História do abismo e da luneta. Pierrete Fletiaux

 

I

O problema está em dirigir todos esses movimentos para além do grande abismo.

 

***

Eu tenho, é claro, uma luneta; uma escada, das grandes (extensível, feita de aço, recémchegada);

uma escadinha, esta de madeira e toda surrada de tão usada; os diagramas; e ainda – eu

ia me esquecendo, eu sempre me esqueço – o megafone.

A escada grande me pertence, de forma exclusiva. Ninguém se daria ao trabalho de se arriscar

com ela. Suas delgadas guardas laterais, feitas de aço, têm um certo jeito, quando o sol reluz, de

desaparecer em clarões de luz; quando o céu está para chuva, de desaparecer entre os rastros de

cinza; e, quando as brumas passam, de se apagar quase inteiramente, como se, leves demais de

tanto se afinar, elas tivessem se deixado aspirar pelo espaço celeste. Quando o tempo é normal, elas

dão a impressão, sobretudo, de terem o ar como único ponto de apoio.

Ambigüidades desse tipo não afetam as escadinhas. Elas já estavam lá, antes de mim, e

gerações de observadores de curta-visão já tinham, sem dúvida, subido e descido muitas vezes os

seus poucos degraus. Espessas e pesadas, agora elas não me servem mais a não ser para escorar a

minha escada grande em caso de muito vento.

Tudo isso sobre a plataforma comum que utilizo como todo mundo, embora – devo reconhecer

– seja designado, a mim e à minha escada, o lugar mais retirado e menos freqüentado de todos.

***

É a luneta que certamente me é mais útil. Tenho o modelo especial, confiado aos

observadores de longa-visão. É um instrumento custoso e que me exigiu muitos anos de esforços. Eu

poderia certamente ter me contentado com uma luneta comum, de curta-visão, que se obtém por

encomenda e por um simples certificado de assiduidade, mas eu tinha em vista o modelo mais

preciso, o mais complexo, e também o mais difícil de manejar.

Não posso dizer que não fui prevenido dos riscos. Lembraram-me, com solenidade, que esse

instrumento tão delicado se altera ao menor erro; que os erros são aí, às vezes, tão difíceis de

detectar que a gente pode nem sequer se aperceber disso; que aqueles que o utilizam correm, assim,

o terrível risco de passarem toda uma vida no erro, mas acreditando, ao mesmo tempo, estarem

seguros no domínio da verdade; que, enfim, embora construído com o maior cuidado, ele pode se

quebrar. E quando se quebra, o dano é irremediável. Instrumentos desse tipo não podem ser

substituídos nem consertados. O seu mecanismo interior é lacrado e apenas arranhões superficiais

podem ser reparados.

Não quero ser daqueles que um acidente tão devastador priva dos recursos óticos

necessários. Os que são desse tipo a gente percebe, às vezes, à noite, andando sem rumo em torno

das plataformas, enlouquecidos por uma proximidade que se cola à sua retina e com a qual eles não

sabem o que fazer. A gente os percebe, silhuetas longínquas, aproximando-se e afastando-se da beira

[2]

escura do abismo, o pescoço estendido em direção a essa enorme distância, que é a única que eles

podem enxergar. A gente os percebe, às vezes. Ninguém lhes presta atenção, mas eu os vejo, e cuido

bem de minha luneta.

***

Em certos momentos, por outro lado, eu a acho incômoda, e me pergunto se minha

obstinação não é pura tolice, se não seria melhor ter me contentado com o outro modelo, se não seria

melhor esquecer essa luneta.

É que, acima de tudo, ela exige tantos cuidados! Meus colegas, os observadores de curta-visão

manejam seu modelo normal como um taco de golfe, como uma raquete de tênis, como um galho

colhido ao acaso durante um passeio, como um cano, como um macaco mecânico, como um suporte

de abajur, uma vassoura ou um aspirador. Eles o jogam sobre as costas, agitam-no de um lado para

o outro, largam-no no chão, arrastam-no, empurram-no, levam-no de lá pra cá, viram-no em todos os

sentidos, passam com ele por batentes de porta e por cantos de parede sem a menor precaução.

É preciso dizer que eles não arriscam grande coisa. Essas lunetas se compõem unicamente de

dois tubos, um maior e outro menor, o menor corre por dentro do maior e é fixado a este por um

pequeno fecho. De um lado e de outro do canudo assim formado, há uma lente, duas lentes ao todo,

portanto. A parte constituída pelo tubo é feita da mesma matéria inoxidável que as panelas, a parte

constituída pela lente de vidro pelo mesmo tipo de material de que se fazem os vidros à prova de

balas. Quanto ao funcionamento, tudo é mais ou menos automático. Basta avançar ou recuar o tubo

inferior de acordo com a distância e, às vezes, acrescentar um filtro. Vê-se que não há, praticamente,

nenhum motivo para inquietações.

***

Enquanto que a minha! Com suas múltiplas molas, seus mecanismos de relojoaria, suas lentes

de refração e difração, microscópios embutidos, sistemas de graduação e de medida, suas ranhuras,

convexidades, sistemas de correr, mil pequenos cantos para limpar, lubrificar, verificar, proteger da

umidade e da falta de umidade, sem contar os cálculos que é preciso fazer e refazer a cada utilização.

A minha requer a reflexão, a intuição, o envolvimento. E mesmo assim a gente não está seguro de

que vai poder evitar os erros.

***

Pois eu tenho cometido erros! Há tantas lentes diferentes a colocar no lugar, tantas escolhas a

fazer a cada passo. É assim que, às vezes, a gente ajusta mal, que, às vezes, a gente calcula mal os

diferentes componentes da operação, e que em vez de obter uma visão ordinária e simplesmente

aproximada, a gente se acha diante de um universo desconhecido, absolutamente anormal, louco.

***

Quando se trata desses outros mundos, eu a odeio.

Um deslocamento fortuito de lentes, um olhar desviado para o lado, talvez, e eis que elas

aparecem, eis que elas se erguem diante da objetiva petrificada e, uma vez percebidas, como

esquecê-las? Não posso esquecê-las. Elas acompanham cada um de meus gestos, elas assombram

[3]

minha visão. É possível que essas paisagens nos rodeiem a todo instante, é possível que seja

suficiente não mais repeli-las para que logo, lentamente, elas se voltem a se formar em torno de nós?

Relevo minucioso, de uma precisão de enlouquecer, detalhes se desdobrando em detalhes,

semeado de segmentos que se mexem às sacudidas, como se movidos por articulações muito

longínquas, é possível, entretanto, reconhecer aí um sentido, esquartejado, mas onde, qual, e por que

aos clarões e tão fugitivos? Puzzle explodido de uma antiga coerência, já se movendo à deriva nos

espaços da memória. Mas, se, ao contrário, isso fosse já a verdade, se aí estivesse a coerência? Então

a gente retira a luneta em pânico, a gente olha em torno como se estivesse saindo de um sonho

trágico, e eis que tudo é como antes, a plataforma, as escadinhas e os colegas lá em cima, a luneta

no olho, o megafone nos lábios, e a escada, e a escuridão horizontal do grande abismo ao longe, e

depois… eles no além.

Simplesmente a gente tinha ajustado a luneta como um microscópio eletrônico e,

naturalmente, nesse caso, a paisagem buscada se dissolve em suas mais minúsculas partículas, cada

uma delas igualmente, terrivelmente, presente.

O inverso também. Isso em outros dias, em outras circunstâncias. Aterrorizado talvez pelos

erros precedentes, a gente tem tendência a afastar totalmente os mecanismos de microscopia. A

gente faz isso demasiadamente rápido, talvez, simplificando ao máximo o cálculo das distâncias. Mas

quando a gente olha, o coração pára, os dedos se congelam e se imobilizam: que outro mundo surgiu

na vastidão do entorno? Grandes massas enevoadas, lentas, moventes, vaporosidade inapreensível,

onde, mal se desenham, já se apagam as lembranças de um sentido: é essa a verdade e a gente vai

ficar só, com uma angústia absurdamente aguda, nesse lugar de perpétua ausência? Então, a gente

retira a luneta em pânico, e eis que tudo é como antes, a plataforma, as escadinhas e os colegas lá

em cima, luneta no olho, megafone nos lábios, e a escada, e a horizontal escuridão do grande abismo

ao longe e, depois, eles, no além.

Eles, cujos movimentos, é preciso que eu lembre, nós dirigimos, e nisso consiste nossa

questão principal.

***

Aventuras semelhantes não devem acontecer aos meus colegas, os observadores de curtavisão,

com suas lunetas de imagem única. A mim elas acontecem com freqüência, elas acontecem

sempre. Sei que não passam de erros, sei qual lente está mal colocada, qual medida mal tomada

causou aquilo que não é, afinal, senão um defeito de ajuste – não há por que duvidar disso –, eu o

sei perfeitamente, eu acompanhei e dei cursos sobre esse assunto. Há ali, no meio de meu espírito,

esses esquemas perfeitamente claros e rigorosos no interior dos quais tudo se encadeia com lógica,

de acordo com a ordem prevista e estudada.

No interior deles, sim, mas e fora deles? E como apagar de sua memória essas outras

paisagens?

***

Em todo o caso, sobre a plataforma, no alto de minha escada grande, minha luneta em

posição, devo confessar que tenho freqüentemente grandes satisfações. As lentes bem alinhadas, a

refração e a convergência funcionando em ordem, tenho uma visão de seus movimentos para além do

grande abismo, perfeitamente límpida e sem névoa. Posso, pois, dar ordens quase que por uma

fração de centímetro. Posso detectar infrações até mesmo muito leves, e anunciá-las imediatamente

[4]

ao megafone e exigir sua correção imediata. Essas sutilezas, vejo perfeitamente, surpreendem meus

colegas. Quando eles ouvem, pois, minha voz sair enfurecida do alto-falante, eu os vejo

imediatamente sobressaltar-se, ajustar suas lunetas com vivacidade e escrutar o horizonte de um

homem único.

Sempre tive, nesse momento, a tentação de correr até suas escadinhas, de comunicar-lhes

minha emoção, de pedir-lhes sua opinião, em suma, de partilhar essa nova experiência. Mas, muito

rapidamente, me dei conta de que essas confidências me faziam passar por um complicado, um

pretensioso, e longe de me fazer ganhar a camaradagem que busco, em vez disso, elas me

alienavam.

A razão desse estado de coisas é simples e eu, felizmente, rapidamente, a compreendi. Meus

colegas muito simplesmente não vêem o que eu vejo. Sua luneta (modelo comum, do tipo “curtavisão”)

alcança menos, de maneira mais aproximativa, o que faz com que eles não detectem a não

ser aquelas infrações que são mais acusadas, só levando em conta pequenas variantes, de acordo

com os respectivos modelos. Por outro lado, é preciso, com toda certeza, que eu reconheça que esse

tipo de visão é amplamente suficiente para nosso trabalho, e que a minha luneta não acrescenta,

afinal, nada, e é melhor, provavelmente, que eu não diga nada.

Entretanto, nem sempre é fácil a gente se controlar. Tenho, como todos, necessidade de

interação e, como todos, uma dose razoável de curiosidade intelectual. Se eu me contentasse com a

luneta normal, a de curta-visão, não penso que teria o mínimo problema e, neste momento, eu seria

um ser feliz, cheio de amigos, satisfeito com meu trabalho, de acordo com suas visões e as visões

daqueles que os rodeiam. Mas em vez disso…

***

Em vez disso, não posso me impedir de movimentar minhas múltiplas lentes, de refazer meus

múltiplos cálculos, de recomeçar um ajuste diferente, ali, onde tudo já parecia correto, mas há

sempre essa comichão, essa tentação de saber se a luneta não pode funcionar melhor, se uma outra

combinação, talvez, não ultrapassará a precedente, eu tento, eu tento, sempre voltado para o além

do grande abismo, e é assim que eu descubro, a cada instante, quase de forma acidental, bolsas de

irregularidade, ordens mal obedecidas, atrasos, para ser justo, descubro também, às vezes, heroísmos

ocultos, desígnios tão perfeitamente exitosos que apenas uma luneta como a minha pode avaliá-los.

Descubro intenções até mesmo antes que elas se formem. Meus elogios, ecoados pelo auto-falante,

surpreendem, pois, os meus colegas na mesma proporção que meus gritos, anteriormente

mencionados. E cabe a mim, naturalmente, explicar, explicar uma vez mais e sempre.

Curiosamente, e ainda que eu passe por um complicado e um pretensioso, eles, mesmo assim,

escutam minhas explicações. É mesmo por causa dessas explicações – que eu jamais dei, entretanto,

a não ser na excitação da descoberta, por falta de controle, poder-se-ia dizer, e estritamente no

desejo perfeitamente humano de camaradagem –, é por causa delas que me ofereceram a escada

grande.

Eu a aceitei com alegria, é uma honra e eu não a desprezo, mas isso não virou a minha

cabeça a ponto de me impedir de notar a injustiça dessa escolha. Com efeito, graças a essa escada

mais alta, mais flexível, mais estudada, eu vou naturalmente poder ver mais, em um número maior de

circunstâncias e por um tempo maior, o que vai inevitavelmente aumentar minha vantagem

[5]

relativamente a meus colegas da plataforma, ou minha desvantagem, por outro lado, mas de toda

maneira aumentar a distância que sinto haver entre nós.

Finalmente, tudo o que ganhei foi uma espécie de respeito longínquo. Ninguém vê o que eu

anuncio ao alto-falante, isso não serve para ninguém, mas porque eu tenho uma longa-visão, já que

tenho uma escada alta, eles supõem, então, que está bem. Eles me escutam e me deixam em paz.

No alto de minha cadeira, me sinto, pois, como um verdadeiro monumento, erigido à glória

das lunetas de luxo e das escadas extensíveis. E se os pombos vêm depositar sobre mim seus

excrementos brancos, eu não posso, parece, mais do que sorrir com benevolência e, sobretudo, não

me melindrar.

Entretanto, eu me melindro, eu me melindro com violência, o que fez com que minha luneta

me trouxesse um terceiro benefício: eu passo agora por um observador excêntrico, dotado,

certamente de uma boa luneta e de uma boa escada, mas fundamentalmente muito sério.

***

Vê-se facilmente que não estou muito contente com minha sorte. E certamente penso que a

primeira idéia que virá ao espírito de todo mundo é a de perguntar: por que não mudar de luneta, por

que não obter o modelo normal, e jogar fora essa criadora de histórias, jogá-la na grama que cerca a

plataforma? Essa questão me assombra. Ela está em meu espírito a cada dia, a cada instante. Por que

não, com efeito?

Eu teria, assim, direito à camaradagem tão buscada, eu poderia me juntar aos outros,

empoleirados sobre suas gastas escadinhas, me queixar com eles do tempo que estraga a madeira,

do trabalho que estraga os olhos, da falta de lugar, da falta de altura, dos que estão para além do

abismo, eu poderia me queixar de tudo, bem abraçado a eles sobre a estreita superfície da última

barra da escadinha, e quando a noite chegasse, eu poderia, juntamente com eles, deixar minha

luneta de lado – ah, a felicidade de deixar as coisas de lado! – , deixá-la simplesmente cair até à

plataforma de baixo, e daí ricochetear até o chão um pouco mais abaixo ainda, e se ela se quebrar, a

gente irá consertá-la! Ou a gente a substituirá, ou a gente simplesmente a esquecerá. E depois descer

bem rapidamente, aliviado de um peso, resfolegar com os outros, jogar uma perna para a direita,

para a esquerda, jogá-la mesmo contra as lunetas que voam, como se jogasse futebol com os outros,

e depois caminhar no chão, andar, indo adiante por pura fadiga, o corpo mole, o pé pesado, e tanto

pior para as lunetas através do caminho, andar sem preocupação, se queixando agora com os outros

da má qualidade desses instrumentos e de sua indiferença para com aqueles que estão lá em baixo,

para além do abismo.

Mas em vez de fazer isso, quando chega a noite, eu fico lá no alto, agarrado à minha escada

extensível, deslocando minhas lentes com o sol que cai, experimentando com a lanterna e o espelho

quando o sol desaparece, e continuando ainda a escrutar a noite negra para além do abismo ainda

mais negro, buscando não sei qual combinação ainda escondida no interior do tubo reluzente de

minha luneta, explorando essa noite que se torna próxima mas que continua opaca.

Depois vem o inevitável momento no qual eu me volto, e no qual não há outro arredor que as

silhuetas feito fantasmas das escadinhas, esvaziadas de seus ocupantes, no qual não há mais que os

rastros pálidos de lunetas cobrindo o chão como ossadas brancas, e no qual, sob os meus pés, um

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reflexo vago, bailando sobre as guardas da escada, parece uma nuvem esbranquiçada à deriva pelos

espaços. Intolerável, intolerável solidão!

É uma confusão que toma conta de mim, uma confusão causada, pois, por uma luneta e,

sobretudo, por uma luneta que pode quebrar-se ao menor choque!

E depois, em algum lugar, na noite que se estende diante de meus olhos, para além de minha

escada, para além da fachada das plataformas, para além da barreira de arame farpado, ainda mais

longe, há essa noite ainda mais profunda, um vazio negro, invisível. O grande abismo!

Então eu me apresso, me apresso tão rapidamente quanto me permite minha vertiginosa

escada, e minha luneta que atrapalha, e minhas mãos que tremem. Junto minhas lentes, recolho

meus tubos, dobro meus tripés, enxugo cada peça, ordeno-as em seus cantinhos, coloco tudo isso em

ordem no estojo, e me ponho, enfim, a descer os degraus da escada. E aí, ainda, que dificuldade!

Pois, com a vinda da noite, o orvalho já se depositou sobre os degraus de aço, fazendo de cada um

deles uma sorrateira placa de gelo, e eu, minha penosa luneta apertada contra meu coração, desço

passo a passo, com toda precaução, contraído como um caracol sem carapaça.

E depois, naturalmente, posso certamente correr, já faz tempo que não há mais ninguém e, se

por acaso, encontro alguém que se atrasou, estou, então, tão ofegante que me é impossível tirar o

menor proveito desse inesperado golpe de sorte.

Ninguém gosta de falar a uma pessoa desvairada, ofegante, contraída, titubeante e, além

disso, gaguejante. Ninguém, por outro lado, leva minha doença a sério. As pessoas se surpreendem

que, com uma luneta mais aperfeiçoada e uma escada inteiramente nova, extensível, eu possa ter

esse ar esgotado e nervoso. Não deveria eu, ao contrário, ser mais relaxado e menos fatigado que os

outros? E eis que sou, assim despojado, quando vem a noite, do mais terno dos direitos, o de me

queixar em grupo das fadigas da jornada.

***

Trabalho tanto quanto os outros, trabalho até mesmo mais, já que minha luneta exige mais

ajustes e manutenção, trabalho mais na solidão, sem conselho nem ponto de comparação, termino

mais tarde e volto mais ofegante, e eis que não tenho direito à boa consciência, espessa e calorosa

como uma sopa, que sustenta o ventre e libera o sono.

Por que, por que não me desfazer de minha luneta de tão longa visão?

***

Não creiam que eu não fiz isso. Eu já fiz.

E, por outro lado, é por isso que, mesmo entre aqueles que, como eu, têm uma luneta de

luxo, não encontrei a camaradagem que busco.

Pois, entre os de longa-visão, não há ato mais vulgar, ato mais baixo, mas desprezível que o

de retornar ao modelo comum. Trata-se de uma ofensa à confraria, tanto mais dolorosa de suportar

quanto cada um não tem mais a quem acusar a não ser a si mesmo. Como se pôde confiar uma

luneta de luxo a alguém que não foi mesmo capaz de apreciar sua beleza e superioridade? Como

puderam se deixar enganar dessa maneira? Cada um, na confraria, se sente secretamente

mortificado, atingido em seu julgamento e se trata, em suma, de uma questão bem desagradável.

[7]

Só que, vejam só, os de longa-visão não são muitos. E quando eles existem, eles estão

naturalmente longe, acessíveis, sem dúvida, em algumas ocasiões, desde que a gente queira, claro,

se dar ao trabalho de encontrá-los, mas, enfim, eles não estão aí, na proximidade da vida cotidiana.

Para cada plataforma, não há mais do que um ou mesmo nenhum. E, para mim, um colega que existe

sobre uma outra plataforma, a quilômetros de distância, um colega que existe apenas em teoria, já

que eu não o vejo, é um colega que não existe.

***

Foi após ter maduramente refletido sobre tudo isso que decidi um dia me descartar de minha

luneta e obter uma semelhante às das outras pessoas de minha plataforma.

Isso não se deu sem dificuldade. É muito difícil mudar a visão que a gente tem das coisas.

Eu tinha me habituado – todo mundo tinha se habituado – a me ver empoleirado sobre minha

escada um pouco acima da linha das escadinhas, com minha luneta ultrapassando as outras lunetas

como uma lança em meio a espadas. Todo mundo se sentia confortável, e isso fazia com que

parecesse indecente querer mudar seja lá o que fosse nessa venerável imagem, consagrada pelo

tempo e pela tradição. Com efeito, no fundo, pouco importa o ocupante atual da escada, sempre

houve escadas e escadinhas, sempre houve os de longa-visão e os de curta-visão. Trata-se de uma

imagem que é preciso conservar. E quem sou eu para subvertê-la?

E foi assim que, em vez de me encontrar à vontade em meio à massa dos de curta-visão,

encontrei-me ainda mais isolado que antes.

Pois vocês haverão de concordar, no que toca a mim, eu fiz um ato, um ato até mesmo pouco

habitual, para chegar até eles, enquanto que eles se achavam lá de forma completamente natural,

eles tinham nascido, por assim dizer, no meio das lunetas comuns, o que lhes conferia um privilégio

esmagador, um privilégio que nada no mundo pode compensar e, finalmente, descobri que eu estava

melhor sobre minha escada, com minha longa-visão.

***

Para ser completamente honesto, não foi, por outro lado, exatamente assim que a coisa se

passou.

O que me faz me perguntar, às vezes, se é exatamente a camaradagem que busco, se, na

verdade, eu não estou enganando a mim mesmo, se não estou representando uma enorme comédia.

Porque, enfim, para que eu me sentisse à vontade entre a massa daqueles de curta-visão,

seria preciso que esquecesse minha antiga luneta, que ela desaparecesse do campo da memória, que

ela se tornasse, para mim, como acontecia com os outros, completamente estrangeira, uma imagem

exterior e nada mais. Em suma, que eu reencontrasse a inocência em relação a ela. Uma vez que isso

fosse feito, o restante viria junto, com toda naturalidade.

Mas não, foi justamente esse passo que não pude dar. Em suma, eu fiz o gesto de abandonar

minha luneta, fiz todos os movimentos necessários, como no teatro, mas não se tratava,

verdadeiramente, de outra coisa que não de teatro. E entre a multidão daqueles de de curta-visão, eu

não passava talvez de um traidor, de um espião da pior espécie.

[8]

Pois, vocês acreditam que eu me apressei a fazer como todo mundo, o que era, de qualquer

maneira, o meu objetivo ao passar da escada à escadinha? Não, nem por um segundo! Mal eu tive em

mãos a luneta comum, feita de dois tubos e duas lentes, eu comecei a avaliá-la, a julgá-la, a criticá-la.

E a partir desse momento tudo já estava perdido.

***

Pois, enfim, eu chegara até lá justamente para esquecer as lunetas, para descolar meus olhos

de suas fascinantes lentes, para desprender meus olhos de seus mecanismos de fixação e de suas

ranhuras e das linhas de refração e de difração e de suas graduações e de todo seu fascinante e

cativante sistema, eu chegara até lá para estar com os outros, e se mudar de luneta era o meio

necessário para tanto, eu estava disposto a passar por isso.

Mas é certamente evidente que a luneta deveria permanecer um meio, nada mais do que isso.

Em suma, teria sido preciso que eu aprendesse a colocá-la no ponto, e a me utilizar dela – nem mais,

nem menos – como de um taco de golfe, uma raquete de tênis, um galho colhido ao acaso durante

um passeio, como um cano, um macaco mecânico, como um suporte de abajur, uma vassoura ou um

aspirador.

Mas não foi o que aconteceu comigo. Eu falava todo o tempo dessa maldita luneta. E me

extasiava, sobretudo, com a redondez e a solidez de seu tubo, eu não saía desse tubo. Cada vez que

eu o tomava nas mãos, que eu sentia sua firmeza simples e opaca, era preciso que eu comunicasse

essa formidável impressão que ela me dava. Uma redondez que enchia a mão, nada mais que isso,

sem que fosse preciso ajustá-lo, medi-lo, que estava ali em toda sua excelência, bem sólido, bem

resistente, sem outra pretensão justamente que a de sua existência.

Como fazer para transmitir essas sensações por meio de palavras? Reconheço que eu devia ter

a aparência de um louco, de um maníaco, ou talvez de um abominável vaidoso. As sensações, em

princípio, não se devia falar delas.

E depois eu achava extraordinário que se pudesse, à noite, abrir as mãos e deixar cair sua

luneta, assim, sem mais nem menos, sem maiores preocupações, eu me maravilhava demais com

isso. Que singeleza, que simplicidade, que facilidade! Ao pensar nas minhas cuidadosas descidas da

escada, nas minhas horas de limpeza e de verificações, nos meus perpétuos cuidados, eu era tomado

de uma vontade de rir, eu me sentia tão feliz, e naturalmente era preciso que todo mundo soubesse,

era preciso que todo mundo recebesse um pouco dos fragmentos de minha gratidão!

Como era agradável não ter de fazer cálculos a todo instante, chegar de manhã, pegar

negligentemente sua luneta do monte de lunetas, subir a escadinha rodando a luneta nas mãos e,

depois, colá-la aos olhos sem maiores cuidados!

E ali, ver como todo mundo, ver exatamente o que todo mundo vê: que segurança!

E que conforto também saber que o que se vê é TUDO o que há para ver. Confortar-se, por

meio dessas suas duas lentes, com a composição do mundo! Que delícia, que inefável delícia!

Prazeres de criança desde muito esquecidos, uma tarde de verão em um jardim perfumado ao

lado da mãe, eu me derretia de prazer, eu acariciava essa modesta luneta como um bombom, como

um brinquedo, oh, de uma forma um tanto ingênua e tola, mas tão irresistivelmente sedutora!

***

[9]

Apenas que não era absolutamente isso que eu deveria ter feito. Porque assim, cantando a

cada instante as loas às lunetas comuns, eu não deixava, entretanto, de pensar nas lunetas. Ora,

entre as pessoas normais, entre as pessoas das escadinhas, não se pensa em sua luneta. A gente a

utiliza, nada mais.

Com a luneta, a gente olha. Mas a gente não olha a luneta.

Ocorre, entretanto, que a gente se queixa. Eu também descobri isso. Tudo não é assim tão

simples como se desejaria certamente crer entre essas pessoas de curta-visão, e elas fazem às

lunetas reprovações que a mim pareciam bastante injustificadas.

Foi o modelo comum que elas escolheram. Que poderiam elas esperar senão uma visão

comum? E a luneta não pode, de qualquer maneira, ser responsabilizada pelas doenças, pelos

tornados, pelos desabamentos da plataforma, pelos humores e rebeliões daqueles lá de baixo, para

além do grande abismo e, em geral, por todos os males da terra.

É, entretanto, o que ocorre. As pessoas se queixam de não poder ver suficientemente perto,

com suficiente precisão, elas se queixam de que a luneta não detectou a tempestade que se formava,

ou o surgimento de um vírus, ou a fenda causada por um terremoto, ou então, sobretudo, os

Problemas em seu início, do outro lado do abismo.

Tudo isso me parecia absurdo. É certamente evidente que a luneta que eles escolheram – nem

talvez luneta alguma – não pode cumprir todas essas tarefas. Eles o sabem muito bem. Quanto a

mim, incapaz de me queixar em abundância no sentido de todo mundo, já me encontrava distanciado.

Não, eu a achava boa, essa pobre luneta comum, e me era impossível menosprezá-la.

E quando, com o tempo, abalado por todas essas queixas, eu propus uma reunião geral com a

finalidade de buscar aperfeiçoamentos, ninguém compareceu. Houve sorrisos, alguns olhares de

esguelha e, na verdade, cada um falava já de alguma outra coisa. Eu havia mais uma vez tomado o

caminho errado.

E naturalmente foi então que comecei a me arrepender, minha antiga luneta, minha bela, bela

luneta de longa-visão.

Comecei a me cansar dessa paisagem sempre igual, dessa paisagem sem margem, sem duplo,

sem direito nem avesso, dessa incansável presença, repetitiva à maneira dos idiotas.

Outrora, eram meus olhos que conseguiam seguir o tobogã das possibilidades, eram meus

olhos que se cansavam por detrás das lentes. Agora era o inverso. As lentes iam a passo lento e igual

e, por detrás, meus olhos batiam o pé com impaciência.

Então, por vezes, por nervosismo, por tédio, eu falava a meus vizinhos, eu falava, uma por

vez, às escadinhas da plataforma.

Eu falava desses relevos em sucessão, de uma precisão de deixar louco, detalhes se

desdobrando em detalhes, disseminados de segmentos que se movimentam por sacudidelas, cada um

deles igualmente, terrivelmente presente. E desses universos ausentes, grandes massas enevoadas,

mal e mal desenhadas, terrivelmente longínquas. Como apagar da memória essas outras paisagens?

Sim, sei muito bem, um simples erro de lentes, mas erro relativamente a quê?

***

[10]

De que serve falar? Em todo caso, ganhei, assim, uma certa vantagem. Pois meus colegas

decidiram que eu era um observador poético e conquistei, assim, um certo grau de aceitação e,

sobretudo, tive sossego.

***

E nesse sossego que regressava, acreditei ter-me tornado louco.

Não, ela não estava ali – no meio de todas as outras escadinhas e de todas as outras lunetas

comuns –, não era a camaradagem que eu tanto tinha buscado, pela qual eu cheguei até a renegar

minha luneta de luxo e abandonar minha escada extensível.

***

Não era uma camaradagem, nem uma mistura, nem uma troca; na verdade, não passava de

uma infatigável contigüidade, de um infinito caminho de linhas paralelas, sem nenhum imprevisto e

sem nenhuma esperança.

Sem a mínima esperança, paralelas coladas ao cimento no deserto, sem uma fissura, nem um

desvio.

Enquanto que eu, lá no alto, sozinho na minha escada, com o universo à deriva, flutuando a

cada instante na borda de minhas lentes, com os clarões repentinos, as clarificações brutais,

aproximações inesperadas, rupturas roçantes, possibilidades sempre furtivas entre duas lentes, e meu

contínuo estado febril, eu, lá no alto, tinha a esperança.

***

Qual? De quê? Não sei. Mas eu voltei à minha situação anterior. Retomei minha luneta de

longa-visão, e todos os seus tubos e todas as suas lentes e todas suas esperanças e suas

desesperanças, e foi assim que tudo verdadeiramente começou.

[11]

II

Quando isso começou, é praticamente impossível dizer com exatidão. Deve ter começado bem

antes de eu me dar conta. Talvez, várias vezes. no passado, eu tenha roçado o evento, mas

demasiadamente fraco ainda, ele não se impôs, ou então era eu que não estava pronto.

Agora, que estou seguro de minha descoberta, me pergunto, por vezes, se não foi essa

descoberta antecipada que me manteve por tanto tempo no alto de minha escada, se não foi ela que

me levou até lá depois que eu os deixei. Meus olhos, sim, talvez eles tenham visto, talvez tudo já

estivesseinscrito sobre minha retina, e apenas meu cérebro se recusasse ainda a compreender, a

estabelecer as respostas necessárias?

O passado se confunde sob o choque do presente. Como estar jamais seguro?

***

Sem nossas lunetas, a olho nu, não vemos nada para além do grande abismo. Não temos

deles, lá em baixo, a não ser o conhecimento teórico que nos dão os livros e nossos mestres.

Quanto àquilo que a gente vê com as lunetas comuns, agora eu sei. Espécies de células

gigantes, sob a forma de sala de aula, caserna, edifícios populares para famílias de baixa renda, ou

até mesmo um lugarejo visto do avião, geografia suscetível a mudanças de acordo com as ordens

recebidas, mas que no conjunto permanece essencialmente feita de células gigantes.

Com esse tipo de luneta, é difícil, praticamente impossível, detectar segmentações. É por isso

que os de curta-visão não se apercebem das rebeliões a não ser quando já é demasiadamente tarde.

A gente poderia achar que por causa desse defeito que, entretanto, lhes custou muitos dissabores,

eles prestassem atenção a nossas advertências, pois somos nós que detectamos as segmentações.

Mas as coisas raramente se passam desse jeito. São seres totalmente desprovidos de

imaginação. Sua luneta de imagem única extinguiu neles a idéia do possível, eles não podem aceitar

outras visões que as que ela lhes dá, e eles zombam, em geral, de nossas previsões.

Eles riem com indulgência, chamando-os de “pressentimentos”, enquanto que não se trata de

sentimentos, mas de constatações, ou ainda eles os qualificam de neuroses, tensões, excessos de

alma demasiadamente sensível, termos, todos eles, demasiadamente pejorativos na ótica de nosso

mundo.

***

Enquanto os Problemas se produzem no outro lado do grande abismo, eles estão, neste

momento, demasiadamente ocupados a enfrentá-los para se lembrar de nossas predições, e quando

os Problemas vão embora, a lembrança deles também se vai. Por vezes, entretanto, eles escutam

nossas predições, eles as registram em seus relatórios, eles falam sobre elas, durante as pausas,

empoleirados em suas escadinhas, e eles as contam às crianças no fim da noite. Até este momento,

não pude constatar que eles façam qualquer outra coisa de diferente. Eu preferiria, creio, que eles se

encolerizassem, que eles nos insultassem ou que destruíssem nossas escadas. Assim nós poderíamos

nos defender, assim nós poderíamos nos fazer escutar, assim deixaríamos de servir para nada.

[12]

Eu falo de “nós”, mas é certamente evidente que não sei como isso se passa nas outras

plataformas. Presumo que se passe a mesma coisa que aqui, e que o conjunto “lunetas comuns e

luneta de luxo” produza o mesmo resultado que o que descrevi aqui. Não tenho, para fundamentar

uma tal suposição, a não ser meu conhecimento de mim mesmo e a lei da uniformidade. Nada ainda,

infelizmente, me fez colocá-la em causa.

***

Acho, entretanto, que compreendo por que os de curta-visão se agarram tão obstinadamente

às visões de suas lunetas e não buscam obter lunetas mais precisas.

Essa luneta, com efeito, lhes facilita muito o trabalho, e é talvez essa simplificação que eu

também buscava quando abandonei minha escada para me juntar aos observadores das escadinhas.

Durante esse curto período de minha vida, pude perceber que muitas de minhas ansiedades e de

minhas angústias desapareciam por si mesmas, ao passar pelas duas únicas lentes situadas nas duas

extremidades dos dois tubos simples e extensíveis. E não fiquei o tempo suficiente entre eles para

adquirir as ansiedades e as angústias que eles não deixam certamente de ter.

E que simplificação, com efeito! Com a luneta comum, a gente não vê, a gente não controla

senão contornos, contornos de células gigantes que não necessitam mais do que um retoque nas

bordas, instantaneamente, como se faz com um lápis.

A gente faz com que essa imensa massa tome a forma de cadeias, de fileiras, de colunas, de

dominós – o número das figuras é, afinal, bastante limitado –, a gente faz essa massa se aproximar

da passarela ou a gente se distancia dela, de acordo com as necessidades, e quando uma figura é mal

feita, uma ordem mal obedecida, a infração é logo visível a todos e muito claramente identificada.

Tampouco, os resultados deixam margem a qualquer dúvida, e a eficácia – ao menos imediata – é

certamente uma das qualidades que se pode atribuir à luneta comum. Nunca nos faltou ainda, nunca,

nada. Os produtos nos chegam pela passarela com uma grande regularidade (ao menos na minha

opinião, sei perfeitamente que os de curta-visão encontram sempre o que dizer sobre isso, trata-se

mesmo de uma das fontes de suas angústias e ansiedades).

***

Falo, bem entendido, aqui, dos períodos em que não há Problemas. Mas, mesmo quando eles

se produzem, parece-me que isso não muda grande coisa em nossa situação e nosso bem-estar.

Quando uma célula não se conforma à figura exigida, tremores e sombreados se produzem

sobre seu contorno, as cadeias se rompem, as fileiras e as colunas se deslocam, os dominós

desmoronam, a passarela se imobiliza e mais nada corre ao longo do rolamento, enquanto os de

curta-visão vão logo buscar a Luneta de Raio.

***

A Luneta de Raio!

[13]

Não há mais que uma dessas por plataforma. Nenhuma plataforma poderia ter duas ao

mesmo tempo, menos ainda manejar duas. Tanto quanto se possa lembrar, nenhuma plataforma

jamais teve necessidade de duas. Uma só é suficiente, e a razão é evidente, uma horrível razão!

Falo aqui friamente, banalmente, como se se tratasse de uma luneta comum. Mas não se trata

de uma luneta comum. Que ela porte, por outro lado, o nome de luneta é ainda uma ambigüidade da

linguagem. Pois ela não serve para ver. Ela serve para cortar. Digo bem: para cortar. Para cortar.

***

A Luneta de Raio é mais alta que o mais alto dos degraus de minha escada extensível e mais

larga que toda a largura de nossa plataforma. Ela não pode ser armada a não ser em campo aberto,

livre de todo obstáculo, e quando ela é erguida, a sombra de seu topo se estende até ao abismo e sua

base tapa o horizonte. Nenhum de nós escapa a essa visão, nenhum de nós pode se desviar dela.

É na parte de trás que nós a guardamos, desmontada em suas diversas partes, elas próprias

espalhadas por diversos lugares, o que faz que em tempos normais, quando ela não está armada, ela

não seja percebida. Não poderia ser diferente, já que sua monstruosa silhueta preencheria toda a

paisagem.

Já é suficiente que ela ocupe minha memória. Enorme, enorme máquina, que não se compara

a nenhuma das de nossas construções…

Cada escadinha se encarrega de uma parte importante da Luneta, e a cada um, empoleirado

em sua escadinha – tal como fiquei sabendo quando de minha breve estada entre eles – é atribuído

um papel bem definido. A montagem da máquina, com efeito, deve poder se fazer em alguns poucos

minutos, em qualquer momento do dia ou da noite, assim que soar a sirena de alarme. Ninguém pode

ter acesso a uma escadinha e aí se instalar, se não foi anteriormente submetido ao treinamento de

montagem.

Por alguma antiga e profunda razão, os detentores de lunetas de longa-visão estão

dispensados do serviço de montagem e de manejo. Não lhes resta senão olhar, e disso, infelizmente,

eles não podem ser dispensados.

Uma vez montada, a máquina se compõe de uma enorme base quadrada, encimada por um

imenso tubo orientável, ele próprio munido, em sua extremidade, de um enorme espelho semelhante

a um olho sem pupila. Esse espelho coleta os raios do sol, toda a luz que se estende de uma

extremidade à outra do horizonte, e a filtra em direção ao seu centro.

Há, em toda essa operação, alguma coisa de terrificante que nunca deixou de me abalar.

O olho da Luneta priva brutalmente a Terra de sua luz. Qualquer que seja a hora do dia, uma

obscuridade impenetrável desce sobre nossas cabeças e, nessa estranha noite, vive apenas o

monstruoso pescoço da Luneta.

Montada no ar, estendida, ela corta a noite com um longo rastro oblíquo, clarões correm ao

longo das paredes cilíndricas, e bem no alto, em sua extremidade inchada, uma fogueira ardente

alimenta-se por si mesma, como uma enorme brasa levada a seu ponto de incandescência. Depois,

mesmo essa brasa se apaga e repentinamente, do meio do espelho extinto, jorra um raio, raio único,

gigantesco, um condensado de toda luz estendida sobre a Terra, raio que não ilumina nada ao redor,

mas rasga o ar como um grito ou como uma enorme flecha.

[14]

É um espetáculo que nenhum outro supera, vê-lo uma única vez significa ser atingido pelo

terror, significa ser marcado pelo resto da vida. Esse é também o momento mais perigoso para nós,

habitantes da plataforma. Esse raio monstruoso, uma vez colocado em ação, não pode ser parado.

Mesmo que quiséssemos, é, nesse momento, impossível voltar atrás: o Raio deve continuar sua rota.

Ele não volta ao seu centro a não ser que seja rebatido por uma superfície, um obstáculo. O menor

erro de orientação pode ser mortal para nós, o que explica a preparação minuciosa, o cuidado

extremo, a preocupação contínua, o gasto de energia e de emoção, e as lendas às quais dá origem

uma tal máquina.

Uma vez que o Raio, qual um monstro pseudópodo, tenha avançado para além do abismo (é

nesse momento que ele deixa de ser perigoso para nós), nós abaixamos a Luneta de Raio. No interior

de sua base, uma calculadora se coloca, então, em atividade. Nós lhe fornecemos o código da figura

desejada, cadeia, fileira, coluna ou dominó – o número de figuras é, afinal, bastante limitado – e,

assim que o Raio atinge o solo para além do grande abismo, os funcionários podem se retirar, não há

mais nada a fazer.

A calculadora se põe a ronronar, e lá embaixo, bem longe, o Raio, em um feixe de labaredas e

de centelhas, recorta para nós a figura desejada.

Recorta diretamente sobre a carne das grandes células, recorta seguindo seu código, e pouco

importa que ele atravesse um meio, entranhas. Com as lunetas comuns, não vemos mais que um

contorno, contorno de uma massa da qual basta retificar a periferia, na hora, como se fosse com um

lápis.

Quando a calculadora se apaga, o Raio se retrai, sobe pouco a pouco no espaço, qual uma

gigantesca antena de caramujo, volta-se sobre si mesmo, encolhe-se, toca o espelho, e quase

imediatamente a luz se estende novamente sobre a superfície da Terra.

Os funcionários desmontam o aparelho, e cada um se precipita para sua luneta. Para além do

grande abismo, percebe-se, então, a célula rebelde, agora consertada de acordo com a figura exigida,

perfeitamente recortada, sem manchas, sem sombreamentos. O trabalho recomeça, todos estão

felizes.

Os sombreamentos e as manchas sou eu que os vejo. Sou eu que os vejo com minha luneta

de luxo, do alto de minha escada extensível. E o que eu vejo é uma coisa bem diferente de uma

célula gigante de contorno único.

Eu vejo uma infinita continuidade de contornos, indeterminados, alguns em forma de corpos,

outros confusos como traços de rosto e, entre essas formas, mil variantes. O que eu vejo é uma

contínua segmentação, uma movimentação sem fim, um entrelaçamento de contornos que se mexem

sem parar. Nesse nível, é bastante difícil perceber a forma de conjunto que eles podem fornecer aos

de curta-visão. Nesse nível, é também bastante difícil falar de eficácia.

Pelo contrário, se não vejo os contornos do conjunto – e, por outro lado, de uma certa

maneira, eu os vejo, apenas eles não são mais os contornos de um conjunto, mas os contornos

justapostos de uma quantidade de formas individuais, o que não é, de qualquer modo, a mesma coisa

–, se tenho dificuldade em apreender o conjunto, eu vejo as correntes que se formam, as divisões

que se operam, as sublevações que se preparam, as acumulações, as segmentações.

E eu sei que esses movimentos inevitavelmente refluirão sobre as bordas, eu sei que, em um

determinado dia, em um determinado ano, a corrente chegará ao exterior, e se ela for protuberante o

[15]

suficiente, os de curta-visão a perceberão, os megafones e alto-falantes se colocarão em ação, e se a

linha de contorno não retomar sua forma original, então a grande Luneta se elevará, então a

obscuridade voltará a cair, então o Raio se lançará.

E nesse momento, que importarão minha luneta e sua bateria de lentes e seus filtros ultrasensíveis

e todas as minhas outras providências?

***

Desse Raio eu tenho medo. A obscuridade deposita em meu coração um terror que nada pode

apaziguar e é com angústia que observo o Raio recortar nossos desejos, bem longe, lá em baixo, para

além do abismo. Eles, sobre as plataformas, não falam. Um cheiro de enxofre chega até nós, trazido

pelos ventos. Para todos, esse cheiro não é mais do que o sinal de que tudo funciona como previsto.

Esse cheiro me dá náuseas. Parece-me, em uma outra vida, em uma outra visão, tê-lo já sentido, têlo

já pressentido…

Eu não sei, eu me desespero, uma vez mais penso que minha luneta, minha luneta de luxo,

não passa de uma bugiganga, que talvez, como todas as outras, não atinge o alvo, ela

irremediavelmente erra o alvo, e que achar que ela é diferente me distancia simplesmente um pouco

mais da verdade.

***

Assim, muitas vezes, tremendo, eu subi minha escada. Assim, muitas vezes, tremendo, eu

ajustei minhas lentes. Mas o que eu encontrei, o que foi que eu encontrei?

Já fiz muitos relatórios sobre os efeitos do Raio. Já estudei o contorno, já vi os estranhos

filamentos, os restolhos, os fragmentos, caídos ao lado, como após a passagem de uma serra. Já vi

sobre a própria linha os buracos, uma série contínua de buracos, de forma tal que essa linha, embora

apareça tão uniforme à luneta comum, não parece mais, aqui, feita senão de pontos soltos: ela

parece prestes a se dissolver em suas escavações. E por essa linha esburacada, eu sei que se

filtrarão as futuras desigualdades, que a utilização do Raio não faz outra coisa que apelar à utilização

do Raio, e que, talvez, não se trata senão de uma solução falsa para sempre. A textura interior,

também essa eu a estudei. Após a passagem do Raio, ela é, em geral, bastante achatada, quase

imóvel, mas há grandes rompimentos um pouco por todo lado, que eu identifico mal, que me deixam

desconfortável. E, depois, de novo, as longas calmarias entre as saídas do Raio, nas quais não se tem

outra coisa a fazer senão olhar as células, senão estudar seu funcionamento, dirigir seus movimentos,

e acumular relatórios sobre relatórios.

Para além disso, nada.

***

E um dia, encontrei-me, como de hábito, no alto de minha escada, e nada mais foi igual.

Pois eis que eu não conseguia fazer meu ajuste, que eu não conseguia nem mesmo escolher

meu objetivo, que eu ziguezagueava de um extremo a outro, tomado por agitações incompreensíveis,

[16]

e repentinamente uma impaciência me sacudiu, minhas preciosas lentes quase escorregaram de

minhas mãos, e por um instante achei que tudo estava acabado para sempre, minha luneta, minha

carreira, minha vida.

Alguns segundos depois, eu compreendi. Compreendi que se eu hesitava assim entre dois

objetivos, se eu não conseguia fazer o ajuste, é porque eu não tinha vontade, é que repentinamente

isso não me interessava mais.

***

Para que serve incansavelmente notar as diferenças, as conseqüências, para que serve essa

incessante compilação?

E mesmo se hoje minhas lentes detectassem um contorno a mais, um contorno ainda nunca

catalogado, não é verdade que isso não passaria de um contorno? Não é verdade que não passaria de

uma Repetição?

Enganadora repetição, escondida sob disfarces sempre renovados, sob provocantes novidades,

armada de orgulhos secretos, aumentada pelos impulsos do desejo, impulsionada pela ambição, pelo

medo, pela sede de dominação, e alimentada ainda pelo desejo de avançar, pelo desejo de saber!

Saber! Não foi sobre essa esteira de treinamento que minha luneta me colocou? Não foi para

“saber” que deixei as escadinhas, abandonando as lunetas comuns e retornando à minha luneta,

precisa máquina de ilusões? E minha luneta, não serviu ela senão para me ocultar por mais tempo a

eterna acumulação, a eterna repetição à qual somos condenados?

Com a luneta comum, eu tinha de repente visto que a visão não mudava, que ela era sempre

irremediavelmente a mesma, estreitamente circunscrita por suas duas lentes e pelo comprimento de

seus tubos, e nada mais.

Uma esperança feita à medida de uma lente espessa, encerrada ali dentro como um rato

numa gaiola.

Não havia mais nada a conhecer para sempre, e apenas um deslocamento no tempo

possibilitava que se esquecesse essa terrível verdade. Se, talvez, nós todos tivéssemos ficado imóveis

ao redor desse círculo de visão, talvez nos tivéssemos apercebido da verdade. Mas à noite, nós a

depositávamos e pela manhã a retomávamos e, assim, nós saltávamos, metro a metro, ao longo do

tempo, e durante a noite nós esquecíamos. É só esse deslocamento, perfeitamente falacioso, mas

pelo qual nos deixamos tomar, que nos faz acreditar no progresso, no avanço, na mudança, na

melhoria, na acumulação com a finalidade de… com a finalidade de…

A visão é, aí, tudo, ela não tem amanhã ou mais tarde. E, assim, cada uma de nossas visões é

sempre a mesma, cada um de nossos gestos o mesmo, e nós não aprendemos nada.

***

Tudo isso entrava pelos olhos com a luneta comum e se meus colegas de escadinhas não se

davam conta disso era, provavelmente, porque eles não tinham, como eu, o ponto de comparação de

uma outra luneta.

[17]

No interior da monotonia, no interior da repetição, não vemos a monotonia, não vemos a

repetição. Seguimos o movimento para o qual nos treinam, os saltos, dia-a-dia, sendo suficientes para

nos fazer acreditar na mudança, no progresso, etc.

E eu me surpreendia que eles pudessem se satisfazer em ver sempre essas mesmas grandes

massas para além do abismo, que eles pudessem se satisfazer em fazê-las funcionar segundo seus

desejos, que eles pudessem se satisfazer com a coincidência entre suas ordens e essas figuras, sem

procurar saber mais sobre elas. Uma relação tão frustrante!

***

Aí está: sem lunetas, não se vê nada para além do grande abismo. Com as lunetas, vêem-se

grandes massas. Com os alto-falantes, a gente faz com que essas massas ajam. Com o Raio, a gente

corrige suas ações. Pela passarela, chegam os produtos de nossos desejos. É isso: isso e nada mais.

Mas, então, se sem lunetas a gente não vê nada, se com uma luneta a gente vê um pouco

mais, então, dizia-me eu, é que há mais para ver, é que não é necessário parar aí. E foi certamente

por isso que preferi a luneta de luxo à luneta comum. Mas o que foi que eu ganhei?

Evidentemente vejo traços no interior da grande massa. Por vezes, essa visão mais detalhada

me é útil, mas no conjunto ela, em vez disso, prejudica a eficácia, pois, ao observar os traços e os

detalhes no interior do conjunto, me esqueço do objetivo primeiro, aquele pelo qual nós estamos

instalados sobre nossas escadinhas e nossas escadas em cima da plataforma, isto é, fazer com que

essa massa aja no sentido que nos convém. Não ganhei nada no plano prático, e o que aprendi não

passa de uma variedade na repetição.

Finalmente, entre minha luneta e a luneta comum, não há, talvez, mais do que uma diferença

de grau, não uma diferença de qualidade. Não há, talvez, nada de fundamentalmente diferente, nada

que seja fundamentalmente outra coisa. E todas as minhas lentes não fazem mais do que retardar,

para mim, essa esmagadora conclusão.

Que fazem eles, meus colegas com lunetas de luxo? Descobriram, também eles, isso? Ou se

contentam eles apenas em ir fazendo acréscimos, e cada vez mais acréscimos, ao mesmo saber

repetitivo?

***

O nervosismo crescia em mim como um turbilhão. Duas ou três vezes, pensei que tinha caído

da escada. Mas mesmo lá embaixo, aonde ir?

Retornar às pessoas normais, às pessoas das escadinhas? E suportar, uma vez mais, a visão

dessa paisagem limitada, se repetindo sempre a si mesma como um gaguejar!

Então, percorrer alguns quilômetros, ir até uma outra plataforma, partilhar meu problema com

um colega de longa-visão como a minha? Mas justamente, às pessoas de longa-visão a gente nunca

fala de seus problemas. Pois se a gente possui uma luneta de longa-visão, uma luneta de luxo, é

porque a gente não está sujeito aos problemas ou, no caso extremo, a gente é, de qualquer maneira,

capaz de dominá-los, embora seja como se não os tivéssemos dominado. Os problemas de natureza

pessoal não existem em nossa confraria. Só existem problemas de lentes, de molas, de convergência,

[18]

de difração, etc., ou, ainda, os grandes Problemas para além do abismo e desses nem falar! Pois se

eu descesse até lá, se eu falasse de repetição e de limitação, eu sei o que, imediatamente,

aconteceria. Eles desmontariam as partes exteriores de meu aparelho, eles as limpariam, eles as

verificariam, e pronto: tudo estaria dito. E eu voltaria para lá, para o alto, sozinho sobre minha escada

extensível, e eu recomeçaria a olhar, a compilar, etc.

***

E agora, o tempo me envolvia como um vazio, irrespirável, inumano, o vazio entre os planetas,

entre os sóis, entre as estrelas. E repentinamente eu compreendia que todo nosso esforço era

justamente para preencher esse vazio, para ocupá-lo por alguma espécie de sortilégio, eu

compreendia que, até lá, como nós todos, eu tinha sempre colocado uma lente no interior de cada

segundo, eu enfiava lentes ao correr do tempo, eu deslizava as lentes nas pérolas vazias dos

segundos. Como nós todos, habitantes perdidos das plataformas.

Apenas que agora eu tinha chegado ao fim de minhas lentes, ao fim das paisagens que elas

me davam, eu as tinha esgotado. Então, evidentemente, eu teria podido continuar, ao substituir as

mesmas, ou ainda os reflexos de lentes, e os reflexos de reflexos de lentes, e assim por diante, até a

minha morte. E é o que eles fazem, eles, os de curta-visão e os de longa-visão, meus colegas, é o

que eles fazem tranqüilamente e sem maiores preocupações, sobre suas plataformas no imenso meio

do vazio.

Então o que me aconteceu, a mim, para que repentinamente me encontrasse desse jeito,

aconteceu já no fim da linha do tempo, no fim da fileira de lentes e, estupefato, agora diante desse

fio que pende, desse pequeníssimo fio que pende sobre o abismo, o que me aconteceu? Fui

demasiadamente ligeiro, saltei os segundos, me enganei em alguma parte, ou então, ou então, me

aconteceu um acidente?

Aconteceu-me um acidente um dia, sem que eu o soubesse, em um arranjo fortuito de minhas

lentes, em uma agitação um pouco maior de meus gestos, passou-se alguma coisa entre o ponto de

difração e o ponto de convergência, uma irradiação demasiadamente forte no centro do círculo focal,

uma queimadura em algum lugar, em um ponto talvez mais frágil na córnea ou no cérebro e que não

deve nunca ser tocado para que a ilusão se prolongue.

Então, subitamente, uma ofuscação se produziu diante de meus olhos. Fulgurante em minha

luneta, desaparecida tão logo percebida, eu vi ALGUMA COISA, minhas mãos se abriram, minha

luneta caiu.

***

Tremo tão fortemente que preciso me agarrar aos degraus de minha escada, que preciso

descer alguns metros e apoiar minha testa e todo o meu corpo contra as grades e estreitar os dois

pés da escada em meus braços e ficar o mais retesado possível contra esse grande vento que sopra

para além do abismo, que sopra cada vez mais forte.

As seções de minha escada rangem umas contra as outras e a mais alta, lá em cima, oscila

como um mastro. Contragolpes violentos me atingem os flancos, o megafone bate contra os degraus,

[19]

por vezes se levanta como uma bandeira e torna a descer bruscamente, eu me inclino para agarrá-lo,

a escada se inclina junto comigo, se inclina, uma borrasca levanta-a brutalmente, o megafone voa em

pedaços contra os pés da escada, percebo que lá em baixo os outros deitam as escadinhas, percebo,

em meio às folhas rodopiantes e às tábuas arrancadas, lunetas que voam no espaço em todas as

direções, o ruído de vidro quebrado se mistura ao bramido da tempestade, desço os degraus um a

um, atinjo a segunda seção da escada e, então, por cima de minha cabeça, a seção superior, assim

tornada mais leve, se destaca subitamente com um estalido seco e dispara horizontalmente através

do espaço, eu me inclino bruscamente, um pedaço de aço perdido passa a alguns centímetros de

meus olhos.

Turbilhões de areia se erguem agora do chão, não vejo mais nada e desço tateando,

procurando cada degrau sob meus pés e por vezes não o encontrando. Eu ouço os degraus se

partirem e se torcerem, as guardas da escada sob minhas mãos se entortando, e por vezes meus pés

só encontram uma ponta de aço ou um degrau que dá no vazio. Mas os mecanismos de dobramento

estão bloqueados: não me resta outra coisa senão descer, descer tão ligeiro quanto possa. E

subitamente não há mais nenhum degrau, não há mais um único degrau sob meus pés pendentes, as

nuvens de areia rodopiam com furor, nesse momento a escada se desgruda de meu corpo, eu caio de

toda aquela altura, o solo sobe até mim como uma bofetada. Sobre a plataforma que balança, me

levanto com dificuldade e ali, através da névoa amarela, a alguns metros, eu vejo se perfilar uma

forma gigantesca, uma forma monstruosa que avança. Um grande grito se eleva da plataforma,

misturado aos rangidos e aos clamores da tempestade, em um terror sem nome, eu fujo, eu resvalo

pela encosta. Por detrás, um choque surdo se faz ouvir, minha grande escada cai de lado, quebrando,

na passagem, um grupo de escadinhas e soterrando um pedaço da plataforma.

***

Parece que as nuvens se tornam mais espessas. Elas se tornam cada vez mais pesadas, cada

vez mais opacas. Elas parecem tomadas por uma obscuridade densa, que se estende, que se estende.

***

Então, com um choque, compreendo que tiram para fora a grande Luneta de Raio,

compreendo que ela já está erguida e que a luz se retira, atraída pelo amante gigantesco, que o Raio

mortífero já está concentrado, que ele já aponta para o centro da noite.

E que minha escassa, minha frágil descoberta vai talvez desaparecer, engolida para sempre

antes de ter chegado a mim. Ah, defendê-la, defendê-la a todo custo do Raio, do ordenamento das

figuras, da eficácia, da repressão. Corro, atravessando os pedaços de vidro e de aço, atravessando os

corpos e as escadinhas e as nuvens que cegam, corro até a base e ali, resfolegando, peço que

detenham o Raio, que o detenham imediatamente.

***

Mas eles não detêm o Raio. Uma vez colocado em atividade, ele não pode senão prosseguir

seu caminho. Ele não volta a seu centro a não ser se for rebatido por uma superfície, um obstáculo.

Através dos ruídos de detonações, o mestre dos funcionários me pergunta o que quero, e se não sei

[20]

eu que há, do outro lado do abismo, uma rebelião geral, que é preciso erradicar imediatamente e

que, de qualquer maneira, o Raio não pode regressar? E, além disso, se não sei que pertenço ao

grupo dos de longa-visão e se não se supõe que os de longa-visão devam “olhar”, nesses momentos

de Problemas?

***

Calo-me, dando-me conta subitamente do absurdo do que eu estava fazendo.

Não se trata senão de uma rebelião a mais lá embaixo, de uma tempestade a mais aqui. Em

algumas horas, tudo voltará ao normal, minha escada será consertada, as escadinhas serão

reerguidas, as lunetas reaparecerão, a passarela deslizará de novo, os produtos voltarão de novo a

chegar. Em algum lugar, na retaguarda, as vítimas da tempestade serão tratadas, há tão poucas

delas, todos sabem muito bem os gestos que se deve fazer.

Um único ficará, talvez, para sempre enfermo, danificado como pela passagem de uma

catástrofe, nós não o veremos mais, nós nos esqueceremos dele. Não saberemos que, para ele, o

banal um dia se tornou monstruoso.

Na noite densa, em que continua a rodopiar a tempestade, digo para mim mesmo,

subitamente, que hoje eu escapei de ser aquele lá. Uma distração de alguns segundos e eu não teria

ouvido o alarme, eu não teria fugido imediatamente, eu teria sido esmagado sob minha escada.

Aquilo que sempre me pareceu tão fácil até agora – descer com agilidade os degraus, dobrar as

seções e me distanciar de forma oblíqua a passos ligeiros, não há nenhuma necessidade de correr –,

coisa que fiz cem vezes, mil vezes, sem nem mesmo pensar, foi aí que subitamente me dei conta que

se tratava de uma performance, que ela não era simples, justamente, senão na ausência de

pensamento.

Quando todos esses perigos passados me voltam à memória, eu me pergunto: quantas vezes

o Raio emergiu? O passado se eriça com agulhas mortíferas, pedaços de vidro e aço, de gritos, de

uivos, e eu, como pude eu fazer tantos gestos de sobrevivência e ter vivido através de tantos

esquecimentos?

***

Acima de mim, o Raio se desenvolve e se retrai, para além do abismo um feixe de chamas e

de centelhas cresce e se extingue, a calculadora range e ringe. Encolhido no chão, eu não me mexo.

***

Depois, a luz volta. As escadinhas voltam a ficar na vertical, as lunetas voltam a aparecer na

horizontal, a passarela se coloca em atividade. Entre as plataformas, o céu é claro, para além do

grande abismo o céu também parece azul e puro. Os de curta-visão brincam entre eles. No chão os

últimos pedaços de vidro foram varridos. Tudo é igual.

[21]

III

Tudo é igual e, para mim, o que resta?

***

Nada mais que uma lembrança, confusa e desfocada, quem pode me assegurar que não existe

visão, pura visão do espírito à qual meu corpo algum dia terá acesso?

***

Sobre as plataformas, as escadinhas, agrupadas em pelotão, de forma a que uma não passe à

frente da outra, e as lunetas apontadas em formação fazem, de intervalo a intervalo, uma frente

regular por detrás da cerca de arames farpados, arames farpados erguidos paralelamente à linha

direita do abismo, ela própria alinhada ao horizonte paralelo ao céu, e sobre o espaço minha escada,

hastes de aço recortadas, perpendiculares, nas quais se erguem os degraus em espaçamentos

sobrepostos, e sobre cada degrau as lentes circulares nas quais cintila a luz, não é isso o que de mais

belo, de mais justo existe sobre a Terra? E como uma pequena tempestade insuflada para além do

abismo poderia sequer roçar esta indestrutível construção?

***

Nada mais que uma lembrança, e se não passou de um relâmpago, raio perdido deslizando ao

acaso das superfícies erráticas, reflexo lateral de arranjos à deriva no fundo dos céus, caídos de anosluz,

se não passou disso, então, o que importa?

Que importa o que se passa em todo universo, as manobras do sol, os deslocamentos das

nuvens, a passagem dos planetas, a flutuação das poeiras, nós não temos que dar conta de tudo isso,

nós não temos que nos imiscuir nessas histórias cósmicas. Nosso espaço, o espaço que nos pertence,

é bem definido, nós conhecemos os seus elementos desde a infância e nunca se pensou em

acrescentar outros, é esse espaço, marcado por nossas lunetas por cima da imensa deriva, que

importa, o resto não nos diz respeito. E na medida em que nosso trabalho o mantém lá, na medida

em que nossa visão o sustenta lá, por que iríamos nos preocupar com outra coisa? Por que iria eu me

preocupar com outra coisa? E o fato de que um reflexo passe por mim, fugindo como um cometa,

através da apertada rede de nossas vistas, o que isso, uma vez mais, importa? Não me resta senão

deplorar que seja a mim que isso aconteça, que seja por mim – malha frouxa – que ele tenha

passado, que tenham sido minhas lentes mal encaixadas que o tenham deixado penetrar.

Ou, em vez disso, não me resta senão me felicitar que não tenha havido nada de mais grave,

que esse acidente não me tenha tornado cego para todo o sempre, que esse raio fútil não tenha

inflamado um incêndio no foco de minhas lentes, que uma imensa conflagração não se tenha

desencadeado no interior de nosso espaço, carregando nossas plataformas, nossas escadinhas,

nossas lunetas e até mesmo o grande abismo e eles, aqueles que estão para além dele.

[22]

***

Do alto de minha escada, eu me pergunto se coisa semelhante já lhes aconteceu, a todos os

meus colegas que vejo ali em baixo proseando tranqüilamente, enquanto olham um círculo de fumaça

que se desfaz no céu.

E se isso não fosse mais do que um fato banal, que um dia ou outro, talvez todos os dias, se

apresenta diante de todos, tão banal, que é até mesmo inútil assinalá-lo, que nunca se fala dele, e o

extraordinário não é apenas que isso não me tenha nunca acontecido antes? E se estivesse aí a causa

desse curioso fosso que sinto entre mim e meus colegas?

São esses fatos banais que constituem o invisível cimento da solidariedade. Assim, eu, então,

que acreditava mergulhar mais fundo com minha luneta de luxo, não teria eu, na verdade,

permanecido apenas na superfície entre os meus, e não seria por isso, por isso, que tenho sempre

esse insaciável, dilacerante desejo de camaradagem? E, finalmente, os de longa-visão, com sua luneta

de luxo, não passarão, todos eles, de grandes retardados, de inofensivos inocentes, relegados pelos

outros ao alto de inúteis escadas e condenados a realizar inúteis exercícios?

***

Ah, no círculo dessas lunetas, como nós rodamos incansavelmente, quer pertençamos ao

grupo dos de curta-visão quer pertençamos ao grupo dos de longa-visão, como eu rodei! Como eu

não rodarei mais…

***

Ao pé da escada, no chão, minha luneta está instalada, aparentemente intacta. Mas ela está

quebrada. Quando uma luneta de longa-visão se quebra, o dano é irremediável, não se conserta nem

substitui esse tipo de instrumento. Sim, foi o que me disseram. Mas quando a gente não vê mais tão

longe, a gente não vê mais perto. Olhe ali, olhe a poucos metros! Sobre a passarela, a cada dia, as

lunetas chegam, em caixas, em pacotes, sob as escadinhas as lunetas se amontoam, em fileiras, em

estojos, comuns ou de luxo, basta se inclinar e estender os braços, e sabem vocês que se pode até

mesmo juntar as diversas peças como uma maquete, que não há nenhuma feitiçaria nisso, que se

trata de uma técnica ao alcance do primeiro que chega?

Ah, não me enganem mais, elas não são insubstituíveis, as lunetas de vocês, seus discos não

são o Santo Graal, sua perda não é o Apocalipse. E o que se passa quando elas se quebram é uma

coisa bem diferente. O que se passa é que a gente não as vê mais, é que a gente não deseja mais

seus tubos e suas lentes e sua visão restrita que nos toma inteiramente e não nos dá nada. Foi disso

que nos livramos.

***

Minha luneta está quebrada: viva! E quanto a mim, eu não subirei mais cada manhã,

resfolegante, ao cume de minha escada, não tirarei mais para fora meus tubos e minhas lunetas, não

[23]

brandirei mais minha luneta ao grande sol, não serei mais um longa-visão, nem um alto-falante.

Nunca mais precisarei calcular e predizer, vociferar e aplaudir, não precisarei mais ser um grande

observador, orgulho das escadinhas, elite das plataformas, e não precisarei mais empilhar relatório

sobre relatório para nossas torres de Babel e a maior glória de nossas lunetas.

***

Minha luneta está quebrada. Nunca mais me inclinarei obliquamente na extremidade de um

tubo de aço. Minha luneta está quebrada. Nunca mais serei como eles.

Olhem para eles, olhem para eles todos, agarrados a suas visões lenticulares, grudados a suas

paralelas, aglutinados aos cachos sobre as plataformas, e fora disso nenhuma salvação, fantoches

perdidos caídos dos tubos extensíveis, inteiramente dispostos a errar à noite sobre a borda do

abismo, incapazes de utilizar seus olhos.

Olhem as escadinhas em pelotão, as lunetas em formação, os bunkers, as cercas de arame

farpado, Fosso, Raio, olhem-nos: quanto a mim, eu não os olharei mais.

***

A grama cresceu sob a escada, entre as tábuas da plataforma. As guardas de aço da escada

ficaram desbotadas, o megafone está jogado ao chão, meio deteriorado, como um fóssil, e os

relatórios espalhados voam com o vento.

Divina ignorância. Olho minhas mãos vazias, minha luneta quebrada ao lado, o silêncio em

torno de mim, sou esse deus do qual nunca falamos.

É nesse silêncio que ouvi o rangido da cadeia sob a passarela.

Rangido regular, incessante, que está sempre no fundo do espaço, ao qual nunca prestamos

atenção. Rangido da passarela, por cima do grande abismo, da passarela… Nada mais do que isso.

Poderia ser diferente, seria suficiente?

Quando a noite cai, eu vou até ao abismo, subo até a passarela, dou uns passos e desço do

outro lado.

***

Do outro lado da passarela, eu me detenho.

Eles estão por todos os lados, alguns em grupo, inclinados sobre instrumentos de ótica, outros

montados nas escadinhas, nas escadas. Nossos semelhantes, nossos semelhantes, exatamente. Eu

me volto. Para além do grande abismo, sobre o rio de onde eu venho, o sol poente arde como um

farol, e em meus olhos cegados dançam, sozinhos, os contornos negros de uma monstruosa célula.

***

Nossos semelhantes, exatamente, e havia um semelhante a mim, ao pé da passarela, que me

esperava. Com esse, andei de uma borda a outra do abismo, refazendo o longo trajeto dessa

[24]

espantosa aventura e foi, então, subitamente, que olhei sob meus pés, e não havia mais, onde antes

estava o abismo, senão uma pálida sombra sobre um terreno plano.

Não havia mais que um sol infinitamente plano sobre o qual se podia começar a andar, enfim,

sobre o qual se podia começar a viver, com meu semelhante, meu duplo, inteiro, enfim, enquanto se

distancia, em um apocalipse de tempestades, de fogo e de enxofre, esse longo pesadelo de escadas,

de lunetas, de Células, do Raio, círculo cada vez menor, já minúsculo no horizonte.

 

Trad. TT

 

 

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