos minutos em que esteve ocupada em atender as

outras pessoas. Essa concentração, por sua vez, pode ser descrita como o efeito do pressentimento do alívio

que estava por vir. Tinham se passado dezenove dias, minuciosamente contados e recontados, desde que ela

tinha visto o objeto de sua reverência; e, assim como, caso ele estivesse em Londres, ela poderia estar segura,

dados os seus hábitos, de vê-lo freqüentemente, ela estava, agora, prestes a saber que outro local sua presença

estaria, naquele exato momento, a ponto de santificar. Pois ela pensava nesses outros locais como locais que

estariam, em uma espécie de êxtase, conscientes da sua presença, claramente felizes por poder acolhê-lo.

Mas, como Lady Bradeen era graciosa, como ela era bonita! E como aumentava o valor do Capitão o

fato de que o ar de intimidade que ele exalava se originasse de uma tal fonte! A garota fitou diretamente,

através da gaiola, aqueles olhos e aqueles lábios que deveriam ter estado muito freqüentemente tão próximo

dos dele – fitou-os com uma estranha paixão que, por um momento, tivera o efeito de preencher algumas das

lacunas da correspndência do capitão, fornecendo algumas das respostas que estavam ausentes de seus

telegramas. Então, ela foi se dando conta de que as feições que ela examinava dessa maneira tão atenta e que

ela associava com o capitão ignoravam inteiramente o que se passava, que elas brilhavam tão-somente com o

colorido de pensamentos que eram bem outros e que não se deixavam, absolutamente, adivinhar. Isso só fazia

aumentar seu esplendor, dando à garota a mais vívida das impressões jamais recebida das superiores e

inacessíveis planícies celestiais, fazendo, entretanto, ao mesmo tempo, com que ela vibrasse com o sentimento

de que ela partilhava, de alguma forma, de uma tão elevada companhia. Ela estava com o ausente por

intermédio de Lady Bradeen e com Lady Bradeen por intermédio do ausente. A única coisa que lhe afligia, mas

isso não tinha importância, era algo que aparecia de maneira evidente naquele admirável rosto e na cega

absorção de sua possuidora: essa última não tinha nenhuma noção de sua presença. Sua loucura tinha chegado

ao ponto de quase acreditar que o outro participante da aventura devia, às vezes, fazer alguma menção, em

Eaton Square, à extraordinária criaturinha que trabalhava no local a partir do qual ele tão freqüentemente

passava seus telegramas. O fato de que ela percebia a indiferença da visitante para com ela ajudava,

entretanto, essa extraordinária criaturinha, no instante seguinte, a se consolar com uma reflexão que podia ser

tão altiva quanto ela quisesse. “Quão pouco ela sabe, quão pouco ela sabe!”, a garota exclamava para si

própria; pois que outra coisa aquilo provava, afinal, senão o fato de que a confidente telegráfica do Capitão

Everard era o fascinante segredo do Capitão Everard? O exame que nossa jovem amiga fez do telegrama de

Lady Bradeen foi literalmente prolongado por uma momentânea desorientação: o que fluía entre ela e as

palavras, fazendo-as ver como se através de águas rasas e agitadas, tornadas transparentes pela luz do sol, era

a constante correnteza da expressão “Quanto eu sei – quanto eu sei!”. Por essa razão, ela tardou em

compreender que, aparentemente, as palavras do telegrama de Lady Bradeen não lhe davam o que ela queria,

mas ela quase que imediatamente se lembrou de que o que ela compreendia era, quase sempre, precisamente

aquilo que não estava aparente. “Senhorita Dolman, Pousada Parade, Colina Parade, Dover. Faço-o saber

[30]

imediatamente local certo, Hotel de France, Ostend. Envie sete nove quatro nove seis um. Telegrafe-me

alternativa Burfield’s”.

A garota contou as palavras lentamente. Então ele estava em Ostend. Isso atingiu-a de uma forma tão

forte que para não dar a entender que ela estava prestes a deixar escapar o que ela tinha acabado de saber, ela

teve que se deter por um minuto a mais e fazer alguma outra coisa para se distrair. Assim, ela fez, nessa

ocasião o que ela nunca tinha feito antes – saiu-se com uma pergunta, “Resposta paga?”, que soou como algo

formal, mas que ela, em parte, compensou ao, deliberadamente, colocar os selos e ao esperar até ter terminado

essa tarefa para, então, dar-lhe o troco. Tal controle de si mesma baseava-se na força que lhe dava o

pensamento de que ela sabia tudo sobre a Senhorita Dolman.

“Sim, pago”. Ela viu toda espécie de coisas nessa resposta, até mesmo uma pequena e mal disfarçada

surpresa por ela ter feito uma dedução tão correta; até mesmo uma tentativa, no minuto seguinte, de

aparentar, de novo, um ar de indiferença. “Com a resposta paga, quanto devo pagar?”. O cálculo não era

complicado, mas nossa intensa observadora precisou de um momento para fazê-lo, e isso proporcionou a Lady

Bradeen o tempo suficiente para repensar a questão. “Ah, espera um instante!” A mão branca e cheia de jóias,

agora sem as luvas, para poder escrever, ergueu-se, em um súbito nervosismo, para ir pousar naquela

maravilhosa face que, com olhos de ansiedade em direção ao papel sobre o balcão, ela aproximou mais das

barras da gaiola. “Acho que tenho que alterar uma palavra!”. Ao dizer isso, ela recuperou seu telegrama e o

examinou outra vez; mas ela tinha um problema novo, um problema óbvio, e ela ficou refletindo sobre ele, sem

tomar uma decisão, o que fez com que nossa jovem amiga se limitasse a ficá-la observando.

Essa personagem, nesse meio tempo, à vista da expressão de Lady Bradeen, tinha tomado, no mesmo

instante, uma decisão. Ela tinha sempre estado certa de que eles corriam perigo, mas a expressão de Lady

Bradeen era a melhor prova disso. Havia uma palavra errada, mas ela tinha perdido a certa e muitas coisas

claramente dependiam de ela poder encontrá-la de novo. A garota, portanto, prudentemente calculando a

entrada de outros clientes e a distração do Senhor Buckton e do ajudante de balcão, obedeceu a um impulso e

forneceu-lhe a palavra. “Não é Cooper’s?”.

Foi como se ela tivesse realmente saltado, foi como se ela tivesse voado por cima da parte superior da

gaiola para ir cair sobre sua interlocutora. “Cooper’s?” – o olhar de Lady Bradeen foi reforçado por um súbito

rubor. Sim, ela tinha feito Juno ruborizar-se.

Não havia maior razão para ir adiante. “Quero dizer, em vez de Burfield’s”.

Nossa jovem amiga quase teve pena dela; ela a tinha tornado, por um instante, extremamente

desamparada, mas, de modo algum, arrogante ou ofendida. Ela estava apenas confusa e assustada. “Ah, você

sabe…?”.

“Sim, eu sei!”. Nossa jovem amiga sorriu, encontrando os olhos da outra e, tendo feito Juno ruborizarse,

pôs-se a tratá-la com condescendência. “Pode deixar que eu farei isso”, disse ela, estendendo uma hábil

mão. Lady Bradeen limitou-se a se submeter, confusa e surpresa. Toda sua presença de espírito tinha se

evaporado. E no momento seguinte o telegrama estava na gaiola outra vez e sua autora fora da agência postal.

Então, rapidamente, ousadamente, sob os olhos de quantos podiam ter testemunhado sua manobra, a

extraordinária criaturinha da agência postal Cocker fez a mudança apropriada no telegrama. As pessoas eram

realmente muito estúpidas, e se elas fossem, em um certo caso que conhecemos, descobertas, não seria por

culpa de sua magnífica memória. Pois não tinha ficado estabelecido semanas antes que a Senhorita Dolman

seria sempre “Cooper’s”?

[31]

14

Mas as “férias” de verão traziam uma nítida diferença: elas eram férias para quase todo mundo, exceto

para os animais na gaiola. Os dias de agosto eram monótonos e sem graça e, com tão pouca coisa para animar

essa situação, ela estava consciente da diminuição de seu interesse pelos segredos das pessoas refinadas que

freqüentavam a agência postal. Ela estava em condições de seguir os passos dessas pessoas ao ponto de saber

exatamente onde elas estavam, já que elas tinham feito muitos de seus arranjos de férias com sua ajuda. O que

ela sentia era como se a procissão tivesse praticamente parado de desfilar diante de seus olhos e a banda

tivesse parado de tocar. Ocasionalmente, surgia um membro extraviado do grupo, mas as comunicações que

passavam diante dela se referiam agora quase sempre a quartos em hotéis, preços em casas mobiliadas,

horários de trem, datas de saída dos navios e arranjos para que houvesse alguém a “esperá-los”: ela achava

essas coisas, em sua maior parte, prosaicas e vulgares. A única coisa boa era que elas pareciam trazer, para seu

sufocante cubículo, uma lufada de ar que parecia vir diretamente dos prados alpinos e dos lagos escoceses, um

ar que, de outra forma, ela jamais poderia esperar respirar; elas eram, além disso, em geral, gordas, ofegantes

e enfadonhas senhoras que lhe traziam, incansavelmente, para ser telegrafadas, as condições para o aluguel de

pousadas marítimas, as quais a impressionavam por seu tamanho e também pelo número não menos

impressionante de quartos que eram reservados. Tudo isso em referência a lugares cujos nomes – Eastborne,

Folkestone, Cromer, Scarborough, Whitby—atormentavam-na um pouco como o som do ruído de água que

assombra o viajante do deserto. Fazia cerca de doze anos que ela não saía de Londres e a única coisa que dava

algum sabor às semanas mortas do presente período era o forte tempero do ressentimento crônico que ela

cultivava. Os raros clientes, as pessoas que ela via, eram as pessoas que “estavam por partir” – partir para o

convés de iates que singrariam os mares, partir para o ponto mais extremo de rochosos cabos onde soprava

precisamente aquele tipo de brisa cuja falta, como ela dizia para si mesma, a tornava doente.

Num certo sentido, conseqüentemente, num período como esse, as grandes diferenças que

caracterizavam a condição podiam exercer uma pressão sobre ela que era maior do que nunca. Essa pressão,

na verdade, até se reforçava com o surgimento da oportunidade que, finalmente, pelo menos uma vez, vinha

diretamente ao seu encontro: a oportunidade de “partir”, por um momento, para um lugar que era

praticamente tão distante quanto aqueles para o qual partia qualquer uma daquelas pessoas. Havia, na gaiola –

tal como havia na mercearia anexa e na mercearia em Chalk Farm em que o Senhor Mudge trabalhava – uma

escala de férias; ela ficara sabendo, nesses dois meses, que em setembro ela teria nada menos que onze dias

para suas próprias férias. Grande parte de seus recentes intercursos com o Senhor Mudge tinha consistido em

falar das esperanças e temores de eles conseguirem as mesmas datas, esperanças e temores que eram

manifestadas principalmente por ele. Assim que esse prazer pareceu estar assegurado, as conversas se

ampliaram para uma série enorme de especulações sobre a escolha do onde e do como. Durante todo o mês de

julho, nos fins de tarde dos domingos e em qualquer outra oportunidade inesperada que pudesse ter surgido,

ele tinha sobrecarregado as conversas entre eles com as mais incríveis séries de conjecturas sobre as suas

férias. Estava praticamente estabelecido que eles deveriam juntar suas economias para viajar para algum ponto

da “costa sul” (uma frase cujo som, a ela, lhe agradava), juntamente com a mãe dela; mas, como ele não

parava de falar sobre isso, ela já estava começando a achar essa possibilidade um tanto cansativa e

desgastante. Esse tinha se tornado seu único tema de conversa e também o tema de suas mais solenes

ponderações e de seus mais insípidos gracejos. Qualquer menção a esse tema constituía, para ele, uma

oportunidade para retomá-lo e revê-lo. A mais minúscula flor de antegozo dessas planejadas férias era

arrancada assim que era plantada. Desde os primeiros dias, ele tinha anunciado e prontamente declarado –

caracterizando a coisa toda, a partir daquele momento, como os seus “planos”, um nome ao qual ele se referia

como um sindicato se refere a um empréstimo feito a um chinês ou a qualquer outro tipo de empréstimo – que

a questão deveria ser estudada profundamente, acumulando, sobre a questão, dia a dia, uma enorme

quantidade de informações, que estimulavam a curiosidade dela e até mesmo, e em um nível que não era

[32]

pequeno, como ela francamente fê-lo saber, seu desdém. Foi pensando no perigo que um outro par de

amantes vivia de forma tão arrebatadora que ela lhe perguntou, outra vez, por que ele não podia deixar nada

ao acaso. O que ela obteve, então, por resposta foi que essa previsão dos detalhes era precisamente aquilo de

que ele se orgulhava, e que ele, em seus cálculos, incluía todo tipo de comparações entre os possíveis locais

para as férias deles, opondo, por exemplo, Ramsgate a Bournemouth e até mesmo Boulogne a Jersey (pois ele

tinha grandes idéias), com a mesma capacidade para os detalhes que iria levá-lo, algum dia, à posição máxima

em sua profissão.

Quanto maior fosse o tempo que ela passava sem ver o Capitão Everard, mais ela estava decidida,

como ela dizia, a passar pelo edifício Park Chambers; e essa era a única diversão que nos arrastados dias de

agosto e em seus melancólicos e prolongados crepúsculos lhe restava cultivar. Desde há muito ela sabia que

não se tratava de uma grande diversão, embora essa, talvez, não fosse provavelmente a razão para que ela

dissesse para si mesma todo fim de tarde, quando se aproximava a hora de sua saída: “Não, não – não esta

noite”. Ela nunca deixava de fazer essa muda observação, assim como ela nunca tivera deixado de sentir, em

algum lugar mais profundo do que qualquer outro que ela tivesse algum dia explorado em toda sua extensão,

que nossas observações são tão frágeis quanto a palha e que, por mais que elas nos satisfaçam, digamos, às

oito horas, nosso destino infalivelmente se declarará completamente indiferente a elas às oito e quinze.

Observações são observações e não há nada a dizer sobre isso; mas o destino era o destino, e o destino de

nossa jovem amiga consistia em passar pelo edifício Park Chambers todas as noites, durante os dias de semana.

Da imensidão do conhecimento que ela tinha da vida do mundo surgia, nessas ocasiões, a lembrança específica

de que, naquela região, era considerado como um fato bastante agradável, simplesmente ser encontrado, nos

meses de agosto e setembro, por uma pessoa ou outra ao se passar pela cidade. Alguém sempre estava

passando e sempre se podia encontrar uma outra pessoa. Era por ter pleno conhecimento dessa sutil lei que ela

adotava o circuito mais ridículo que ela podia fazer para chegar até sua casa. Em uma certa sexta-feira, quente

e monótona, quando um acidente tinha feito com que ela começasse o seu dia na agência postal um pouco

mais tarde que o usual, ela se tornou consciente de que algo, cujas infinitas possibilidades tinham por tanto

tempo habitado seus sonhos, tinha prodigiosamente, por fim, lhe acontecido, embora as circunstâncias em que

isso tenha ocorrido tenham sido quase perfeitas demais para que esse acontecimento não pudesse ser

considerado senão como o produto evidente de um sonho. Ela viu, diretamente diante dela, como uma

paisagem pintada em um quadro, a rua vazia e as lâmpadas que bruxuleavam na escuridão, que ainda não era

completa. Foi na comodidade proporcionada por esse calmo crepúsculo que um cavalheiro, em pé nos degraus

de entrada do edifício Chambers, lançava, em direção à escuridão, um vago olhar, cuja obstinação em

desaparecer, fez tremer, enquanto ela se aproximava, a pequena figura de nossa jovem amiga. Tudo,

entretanto, transformou-se num grande e distinto clarão; suas antigas dúvidas abandonaram-na e, uma vez que

o destino era algo que ela conhecia tão bem, ela sentiu como se o próprio cravo que o fixava fosse martelado

pelo duro olhar com o qual, por um momento, o Capitão Everard a esperava.

O vestíbulo atrás dele estava aberto e o porteiro tão ausente quanto no dia em que ela tinha ficado

espiando. Ele tinha acabado de sair do edifício, justamente entediado com sua noite e sem saber o que fazer

com ela. Ele tinha voltado à cidade, mas estava no intervalo entre duas viagens. Trajava um terno de tweed e

portava um chapéu coco. Ela sentiu-se, então, feliz por nunca tê-lo encontrado daquela maneira: foi com

enorme arrebatamento que ela tirou proveito do fato de que ele não tinha como saber que ela passava por ali

tão freqüentemente. Em dois segundos ela chegou à conclusão de que ele devia até mesmo supor que era a

primeiríssima vez que ela fazia isso e pelo mais estranho acaso: isso lhe ocorria enquanto ela ainda se

perguntava se ele a identificaria ou a notaria. Seu olhar não tinha sido originalmente dirigido, ela o sabia

instintivamente, à nossa jovem amiga da agência postal, mas a qualquer jovem que pudesse contribuir para não

perturbar aquela calma atmosfera e, na verdade, aquele poético momento, com qualquer tipo de feiúra. Ah,

mas, naquele momento, e assim que ela tinha alcançado a porta, veio o segundo gesto de observação dele, um

[33]

longo e despreocupado olhar com o qual, de maneira visível e bastante divertida, ele lembrou-se dela e a situou.

Eles estavam em lados diferentes da rua, mas a rua, estreita e calma, não passava de um cenário para o

pequeno e momentâneo drama. Um drama que, além disso, não havia terminado, que estava longe de ter

terminado, mesmo quando ele enviou, através da distância, com a agradável risada que ela sempre tivera

ouvido, um pequeno aceno com seu chapéu e um “Ah, boa noite!”. Tampouco tinha terminado quando eles se

encontraram, no minuto seguinte, embora de maneira bastante indireta e constrangida, no meio da rua, uma

situação para a qual os três ou quatro passos que ela própria dera tinha, sem dúvida, contribuído e, depois,

quando eles se dirigiram não para o lado de onde ela tinha chegado, mas ao portal do edifício Park Chambers.

“Eu não a tinha reconhecido no começo. Você está dando um passeio?”.

“Ah, eu não dou passeios à noite! Estou indo para casa, depois de ter terminado meu trabalho”.

“Ah!”.

Essa foi praticamente a única coisa que eles, nesse pequeno intervalo, sorrindo, se falaram, e sua

exclamação à qual, por um minuto, ele parecia não ter nada a acrescentar, deixou-os face a face e em uma

atitude que, da parte dele, poderia se confundir com a atitude de quem estivesse se perguntando se seria

apropriado convidá-la a entrar. Durante esse intervalo, na verdade, ela realmente sentiu que a pergunta dele

era simplesmente “Em que medida isso seria apropriado?”. Tratava-se simplesmente de uma questão de grau.

[34]

15

Ela nunca soube, depois, o quê, exatamente, ela fez para resolver a situação e tudo o que ela sabia,

naquela ocasião, é que eles estavam agora se afastando, um tanto incertamente, mas sem parar, da paisagem

do iluminado vestíbulo e das calmas escadarias, indo, juntos, em direção à rua. Isso também se deu sem

qualquer permissão definida, sem qualquer coisa, aliás, que pudesse se expressar por simples palavras por

parte de qualquer um dos dois. E iria, mais tarde, constituir, para ela, pretexto para lembranças e reflexões o

fato de que o limite do que, nesse exato local, por um interminável minuto, tinha se passado entre eles, tinha

sido ultrapassado quando ele percebeu a total e bem-sucedida desaprovação que ela fazia – embora

transmitida sem arrogância e sem dizê-lo expressamente e sem tocá-lo – à idéia de que ela poderia ser, fora da

gaiola, a mesmíssima funcionária da agência postal (com a única diferença de que agora ela estava fora dela),

quando a teoria que ela cultivava era de que ela não era. Sim, era estranho, ela pensara mais tarde, que tanta

coisa tivesse se passado sem que, entretanto, a desejada e intensa pequena crise que se dera entre eles

tivesse sido manchada com insolências ou ressentimentos, nem com quaisquer dos sinais de discórdia típicos

dessa espécie de relação. Ele não tinha tomado, como ela diria, nenhum tipo de liberdade; e, por não ter tido

que impedir qualquer gesto de liberdade por parte dele, ela própria não tinha, de forma ainda mais

encantadora, sido obrigada a tomar nenhuma atitude desse tipo. Naquele exato momento, entretanto, ela não

podia senão especular se ele iria se sentir livre para continuar agindo com visível independência se a relação

dele com Lady Bradeen continuasse a ser o que a mente dela tinha imaginado ser. Essa era uma das questões

cuja resposta ele iria deixar a seu cargo – a questão de saber se pessoas do tipo dele ainda convidavam garotas

a ir até seu quarto quando elas estavam tão tremendamente apaixonadas por outras mulheres. Poderiam

pessoas do tipo dele tomar essa atitude sem se mostrarem “falsas ao seu amor”, que é como pessoas do tipo

dela chamariam essa espécie de atitude? Ela já podia imaginar que a resposta verdadeira era que, nesse casos,

pessoas do tipo dela não importavam – não contavam como infidelidade, contavam apenas como alguma outra

coisa. Essa era a sua curiosidade, uma vez que tudo se resumia a isso, em saber exatamente qual era a

resposta.

Passeando juntos, devagar, sob o crespúsculo de verão, pela deserta esquina de Mayfair, acabaram por

sair no lado oposto a um dos menores portões do Parque, momento no qual, sem qualquer palavra sobre o que

estavam por fazer – estavam falando de outras coisas –, eles cruzaram a rua e foram se sentar em um banco.

Ela nutria, nesse momento, uma enorme esperança – a esperança de que ele não diria nada vulgar. Ela sabia

muito bem o que ela queria dizer com isso; ela queria dizer algo que era bem diferente de qualquer coisa que

tivesse a ver com ele ser “falso”. Seu banco não estava longe do portão; estava perto da pouco importante

ruela que passava ao lado do parque e das luzes bruxuleantes e dos táxis e ônibus ruidosos. Ela foi acometida

de uma estranha emoção, e ela estava vivendo, na verdade, uma sensação atrás da outra; acima de tudo, ela

nutria um prazer consciente em submetê-lo a riscos que ela sabia que ele não assumiria. Ela tinha um intenso

desejo de que ele soubesse o tipo ao qual ela realmente se conformava sem ter que fazer nada tão vulgar

quanto dizer-lhe isso expressamente, e ele tinha certamente começado a perceber isso desde o momento em

que ele não se aproveitou das oportunidades que um homem não teria desperdiçado. Essas oportunidades

encontravam-se simplesmente na superfície, o que constituía um embaraço, mas a relação entre eles se situava

para muito além disso e em um nível muito mais profundo. Ao caminharem, ela tinha feito tão poucas perguntas

sobre o que eles estavam fazendo que tão logo eles se sentaram, ela foi direto ao ponto. As horas que ela

passava no posto, seu confinamento, as diversas características do trabalho que ela fazia lá, para não falar das

atividades postais do próprio Capitão, tinham constituído, até esse momento, o tema de sua conversa. “Bem,

aqui estamos, e está bem, mas não era, de forma alguma, você sabe, para onde eu estava indo”.

“Você estava indo para casa?”

“Sim, e eu já estava atrasada. Eu estava indo cear”.

“Você ainda não tinha ceado?”

[35]

“Não, na verdade, não!”

“Então você não comeu… ?”

Ele parecia, subitamente, tão extraordinariamente preocupado que ela riu alto. “O dia todo, você quer

dizer? Sim, nós nos alimentamos uma vez por dia. Mas isso foi há muito tempo. Agora, devo, pois, dizer-lhe

adeus”.

“Oh, minha querida!”, exclamou ele com uma entonação tão divertida, mas com um toque tão leve e

uma preocupação tão clara – uma confissão de impotência para resolver um caso como esse, em suma, tão

desamparado, que ela, imediatamente, ficou convencida de que ela tinha conseguido ter deixado claro qual era

a grande diferença. Ele olhou para ela com o mais gentil dos olhos, sem dizer, entretanto, o que ela sabia que

ele não diria. Ela sabia que ele não diria “Então, ceie comigo!”, mas a confirmação de sua previsão a fez sentirse

como se ela tivesse se banqueteado.

“Não estou nem um pouco com fome”, ela continuou.

“Ah, você tem que estar, e com muita fome!”, ele respondeu, mas se acomodou no banco como se,

afinal, isso não tivesse que interferir na maneira como ele planejara gastar sua noite. “Eu sempre quis muito ter

a oportunidade de agradecê-la pelos incômodos que lhe dou”.

“Sim, eu sei”, ela replicou, pronunciando as palavras com uma tal compreensão da situação que era

muito mais profunda do que se ela tivesse fingido que não tinha percebido sua alusão. Ela imediatamente sentiu

que ele se surpreendia, e até mesmo se confundia, com sua franca concordância; mas para ela própria, os

incômodos que ele tinha lhe dado só podiam estar todos lá, em seu colo, nesses fugazes minutos (eles

provavelmente nunca retornariam), como um pequeno tesouro todo feito de ouro puro. Ele certamente poderia

olhá-lo, manuseá-lo, pegar as peças. Entretanto, se ele entendia alguma coisa, ele devia entender tudo.

“Considero que você já me agradeceu bastante”. Ela estava tomada do horror de que ela parecesse estar

esperando por alguma espécie de recompensa. “É muitíssimo estranho que você devesse estar lá precisamente

naquele momento…!”.

“No momento em que você passou por minha casa?”.

“Sim; como você pode imaginar, não disponho de muito tempo livre. Havia um lugar ao qual eu devia ir

esta noite”.

“Percebo, percebo” – ele sabia já tanta coisa sobre o trabalho dela. “Deve ser um trabalho difícil – para

uma mulher.”

“De fato, é, mas eu não me queixo sobre isso, não mais que meus colegas – e você percebeu que eles

não são mulheres!”. Sua brincadeira era leve, mas intencionada. “A gente se acostuma com as coisas, e há

empregos que eu odiaria muito mais”. Ela tinha a nítida impressão de que, ao menos, não estava, de forma

alguma, aborrecendo-o. Queixar-se, fazer um relato das coisas ruins, era o que uma garçonete ou uma

vendedora fariam, e já era suficiente ficar lá sentada como se ela fosse uma delas.

“Se você tivesse um outro emprego”, ele observou após um momento, “nós nunca teríamos nos

conhecido”.

“É altamente provável – e certamente não da mesma forma”. Então, ainda com o monte de ouro em

seu colo e com o orgulho de tê-lo que se mostrava na maneira com que ela erguia sua cabeça, ela continuou

imóvel, limitando-se a sorrir para ele. A noite tinha, agora, avançado; as esparsas lâmpadas estavam rubras; o

Parque, inteiramente diante deles, estava cheio de uma vida obscura e ambígua; havia outros casais em outros

bancos, os quais era impossível não ver e, contudo, para os quais era impossível olhar. “Mas eu me afastei

muito do meu caminho, com você, apenas para mostrar-lhe que… que…” – com isso ela fez uma pausa; não

era, afinal, tão fácil de se expressar – “…que qualquer coisa que você possa ter pensado é inteiramente

verdadeiro”.

“Ah, eu tenho pensado muito!”, disse seu acompanhante, com uma risada. “Você se importará se eu

fumar?”.

[36]

“Por que eu me importaria? Você sempre fuma lá”.

“No seu local de trabalho? Ah, sim, mas aqui é diferente”.

“Não”, ela disse, enquanto ele acendia um cigarro, “é precisamente o que não é. É exatamente a

mesma coisa”.

“Bem, então, é porque ‘lá’ é tão maravilhoso!”.

“Então, você se deu conta de como é maravilhoso?”, ela replicou.

Ele sacudiu sua bela cabeça, em um protesto literal contra a dúvida dela. “Veja, é exatamente isso que

eu quero dizer com minha gratidão por todo o incômodo que você passa por mim. É como se você colocasse

nisso um interesse especial.”. Ela se limitou a olhar para ele a título de resposta, em um constrangimento tão

repentino e impulsivo – do qual ela estava bem consciente – que, enquanto ela permanecia em silêncio, ele

mostrou-se surpreso por sua expressão. “Você colocou nisso – não colocou? – um interesse especial?”.

“Ah, um interesse especial!”, ela disse, tremendo a voz, sentindo que a coisa toda – incluindo seu imediato

constrangimento – tomava, totalmente, conta dela, e desejando, naquele estado de pânico repentino, manter,

com maior razão, sua emoção sob controle. Ela manteve seu sorriso fixo por um momento e voltou seus olhos

para a escuridão povoada de pessoas e coisas, mas menos confusa agora, porque havia algo que a confundia

muito mais. O fato é que, com uma urgência que era enorme e inevitável, eles estavam, pois, juntos. Eles

estavam próximos, próximos, e tudo que ela tinha imaginado sobre essa situação tinha apenas se tornado mais

verdadeiro, mais apavorante e mais avassalador. Ela olhou diretamente para o outro lado, em silêncio, até que

ela percebeu que parecia, assim, uma idiota; então, para dizer algo, para dizer nada, ela tentou expressar um

som que acabou em uma torrente de lágrimas.

[37]

16

Suas lágrimas realmente ajudaram-na a disfarçar seus sentimentos, porque, ela tinha, em uma situação

tão pública, que se recobrar imediatamente. Elas tinham chegado e ido embora em poucos segundos. E,

imediatamente, ela encontrou uma explicação para as lágrimas. “É só porque estou cansada. É isso – é isso!”. E

então ela acrescentou de uma maneira um tanto incoerente: “Nunca mais devo vê-lo”.

“Ah, mas por que não?”. O simples tom no qual seu acompanhante fez essa pergunta satisfez de uma

vez por todas sua curiosidade quanto ao nível de imaginação que ela podia esperar dele. Ela não era,

obviamente, grande. Ela tinha se esgotado na conclusão a que ele já tinha chegado: a impressão de que a

modesta preocupação que ela mostrava por ele na agência postal era intencional. Mas uma deficiência desse

tipo não era, nele, nenhum defeito: ele não era obrigado a ter uma inteligência inferior – a ter recursos e

virtudes de segunda classe. Tinha sido como se ele quase realmente acreditasse que ela tinha chorado

simplesmente por estar cansada, e ele tinha, conseqüentemente, feito um apelo um tanto confuso – “Você

deveria realmente comer algo: você não gostaria de comer alguma coisa em algum lugar?” – pergunta à qual

ela não deu qualquer resposta, limitando-se a balançar a cabeça de uma forma tão enérgica que dava o assunto

por encerrado. “Por que não continuamos nos encontrando?”

“Quero dizer, encontrando-nos desta maneira – apenas desta maneira. Lá no meu lugar de trabalho não

significa nada para mim, e eu espero, naturalmente, que você continue aparecendo lá, com sua

correspondência, quando for de sua conveniência. Quero dizer, quer eu permaneça lá ou não, porque eu

provavelmente não permanecerei”.

“Você está indo para algum outro lugar? – ele perguntou com óbvia ansiedade.

“Sim, e para bem longe – para o outro extremo de Londres. Há toda uma série de razões que não posso

lhe revelar, mas está praticamente decidido. É melhor para mim, muito melhor; e eu só continuo a trabalhar na

agência postal por causa de você”.

“Por causa de mim?”.

Percebendo, na escuridão, que ele se ruborizava levemente, ela agora ficou se perguntando se ele não

sabia coisas demais. Sua resposta no momento era que ele sabia coisas demais; era uma resposta fácil de ser

dada, pois, para ela, a prova estava mais do que evidente no simples fato de ele estar ali. “Como nós não

deveremos nunca mais falar dessa maneira – nunca, nunca mais! –, eis do que se trata. Eu vou dizer; não me

importo o que você possa pensar; não importa; eu só quero ajudá-lo. Além disso, você é amável – você é

amável. Mas desde há muito que tenho pensado em deixar o emprego para sempre. Mas você tem vindo tantas

vezes à agência – durante certos períodos – e você tem tido tanta correspondência para despachar, e tem sido

tão agradável e interessante, que eu continuei no emprego e fiquei adiando minha saída. Mais de uma vez,

quando eu tinha quase decidido, você voltava outra vez e eu pensava ‘Ah, não!’. É a pura verdade!”. Ela tinha,

nesta altura, dominado tão completamente sua confusão que ela podia dar-se a liberdade de rir. “Era a isso que

eu me referia quando lhe disse há pouco que eu ‘sabia’. Eu estava perfeitamente consciente de que eu

suportava os incômodos por sua causa; e esse conhecimento era para mim, e parece que também para você,

como se houvesse algo – não sei como dizê-lo! – entre nós. Quero dizer algo incomum e bom e extremamente

bonito – algo que não é, de modo algum, feio ou vulgar”.

Ela podia perceber que, chegado a esse ponto, ela tinha produzido um grande efeito sobre ele; mas ela

teria dito mais que a verdade se, no mesmo instante, ela tivesse declarado que ela não devia ter, para, ele a

mínima importância: tanto mais que o efeito causado teria sido de extrema perplexidade. O que, tudo somado,

estava visivelmente claro para ele, entretanto, era que ele estava extremamente feliz de tê-la encontrado. Ela o

retinha e ele estava perplexo com a força com que ela o fazia; ele lhe dava toda a atenção e a tratava com todo

respeito. Seu cotovelo estava apoiado no encosto do banco, e sua cabeça – com o chapéu coco puxado

bastante para trás, de uma maneira um tanto juvenil, de tal modo que ela realmente viu quase que pela

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primeira vez sua fronte e seu cabelo – apoiava-se na mão na qual, de forma amarrotada, ele segurava suas

luvas.

Ela se conteve apenas por um instante antes de revelar-lhe toda a verdade. “Eu faço qualquer coisa por

você. Eu faço qualquer coisa por você”. Nunca, em sua vida, tinha ela conhecido algo tão elevado e tão nobre

quanto isso: simplesmente entregar-lhe tudo e corajosa e gloriosamente interromper-se. Não era verdade que o

lugar, as associações e as circunstâncias, faziam com que parecesse o que não era? E não era verdade que era

exatamente nisso que estava a beleza de tudo?

Assim, ela corajosa e gloriosamente deteve-se e, pouco a pouco, sentiu que ele hesitava entre

responder e calar-se, como se eles estivessem em um sofá de cetim em um boudoir. Ela nunca tinha visto um

boudoir, mas havia uma grande quantidade de boudoirs nos telegramas. O que ela tinha dito, de qualquer

forma, tocou-lhe profundamente, de modo tal que, após um minuto, ele simplesmente fez um movimento que

teve o resultado de colocar a mão dele sobre a dela – na verdade, nesse exato momento, o efeito foi o de ela

sentir sua mão sendo firmemente segurada. Não havia nenhuma pressão para que ela retornasse o gesto, não

havia nenhuma pressão para que ela retirasse a mão; ela simplesmente permaneceu sentada, admiravelmente

imobilizada, satisfeita, naquele momento, com a surpresa e a perplexidade da impressão que ela causara nele. A

agitação dele era, na verdade, considerada globalmente, maior do que a que ela tinha inicialmente imaginado.

“Escute, você não deve pensar em sair!”, ele, finalmente, deixou escapar.

“Sair da agência postal, você quer dizer?”.

“Sim, você deve permanecer lá, não importa o que aconteça, e ajudar um amigo”.

Ela ficou em silêncio por um momento, em parte porque era tão estranho e esquisito sentir-se vista por

ele como se isso realmente lhe importasse. E ele estava como que em suspense. “Então você tem percebido o

que eu tenho tentado fazer?”, ela perguntou.

“Claro, não foi exatamente para agradecer-lhe por isso que me afastei apressadamente de minha porta

há pouco?”.

“Sim; foi o que você disse”.

“E você não acredita nisso?”.

Ela, por um momento, baixou os olhos para a mão dele, que continuava a cobrir a sua; com isso, ele

imediatamente a retirou, cruzando, em vez disso, seus braços, com um certo desconforto. Sem responder a

pergunta dele, ela continou: “Você alguma vez falou sobre mim?”.

“Falar sobre você?”.

“Sobre o fato de eu estar lá, sobre o fato de eu saber, esse tipo de coisa”.

“Ah, nunca, a nenhuma criatura humana!”, ele rapidamente declarou.

Ela se surpreendeu um pouco com essa resposta, o que se expressou em outra pausa, mas em seguida

ela voltou ao que ele tinha acabado de lhe perguntar. “Ah, sim, eu realmente acredito que você gosta disso – do

fato de eu estar sempre lá e do fato de nós arranjarmos as coisas com tanta confiança e eficiência: se não

exatamente no ponto em que as deixamos”, ela deu uma risada, “quase sempre, ao menos, em um ponto

interessante!”. Ele estava a ponto de dizer algo em resposta a isso, mas ela foi mais rápida em sua admirável

graça. “Você deseja muitíssimas coisas em sua vida, muitíssimos confortos e criados e coisas luxuosas; você

deseja que tudo seja tão agradável quanto possível. Portanto, na medida em que está ao alcance de uma

pessoa em particular ajudá-lo a conquistar tudo isso…”. Ela tinha voltado o rosto para ele, sorrindo, e tinha

ficado só pensando.

“Ora, deixemos disso!”. Mas ele estava se divertindo bastante com a situação. “Bem, e então?”,

perguntou ele, como se para contentá-la.

“Bem, essa pessoa particular não deve falhar nunca. Nós devemos, de alguma forma, arranjar as coisas

para você”.

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Ele jogou a cabeça para trás, dando uma gargalhada; ele estava realmente feliz. “Ah, sim, de alguma

forma!”.

“Bem, acho que cada um de nós faz isso – não é verdade? – de uma maneira ou outra, ainda que

modestamente, e de acordo com nossas limitadas luzes. Estou contente, de qualquer forma, de tê-lo satisfeito;

pois posso assegurar-lhe que fiz o melhor que pude”.

“Você faz melhor do que qualquer outra pessoa”. Ele tinha acendido um fósforo para começar a fumar

outro cigarro, e a chama iluminou por um instante seu sensível e perfeito rosto, fazendo com que a amabilidade

com que ele lhe pagava seu tributo crescesse até se transformar em um agradável semblante. “Você é

extremamente inteligente, você sabe; mais inteligente, mais inteligente, mais inteligente…!”. Ele parecia estar a

ponto de fazer uma fantástica declaração; então, subitamente, dando baforadas com seu cigarro e se mexendo

quase com violência no assento, ele abandonou completamente o assunto.

[40]

17

A despeito dessa interrupção ou, talvez, precisamente em razão dela, ela sentiu como se Lady Bradeen

tivesse entrado totalmente na conversa, só faltando ser nomeada; e ela praticamente traiu essa compreensão

ao esperar um pouco, antes de acrescentar: “Mais inteligente do que quem?”.

“Bem, se eu não temesse que você pudesse pensar que eu estivesse exagerando eu diria – do que

qualquer outra pessoa! Se você deixar o seu emprego lá, para onde você irá?”, perguntou ele, mais seriamente.

“Ah, para algum lugar longe demais para que você possa algum dia me encontrar!”

“Eu a encontrarei em qualquer lugar”.

O tom dessa resposta era ainda mais sério, na medida em ela não tinha mais nada a oferecer senão sua

própria revelação. “Eu farei qualquer coisa por você – eu farei qualquer coisa por você”, ela repetiu. Ela sentiu

que já tinha dito tudo; assim, o que importava se ela dissesse qualquer coisa a mais ou qualquer coisa a

menos? Essa era a razão precisa, na verdade, pela qual ela podia, em um tom mais leve, tirar-lhe,

generosamente, a carga de qualquer constrangimento produzido pelo tom solene utilizado por ambos.

“Naturalmente, deve ser agradável para você ser capaz de pensar que está rodeado de pessoas que pensam

assim”.

Entretanto, como um gesto de reconhecimento imediato por ela ter dito isso, ele se limitou a fumar,

sem olhar para ela. “Mas você não pretende deixar seu atual emprego?, ele finalmente deixou escapar. “Quero

dizer, você continuará trabalhando na área de correios?”.

“Ah, sim; acho que tenho um certo dom para isso”.

“Certamente! Não há ninguém que possa chegar ao seu nível”. Ao dizer isso, ele se voltou ainda mais

para ela. “Mas você pode conseguir, ao se mudar, maiores vantagens?”

“Posso consegui-las nas agências mais baratas dos subúrbios. Eu vivo com minha mãe. Nós precisamos

de um espaço maior. Há um lugar em especial que tem outros atrativos”.

Ele hesitou por um momento. “Onde é que fica?”.

“Ah, bem fora de sua rota. Você jamais terá tempo para passar por lá”.

“Mas eu lhe afirmo que irei a qualquer lugar para onde você se mudar. Você não acredita nisso?”.

“Sim, você irá uma vez ou duas. Mas você logo verá que não lhe será conveniente”.

Ele fumou e ficou refletindo. Ele estirou-se um pouco e, com suas pernas estendidas, pareceu ter ficado

um pouco mais confortável. “Ora, ora, ora – eu acredito em tudo que você diz. Eu aceito inteiramente o que

você diz – qualquer coisa que você queira”. Ela certamente se deu conta – e quase que sem amargura – que a

maneira como ela estava se conduzindo, como se ela fosse uma velha amiga, arranjando e preparando para ele

a única ajuda que ela podia lhe dar, era uma das coisas mais extraordinárias. “Não deixe a agência, não deixe a

agência!”, ele logo continuou. “Eu vou sentir muitíssimo a sua falta!”

“Você acaba, assim, de me fazer um pedido explícito?” – ah, como ela tentou fazer com que aquilo não

soasse com a vulgaridade da barganha! Isso não deveria ser difícil para ela, pois o que é que ela estava

tentando conseguir? Antes que ele pudesse responder, ela continuou: “Para ser perfeitamente honesta, devo

dizer-lhe que vejo na agência do Senhor Cocker algumas fortes atrações. Todos vocês indo lá. Eu gosto de

todos os horrores”.

“Horrores?”.

“Todos vocês – você sabe a que classe me refiro, a sua classe – tratam-me como se eu não tivesse mais

sentimento que uma caixa de correio”.

Ele pareceu bastante comovido com a maneira como ela disse isso. “Ah, eles não sabem!”.

“Não sabem que não sou estúpida? Não, como é que eles saberiam?”.

“Sim, como eles saberiam?”, disse o Capitão de maneira compreensiva. “Mas a palavra ‘horrores’ não é

um tanto forte?”.

“O que você faz é bastante forte!”, a garota prontamente replicou.

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“O que eu faço?”.

“Sua extravagância, seu egoísmo, sua imoralidade, seus crimes”, ela continuou, sem prestar atenção à

sua expressão.

“ Que posso dizer?”, seu acompanhante mostrava o mais estranho dos olhares.

“Já lhe disse que gosto deles, eles me divertem. Mas não precisamos entrar nesses detalhes”, ela

calmamente continuou; “pois tudo que tiro disso é o inócuo prazer de saber. Eu sei, eu sei, eu sei!” – disse ela,

num suave sussurro.

“Sim; é disso que se trata entre nós”, ele respondeu de uma maneira muito mais simples.

Ela podia desfrutar da simplicidade dele em silêncio e por um momento ela o fez. “Se eu continuar na

agência porque você o quer – e eu bem que serei capaz disso – há duas ou três coisas que você deve

considerar. Uma é, você sabe, que eu fico, às vezes por dias e semanas a fio sem que você jamais apareça”.

“Ah, eu irei todos os dias!”, ele exclamou com sinceridade.

Ela estava a ponto, quando ele disse isso, de imitar com a mão o movimento que ele tinha feito há

pouco; mas se controlou a tempo. Entretanto, o que ela fez, em vez disso, e que era mais apaziguador, não

deixava de ter seu efeito. “Como você poderá fazer isso? Como poderá?”. Ele só tinha, muito visivelmente, de

refletir sobre isso, na penumbra vulgarmente animada do parque, para perceber que ele não poderia; e, nesse

momento, pela simples ação do silêncio, tudo o que eles tinham tão decididamente deixado de nomear, a plena

presença em torno da qual eles estiveram andando em círculos, tornou-se parte da referência deles,

solidamente instalada entre eles. Foi como se, então, por um minuto, eles tivessem se sentado e tivessem visto

tudo nos seus respectivos olhos, visto tantas coisas que não havia nenhuma necessidade de um pretexto para

dizê-lo, finalmente, de forma explícita. “O perigo que você corre, o perigo que você corre…!”. A voz dela, na

verdade, tremia ao dizer isso, e ela só podia, por enquanto, novamente, interromper-se por aí.

Durante esse momento, ele se inclinou para trás no banco, encontrando seus olhos em silêncio e com

uma expressão na face que se tornou ainda mais estranha. Tornou-se tão estranha que, após mais alguns

instantes, ela se pôs de pé. Ela ficou ali, em pé, como se a conversa deles tivesse terminado, e ele se limitou a

ficar sentado e a ficar olhando para ela. Foi como se agora – por causa da terceira pessoa que eles tinham

introduzido na conversa – eles tivessem que ser mais cuidadosos; de modo que o máximo que, finalmente, ele

pôde dizer foi: “É disso que se trata!”.

“É disso que se trata!”, a garota repetiu, de forma igualmente cautelosa. Ele permaneceu sentado, sem

se mexer, e ela acrescentou: “Não vou abandoná-lo. Adeus”.

“Adeus?”, apelou ele, mas sem se mover.

“Não vejo claramente o que vou fazer, mas eu não o abandonarei”, ela repetiu. “É isso. Adeus”.

Isso fez com que ele se levantasse com um movimento brusco, jogando fora seu cigarro. Seu desolado

rosto estava rubro. “Escute,escute!”.

“Não, não o abandonarei; mas agora devo deixá-lo”, ela continuou como se não o tivesse escutado.

“Escute, escute!”. Ele tentou tomar sua mão outra vez, sem se afastar do banco.

Mas aquilo tinha, definitivamente, decidido as coisas para ela: isso seria, afinal, tão ruim como se ele a

tivesse convidado para cear. “Você não deve me acompanhar – não, não!”.

Ele deixou-se cair de novo no banco, como se ela o tivesse empurrado. “Não posso acompanhá-la até

sua casa?”.

“Não, não; deixe-me ir”. Ele olhou quase como se ela o tivesse golpeado, mas ela não se importou; e a

maneira pela qual ela falou – era como se ela estivesse literalmente zangada – tinha a força de uma ordem.

“Fique onde você está”.

“Escute, escute aqui!”, apelou ele, apesar de tudo.

“Não vou abandoná-lo”, ela exclamou uma vez mais – essa vez com um tom algo apaixonado; ao dizer

isso, ela se afastou dele tão rapidamente quanto podia e deixou-o lá, a olhá-la, enquanto ela ia embora.

[42]

18

O Senhor Mudge tinha estado tão ocupado, ultimamente, com seus famosos “planos”, que tinha se

descuidado, por um momento, da questão da transferência dela. Mas em Bournemouth, que tinha sido

escolhido como o local de recreação do par, por um processo que consistiu exclusivamente, ao que parece, em

encher de inúmeros cálculos da mais pura aritmética as páginas de uma caderneta muito ensebada, mas

também muito ordenada, a preocupante possibilidade tinha se dissolvido – a fugaz realidade tomara conta da

cena. Os planos simplesmente se sucediam uns aos outros, a cada hora, e era um descanso para a garota,

sentada no cais, olhando o mar e as pessoas, vê-los desaparecem como fumaça e perceber que, de um

momento para o outro, havia cada vez menos cálculos a fazer. A semana, felizmente, mostrou-se maravilhosa, e

sua mãe – em parte, para seu constrangimento e, em parte, para seu alívio – fez, na casa em que tinham

alugado, um acordo com a proprietária que dava ao jovem casal um alto grau de liberdade. A mãe se

contentara em passar uma semana em Bournemouth numa sufocante e afastada cozinha e a falar

incansavelmente, o que fez com que até mesmo o Senhor Mudge, habitualmente inclinado, na verdade, a um

exame de todos os mistérios e a extrair, como ele próprio, às vezes, admitia, demasiadas conclusões das coisas,

fizesse comentários sobre esse fato, enquanto se sentava sobre as rochas com sua noiva, ou no convés de

barcos a vapor que os transportava, apertados como sardinha em lata, mas plenamente felizes, à Ilha de Wight

e ao litoral de Dorset.

Ele se alojava em outra casa, na qual ele tinha rapidamente aprendido a importância de conservar seus

olhos abertos, e não fazia nenhum segredo de que suspeitava de que sinistras e mútuas conivências podiam

surgir, sob o teto de suas acompanhantes, nascidas de relações sociais que poderiam ser chamadas de pouco

naturais. Ao mesmo tempo, ele reconhecia plenamente que, como uma fonte de ansiedade, para não dizer de

gastos, sua futura sogra os teria atrapalhado mais se acompanhasse os passos do casal, em vez de fazer à sua

anfitriã, no interesse da tendência que eles acreditavam nunca ter mencionado, sempre as mesmas promessas

com respeito às latinhas de chá e aos potes de geléia. Essas eram as questões – tratava-se, na verdade, das

conhecidas mercadorias – que ele tinha, agora, que colocar na balança; e sua noiva tinha, como conseqüência,

durante as férias, a estranha, mas agradável e quase lânguida sensação de um anticlímax. Ela tinha se tornado

consciente de um extraordinário colapso, uma rendição à tranqüilidade e à rememoração. Ela não tinha vontade

de passear nem de andar de barco; bastava-lhe sentar-se em bancos e ficar admirando o mar e sentindo o ar,

apreciando o fato de não ter que estar na agência postal e de não ter que ver o ajudante de balcão. Ela ainda

parecia esperar por algo – algo no tom das enormes discussões que tinham elevado sua breve semana de ócio à

escala de um mapa-múndi. Algo acabara por surgir, afinal, mas que não parecia muito adequado, talvez, para

coroar um tal monumento.

A preparação e a precaução eram, entretanto, os atributos naturais da mente do Senhor Mudge, e na

proporção em que essas coisas diminuíam em um lugar, elas, inevitavelmente, cresciam em outro. Ele sempre

podia, na pior das hipóteses, planejar, antecipadamente, na terça, tomar o barco para Swanage na quinta e, na

quinta, planejar a encomenda de rins picados para o sábado. Ele tinha, além disso, o persistente dom para

desenvolver uma inexorável pesquisa sobre para onde deveriam ter ido e o que deveriam ter feito se não

estivessem exatamente onde estavam. Ele tinha, em suma, seus recursos, e sua noiva nunca tivera, antes,

tanto consciência deles, como agora; por outro lado, eles nunca tinham interferido tão pouco com seus próprios

recursos. Ela gostava da situação em que estava agora – a única lástima era que ela sabia que isso não ia durar.

Ela podia até mesmo aceitar, sem amargura, uma economia tão rigorosa que a pequena quantia que eles

pagavam para ter ingresso no cais tinha que ser compensada com a renúncia a outros prazeres. As pessoas que

moravam nos edifícios Ladle’s e Thrupp’s tinham suas formas de diversão, enquanto ela tinha que ficar sentada,

ouvindo o Senhor Mudge falar de uma outra coisa que ele poderia estar fazendo se não tivesse ido se banhar ou

do banho que ele poderia ter tomado se não tivesse feito uma outra coisa. Agora, ele estava sempre com ela,

naturalmente, sempre ao lado dela; ela o via mais do que de hora em hora, mais do que nunca, mais até

[43]

mesmo do que ele tinha imaginado que a veria quando se mudassem para Chalk Farm. Ela preferia sentar-se na

ponta mais distante, longe da banda de música e da multidão; e sobre isso ela tinha freqüentes discussões com

seu amigo, que freqüentemente lhe lembrava que era só no meio do aglomerado humano que eles podiam ter a

sensação de que eles estavam recebendo algo em troca do dinheiro que tinham gasto. Isso tinha pouco efeito

sobre ela, pois ela considerava seu dinheiro bem gasto pelo simples fato de ver muitas coisas, de ver as coisas

do ano passado se juntarem e formarem uma conexão, de vê-las passar pelo feliz ostracismo que transforma a

melancolia e a infelicidade, a paixão e o esforço, em experiência e saber.

Agradava-lhe ter acabado com tudo isso, e procurava convencer a si mesma que ela praticamente tinha

feito isso, e a coisa estranha era que ela não sentia falta da aglomeração de pessoas na agência, nem queria,

agora, conservar o seu emprego com esse propósito. Tudo isso tinha se tornado lá, sob o sol e a brisa e o

cheiro de maresia, uma história distante, um quadro que pertencia a uma outra vida. O próprio Senhor Mudge

gostava de aglomerações de pessoas, ele gostava delas ali em Bournemouth e no cais, assim como em Chalk

Farm, ou em qualquer outro lugar, e ela aprendeu muito rapidamente a não se preocupar com o fato de que

ele estava constantemente contando as personagens que as formavam. Elas eram, em particular, mulheres

horríveis, geralmente gordas e com bonés masculinos e sapatos brancos, com as quais ele nunca deixava de se

preocupar – não que ela se importasse; não era um mundo maravilhoso, o mundo do estabelecimento do

Senhor Cocker’s e dos edifícios Ladle’s e Thrupp’s, mas oferecia um campo infindável para as capacidades de

memória, filosofia e lazer do Senhor Mudge. Ela nunca o tinha aceitado tanto, nunca tinha arranjado as coisas

de uma maneira tão perfeita para fazer com que ele ficasse falando o tempo todo, enquanto ela mantinha suas

conversas secretas. Esse intercâmbio separado era um intercâmbio com ela mesma; e se eles, ambos, faziam

uma estrita economia, a dela tinha consistido, sobretudo em dominar perfeitamente a economia de só utilizar as

palavras suficientes para mantê-lo imperturbável e continuamente falando.

Ele estava encantado com a paisagem, não se dando conta – ou, de qualquer maneira, não mostrando,

de forma alguma, de que ele se dava conta – de que outras imagens habitavam sua mente, bem diferentes das

imagens de mulheres com bonés de marinheiro e de vendedores com suas jaquetas. As observações que ele

fazia desses tipos, sua interpretação geral do espetáculo, tornoram-na consciente do que a esperava em Chalk

Farm. Ela pensava, às vezes, que sua tão limitada inteligência só poderia ter vindo do tipo de convivência que

ele tivera quando trabalhava no estabelecimento do Senhor Cocker. Mas uma noite, quando suas pouco

aventurosas férias já estavam chegando ao fim, ele lhe deu uma prova tal de suas qualidades que quase a fez

envergonhar-se de suas muitas evasivas. Ele revelou algo que, apesar de toda sua loquacidade, ele tinha sido

capaz de manter em silêncio até que outros problemas tivessem sido resolvidos. Tratava-se do anúncio de que

ele estava, finalmente, pronto para casar-se com ela – de que ele, agora, tinha uma idéia mais clara do futuro.

Tinham-lhe oferecido uma promoção em Chalk Farm; ele fora convidado a entrar como sócio, trazendo com ele

um capital, cuja avaliação por parte de outras pessoas constituía o melhor reconhecimento que já tinha sido

feito de que ele tinha a cabeça no lugar. Portanto, seu período de espera tinha acabado – agora era só uma

questão de data, a qual podia estar muito próxima. Eles acertariam essa data antes da volta, mas, nesse meio

tempo, ele tinha estado de olho numa boa e confortável casinha. Ele a levaria para vê-la no primeiro domingo

após a volta.

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19

Ter deixado essa grande notícia para o fim, ter uma carta como essa na manga e não tê-la deixado

escapar na torrente de sua tagarelice e nos prazeres de seu lazer, era um daqueles imprevisíveis golpes com os

quais ele ainda podia afetá-la. Era o tipo de coisa que a fazia lembrar-se da força latente que tinha feito com

que ele tivesse colocado para fora o soldado bêbado, naquela ocasião, na agência postal – um exemplo da

inteligência de que a promoção que ele obtivera era a prova. Ela escutou um pouco, em silêncio, desta vez, aos

sons da música que estava no ar; compreendeu de uma forma que não tinha antes compreendido que o futuro

dela estava agora decidido. Seu destino era, sem dúvida, o Senhor Mudge; entretanto, neste momento, ela

afastou bastante seu rosto dele, mostrando-lhe, por um longo tempo, não mais que uma pequena parte de seu

perfil, mas, por fim, ela ouviu, outra vez, a voz dele. Ele não podia ver um par de lágrimas, que constituíam, em

parte, a razão do atraso dela em lhe fornecer a confirmação que ele pedia. Mas ele alimentava a eventual

esperança de que ela já estivesse cheia do estabelecimento do Senhor Cocker.

Ela conseguiu, finalmente, voltar-se para ele. “Ah, claro. Não há nada acontecendo. Não aparece

ninguém a não ser os americanos que estão em Thrupp’s, e eles não escrevem muito. Eles parecem não ter

nenhum segredo na vida”.

“Então, aquela extraordinária razão que você me deu para permanecer lá não existe mais?”

Ela pensou por um momento. “Sim, essa. Agora vejo as coisas claramente – já está tudo sob controle”.

“Assim, você está pronta para vir?”.

Por um momento ela não deu, outra vez, qualquer resposta. “Não, ainda não, de qualquer maneira.

Ainda tenho uma razão – uma razão diferente”.

Ele a olhou de cima a baixo como se tivesse sido algo que ela conservasse em sua boca ou em sua luva

ou sob seu casaco – até mesmo algo sobre o qual ela estava sentada. “Bem, estou escutando, por favor”.

“Saí uma noite dessas e fiquei sentada no Parque com um cavalheiro”, ela disse, finalmente.

Não havia nada que se igualasse à confiança que ele depositava nela; e ela refletiu um pouco, agora,

por que isso não a irritava. Ela sentia que isso apenas deixava-a à vontade e dava-lhe a oportunidade para

contar-lhe toda a verdade que ninguém sabia. Ocorreu-lhe, neste momento, que ela realmente desejava fazer

isso, mas de maneira alguma pelo Senhor Mudge, mas única e exclusivamente por ela mesma. Essa verdade

intensificava, para ela, naquele momento, toda a experiência que ela estava a ponto de abdicar, cobrindo-a e

colorindo-a como uma imagem que ela devia guardar e que, não importando como ela a descrevesse, ninguém

mais, a não ser ela, podia realmente vê-la. Além disso, ela não tinha absolutamente nenhum desejo de provocar

ciúmes no Senhor Mudge; não haveria nenhum prazer nisso, pois o prazer que ela tinha conhecido ultimamente

tinha-a tornado insensível a prazeres inferiores. Nem sequer havia fundamento para isso. O estranho era como

ela nunca tinha duvidado de que, dependendo de como fosse tratada, a paixão dele era envenenável; o que

acontecia era que ele tinha, astuciosamente, escolhido uma companheira que não tinha qualquer veneno para

distilar. Ela tinha percebido, aqui e ali, observando-o, que ela não deveria nunca se interessar por ninguém que

tivesse algum outro tipo de sensibilidade, que tivesse uma certa visão superior, que pudesse, com toda certeza,

causar-lhe ciúmes. “E o que você conseguiu com isso?”, ele perguntou com um interesse que não lhe fazia a

mínima justiça.

“Nada a não ser a oportunidade de prometer-lhe que eu não iria abandoná-lo. Ele é um de meus

clientes.”

“Então, isso significa que é ele que não deve abandonar você”.

“Bem, ele não o fará. Está tudo bem. Mas eu devo continuar trabalhando lá pelo tempo que ele precisar

de mim”.

“Ele quer sentar-se com você no Parque?”.

“Ele pode querer que eu faça isso – mas eu não o farei. Eu gostei bastante de fazê-lo, mas apenas uma

vez, dadas as circunstâncias, é suficiente. Posso servi-lo melhor de uma outra maneira”.

[45]

“E de que maneira, posso saber?”

“Bem, em outro local”.

“Outro local? Que posso dizer?”

Essa ejaculação tinha sido usada também pelo Capitão Everard, mas, ah, com que som diferente! “Você

não precisa ‘dizer’ nada – não há nada a dizer. Mas você deveria, talvez, saber”.

“Certamente que devo. Mas o quê – até agora?”.

“Bem, exatamente aquilo que eu lhe disse. Que eu faria qualquer coisa por ele”.

“O que você quer dizer com ‘qualquer coisa’?”.

“Tudo.”

A reação imediata do Senhor Mudge a essa frase foi a de tirar de seu bolso um papel amassado

contendo os restos de um quarto de quilo de algo que ele tinha qualificado como “gastos extras”. Esses “gastos

extras” tinham figurado ostensivamente nos planos que ele tinha traçado para a excursão, mas fora somente ao

final dos três dias que eles se tornaram inteiramente definidos como estando destinados à compra de bombons.

“Quer outro? Esse”, ele disse. Ela pegou outro, mas não o que ele indicara, e então continuou: “O que

aconteceu depois?”.

“Depois?”.

“O que você fez quando você lhe disse que você faria qualquer coisa?”

“Eu simplesmente fui embora”.

“Do Parque?”.

“Sim, eu o deixei lá. Não permiti que ele me seguisse”.

“Então o que você deixou que ele fizesse?”

“Não deixei-o fazer nada”.

O Senhor Mudge refletiu por um instante. “Então para quê você foi lá?”. O seu tom era ligeiramente

crítico.

“Naquele momento, eu não sabia exatamente. Era simplesmente para estar com ele, suponho – apenas

uma vez. Ele está correndo um certo perigo, e eu queria que ele soubesse que eu sei. Isso faz com que

encontrá-lo na agência postal, uma vez que é por isso que quero permanecer lá, fique mais interessante”.

“Faz ficar muitíssimo interessante para mim!”, declarou voluntariamente o Senhor Mudge. “Mas ele não

seguiu você?, perguntou ele. “ Eu a seguiria”.

“Sim, claro. Foi assim que você começou, você sabe. Você é terrivelmente inferior a ele”.

“Bem, minha querida, você não é inferior a ninguém. Você tem uma desfaçatez! Qual é o perigo que ele

corre?”.

“De ser descoberto. Ele está apaixonado por uma dama, o que não está certo, e eu descobri”.

“Se fosse comigo eu estaria bem preocupado!”, brincou o Senhor Mudge. “Você quer dizer que ela tem

um marido?”.

“Não interessa o que ela tem! Eles estão correndo um tremendo risco, mas ele está em pior situação,

porque ele corre perigo também da parte dela”.

“Como eu corro perigo da parte de você – a mulher que eu amo? Se tem os mesmos temores que

eu…”.

“Os dele são maiores. Ele tem medo não apenas da dama – ele tem medo de outras coisas também”.

O Senhor Mudge pegou um outro bombom. “Bem, eu só tenho medo de uma! Mas de que maneira, por

amor de Deus, você pode ajudar essa pessoa?”.

“Não sei, talvez não possa ajudá-lo de forma alguma. Mas desde que haja alguma chance…!”.

“Você não vai sair da agência?”.

“Não, você vai ter que esperar por mim”.

O Senhor Mudge saboreou o que estava em sua boca. “E o que ele vai lhe dar?”.

[46]

“Dar-me?”.

“Se você o ajudar”.

“Nada. Nada, absolutamente nada”.

“Então o que ele vai me dar?”, perguntou o Senhor Mudge. “Quero dizer, pelo fato de eu ter que ficar

esperando”.

A garota pensou por um instante e depois levantou-se e começou a andar. “Ele nunca ouviu falar de

você”, replicou ela.

“Você nunca me mencionou?”.

“Nós nunca mencionamos nada. O que eu lhe disse foi só o que descobri”.

O Senhor Mudge, que tinha ficado no banco, levantou o olhar para ela; ela freqüentemente preferia

ficar parada num lugar quando ele propunha caminhar, mas agora que ele parecia querer permanecer sentado,

ela tinha vontade de andar. “Mas você não me disse o que ele descobriu”.

Ela examinou seu noivo. “Ele nunca encontraria você, meu querido!”.

Seu noivo, ainda sentado, comoveu-a de uma forma que se parecia com aquela com que ela tinha

finalmente deixado o Capitão Everard, mas a impressão não era a mesma. “Então, onde eu entro nessa

história?”.

“Você simplesmente não entra. Aí é que está a beleza de tudo! – e, ao dizer isso, ela se voltou para se

misturar à multidão que se juntava em torno da banda. O Senhor Mudge imediatamente alcançou-a e tomou o

braço dela no seu, com uma força tão tranqüila que expressava a serenidade de sua posse; em consonância

com isso, foi somente quando eles se despediram, por essa noite, à frente da porta de onde ela estava alojada,

que ele se referiu outra vez ao que ela lhe tinha dito.

“Você o viu depois disso?”.

“Depois da noite no Parque? Não, nem mais uma vez”.

“Oh, que sujeito grosseiro!”, disse o Senhor Mudge.

[47]

20

Foi só no final de outubro que ela viu o Capitão Everard outra vez, e naquela ocasião – a única de toda

a série na qual a dificuldade tinha sido tão extrema – qualquer comunicação com ele mostrou-se impossível. Ela

tinha adivinhado, mesmo permanecendo dentro da gaiola, que lá fora o dia era dourado e atrativo: uma franja

esbatida de luz solar outonal deixava um rastro no chão arenoso e, num nível um pouco mais alto, reavivavam o

brilho dos enfileirados vidros de um xarope de cor avermelhada. O trabalho estava folgado e o lugar, em geral,

vazio; a cidade, como eles diziam na gaiola, ainda não tinha acordado, e a sensação que ela tinha do dia ligavase

a algo que, em condições mais felizes, ela teria qualificado, romanticamente, como o verão de Saint Martin. O

ajudante de balcão tinha saído para comer; ela própria estava ocupada com uma pilha de serviços postais

atrasados, em meio aos quais ela se tornou consciente de que o Capitão Everard tinha estado na agência por

um minuto e de que o Senhor Buckton já o estava atendendo.

Ele tinha, como sempre, uma dúzia de telegramas; e quando ele viu que ela o tinha visto e os seus

olhos se encontraram, ele deu, ao acenar-lhe com a cabeça, uma risada exagerada na qual ela leu uma nova

consciência. Era uma confissão de embaraço; ele parecia dizer-lhe que, naturalmente, ele sabia que deveria ter

usado a cabeça, que ele deveria ter sido inteligente o suficiente para esperar, com base em algum pretexto, até

que ela estivesse disponível para atendê-lo. O Senhor Buckton ficou por um bom tempo com ele, e a atenção

dela foi logo exigida por outros clientes; de modo que nada se passou entre eles a não ser a plenitude de seu

silêncio. Um dos olhares que ela obteve dele era sua saudação, e o outro olhar, um simples sinal com os olhos

que ele lhe enviou antes de ir embora. O único sinal que eles trocaram, portanto, foi a tácita aceitação, por

parte dele, da vontade da jovem de que, já que eles não podiam falar abertamente, era melhor eles não

tentarem nada. Isso era o que ela mais queria; ela podia ser tão controlada e tão fria quanto qualquer outra

pessoa, quando essa era a única solução possível.

Entretanto, mais que qualquer contato até então mantido, ela sentia que esses instantes contados

marcavam uma nova etapa: eles se apoiavam – através da simples e rápida troca de olhar entre eles – no

reconhecimento, por parte dele, de que ele agora certamente sabia o que é que ela faria por ele. A expressão

“qualquer coisa, qualquer coisa” que ela havia pronunciado no parque ia e vinha entre eles e passava por sob a

fileira de queixos que se interpunham entre os dois. Isso tudo tinha, finalmente, até mesmo adquirido a

aparência de que eles não precisavam agora executar desajeitadas manobras para conversar: as transações

postais que antigamente fingiam fazer, as intensas implicações das perguntas e das respostas que trocavam

entre eles, além dos trocos de dinheiro que ela tinha que fazer, tinham-se tornado, à luz do fato pessoal de que

eles tinham tido o seu momento, uma possibilidade comparativamente pobre. Era como se fosse o encontro

definitivo – tão prodigiosa era a influência que isso exercia sobre seus futuros encontros. Quando ela observava

a si mesma, ao lembrar aquela noite, afastando-se dele como se ela estive terminando um caso, ela achava algo

muito deplorável na afetação daquela sua maneira de andar. Não tinha ela precisamente decidido que cada um

deles tinha um conhecimento de coisas que só podia terminar com a morte?

Deve-se admitir que, apesar dessa corajosa auto-confissão, depois que ele foi embora, ela continuava

com uma certa irritação; um sentimento que imediatamente fundiu-se com um ódio ainda mais agudo em

relação ao Senhor Buckton, o qual, com a saída do amigo dela, tinha-se dirigido, com os telegramas, ao

receptor telegráfico, deixando-a com os outros trabalhos. Ela sabia, na verdade, que ela encontraria uma

maneira de vê-los, o que aconteceria assim que eles fossem arquivados; e ela estava dividida, à medida que o

dia passava, entre as duas impressões: a de tudo que tinha se perdido e a de tudo que tinha sido re-afirmado.

O que a invadia, acima de tudo, e como se ela nunca tivesse antes sabido, era o desejo de ir para fora

imediatamente, de agarrar a tarde de outono antes que ela fosse embora para sempre e correr para o Parque e

talvez estar com ele, outra vez, em um banco. Durante uma hora inteira, ela teve a fantástica visão de que ele

poderia ter saído precisamente para ficar lá sentado, esperando por ela. Ela podia praticamente ouvi-lo, através

do pulsar do receptor telegráfico, remexendo, impacientemente, com sua bengala, as folhas que outubro fizera

[48]

cair. Por que uma tal visão tinha tomado conta dela, nesse momento específico, com toda essa força? Houve

uma hora – das quatro às cinco – na qual ela poderia ter chorado de felicidade e de raiva.

O trabalho parecia ter se tornado mais acelerado perto das cinco, como se a cidade tivesse acordado;

ela tinha, portanto, mais coisas a fazer e foi com movimentos ligeiros e bruscos para colar os selos que ela

conseguiu fazer com que o tempo passasse. Ela despachava bastante rapidamente os vales-postais, enquanto

murmurava para si mesma: “É o último dia – o último dia!”. O último dia de quê? Ela não saberia dizê-lo. Tudo o

que ela sabia era que se ela estivesse fora da gaiola, ela não teria se importado, desta vez, de que ainda não

estivesse escurecendo. Ela teria ido direto para o edifício Park Chambers e teria ficado por ali até não

importasse quando. Ela teria esperado, não teria ido embora, teria tocado a campainha, teria perguntado, teria

entrado, teria sentado nas escadarias. Seria o último dia de quê? Para sua interna e extenuada sensação, seria,

provavelmente, o último dos dias dourados, a última oportunidade de ver o esbatido brilho do sol inclinar-se

naquele exato ângulo na malcheirosa loja, a última de uma série de oportunidades de que ele ainda tivesse o

desejo de repetir-lhe as duas palavras que ela mal tinha, no Parque, permitido que ele expressasse. “Escute,

escute!” – o som dessas duas palavras tinha estado constantemente com ela; mas estava em seus ouvidos,

hoje, sem misericórdia, com uma intensidade que crescia cada vez mais. O que era, pois, que elas

expressavam? O que é que ele queria que ela visse? Ela parecia vê-lo perfeitamente agora, seja lá o que isso

fosse – ver que se ela simplesmente deixasse a coisa toda de lado, se ela tivesse tido uma bela e grande

coragem, ele a teria, de alguma forma, compensado por tudo. Quando o relógio bateu as cinco horas, ela

estava a ponto de dizer ao Senhor Buckton que ela estava gravemente doente e que estava rapidamente

piorando. Esse anúncio estava em seus lábios e ela tinha praticamente ensaiado o rosto preocupado que faria

ao anunciar-lhe: “Não posso ficar, tenho que ir para casa. Se eu me sentir melhor, mais tarde, eu voltarei. Sinto

muito, mas tenho que sair”. Nesse instante, o Capitão Everard estava de novo lá, produzindo em seu agitado

espírito, com sua real presença, a mais rápida das revoluções. Ele a fez deter-se sem que ele tivesse consciência

disso, e durante o minuto que ele permaneceu no posto, ela se sentiu salva.

Foi assim, desde o primeiro minuto, que ela viu aquilo. Havia, de novo, outras pessoas com as quais ela

estava ocupada e, outra vez, a situação só podia expressar-se por seu silêncio. Expressou-se, na verdade, em

uma frase mais longa do que qualquer outra dita até aquele momento, pois seus olhos falavam-lhe agora com

uma espécie de súplica. “Fique quieto, fique quieto!”, eles imploravam; e eles viram também qual era a resposta

dele: “Farei o que você quiser, nem mesmo olharei para você – percebe, percebe?”. E assim continuaram se

transmitindo a mensagem, com a mais amável liberalidade, de que eles não se olhariam, de que, eles,

certamente, não se olhariam. O que ela viu foi que ele se virou para a outra ponta do balcão, a ponta do Senhor

Buckton, resignando-se, de novo, àquela frustração. Essa logo mostrou-se, na verdade, ser tão grande, que o

que ela viu, além disso, foi que ele desistiu antes de ser atendido e ficou por ali, esperando, fumando, olhando

em volta da agência; que ele se dirigiu para o balcão do próprio Senhor Cocker e parecia perguntar pelos preços

das coisas, fazendo, na verdade, imediatamente, duas ou três encomendas e colocando uma certa soma de

dinheiro em cima do balcão. Ele ficou lá por um longo tempo, com suas costas voltadas para ela, abstendo-se,

respeitosamente, de qualquer olhar para os lados para ver se ela estava livre. O que, afinal, acabou

acontecendo, em conseqüência disso, foi que ele permaneceu na agência por muito mais tempo do que em

qualquer outra ocasião que ela se lembrasse e que, apesar disso, quando ele se voltou, ela pôde vê-lo fazendo

cálculos – ela começava a se ocupar de um novo cliente – e ir direto para o atendente que era subordinado a

ela, o qual tinha acabado de despachar uma outra pessoa. Em todo esse tempo, ele não tinha nem cartas nem

telegramas na mão, e agora que ele estava perto dela – pois ela estava perto do ajudante de balcão –, saltoulhe

para fora o coração só de vê-lo olhar para seu vizinho e abrir seus lábios. Ela estava demasiadamente

nervosa para suportar isso. Ele pediu um Guia Postal e o jovem atendente passou-lhe um novo. Em resposta,

ele disse que não queria comprar, mas apenas consultar um Guia por um momento. Quando o atendente lhe

passou um Guia destinado ao empréstimo, ele, mais uma vez, afastou-se do balcão.

[49]

O que é que ele estava fazendo com ela? O que ele queria dela? Bem, aquilo não era mais do que uma

forma intensificada de seu “Escute!”. Ela sentiu-se, nesse momento, estranha e imensamente temerosa dele –

em seus ouvidos zumbia a sensação de que, se fosse para sofrer aquele tipo de tensão, ela deveria fugir

imediatamente para Chalk Farm. Misturada com seu temor e com sua reflexão estava a idéia de que, se ele a

queria tanto quanto ele parecia demonstrar, poderia ser, afinal, simples para ela fazer para ele aquela “qualquer

coisa” que ela tinha prometido, aquela “qualquer coisa” que ela pensou que poderia confessar, de maneira tão

refinada, ao Senhor Mudge. Querer que ela o ajudasse poderia ter alguma atração particular para ele; embora,

na verdade, sua atitude não denotasse isso – ela denotava, ao contrário, um constrangimento, uma indecisão,

algo de um desejo não tanto para ser ajudado quanto para ser tratado de uma forma um pouco mais amável do

que da forma como ela o tinha tratado da outra vez. Sim, ele considerava muito provavelmente que ela tinha

ajuda a oferecer em vez de ajuda a pedir. Mesmo assim, quando ele viu que ela estava outra vez livre, ele

continuou a se manter afastado dela; quando ele voltou com seu “Guia” usado, foi ao Senhor Buckton que ele

se dirigiu – foi do Senhor Buckton que ele obteve uma quantidade de selos equivalente ao valor de meia coroa.

Depois de solicitar os selos ele pediu, quase como que pensando melhor, uma ordem postal no valor de

dez xelins. Para que quereria ele tantos selos quando ele escrevia tão poucas cartas? Como poderia ele anexar

uma ordem postal a um telegrama? Ela esperava que a próxima coisa que ele faria seria ir até um canto e

redigir um de seus telegramas – uma meia dúzia deles – com o objetivo de prolongar sua permanência no

posto. Ela tinha deixado de olhá-lo de uma forma tão completa que ela não podia mais do que adivinhar seus

movimentos – adivinhar até mesmo a quais lugares seus olhos se dirigiam. Finalmente, ela o viu fazer um

movimento súbito em direção ao canto onde estavam pendurados os formulários; nesse momento, ela

subitamente sentiu que ela não podia mais acompanhar o que ele fazia. O ajudante de balcão acabara de

receber um telegrama de uma criada e, para ter algo com que disfarçar a situação, a nossa jovem amiga

arrancou-o de suas mãos. O gesto foi tão violento que ele lhe deu, em troca, um estranho olhar, e ela também

percebeu que o Senhor Buckton havia notado. Esse último personagem, com um rápido olhar dirigido a ela,

pareceu, por um instante, perguntar-se se ela teria gostado se ele tivesse feito isso com ela e ela se antecipou a

essa velada crítica, dirigindo-lhe o olhar mais direto que ela jamais lhe dera. Foi o suficiente: desta vez, ele ficou

paralisado, e ela buscou, com seu troféu, o refúgio do receptor telegráfico.

[50]

21

A cena se repetiu no dia seguinte; continuou assim por três dias; e no final desse período, ela sabia qual

deveria ser sua atitude. Quando, no primeiro dia, ela tinha saído de seu abrigo temporário, o Capitão Everard

tinha deixado a agência postal e não havia voltado naquele final de tarde, como ela tinha pensado que poderia

acontecer – o que seria ainda mais fácil, uma vez que havia inúmeras pessoas que passavam inúmeras vezes

por ali, de manhã à tarde, de modo que ele não teria necessariamente atraído a atenção. O segundo dia foi

diferente e, entretanto, em geral, pior. Seu acesso a ela tinha se tornado possível – ela já se sentia colhendo o

fruto do olhar que ela dirigira, no dia anterior, ao Senhor Buckton. Mas o fato de atendê-lo não simplificou as

coisas: pelo contrário, apesar do rigor das circunstâncias, serviu para reforçar sua nova convicção. O rigor era

enorme, e seus telegramas—e agora eles eram meros pretextos para chegar até ela – eram aparentemente

genuínos. Não foi preciso, entretanto, mais do que uma noite para que essa convicção, que podia se expressar

de uma maneira muito simples, se desenvolvesse. Ela teve um vislumbre dela, no dia anterior, ao deduzir que

ele não precisava de mais nenhuma outra ajuda por parte dela do que aquela que ela já lhe tinha dado e de que

era ele quem estava disposto a ajudá-la. Ele tinha chegado à cidade, mas para permanecer ali apenas três ou

quatro dias; ele tinha sido absolutamente obrigado a estar ausente depois da outra vez. Entretanto, ele podia,

agora que eles estavam frente a frente, permanecer por tanto tempo quanto ela desejasse. Isso foi se

esclarecendo aos poucos, mas desde o primeiro momento de sua reaparição, ela tinha percebido qual era o seu

real significado.

Foi isso que a fez, na noite anterior, às oito horas, que era a sua hora de saída, atrasar-se de propósito

e ficar por ali, sem fazer nada. Ela terminou alguns trabalhos ou fez de conta que os terminava; estar na gaiola

tornou-se subitamente sua segurança, e ela estava literalmente temerosa do seu alter-ego, que podia estar

esperando do lado de fora. Ele poderia estar esperando; era ele que era seu alter-ego e era dele que ela estava

temerosa. Ela tinha se transformado da maneira mais extraordinária desde o momento em que teve a

impressão de que ele parecia ter retornado de propósito para encontrar-se com ela. Um pouco antes de sair da

agência, naquela magnífica tarde, ela tinha imaginado a si própria aproximando-se, sem qualquer escrúpulo, do

porteiro do edifício Park Chambers; mas, depois, por efeito da força de uma consciência bastante alterada, ela

tinha, finalmente, ao deixar a agência postal, ido diretamente para casa, o que acontecia pela primeira vez

desde seu retorno de Bournemouth. Ela tinha passado pela porta do edifício dele todas as noites, durante

semanas, mas nada a levaria a passar por ela agora. Essa mudança era o preço que ela pagava por seu medo –

o resultado de uma mudança nele próprio, sobre a qual ela não precisava de nenhuma outra explicação senão

aquela que a simples expressão de seu rosto lhe fornecia de forma tão viva. Era estranho, entretanto, encontrar

um elemento de dissuasão no objeto que ela via como o mais belo que havia no mundo. Ele tinha

compreendido, naquela noite, no Parque, que ela não queria que ele a convidasse para cear; mas, desta vez,

ele tinha posto a lição de lado – ele praticamente a convidava para cear cada vez que ele olhava para ela. Foi

isso, aliás, que, em geral, preencheu os três dias. Ele veio à agência duas vezes, em cada um desses dias, e foi

como se ele viesse para dar-lhe uma oportunidade de ceder. Isso era, afinal, como ela dizia para si mesma nos

intervalos, tudo o que ele fazia. Havia outros momentos, ela o reconhecia plenamente, nos quais ele a poupava,

e outros momentos particulares em que o silêncio dela parecia estar, a ele, pleno de angustiadas súplicas. O

mais importante de tudo era ele não estar do lado de fora, na esquina, quando ela deixava a agência à noite.

Isso ele poderia tão facilmente fazê-lo – tão facilmente se ele não tivesse sido tão amável. Ela continuava a

reconhecer na paciência dele o fruto de suas mudas súplicas, e a única compensação que ela encontrou para

isso foi a inofensiva liberdade de ele parecer ser capaz de dizer: “Sim, estou na cidade apenas por três ou

quatro dias, mas, você sabe, eu permaneceria por mais tempo”. Ela tinha a impressão de que ele chamava a

atenção dela, a cada dia, a cada hora, sobre o rápido transcorrer do tempo; ele chegava a exagerar, ao ponto

de parecer sugerir que restavam apenas dois dias, de que restava, finalmente, de uma maneira aterradora,

apenas um.

[51]

Havia outras coisas com as quais ele a atingia com uma intenção especial; quanto à mais evidente delas

– a menos, na verdade, que ela fosse a mais obscura –, ela poderia ter-se perfeitamente surpreendido que ela

não lhe parecesse mais horrível. Era uma das duas coisas: ou o frenesi de sua imaginação ou a desordem da

confusa paixão do Capitão que lhe deu uma ou duas vez a impressão de que ele colocava sobre o balcão algum

dinheiro a mais – libras de ouro que nada tinham a ver com os pagamentos que ele estava constantemente

fazendo –, de modo a que ela pudesse dar-lhe algum sinal de que ela o ajudaria a fazê-las escorregar para ela.

O que era mais extraordinário nessa impressão era a quantidade de excusas que, com alguma incoerência, ela

encontrava para sua atitude. Ele a queria pagar porque não havia nada pelo qual pagá-la. Ele queria lhe

oferecer coisas que ele sabia que ela não aceitaria. Ele queria mostrar-lhe quanto ele a respeitava ao dar-lhe a

suprema oportunidade de mostrar a ele que ela era respeitável. De qualquer maneira, em meio às mais áridas

transações postais, foi pelos olhos que os dois se comunicaram. No terceiro dia, ele ia entregar um telegrama

que evidentemente tinha algo da mesma intenção das libras de ouro deixadas ao acaso em cima do balcão –

uma mensagem que era, em primeiro lugar, forjada e que, pensando melhor, ele retirou das mãos dela antes

que ela pudesse selá-lo. Ele tinha-lhe dado tempo para que ela o lesse e então deu a impressão de que tinha

pensado melhor e que tinha preferido não enviá-lo. Se não era para Lady Bradeen, em Twindle – local no qual

ela sabia que a amante do capitão então se encontrava –, era porque o falso endereço dado como sendo de um

certo Doutor Buzzard, residente em Brickwood, cumpria o mesmo propósito, com a vantagem adicional de não

expor demasiadamente uma pessoa que ele ainda tinha, afinal, de uma certa maneira, que considerar. Era,

naturalmente, mais complicado, mas mais sutil; mas havia, muito claramente, um esquema de comunicação, no

qual Lady Bradeen, localizada em Twindle e o Doutor Buzzard, localizado em Brickwood, eram, dentro de certos

limites, uma só e única pessoa. O que ele lhe tinha mostrado e depois retirado não continha, de qualquer

maneira, mais do que a expressão “Absolutamente impossível”. O importante não era que ela o transmitisse; o

importante era simplesmente que ela o visse. O que era absolutamente impossível era que ele fosse viajar seja

para Twindle, seja para Brickwood, antes que ele resolvesse algo na agência postal.

A lógica disso, por sua vez, para ela própria, era que ela não podia permitir-se nenhuma solução, na

medida em que ela sabia tantas coisas. O que ela sabia era que ele estava, quase sob risco de vida, preso a

uma situação: como, portanto, poderia ela saber também qual era a real situação de uma pobre garota que

trabalhava na agência postal? A mensagem que cada vez mais passava entre eles, se ele pudesse transmitir-lhe

que ele estava livre e com tudo que parecia impossível tendo sido resolvido, como no capítulo final de um livro,

era que o próprio caso da garota poderia se tornar diferente para ela, que ela poderia encontrá-lo e escutá-lo.

Mas ele não podia transmitir nada desse tipo e, em sua falta de poder, ele se limitava a se remexer e a se

movimentar. O capítulo não estava absolutamente encerrado, não para a outra pessoa envolvida; e a outra

pessoa tinha, de algum modo, em algum ponto, sua própria força: isso era o que ficava evidente em toda a

expressão e em toda a atitude dele, ao mesmo tempo que essas pareciam lhe suplicavar que ela não se

lembrasse disso e não se preocupasse com isso. Na medida em que ela se lembrava e se preocupava, ele só

podia ficar circulando ao redor da agência, indo e vindo para cá e para lá, fazendo coisas fúteis, das quais ele

próprio se envergonhava. Ele se envergonhava de suas duas palavras para o Doutor Buzzard; ele saiu da

agência assim que ele amassou o papel outra vez e o colocou no bolso. Tinha sido uma pequena e abjeta

revelação de uma paixão temerária e impossível. Ele parecia envergonhado, na verdade, de ter voltado. Ele

tinha, uma vez mais, deixado a cidade, e uma primeira semana tinha se passado, e depois uma segunda. Ele

tinha, naturalmente, que retornar à real senhora de seu destino; ela tinha insistido – ela sabia como insistir e

ele não podia gastar mais uma hora. Sempre chegava o dia em que ela lhe dava um basta. Nossa jovem amiga

sabia, além disso, que ele estava, agora, despachando telegramas em outras agências. Afinal, ela sabia tantas

coisas que ela tinha praticamente perdido o sentimento anterior de que ela estava apenas adivinhando. Não

havia qualquer sutileza – tudo saltava aos olhos.

[52]

22

Dezoito dias haviam se passado; e ela tinha começado e pensar que era provável que ela nunca mais o

veria. Também ele tinha, agora, compreendido: ele tinha decidido que ela tinha segredos e razões e

impedimentos e que mesmo uma pobre garota que trabalha numa agência postal podia ter suas complicações.

Agora que o encanto com que ela o havia seduzido se via diminuído pela distância, ele tinha tido a delicadeza

final de refletir sobre o caso e tinha decidido que a única atitude decente seria a de deixá-la em paz. Nunca

antes, tal estava acontecendo nesses últimos dias, tinha ela sentido a precariedade da relação entre eles – a

feliz e maravilhosa e tranqüila relação original, ah, se ela pudesse ser restaurada! –, uma relação que dizia

respeito tão-somente à funcionária pública e ao ocasional cliente. Ela estava suspensa apenas por um simples

fio de seda, o qual estava à mercê de qualquer acidente e podia se romper a qualquer minuto. Ela chegou, ao

final da primeira quinzena, à mais perfeita noção do que era mais conveniente, nunca duvidando de que sua

decisão era agora final. Ela só ia lhe conceder mais alguns dias para que ele chegasse até ela, em termos

apropriadamente impessoais – pois uma funcionária pública dotada de alguma consciência devia alguma coisa

até mesmo a um constrangido representante da clientela casual –, e então ela diria ao Senhor Mudge que ela

estava pronta para a sua casinha. Eles a haviam visitado, na última conversa que ela teve com ele em

Bournemouth, desde o sótão até o porão, e eles tinham se detido especialmente, com seus respectivos cenhos

franzidos, diante do pequeno quarto destinado à mãe dela e a quem teriam que dizer que ela tinha que achar

algum meio de mobiliá-lo com seus próprios meios.

Ele a tinha feito ver, de forma mais decisiva que antes, que seus cálculos tinham levado em conta

aquela sombria presença e ele tinha, assim, causado, como em nenhuma outra vez, a melhor impressão sobre

ela. Tratava-se de uma proeza ainda maior que a daquela ocasião em que ele lidou com o soldado bêbado. O

que, aparentemente, a fazia continuar trabalhando no estabelecimento do Senhor Cocker, refletia ela, era algo

que só podia ser descrito como o ato de fazer justiça ao cumprimento da última palavra dada. E sua última

palavra dada tinha sido, até que tivesse sido superada por outra, que ela não abandonaria seu outro amigo, e

ela apegou-se a ela de uma maneira tal que ela ainda se encontrava em seu posto, honrando sua palavra. Esse

outro amigo já tinha mostrado uma tal nobreza de conduta que ele certamente acabaria por reaparecer,

permanecendo o tempo suficiente para liberá-la, para dar-lhe algo que ela poderia levar consigo. Às vezes ela

imaginava ver esse presente de despedida, ela imaginava recebendo-o; e havia outros momentos nos quais ela

sentia que se sentava como um mendigo com uma mão estendida para alguém que não fazia mais do que

remexer nos bolsos. Ela não tinha aceitado as libras reais, mas ela aceitaria as pequenas moedas. Em sua

imaginação, ela ouviu, sobre balcão, o soar do cobre. “Não se preocupe mais”, ele diria, “por um caso tão difícil.

Você fez tudo o que tinha que fazer. Eu lhe agradeço e a libero de seu compromisso. Nossas vidas tomam conta

de nós. Não sei muita coisa – embora eu realmente estivesse interessado – sobre a sua, mas suponho que você

tenha alguma. A minha, de qualquer maneira, tomará conta de mim – e irei para onde ela me levar. Ah! Adeus.”

E, então, uma vez mais, a mais terna e frágil de todas as flores: “Só digo isso: escute!”. Ela tinha emoldurado o

quadro todo com uma precisão que incluía também a imagem de como, de novo, ela se negaria a “escutar”, se

negaria, como diria ela, a escutar em qualquer lugar, a escutar qualquer coisa. Contudo, ocorreu que na fúria

mesma dessa evasão, ela escutou mais que nunca.

Ele voltou uma noite com pressa, perto do momento de fechamento da agência, e mostrou-lhe um rosto

tão diferente e novo, tão perturbado e ansioso, que ele parecia não ver quase nada claramente. Ele empurrou

um telegrama pelo guichê quase como se o simples sentimento de pressão, como se a perturbação da extrema

pressa tivesse apagado a lembrança do lugar particular em que ele se achava. Mas quando ele encontrou os

olhos dela, uma luz surgiu; imediatamente transformou-se, na verdade, em um olhar consciente e afirmativo.

Aquilo funcionou como uma compensação para tudo o resto, uma vez que era uma proclamação instantânea do

famoso “perigo”; parecia fazer as coisas escoar como em uma enchente. “Ah, sim, aqui está – finalmente, fui

atingido! Esqueça, por amor de Deus, o fato de eu tê-la feito se preocupar ou de tê-la aborrecido, e

[53]

simplesmente me ajude, simplesmente me salve, transmitindo isso sem perder um segundo!”. Algo grave tinha

claramente ocorrido, uma crise tinha se deflagrado. Ela reconheceu imediatamente a pessoa a quem o

telegrama era dirigido – a Senhorita Dolman da Pousada Lodge a quem Lady Bradeen tinha telegrafado, em

Dover, na última vez, e a quem ela tinha, então, com a ajuda do que ela lembrava de arranjos anteriores,

situado em um contexto particular. A Senhorita Dolman tinha aparecido aquela vez e depois não tinha aparecido

mais, mas ela era, agora, o objeto de um apelo imperativo. “Absolutamente necessário vê-la. Tome último trem

Victoria se puder alcançá-lo. Se não, próxima manhã, e responda-me diretamente qualquer hipótese”.

“Resposta paga?”, perguntou a garota. O Senhor Buckton tinha acabado de sair e o ajudante de balcão

estava junto ao receptor telegráfico. Não havia mais nenhum representante do público, e ela não tinha antes

estado, parecia-lhe, nem mesmo na rua ou no Parque, tão só com ele como ela agora estava.

“Ah,sim, resposta paga, e tão rápido quanto possível, por favor”.

Ela colou os selos em um relâmpago. “Ela alcançará o trem!”, ela lhe disse, ofegante, como se ela

pudesse efetivamente dar essa garantia.

“Não sei – espero que sim. É extremamente importante. É muito gentil de sua parte. Rapidíssimo, por

favor”. Era maravilhosamente inocente agora observar que ele esquecera de tudo menos do perigo. Qualquer

outra coisa que se tivesse passado entre eles estava completamente fora disso. Bem, tinha sido seu desejo que

ele agisse de forma impessoal!

Felizmente para ela, não havia, entretanto, a mesma necessidade; contudo, ela permitiu-se gastar um

tempo, antes de voar para o receptor telegráfico, para perguntar-lhe, arquejante: “Você está em dificuldades?”.

“Terríveis, terríveis – há um escândalo!”. Mas, dito isto, eles se separaram imediatamente; e, enquanto

ela corria para o receptor, quase derrubando do banco, em sua violência, o ajudante de balcão, ela conseguiu

vislumbrar a ansiedade com que, à porta da agência, em sua contínua precipitação, ele fechou a porta de lona

do táxi no qual ele tinha se jogado.

Enquanto ele retornava para tomar alguma outra precaução sugerida por seu alarmante estado, seu

apelo à Senhorita Dolman era transmitido na velocidade de um raio.

Mas ela não tinha, no dia seguinte, estado na agência por mais do que cinco minutos quando ela o viu

lá, outra vez, agora ainda mais descomposto e acabrunhado, como uma criança assustada, disse ela para si

mesma, que se achega à sua mãe. Seus colegas estavam lá, e ela sentiu que era notável como, diante de sua

agitação, diante de sua natureza assustada, que se expunha dessa maneira, ela subitamente deixava de se

importar com eles. Ela compreendeu como nunca antes tinha compreendido que, com uma franqueza e uma

segurança absolutas, eles podiam agora dar conta de quase qualquer coisa. Ele não tinha nada para enviar – ela

estava certa de que ele estava passando telegramas em outras agências – e, contudo, seu problema era

evidentemente enorme. Não havia nada senão isso em seus olhos – não havia qualquer sinal de uma referência

ou de uma lembrança. Ele estava quase esgazeado de tanta ansiedade e ele não tinha, claramente, dormido um

instante sequer. A compaixão que ela sentia por ele dava-lhe toda a coragem de que ela precisava, e ela parecia

saber, finalmente, por que ela tinha sido tão idiota. “Ela não veio?”, perguntou ela, ofegante.

“Ah, sim, ela veio; mas houve algum engano. Nós precisamos de um telegrama”.

“Um telegrama?”.

“Um que foi enviado daqui há muito tempo. Havia algo nele que precisa ser recuperado. Algo muito,

muito importante. Por favor, nós precisamos dele imediatamente”.

Ele falou com ela como se ela fosse alguma jovem estranha que ele tivesse encontrado em

Knightsbridge ou Paddington; mas isso não teve outro efeito nela senão o de lhe dar uma idéia de sua extrema

perturbação. Então era isso! Ela percebeu, sobretudo, o quanto ela tinha deixado de perceber nas lacunas e nos

espaços em branco e nas respostas ausentes – ela deu-se conta de quantas coisas tinham-lhe ficado faltando.

Ela se encontrava agora numa obscuridade total, exceto por uma pequena, intensa e rubra chama, que era o

máximo que ela conseguia ver, o máximo que sua mente conseguia compreender: a verdade é que,

[54]

considerando-se o par de amantes em questão, ela estava tremendo de medo em algum lugar fora da cidade,

enquanto ele tremia precisamente onde ele agora estava. Isso era mais que evidente e após um instante ela

sabia tudo o que precisava saber. Ela não precisava qualquer detalhe, qualquer fato – ela não precisava de

nenhuma imagem mais nítida da descoberta ou da vergonha. “Quando você passou seu telegrama? Você o

passou daqui?”. Ela tentava representar o papel da jovem dama de Knightsbridge.

“Ah, sim, daqui, várias semanas atrás. Cinco, seis, sete”, ele estava confuso e impaciente, “você não se

lembra?”.

“Lembrar-me?”, ela mal podia conter, ao ouvir a palavra, o mais estranho dos sorrisos.

Mas era ainda mais estranho que ele não compreendesse o que aquilo significava. “Quero dizer, você

não guarda os telegramas antigos?”.

“Durante um certo tempo”.

“Mas por quanto tempo?”.

Ela refletiu. Ela devia fazer o papel da jovem dama, e ela sabia exatamente o que a jovem dama diria e,

mais do que isso, o que ela não diria. “Você pode me dizer qual é a data?”.

“Ah, meu Deus, não! Foi em algum dia ou outro de agosto – mais para o fim do mês. Era para o mesmo

endereço que eu lhe dei na última noite”.

“Ah!”, disse a garota, experimentando com isso a maior emoção que jamais tivera. Ela compreendeu ali,

com os olhos postos nele, que ela tinha a coisa toda em suas mãos, que ela a tinha em suas mãos tal como

tinha o lápis, que podia ter-se partido naquele instante pela forma como ela o apertava. Isso a fez sentir-se

como a verdadeira fonte do destino, mas a emoção jorrava de uma maneira tal que ela teve que contê-la com

toda sua força. Essa era, sem dúvida, a razão, novamente, do tom flauteado de voz que era típico de

Paddington. “Você não poderia nos dar algo um pouco mais preciso?”. Seu “pouco” e seu “nos” vinha

diretamente de Paddington. Essas coisas não soavam falsas para ele – a dificuldade em que ele se encontrava

impedia-lhe de perceber sua falsidade. Os olhos com que ele a pressionava, e em cujas profundezas ela lia

terror e raiva e verdadeiras lágrimas, eram exatamente os mesmos que ele teria mostrado a qualquer outra

pessoa de modos afetados.

“Não sei a data. Só sei que coisa saiu daqui, e precisamente na época que lhe falei. Ele não foi

entregue, compreende? Nós temos que recuperá-lo”.

[55]

23

A intensidade com que ela se impressionara com a beleza do pronome plural que ele havia utilizado era

proporcional à intensidade da impressão que ela pensava ter-lhe causado com o pronome que ela própria havia

utilizado. Mas ela sabia agora tão bem do que se tratava que ela quase que podia brincar com ele e comprazerse

com a nova alegria que tomava conta dela. “Você diz ‘precisamente na época que lhe falei’. Mas não creio

que você fale de uma data exata, não é certo?”.

Ele parecia totalmente desamparado. “É isso precisamente que quero descobrir. Você não guarda os

telegramas antigos? Você não pode fazer essa verificação?”.

Nossa jovem dama – ainda falando com se estivesse em Paddington – devolveu-lhe a questão. “Ele não

foi entregue?”.

“Sim; foi; entretanto, ao mesmo tempo, você compreende?, não foi”. Ele se conteve por um momento,

mas acabou por fazer a revelação. “Quero dizer, ele foi interceptado, você compreende?, e ele continha algo.”

Ele fez mais uma pausa e, como que para reforçar seu pedido e sua súplica e esperar que ela fosse atendida e o

telegrama recuperado, ele até chegou a sorrir, num esforço para ser agradável, um sorriso que era quase

pavoroso e que penetrou fundo na solicitude da jovem. Qual não seria a intensidade de toda a dor que ele

estava sentindo, a dor do abismo que se abria e da febre que pulsava, quando o que ela estava vendo não

passava de um simples sintoma? “Nós queremos recuperar o que ele continha, saber do que se tratava”.

“Compreendo, compreendo”. Ela caprichou para utilizar o tom que as pessoas utilizavam em Paddington

quando elas se entreolhavam com olhares de peixe morto. “E você não tem nenhuma pista?”.

“Nenhuma, absolutamente. A única é a que lhe dei”.

“Ah, no final de agosto?”. Se ela continuasse a sustentar essa conversa o tempo suficiente, ela

conseguiria realmente irritá-lo.

“Sim, e o endereço, como eu lhe disse”.

“Ah, o mesmo da última noite?”.

Era visível que ele tremia, como se tivesse um raio de esperança; mas isso só serviu para reforçar sua

deliberada frieza. Ela pôs alguns papéis em ordem. “Você não vai verificar?”, continuou ele.

“Lembro-me de quando você veio”, replicou ela.

Ele piscou, ainda desconfortável; talvez ele estivesse começando a compreender, através da diferença

dela, que ele próprio era, de alguma maneira, diferente. “Olha, você era muito mais rápida naquela época!”.

“Você também era – você deve me fazer essa justiça”, ela respondeu com um sorriso. “Mas vamos ver.

Não era Dover?”.

“Sim. Senhorita Dolman…”.

“Pousada Parade, Terraço Parade?”.

“Exatamente, muitíssimo obrigado!”. Ele começou, outra vez, a ter esperanças. “Então você o tem? O

outro?”.

Ela começou novamente a fingir hesitação; ela o mantinha em suspense. “Foi trazido por uma

senhora?”.

“Sim; e ela colocou, por engano, algo errado. É isso que temos que saber!”.

Céus, o que ele ia lhe contar? Pobre Paddington, inundado de loucas traições! Ela não podia mantê-lo,

por causa de seu próprio prazer, mantê-lo por muito tempo em suspense, mas ela tampouco podia, em

consideração pela dignidade dele, adverti-lo, controlá-lo ou censurá-lo. O que ela acabou fazendo foi

simplesmente se dar ao luxo de adotar uma solução intermediária. “Ele foi interceptado?”.

“Ele caiu em mãos erradas. Mas ele continha algo”, ele continuou a deixar escapar, “que talvez esteja

bem. Isto é, se estiver errado, você compreende? Está bem se estiver errado”, foi sua notável explicação.

Por amor de Deus, o que estava ele a ponto de dizer? O Senhor Buckton e o ajudante de balcão já

estavam se mostrando interessados na conversa; não havia nenhum outro cliente fazendo o favor de entrar

[56]

nesse momento na agência; e ela estava dividida entre o particular terror que ela sentia por ele e sua

curiosidade geral. Entretanto, ela já via com que brilho ela podia acrescentar, para levar a coisa adiante, um

pequena dose de conhecimento falso ao conhecimento real que ela já tinha. “Entendo perfeitamente”, disse ela

com uma rapidez benevolente, quase condescendente. “A dama esqueceu o que ela pôs no telegrama”.

“Esqueceu da forma mais deplorável, o que é de uma grande inconveniência. Acabou-se de descobrir

que o telegrama não chegou; assim, se nós pudéssemos imediatamente recuperá-lo…”.

“Imediatamente?”.

“Qualquer minuto conta. Você certamente o tem”, ele suplicou, “no arquivo”.

“De forma que você o possa ver agora mesmo?”.

“Sim, por favor, neste exato minuto”. O balcão ressoava com os golpes de seu punho, com o castão de

sua bengala, com o pânico de seu alarmante estado. “Procure-o, procure-o!”, ele repetia.

“Ouso dizer que podemos recuperá-lo para você”, replicou, docemente, a garota.

“Recuperá-lo?, ele parecia aterrorizado. “Quando?”.

“Provavelmente amanhã”.

“Então não está aqui?”. Seu rosto tinha um aspecto deplorável.

Ela percebia apenas os débeis reflexos que emergiam da obscuridade, e se perguntava que

complicação, mesmo a pior dentre aquelas nas quais se poderia pensar, poderia ser grave o suficiente para

explicar o grau de seu terror. Havia pontos em que uma volta a mais do parafuso faria jorrar sangue, mas ela

não podia adivinhar precisamente quais. Ela estava cada vez mais feliz por não ter necessidade de adivinhá-los.

“Ele foi enviado”.

“Mas como você pode dizer isso sem verificar?”.

Ela concedeu-lhe um sorriso que tinha a intenção de ser, na absoluta ironia de sua exatidão, algo de

muito divino. “Foi no dia 23 de agosto e nós não temos nada guardado aqui que tenha sido enviado antes do

dia 27”.

Algo assomou no rosto do capitão. “27, 23? Então você está certa disso? Você sabe?”.

Ela sentiu que ela não sabia bem do que se tratava e que podiam prendê-la, a qualquer momento, por

uma sórdida conexão com um algum tipo de escândalo. Era a mais estranha de todas as sensações, pois ela

tinha ouvido, ela tinha lido sobre essas coisas, e se podia supor que a sua abundante intimidade com elas na

agência postal a tivesse tornado escolada e amadurecida. Essa experiência, que ela tinha realmente vivido

quase como algo pessoal era, afinal, uma história antiga; entretanto, o que tinha acontecido antes parecia

pouco nítido e distante diante do sentimento que a assustava agora. Escândalo? Não tinha nunca passado, para

ela, de uma palavra tola. Agora ela constituía uma grande e tensa superfície, e a superfície era, de alguma

forma, o maravilhoso rosto do Capitão Everard. Na profundeza dos olhos dele havia uma imagem, uma cena –

um enorme lugar como a sala de uma tribunal de justiça, onde, diante de uma multidão curiosa, uma pobre

garota, submetida à exposição pública, mas heróica, jurava, com uma tremulante voz, sobre a validade de um

documento; ela fornecia as provas de um álibi, ela fornecia uma conexão entre os fatos. Nessa imagem, ela

corajosamente assumia sua posição. “Foi no dia vinte e três”.

“Então você não pode obtê-lo nesta manhã? Ou em alguma outra hora, ainda hoje?”.

Ela refletiu, ainda contendo-o com seu olhar, o qual ela, então, voltou para seus dois colegas, os quais,

foram, neste momento, convocados sem reserva. Ela não se importava – nem um pouquinho, e ela olhou em

volta, à procura de um pedaço de papel, o que a fez reconhecer o rigor da economia oficial – um fragmento de

um papel mata-borrão todo sujo de tinta era o único papel disponível à vista. “Você tem um cartão?”, disse ela

para seu visitante. Ele estava bem distante de Paddington agora, e no instante seguinte, com a carteira em

mãos, ele puxara um cartão. Ela nem sequer olhou o nome que estava no cartão, limitando-se a virá-lo do outro

lado. Ela sentia, neste momento, que ela continuava a contê-lo como nunca tinha feito antes; e o controle que

[57]

ela tinha sobre seus colegas não era, por enquanto, menos notável. Ela escreveu algo no verso do cartão e

entregou-o de volta.

Ele olhou-o atentamente. “Sete, nove, quatro…”.

“Nove, seis, um”, ela gentilmente completou o número. “Está certo?”, perguntou ela, sorrindo.

Ele compreendeu tudo com um intenso rubor; então, a visibilidade do alívio de que foi tomado tornouse

simplesmente uma enorme revelação. Ele lançou seu brilho sobre todos eles como um grande farol,

chegando ao ponto de abraçar, em solidariedade, os atônitos colegas de nossa jovem amiga. “Por todos os

santos, está errado”. E, com outro olhar, sem uma palavra de agradecimento, sem qualquer tempo para nada e

para ninguém, ele voltou-lhes as largas costas de sua grande estatura, endireitou seus triunfantes ombros e

saiu, a passos largos, da agência.

Ela ficou sozinha, frente a frente com seus habituais críticos. “Se estiver errado, está bem”, ela repetiu,

de forma extravagante, as palavras do capitão.

O ajudante de balcão estava realmente atônito. “Mas como você sabia, minha querida?”.

“Eu me lembrava, queridinho!”.

O Senhor Buckton, ao contrário, foi grosseiro. “E de que jogo se trata, senhorita?”.

Qualquer outra felicidade que ela tivesse tido anteriormente estava a quilômetros dessa, e se passaram

alguns minutos antes que ela pudesse se recuperar o suficiente para replicar-lhe que não era de sua conta.

[58]

24

Se a vida no estabelecimento do Senhor Cocker, com a fatal aproximação da chegada do final de

agosto, tinha perdido algo de seu sabor, nossa jovem amiga não tinha demorado a inferir que uma praga mais

grave havia se abatido sobre a elegante atividade profissional da Senhora Jordan. Com Lord Rye e Lady Ventnor

e a Senhora Bubb, com todas essas pessoas fora da cidade, com as cortinas baixadas em todas as casas de

luxo, essa engenhosa senhora descobrira que seu magnífico bom gosto tinha se tornando inútil. Ela se manteve

firme, entretanto, de um jeito que começou a aumentar muito a estima que lhe devotava sua jovem amiga; elas

passaram a se encontrar, talvez até mesmo mais freqüentemente, à medida que o vinho da vida fluía com

menos facilidade de outras fontes, e cada uma delas, na falta de uma melhor diversão, continuara, com uma

maior ilusão mútua, um intercurso que consistia, principalmente, em ora mostrar-se, ora ocultar-se. Cada uma

esperava que a outra se comprometesse, cada uma encobria inteiramente para a outra os limites de seus

respectivos estreitos horizontes. A Senhora Jordan era, na verdade, a combatente mais ousada; nada era maior

que sua freqüente incoerência, exceto, na verdade, suas ocasionais explosões de confiança. O relato que ela

fornecia de seus negócios privados subiam e desciam como uma chama ao vento – algumas vezes, uma

esplêndida fogueira; outras, um punhado de cinzas. Essa nossa jovem dama considerava isso como um efeito

da posição, em um momento e outro, da famosa porta do grande mundo. Ela tinha se impressionado, em um

de seus livros baratos, com a tradução de um provérbio francês, segundo o qual uma tal porta, qualquer porta,

ou tinha que estar aberta ou tinha que estar fechada; e parecia fazer parte da precariedade da vida da Senhora

Jordan que a sua porta não conseguia estar em nenhuma das duas situações. Tinha havido ocasiões nas quais

ela parecia estar escancarada – claramente convidando-a ultrapassar seu limiar; tinha havido outras ocasiões,

de uma ordem distintamente diferente, nas quais só faltava bater-lhe na cara. No conjunto geral, entretanto, ela

não tinha evidentemente perdido o ânimo; esses eventos ainda pertenciam àquela espécie de coisas a despeito

das quais ela parecia bem. Ela dava a entender que os lucros de seu negócio tinham se inflado tanto que a

permitiam flutuar através de qualquer tipo de corrente marítima, e ela tinha, além disso, uma centena de

detalhes e de justificativas para explicar sua situação.

Ela se orgulhava, sobretudo, com o feliz fato de que sempre havia cavalheiros na cidade e que os

cavalheiros eram seus maiores admiradores; em especial, cavalheiros do Distrito Financeiro – sobre os quais ela

tinha uma série de informações sobre a paixão e o orgulho que causavam em seus corações os aspectos de seu

encantador comércio. Em suma, os homens do Distrito Financeiro estavam, de fato, em busca de flores. Havia

um certo tipo de corretor extremamente inteligente – Lord Rye chamava-os de judeus e pretensiosos, mas ela

não se importava – cuja extravagância, como ela tinha mais de uma vez destacado, tinha realmente que ser

forçosamente controlada, por qualquer pessoa que tivesse um pouco de consciência. Não se tratava, talvez, de

puro amor pela beleza; era uma questão de vaidade e símbolo de prosperidade; eles desejavam esmagar seus

rivais e essa era uma de suas armas. A perspicácia da Senhora Jordan era extrema; ela conhecia, de qualquer

forma, sua clientela – ela lidava, como ela dizia, com toda espécie de clientes; e, para ela, era sempre uma

corrida – uma corrida mesmo nos meses mais parados – de uma casa para outra. E então, afinal, havia ainda as

damas; as damas dos círculos da Bolsa estavam constantemente passando por ciclos de prosperidade e de

decadência. Elas não eram, talvez, exatamente como a Senhora Bubb ou Lady Ventnor; mas não se podia dizer

qual era a diferença, a menos que se brigasse com elas e, então, só se ficava sabendo qual era a diferença

porque elas faziam as pazes mais cedo. Essa damas faziam parte daquele departamento de sua atividade que

mais a deixava numa situação de desequilíbrio; ao ponto de sua confidente ter chegado a certas conclusões que

tendiam a afastar qualquer arrependimento por quaisquer oportunidades que ela não pudesse ter aproveitado.

Havia, de fato, vestidos especiais para o chá da tarde, vestidos que a Senhora Jordan descrevia em todos os

detalhes, mas esses vestidos não eram o sinal supremo da respeitabilidade e era estranho que a viúva de um

pastor falasse, às vezes, quase como se ela pensasse que assim fosse. Era verdade que ela voltava,

infalivelmente, para Lord Rye: ela nunca o tinha, evidentemente, perdido de vista, mesmo na mais longa das

[59]

viagens. A idéia de que ele era a amabilidade em pessoa tinha se tornado a moral mesma em torno da qual

tudo se orientava, mas isso apenas perante os estranhos piscares dos olhos míopes da pobre mulher. Ela

lançava à sua jovem amiga olhares extraordinários, solenes arautos de alguma comunicação especial. A

comunicação em si levava semanas para se dar; mas era dos fatos em torno dos quais ela pairava que ela tirava

a força para ir adiante. “Eles são, de uma maneira e de outra”, ela, freqüentemente, enfatizava, “uma fonte de

poder”. E, na medida em que a alusão era à aristocracia, a garota podia perfeitamente se perguntar por quê, se

eles eram “uma fonte de poder” de “ uma maneira”, era preciso que eles o fossem de duas. Ela sabia

perfeitamente, entretanto, quantas eram as maneiras que contavam para a Senhora Jordan. Tudo isso

significava que seu destino a estava pressionando cerradamente. Se esse destino estava para ser selado diante

do altar matrimonial, não se podia, talvez, deixar de notar que a viúva não conseguia, absolutamente, causar a

mínima e instantânea impressão numa mera telegrafista. O candidato a quem a viúva aludia teria diante de si,

necessariamente, a visão de um futuro de um sacrifício cheio de arrependimentos. Lord Rye – se é que se

tratava realmente de Lord Rye – não seria “amável” para com uma pessoa dessa insignificância, embora uma

outra pessoa, tão amável quanto ele, pudesse ser.

Uma tarde de domingo, em novembro, as duas amigas foram juntas, após haverem combinado, à

igreja. Depois disso, num momento de impulso, pois isso não estava incluído na combinação, elas seguiram para

o alojamento da Senhora Jordan, na região do Vale Maida. Ela tinha tagarelado com sua amiga sobre sua

atividade predileta; ela estava extremamente entusiasmada com isso e tinha, mais de uma vez, desejado

introduzir a garota ao mesmo conforto e privilégio. Havia uma densa neblina cinzenta e o Vale Maida cheirava à

fumaça ardente; mas elas estavam sentadas em meio a cânticos e incenso e maravilhosas músicas, período

durante o qual, embora o efeito dessas coisas em sua mente fosse grande, nossa jovem amiga se permitiu ter

uma série de reflexões que só indiretamente lhe diziam respeito. Uma delas era o resultado de a Senhora

Jordan ter-lhe dito, no caminho, e com um certo e sutil significado, que Lord Rye se encontrava por algum

tempo na cidade. Ela tinha falado como se fosse uma circunstância à qual pouco se pudesse acrescentar – como

se a importância desse fato na sua vida pudesse ser facilmente compreendida. Talvez fosse a vontade de saber

se Lord Rye desejava casar-se com a viúva que fez com que sua convidada, com seus pensamentos voltados

para esse departamento, tivesse pensado que um outro casamento também deveria ser realizado na Igreja de

São Julião. O Senhor Mudge continuava a freqüentar sua igreja metodista, mas esta era a menor de suas

preocupações – isso sequer a tinha, alguma vez, preocupado ao ponto de ela querer mencioná-lo à Senhora

Jordan. O tipo de culto religioso do Senhor Mudge era uma das várias coisas – elas compensavam, em

superioridade e beleza, aquilo que lhes faltava em quantidade – sobre as quais ela tinha decidido, há muito

tempo, segui-lo, e ela tinha, agora, além disso, pela primeira vez, definitivamente estabelecido quais eram as

suas próprias prioridades. Sua principal característica é que elas deviam ser as mesmas da Senhora Jordan e de

Lord Rye; e foi isso, na verdade, exatamente o que ela disse à sua anfitriã, quando estavam sentadas, mais

tarde, na casa dela. A bruma cinzenta havia penetrado na pequena sala de estar dessa anfitriã, contribuindo

para adiar a questão de saber se haveria, além disso, algo mais que as taças de chá e uma chaleira de estanho

e uma pequena lareira enfumaçada e um lâmpada de parafina sem um quebra-luz. Não havia, de qualquer

maneira, qualquer sinal de flores; não era para si própria que a Senhora Jordan coletava esses prazeres. A

garota esperou até que elas tivessem tomado uma taça de chá – esperou pelo anúncio que ela honestamente

acreditava que sua amiga estava, desta vez, em condições de formalmente fazer; mas nada veio, após o

intervalo. Ela se limitou a atiçar um pouco o fogo da lareira, que soou como um limpar de garganta para um

discurso.

[60]

25

“Falei-lhe alguma vez do Senhor Drake?”. A Senhora Jordan nunca tinha parecido tão estranha e seu

sorriso parecia, mais do que nunca, deixar à mostra seus protuberantes dentes.

“Do Senhor Drake? Ah, sim; não é um dos amigos de Lord Rye?”.

“Um grande e confiável amigo. Quase, eu diria, um amado amigo”.

O “quase” da Senhora Jordan soara tão estranho que sua acompanhante sentiu-se impelida a

questioná-la. “‘Confiar’ nos amigos não significa amá-los?”.

Isso fez com que ela recuasse um pouco no elogio que tinha feito ao Senhor Drake. “Bem, minha

querida, eu amo você…”.

“Mas você não confia em mim?”, perguntou a garota, sem piedade.

A Senhora Jordan fez, novamente, uma pausa. Ela ainda parecia estranha. “Sim”, ela replicou com uma

certa severidade; “é exatamente disso que vou lhe dar uma prova extraordinária”. A idéia de que ia ser algo

extraordinário era já tão forte que, enquanto ela fazia uma pausa, a jovem que a ouvia se pôs em um estado

repentino de muda submissão. “O Senhor Drake prestou ao seu senhor, por vários anos, serviços que deixaram

Lord Rye extremamente satisfeito, o que torna ainda mais, ahn…, inesperada do que deveria, e um talvez um

tanto repentina, sua separação”.

“Separação?”. Nossa jovem amiga sentia-se lograda, mas esforçava-se por se mostrar interessada; e ela

já sabia que tinha encilhado o cavalo errado. Ela tinha ouvido algo a respeito do Senhor Drake, que ele era um

dos membros do círculo de Lord Rye, o membro nos braços do qual, aparentemente, a Senhora Jordan tivera,

graças às suas atividades, mais oportunidades de ser jogada. Ela só estava um pouco perplexa com a palavra

“separação”. “Bem, de qualquer maneira”, ela sorriu, “se eles se separam como amigos…”.

“Ah, Lord Rye tem grande interesse no futuro do Senhor Drake. Ele fará qualquer coisa por ele; na

verdade, ela já fez muito por ele. Deve haver, compreende?, mudanças…!”.

“Ninguém sabe isso melhor do que eu”, disse a garota. Ela queria fazer com que sua interlocutora

falasse mais abertamente. “Haverá muitas mudanças para mim”.

“Você está deixando o estabelecimento do Senhor Cocker?”.

A pessoa que ornava aquele estabelecimento esperou um momento para responder e, quando o fez, foi

de forma indireta. “Diga-me o que você fará”.

“Bem, o que é que você acha?”.

“Bem, que você encontrou a oportunidade que você sempre teve a certeza de que viria”.

A Senhora Jordan, ao ouvir isso, pareceu refletir com uma intensidade constrangida. “Sempre estive

certa, sim, mas houve várias ocasiões em que não estive tão certa!”.

“Bem, espero que esteja certa agora. Certa, quero dizer, a respeito do Senhor Drake”.

“Sim, minha querida, acho que posso dizer que estou. Eu o mantive interessado até que eu estivesse

certa”.

“Ele é, então, seu?”.

“Meu, sim, senhora”.

“Que bom! E ele é muitíssimo rico?”, continuou nossa amiga.

A Senhora Jordan demonstrou bastante prontamente que seu amor estava dirigido para coisas mais

elevadas. “Muitíssimo bonito – um metro e noventa. E, sim, ele tem suas economias”.

“Muito parecido, então, com o Senhor Mudge!”, exclamou, um tanto desesperadamente, a amiga

daquele cavalheiro.

“Ah, não muito!”. A amiga do Senhor Drake estava em dúvidas sobre isso, mas o nome do Senhor

Mudge tinha-lhe dado, evidentemente, algum tipo de estímulo. “Ele terá mais oportunidades agora, de qualquer

maneira. Ele está indo trabalhar para Lady Bradeen”.

“Para Lady Bradeen?”. Ela estava totalmente perplexa. “Indo…?”.

[61]

A garota tinha percebido, a julgar pela forma como a Senhora Jordan tinha olhado para ela, que o efeito

que tivera a pronúncia do nome de Lady Bradeen fora o de fazê-la revelar algo. “Você a conhece?”.

Ela vacilou, mas acabou encontrando chão firme. “Bem, você se lembra que eu muitas vezes lhe disse

que se você tem clientes importantes, eu também os tenho”.

“Sim”, disse a Senhora Jordan, “mas a grande diferença é que você odeia os seus, enquanto eu

realmente adoro os meus. Você realmente conhece Lady Bradeen?”, continuou ela.

“Dos pés à cabeça! Ela está sempre entrando e saindo da agência”.

Os olhos apalermados da Senhora Jordan confessavam, ao se fixar nessa imagem, o quanto ela tinha

ficado admirada e até mesmo enciumada com a informação da jovem. Mas ela conseguiu se recuperar e foi com

uma certa alegria que ela perguntou, “Você a odeia?”.

A réplica de sua visitante foi imediata. “Ah, minha querida, não!, não da forma como eu odeio alguns

deles. Ela é tão escandalosamente bonita”.

A Senhora Jordan continuava com os olhos arregalados. “Escandalosamente?”.

“Bem, sim; deliciosamente”. O que era realmente delicioso era o estado de incerteza em que estava a

Senhora Jordan. “Você não a conhece? Você nunca a viu?”, continuou, sutilmente, sua convidada.

“Não, mas ouvi muitas coisas sobre ela”.

“Eu também!”, exclamou nossa jovem amiga.

A Senhora Jordan pareceu, por um instante, duvidar de sua boa fé ou, ao menos, de sua seriedade.

“Você conhece alguém que lhe tenha amizade…?”.

“A Lady Bradeen? Ah, sim, conheço uma pessoa”.

“Só uma?”.

A garota deu uma gargalhada. “Só uma, é uma pessoa muito íntima”.

A Senhora Jordan hesitou apenas por um segundo. “É um cavalheiro?”.

“Sim, não é uma mulher”.

Sua interlocutora parecia refletir. “Ela tem uma infinidade de amizades”.

“Ela as terá – com o Senhor Drake!”.

O olhar arregalado da Senhora Jordan tornou-se estranhamente fixo. “Ela é muito bonita?”.

“A pessoa mais bonita que eu conheço”.

A Senhora Jordan continuou a refletir. “Bem, eu conheço algumas pessoas realmente belas”. E, depois,

com sua estranha hesitação: “Você pensa que ela é boa?”.

“Você acha que as duas coisas nem sempre coincidem?”, retomou a outra. “Não, de fato, nem sempre

coincidem: isso foi uma coisa que aprendi no estabelecimento do Senhor Cocker. Ainda assim, há algumas

pessoas que têm tudo. Lady Bradeen, de qualquer maneira, tem o suficiente: olhos e um nariz e uma boca, um

porte, uma figura…”.

“Uma figura?”, a Senhora Jordan praticamente interrompeu a outra.

“Uma figura, uma cabeleira!”. A garota fez um pequeno movimento consciente que parecia deixar o

cabelo cair, e sua acompanhante observava o maravilhoso espetáculo. “Mas o Senhor Drake é outro…? ”.

“Outro?”. Os pensamentos da Senhora Jordan pareciam voltar-lhe de um lugar distante.

“Outro dos admiradores de Lady Bradeen. Você me diz que ele está ‘indo’ para ela?”.

Ao ouvir isso, a Senhora Jordan realmente hesitou. “Ela se comprometeu com ele”.

“Comprometeu-se com ele?”, nossa jovem amiga parecia inteiramente perdida.

“Da mesma forma que com Lord Rye”.

“E Lord Rye estava comprometido?”.

[62]

26

A Senhora Jordan havia, agora, afastado os olhos de nossa jovem amiga. A Senhora Jordan parecia,

pensou nossa amiga, bastante ofendida e, sentindo-se como se tivessem brincado com ela, até mesmo um

pouco zangada. A menção de Lady Bradeen tinha frustrado, por um momento, a convergência dos pensamentos

de nossa heroína; mas, percebendo que sua velha amiga estava tomada de uma combinação de impaciência e

insegurança, seus pensamentos começaram, outra vez, a rodopiar ao seu redor, e assim continuaram, até que

um deles pareceu atingi-la como um dardo, destacando-se da dança, ferindo-a como uma aguda picada.

Atingiu-a, com um vívido choque, com uma pontada certa, a compreensão de que o Senhor Drake era… Seria

isso possível? Ao contemplar essa idéia, ela se encontrou, de novo, à beira do riso, tomada de uma súbita e

estranha perversidade, toda feita de contentamento. O Senhor Drake pairava, como uma imagem repentina,

diante dela; tal como os personagens que ela via, nas portas abertas de casas que ficavam perto de

estabelecimento do Senhor Cocker – majestáticos, de meia-idade, eretos, escoltados, em ambos os lados, por

um lacaio, e anotando o nome de algum visistante. O Senhor Drake era, pois, verdadeiramente, uma pessoa

que abria portas! Antes que ela tivesse tempo, entretanto, de se recuperar do efeito de sua evocação, ela teve

uma visão que a engolfou inteiramente. Ela sentiu, de alguma forma, que o rosto que ela tinha visto surgir tinha

feito com que a Senhora Jordan se precipitasse, um tanto descontroladamente, para algo, para qualquer coisa,

que pudesse atenuar uma possível crítica. “Lady Bradeen está fazendo rearranjos – ela vai se casar”.

“Casar?”, a garota repetiu, quase sussurando, a palavra, mas ali estava ela, finalmente.

“Você não sabia?”.

Ela teve que convocar toda sua coragem. “Não, ela não me disse”.

“E os amigos dela? Eles não lhe disseram?”.

“Não tenho visto nenhum deles, ultimamente. Não tenho a sua sorte”.

A Senhora Jordan se recompôs. “Então você não soube da morte de Lord Bradeen?”.

Sua companheira, incapaz, por um momento, de falar, sacudiu levemente a cabeça, num gesto

negativo. “Você ficou sabendo pelo Senhor Drake?”. Era certamente melhor simplesmente não ficar sabendo das

coisas do que ficar sabendo delas pelo mordomo.

“Ela lhe conta tudo”.

“E ele conta a você, como posso perceber”. Nossa jovem dama levantou-se; pegando suas luvas e seu

regalo, ela sorriu. “Bem, infelizmente não tenho ninguém como o Senhor Drake. Felicito-a com todo o meu

coração. Mesmo sem a sua ajuda, entretanto, há algo aqui e ali que posso perceber. Concluo que se ela vai se

casar com alguém, deve se tratar necessariamente do meu amigo”.

A Senhora Jordan também tinha se levantado. “O Capitão Everard é seu amigo?”.

A garota refletiu, colocando uma das luvas. “Eu o via muito, durante um certo período”.

A Senhora Jordan olhou fixamente para as luvas, mas ela não esperou, afinal, até que a jovem se

dispusesse a dizer que ela lamentava que elas não estivessem tão limpas. “Quando foi isso?”.

“Deve ter sido na época em que você via muito o Senhor Drake”. Ela tinha agora compreendido tudo: a

distinta pessoa com quem a Senhora Jordan iria se casar estaria encarregada de atender a campainhas e de

alimentar as lareiras com carvão e de supervisionar, no mínimo, a limpeza das botas da outra distinta pessoa a

quem, mesmo que quisesse, ela não tinha muito mais o que dizer. “Adeus”, ela acrescentou, “adeus”.

A Senhora Jordan, entretanto, outra vez tomando o regalo das mãos de sua amiga, esfregou-o e olhouo,

enquanto refletia. “Diga-me, antes que você saia. Você acabou de falar de suas mudanças. Você quer dizer

que o Senhor Mudge…?.

“O Senhor Mudge tem tido uma grande paciência comigo. Ele conseguiu, finalmente, convencer-me.

Iremos nos casar no próximo mês e teremos uma bela casinha. Mas ele é apenas um merceeiro,

compreende…”, a garota encontrou os olhos atentos de sua amiga, “de maneira que temo que, como você vai

entrar em um círculo diferente, será difícil para você manter nossa amizade”.

[63]

Por um momento, a Senhora Jordan deixou de responder-lhe, limitando-se a levar o regalo da garota

até o seu próprio rosto, dando-lhe, depois, de volta. “Você não gostou. Percebo, percebo”.

Para espanto de sua convidada, havia agora lágrimas em seus olhos. “Não gostei de quê?, perguntou a

garota.

“Bem, de meu compromisso. Só que com sua grande inteligência”, a pobre senhora falou com voz

trêmula, “você o expressou de acordo com seu próprio jeito. Quero dizer, você se distanciará. Você já o fez…!”.

E ao dizer isso, no instante seguinte, suas lágrimas começaram a correr. Ela sucumbiu a elas e se deixou cair;

ela afundou outra vez na cadeira, tentando abafar seus soluços.

Sua jovem amiga ficou ali de pé, mantendo ainda um certa rigidez, mas bastante surpreendida, embora

ainda não inteiramente tomada de qualquer sentimento de piedade. “Não expressei nada, de ‘maneira”

nenhuma, e estou muito feliz que você tenha se arranjado. Só que, compreende, você tinha explicado, para

mim, o seu tipo de ocupação, de uma forma tão maravilhosa, que até mesmo eu, se eu a tivesse ouvido, a teria

abraçado”.

A Senhora Jordan continuou a chorar, mas bastante moderamente; então, enxugando os olhos,

considerou rapidamente o que a moça tinha dito. “Só serviu para não me deixar morrer de fome!”, disse ela,

com voz ofegante e quase inaudível.

Nossa jovem amiga, ao ouvir isto, deixou-se cair na cadeira ao seu lado, e agora, repentinamente, sua

mesquinha e tola infelicidade tinha-se evaporado. Ela tomou as mãos de sua amiga em sinal de consolo e,

então, após mais um instante, confirmou essa expressão com um beijo de conforto. Elas ficaram ali sentadas,

juntas; elas olharam para fora, de mãos dadas, olharam a sala pequena, úmida, escura e pobre, contemplaram

seus respectivos futuros, que em pouco diferiam e que tinham sido aceitos por cada uma delas. Não houve

nenhuma declaração definitiva, por parte de qualquer uma delas, sobre a posição do Senhor Drake no mundo

dos grandes, mas o colapso temporário de sua prometida noiva esclarecia tudo o que faltava; e o que nossa

heroína viu e sentiu na coisa toda foi o vívido reflexo de seus próprios sonhos e ilusões e seu próprio retorno à

realidade. A realidade, para as pobres criaturas que ambas eram, só podia ser uma realidade de pouca beleza e

de obscuridade, não poderia nunca ser uma realidade que representasse uma saída e que lhes permitisse

ascender na vida. Ela não pressionou sua amiga com nenhuma outra questão pessoal – ela tinha suficiente tato

para isso, não expressou nenhuma necessidade de alguma outra revelação, limitou-se a continuar abraçando-a

e a reconhecer, por pequenas, mas firmes demonstrações de resignação, o que os destinos de ambas tinham

em comum. Ela se sentia, na verdade, magnânima com respeito a essas questões; uma vez que era claramente

conveniente, por uma questão de solidariedade ou de reconforto, suprimir, naquele preciso momento, qualquer

inveja mesquinha, ela, ainda assim, não se via, de maneira alguma, sentando-se, como ela diria, à mesma mesa

que o Senhor Drake. Por sorte, essa não seria, aparentemente, uma questão que fosse se colocar; e a

circunstância de que, sob seus peculiares aspectos, os interesses de sua amiga ainda estariam ligados a Mayfair

lançou, sobre Chalk Farm, os primeiros sinais de resplendor, sinais que, antes, jamais haviam surgidos. Onde

estavam nosso orgulho e nossa paixão quando a única maneira de julgar a nossa sorte estava não em fazer a

comparação errada, mas a comparação certa? Antes que ela tivesse podido se recompor, outra vez, para ir

embora, ela se sentiu muito débil e cautelosa e agradecida. “Teremos nossa própria casa”, disse ela”, “e você

deve logo nos visitar e eu a mostrarei a você”.

“ Nós também teremos a nossa”, replicou a Senhora Jordan; “pois, você compreende, ele colocou como

condição o passar a noite fora dos domínios de seu senhor”.

“Condição?”, a garota não tinha compreendido.

“Uma condição para assumir qualquer novo emprego. Foi por isso que ele se separou de Lord Rye. Lord

Rye não pôde aceitar isso. Assim, o Senhor Drake teve que deixá-lo”.

“E tudo isso por causa de você?”, nossa jovem amiga expressou essa idéia da maneira mais alegre

possível.

[64]

“Por mim e por Lady Bradeen. Lady Bradeen está disposta a tê-lo a seu serviço por qualquer preço. Lord

Rye, por falta de interesse por nós, na verdade, forçou-a, praticamente, a contratá-lo. Assim, como lhe disse,

ele terá sua própria casa”.

A Senhora Jordan, com a alegria que isso lhe causava, começou a se reanimar; mas, houve, entretanto,

entre elas, um instante de silêncio bem consciente – um instante de silêncio no qual nem a visitante nem a

anfitriã expressaram qualquer esperança ou fizeram qualquer convite. Isso mostrava, em última instância, que,

apesar da resignação e da solidariedade, elas podiam, agora, afinal, contemplar-se mutuamente através da

distância social que as separava. Elas permaneceram juntas, como se fosse, na verdade, sua última

oportunidade, ainda sentadas, embora constrangidamente, bem próximas, e sentindo também – e isso de uma

maneira inequívoca – que restava uma coisa para ser tratada. Além disso, no momento em que isso aflorou à

superfície, nossa jovem amiga tinha reconhecido toda a grande verdade, o que lhe chegou a provocar, outra

vez, uma leve irritação. Não era a grande verdade, talvez, o que mais importava; mas após seu esforço

momentâneo, seu constrangimento e suas lágrimas, a Senhora Jordan tinha começado a insinuar, de novo,

mesmo sem dizê-lo expressamente, alguma conexão com a alta sociedade. Bem, tratava-se de uma

compensação inofensiva, e isso era tudo o que a futura esposa do Senhor Mudge podia, ao sair, deixar com ela.

[65]

27

Finalmente, nossa jovem amiga levantou-se outra vez, mas deixou-se ficar um pouco antes de ir

embora. “E o Capitão Everard não tem nada a dizer sobre isso?”.

“Sobre o quê, querida?”.

“Bem, sobre essas questões – os arranjos domésticos, as coisas da casa”.

“Como poderia ele fazer isso com alguma autoridade, quando nada na casa lhe pertence?”.

“As coisas não lhe pertencem?”, perguntou, surpresa, a jovem, perfeitamente consciente de que dava,

assim, à Senhora Jordan a impressão de que essa sabia, em comparação com ela própria, muito mais coisas.

Bem, havia coisas que ela queria saber e pelas quais ela estava, finalmente, disposta a pagar com sua própria

humilhação. “Por que elas não lhe pertencem?”.

“Você não sabe, minha querida, que ele não tem nada?”.

“Nada?”. Era difícil vê-lo sob esse ângulo, mas a capacidade da Senhora Jordan em responder suas

questões era de uma superioridade tal que começou, na mesma hora, a se tornar ainda maior. “Ele não é rico?”.

A Senhora Jordan parecia imensamente bem informada, tanto em geral quanto em particular. “Depende

do que você chama de…! Não, de qualquer maneira, não, absolutamente não, ele não é tão rico quanto ela. O

que ele traz para o casamento? Pense no que ela tem! E, depois, querida, pense em suas dívidas!”.

“Suas dívidas?”. Sua jovem amiga estava inteiramente entregue à sua impotente inocência. Ela podia

debater-se um pouco, mas, no final, ela tinha que se entregar; e se ela tivesse falado honestamente, ela teria

dito: “Sim, diga-me, pois meu conhecimento sobre ele não chega a esse ponto!”. Mas ela não falou

honestamente, limitando-se a dizer: “Suas dívidas não significam nada quando comparadas ao quanto ela o

adora”.

A Senhora Jordan começou a olhá-la fixamente outra vez, e nossa jovem amiga via agora que só lhe

restava aceitar tudo o que ela lhe dizia. Tudo se resumia a isso: que ele se sentara com ela, lá no banco, sob as

árvores, naquela noite de verão, e pusera suas mãos sobre as delas, e lhe teria feito saber o que ele teria dito

se ela tivesse permitido; que ele tinha retornado a ela, depois disso, repetidamente, com olhos de súplica e com

sangue febril; que ela teve sua oportunidade, mas que ela, inflexível e pretensiosa, ajudada pelo milagre de

uma informação que ela retivera em sua memória e em sua impossível condição de casamento marcado, se

limitara, em resposta às perguntas dele, a devolver-lhe, através das barras da gaiola, suas súplicas. Tudo se

resumia simplesmente a isso: o que ela podia saber sobre o Capitão, agora perdido para sempre, era por meio

da Senhora Jordan, a qual só o conhecia, de forma indireta, por meio do Senhor Drake, o qual só tinha acesso a

ele por meio de Lady Bradeen. “Ela o adora, naturalmente, mas isso não é tudo”.

A garota sustentou os olhos dela por um instante, mas acabou por se render. “Sobre esse assunto,

existe alguma outra novidade?”.

“Bem, você não sabe…”, a Senhora Jordan estava quase compadecida.

Sua interlocutora tinha, quando estava na gaiola, adivinhado muitos detalhes, mas havia, aqui, de

alguma forma, a sugestão de um abismo praticamente imensurável. “Naturalmente, sei que ela nunca o

abandonaria”.

“Como poderia ela fazer isso? Imagina! Depois de ele ter se comprometido com ela a esse ponto?”.

Ao ouvir essas palavras, a mais inocente exclamação que elas jamais tinham ouvido saiu dos lábios da

mais jovem delas. “ Comprometido-se a esse ponto…?”.

“Bem, você não sabe do escândalo?”.

Nossa heroína pensava, tentando se lembrar. Havia algo, seja lá o que fosse, sobre o qual ela sabia

muito mais que a Senhora Jordan. Ela o viu outra vez tal como o tinha visto chegar naquela manhã para

recuperar o telegrama – ela o viu tal como ela o tinha visto deixar a agência. Ela se agarrou, por um instante, a

essa imagem. “Ah, não houve nada que fosse público”.

[66]

“Não exatamente público, não. Mas houve um grande susto e uma grande confusão. Esteve tudo a

ponto de se tornar público. Algo foi perdido, algo foi encontrado”.

“Ah, sim”, replicou a garota, sorrindo como se tivesse reavivado uma lembrança perdida; “algo foi

encontrado”.

“Tudo se espalhou e houve um ponto em que Lord Bradeen teve que agir”.

“Sim, ele teve. Mas não o fez”.

A Senhora Jordan foi obrigada a admitir isso. “Não, ele não o fez. E, então, para sorte deles, ele

morreu”.

“Não fiquei sabendo de sua morte”, disse sua acompanhante.

“Deu-se há nove semanas, e muito repentinamente. Isso lhes deu uma oportunidade inesperada”.

“De se casarem”, era uma pergunta que demonstrava surpresa, “tendo-se passado nove semanas?”.

“Ah, não imediatamente, mas, considerando-se as circunstâncias, será uma cerimônia muito simples e

que, posso lhe assegurar, ocorrerá muito cedo. Já foram feitos todos os preparativos. Acima de tudo, ela o tem

seguro”.

“Ah, sim, ela o tem seguro!”, exclamou nossa jovem amiga. Ela refletiu sobre isso por um instante e,

então, continuou: “Você quer dizer, por ele ter feito com que falassem dela?”.

“Sim, mas não apenas isso. Ela ainda tem outra carta na manga”.

“Outra?”.

A Senhora Jordan hesitou. “Bem, ele estava metido em algo”.

Sua amiga perguntou, surpresa: “Em quê?”.

“Não sei. Algo ruim. É como eu lhe disse, encontrou-se alguma coisa”.

A garota tinha os olhos arregalados. “E…?”.

“Teria sido muito ruim para ele. Mas ela o ajudou de alguma forma – ela recuperou essa coisa, ela se

apoderou dela. Diz-se até mesmo que ela a roubou!”.

Nossa jovem amiga pôs-se reflexiva outra vez. “Bem, foi precisamente o que foi encontrado que o

salvou”.

A Senhora Jordan, entretanto, foi categórica. “Desculpe-me, mas acontece que eu sei”.

Sua discípula hesitou, mas apenas por um instante. “Você quer dizer que você sabe por meio do Senhor

Drake? Eles dizem essas coisas a ele?”.

“A um bom empregado”, disse a Senhora Jordan, agora com um tom sentencioso que era proporcional

à sua clara posição de superioridade, “não é preciso que se lhe digam essas coisas! Lady Bradeen salvou – como

uma mulher muito freqüentemente o faz – o homem que ela ama”.

Desta vez, nossa heroína levou mais tempo para se recuperar, mas recobrou, finalmente, sua voz. “Ah,

bem, naturalmente, eu não sei! O importante foi que ele se saiu bem. Parece, pois, que, de uma certa forma”,

acrescentou ela, “eles fizeram muita coisa um pelo outro”.

“Bem, é ela que mais tem feito. Ela o tem preso”.

“Percebo, percebo. Adeus”. Elas já tinham se abraçado e, desta vez, não repetiram o gesto. Mas a

Senhora Jordan desceu com sua convidada até à porta da casa. Aqui, outra vez, a mais jovem se deteve,

voltando ao assunto do Capitão Everard e de Lady Bradeen, embora elas já tivessem, no caminho, trocado umas

três ou quatro observações sobre isso. “Você queria dizer, há pouco, que se ela não o tivesse salvo, como você

diz, ela não o teria tão preso?”.

“Bem, é o que eu ouso dizer”. Parada no umbral da porta, a Senhora Jordan sorriu com o pensamento

que lhe ocorrera; em meio à bruma cinzenta, ela abriu bem a boca para dizer: “Os homens nunca gostam das

mulheres a quem fizeram algum dano”.

“Mas que dano ele lhe fez?”.

“Aquele que lhe mencionei. Ele tem que se casar com ela, compreende?”.

[67]

“E ele não queria?”.

“Não antes”.

“Não antes de ela recuperar o telegrama?”.

A Senhora Jordan se deteve por um momento. “Era um telegrama?”.

A garota hesitou. “Pensei que você tivesse dito que era. Quero dizer, seja lá o que tenha sido”.

“Sim, seja lá o que tenha sido, não penso que ela tenha compreendido isso”.

“Assim, ela o teve amarrado?”.

“Ela simplesmente o teve amarrado”. A amiga que partia estava agora no último degrau da pequena

escadaria; a outra estava no primeiro, em meio a uma densa bruma. “E para quando é a mudança para sua

casinha? No próximo mês?”, perguntou a voz do topo da escadaria.

“O mais tardar. E para quando é a sua mudança?”.

“Ah, ainda mais cedo. Sinto-me, depois de tanto falar com você sobre isso, quase como se eu já

estivesse lá!”. Então, do fundo da neblina veio um “adeus!”.

Um “adeus!” que desaparecia na neblina. Nossa jovem amiga também desaparecia na neblina, mas na

direção oposta e, agora, após ter dado algumas voltas, um tanto desorientada, dirigiu-se ao Canal de

Paddington. Distinguindo vagamente o que o baixo parapeito encobria, ela parou perto dele e ali permaneceu

por um momento, olhando com atenção, mas talvez ainda desorientada, para baixo. Um policial passou por ela,

enquanto ela ainda permanecia ali; depois, indo um pouco adiante e meio perdido em meio à bruma, ele se

deteve e a observou. Mas, imersa em seus pensamentos, ela não se dava conta de nada. Eles eram

demasiadamente numerosos para serem listados aqui, mas dois deles, ao menos, podem ser mencionados. Um

deles era que, decididamente, sua casinha não era para o próximo mês, mas para a próxima semana; o outro,

que lhe sobreveio, na verdade, enquanto ela retomava sua caminhada e ia em direção à casa, era que era

estranho que uma tal questão tivesse, afinal, sido resolvida para ela pelo Senhor Drake.

 

Tradução: TT

 

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