Os regimes totalitários, neste sentido, são regimes de escravos, não apenas pelo povo que sujeitam, mas sobretudo pelo tipo de “senhores” que erigem (…) a potência não é aquilo que a vontade quer, mas ao contrário aquele que quer na vontade.(…) É um dos caráteres mais originais da filosofia de Nietzsche, ter transformado a questão “o que é…?” em “quem é…?”. Por exemplo, dada uma proposição, quem é capaz de enunciá-la? Antes é preciso se desfazer de qualquer referência “personalista”. “Aquele que…” não remete a um indivíduo, a uma pessoa, mas sim a um acontecimento, ou seja, às forças em conexão numa proposição ou num fenômeno, e ao entrelace genético que determina essas forças (potência)

uma proposição é ela mesma um conjunto de sintomas que exprime uma maneira de ser ou um modo de existência daquele que fala, ou seja, o estado de forças que alguém sustenta ou se esforça para sustentar consigo próprio e com os outros (a este respeito, papel das conjunções). Uma proposição remete sempre, neste sentido, a um modo de existência, a um “tipo”. Dada uma proposição, qual é o modo de existência daquele que a pronuncia, qual modo de existência é preciso ter para poder pronunciá-la? O modo de existência é o estado de forças enquanto ele forma um tipo exprimível por signos ou sintomas. Os dois grandes conceitos humanos reativos, tais como Nietzsche os “diagnostica”, são os de ressentimento e de má consciência. Ressentimento e má consciência exprimem o triunfo das forças reativas no homem, e até mesmo a constituição do homem por forças reativas: o homem-escravo. Isso diz a que ponto a noção nietzscheana de escravo não designa necessariamente alguém dominado, por destino ou condição social, mas qualifica tanto os dominantes quanto os dominados, desde que o regime de dominação passe por forças reativas e não ativas. Os regimes totalitários, neste sentido, são regimes de escravos, não apenas pelo povo que sujeitam, mas sobretudo pelo tipo de “senhores” que erigem.

(…)

 

         G.D.

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