Para nos instalarmos no mundo, fazemos o possível para nele parecermos instalados. Somos às vezes tão diferentes de nós mesmos quanto dos outros. A esperança e o temor são inseparáveis e não há temor sem esperança, nem esperança sem temor. Todo mundo tem os defeitos que, nos outros, fazem rir. Louvamos ou censuramos a maior parte das coisas porque é voga louvar ou censurar. O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele.

 

UMA GENEALOGIA PRODUZIDA NO SÉCULO XVII ACERCA DA MODERNIDADE/FORMA-HOMEM POR VIR

 

La Rochefoucauld [1613 – 1680]

 

 

405

“Chegamos moços às diversas idades da vida e, em geral, malgrado os anos, não temos experiência ao chegar”. (p. 76)

 

408

“O maior perigo de ridículo para os velhos que um dia foram amáveis é esquecerem que já não o são”. (p.76)

 

409

“Haveríamos de ter vergonha de nossas mais belas ações se o mundo visse tudo o que as motiva”. (p.76)

 

415

“Ajuda-nos às vezes o espírito a cometer tolices com audácia”. (p. 77)

 

397

“Não temos, em geral, a coragem de dizer que somos sem defeitos e que nossos inimigos são sem qualidades; em particular, porém, não estamos muito longe de pensá-lo”. (p.75)

 

388

“A vaidade abala todas as virtudes, quando não as derruba por completo”. (p.73)

 

389

“O que torna insuportável a vaidade alheia é que ela fere a nossa”. (p.73)

 

383

“O desejo de falar de nós e de deixar ver nossos defeitos pelo lado que queremos é parte grande de nossa sinceridade”. (p.73)

 

384

“Só é de admirar que possamos ainda nos admirar”. (p.73)

 

374

“Quem pensa amar a amante por amor a ela, está bem enganado”. (p.72)

 

375

“Os espíritos medíocres comumente condenam o que está além de seu alcance”. (p. 72)

 

381

“A violência que nos fazemos para permanecer fiéis a quem amamos não vale mais que uma infidelidade”. (p.72)

 

378

“Podemos dar conselhos sem por isso inspirar condutas”. (p.72)

 

373

“Certas lágrimas muitas vezes até a nós enganam, depois de aos outros terem enganado”. (p.71)

 

367

“Poucas mulheres honestas não estão fartas de seu ofício”. (p.71)

 

368

“A maior parte das mulheres honestas são tesouros escondidos, tão mais seguros quanto ninguém os procura”. (p.71)

 

369

“As violências a que nos submetemos para nos impedir de amar são freqüentemente mais cruéis que os rigores de quem amamos”. (p.71)

 

361

“O ciúme nasce sempre com o amor, mas nem sempre morre com ele”. (p.70)

 

 

356

“De coração, só louvamos geralmente quem nos admira”. (p.69)

 

351

“É difícil romper quando os dois já não se amam”. (p.69)

 

 

347

“Não achamos de bom senso quem não é de nossa opinião”. (p.68)

 

452

“Não há homem que se julgue inferior em qualidade alguma ao homem que neste mundo mais estima”. (p. 82)

 

450

“Aumenta muitas vezes nosso orgulho com o que de nossos defeitos descontamos”. (p.82)

 

436

“Mais fácil é conhecer o homem em geral que um homem em particular” (p.80)

 

446

“Se as dores da vergonha e do ciúme são tão agudas é que a vaidade não lhes serve de base”. (p.82)

 

443

 

“As paixões mais violentas por vezes nos dão folga, a vaidade nunca”. (p.81)

 

434

“Quando nos enganam os amigos, só indiferença devemos às suas mostras de amizade, mas não lhes sejamos insensíveis quando caírem na desgraça”. (p.80

 

427

“A maior parte dos amigos acabam desgostosos da amizade, e a maior parte dos devotos da devoção”. (p.79)

 

428

“Perdoamos facilmente nos amigos os defeitos que não nos incomodam”. (p.79)

 

410

“O maior esforço da amizade não está em revelar aos amigos nossos defeitos, mas em fazê-los ver os seus”. (p.77)

 

411

 

“Mais perdoáveis são nossos defeitos que as maneiras que temos de escondê-los”. (p.77)

 

560

“Um homem a quem ninguém agrada é bem mais infeliz que outro que não agrada a ninguém. (p.101)

 

557

“Mais apreciamos ver aqueles a quem fazemos bem do que aqueles que bem nos fazem”. (p.100)

 

553

“Somente nos censuramos para sermos louvados”. (p.100)

 

540

“Mais fácil é extinguir um primeiro desejo que contentar todos os que se seguem”. (p.98)

 

538

“É preciso pouco para tornar feliz quem é sensato; nada pode fazer um louco feliz e por isso são os homens miseráveis”. (p.98)

 

536

“As verdadeiras mortificações são as que não conhecemos, as demais facilita-nos a vaidade”. (p.98)

 

533

“Louvamos ou censuramos a maior parte das coisas porque é voga louvar ou censurar”. (p.97)

 

521

“A ruína do próximo agrada aos amigos e aos inimigos”. (p.95)

 

358

“A humildade é a verdadeira prova das virtudes cristãs; sem ela conservamos todos os nossos defeitos, que o orgulho só faz encobrir, escondendo-os dos demais e, não raro, de nós mesmos”. (p.69)

 

355

“Perdemos às vezes pessoas que mais fazem falta do que nos afligem e outras que mais nos afligem do que fazem falta”. (p.69)

 

350

“O que mais nos põe azedos com os que nos fazem trapaças é que eles acreditam ser mais hábeis do que nós”. (p.68)

 

335

“Em amor o logro vai quase sempre mais longe que a desconfiança”. (p.66)

 

303

“Quem fala bem de nós nada nos ensina”. (p.61)

 

296

“É difícil amar quem não estimamos, mas não menos difícil amar quem estimamos mais que nós”. (p.60)

 

231

“Loucura rematada é querer ser sensato estando só”. (p.50)

 

135

“Somos às vezes tão diferentes de nós mesmos quanto dos outros”. (p.35)

 

56

“Para nos instalarmos no mundo, fazemos o possível para nele parecermos instalados”. (p.24)

 

72

“A julgar pela maior parte de seus efeitos, o amor mais parece ódio que amizade”. (p.26)

 

515

“A esperança e o temor são inseparáveis e não há temor sem esperança, nem esperança sem temor’. (p.95)

 

507

“Todo mundo tem os defeitos que, nos outros, fazem rir”. (p.93)

 

503

“O ciúme é o maior de todos os males e o que menos apieda quem o causa”. (p.90)

 

497

“Não durariam tanto as querelas se somente uma das partes não tivesse razão”. (p.89)

 

481

“Nada mais raro que a verdadeira bondade: mesmo os que pensam ser bondosos muitas vezes são somente fracos e complacentes”. (p.87)

 

434

“Quando o coração se agita ainda com o que lhe resta de uma paixão, está mais perto de uma outra do que quando inteiramente restabelecido”. (p.97)

 

467

“A vaidade põe-nos mais a contragosto que a razão”. (p.85)

 

458

“Mais se aproximam os inimigos da verdade ao nos julgar que nós mesmos”. (p.83)

 

LA ROCHEFOUCAULD, François, Duc de. Máximas e Reflexões. Rio de Janeiro, Ed. Imago, 1994.

 

 

 

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