Travessias do niilismo (Peter Pál Pelbart)

Sem entrar em detalhes dessa longa história da verdade que Nietzsche reconstrói, encadeando o platonismo, o cristianismo e o cientificismo, caberia explicitar, desde um ponto de vista genealógico, a que respondem, segundo ele, esses valores historicamente produzidos, a substituição de uns pelos outros, sua desvalorização progressiva… O método de Nietzsche reza que dado um valor determinado, não se perguntará jamais sobre a sua verdade, sua validade, sua legitimidade intrínsecas, mas sobre suas condições de produção. Não se trata de perguntar “O que é” a justiça, mas o que quer aquele que a defende? Quem precisa de tal ou qual convicção, crença, valor, para conservar-se, para impor seu tipo, para alastrar seu domínio? Pois um valor é apenas sintoma de um tipo de vida, de uma formação de domínio… Com isto, Nietzsche faz aparecer o jogo das perspectivas antes que se transformassem em crenças, convicções, ideais. É o sentido histórico que ele não se cansa de cobrar dos filósofos. Assim, a verdade, a virtude, a beleza, o progresso, cada um desses valores deveria ser concebido como uma perspectiva produzida no tempo antes que se universalizasse, um ponto de vista tanto mais vitorioso quanto faz questão de ocultar o fato de ser um ponto de vista. Um valor, por definição, resulta sempre de uma avaliação, por isso a expressão “estimativa de valor”, ou “apreciação de valor” tem o mérito de desfetichizar a idéia de valor em si e remetê-la à operação que está na origem do valor. Afinal, o homem é o animal avaliador por excelência, o ser que mede, que fixa preços, que imagina equivalência, que estabelece hierarquias, que privilegia tal ou qual elemento em comparação com tal outro, atribuindo-lhe um peso superior, ou fazendo dele uma medida.

Mas uma avaliação não é apenas um ponto de vista sobre o mundo, ele exprime exigências psicofisiológicas, ela é indissociável do corpo que a gerou, da hierarquia instintiva aí presente, dos processos interpretativos do próprio organismo, isto é, seus modos de apropriação, de metabolização, de dominação e incorporação de uma exterioridade. Uma avaliação brota de uma maneira de ser que ela expressa e reivindica. Dado um valor, que modo de existência, que estilo de vida ele implica? pergunta Nietzsche. Pesado, leve, baixo, alto, escravo, nobre? Um valor tem sempre uma genealogia da qual dependem a nobreza e a baixeza daquilo a que ele nos convida a acreditar, a sentir e a pensar[…]

PDF para o texto completo: https://drive.google.com/openid=0B6Dh2r0OH3TiMFBMY2tfMkZ2aHM

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