Luiz Orlandi: Anotações a respeito de desfundamento no livro de LAPOUJADE. David. Deleuze – Les mouvements abérrants. Paris: Minuit, 2014

  1. A) Desfundar e produzir. Em seu último livro, David Lapoujade[1] destaca os “movimentos aberrantes” como decisivos no pensamento deleuze-guattariano. Em alguns pontos, verifica-se que eles estão implicados também nas operações pelas quais, forçados por problemas, os lances do pensar levam o “princípio de razão suficiente” a assumir produtivamente a tarefa de desfundar, pois não se desfunda para “descobrir novas profundezas”, mas para envolver-se com a “produção de novas superfícies”. Ao fazer buracos na praia, uma criança se diverte com novas superfícies na matéria que ela escava, como quem não teme e nem busca um sem-fundo inesgotável. Passando por algum encontro intensivo, o pensar também curte fazer buracos nos fundamentos, farejando saliências ou depressões, contornando ressaltos, proeminências ou ziguezagueando por ranhuras, tomado por um afã de garimpeiro ou por um aprendizado de ressonâncias. Isso quer dizer que há um trabalho produtivo no escavar típico do desfundar. Com isso, o “princípio de razão suficiente”, tão caro a filósofos, ganha uma complexidade suficiente para levar a razão a sair efetivamente do círculo vicioso de um fundamento que a apazigue ou apenas satisfaça suas auto referências. Ao persistir no desfundar, o pensar trabalha de verdade o campo problemático que o afeta, e não se aquieta numa verdade provisória ou eterna ou na verdade de um suspeito recolhimento. Desfundando-se, o pensamento, tomado pela questão que reitera seu direito de insistir questionando, dissolve o fundamento, “remói até o absurdo e o não-sentido”. É que o desfundar deleuziano não se satisfaz com a inércia de uma não exploração empírico-transcendental do “sem-fundo” (empírico porque diz respeito à afetação dos sentidos, do ver, do ouvir etc, e transcendental em razão das conexões intensivas). Rigorosamente falando, esse desfundar é um combate à alternativa imposta ao pensamento por um estado da “”metafísica””‘ e por uma fase da “”filosofia transcendental””. Como diz Deleuze, a alternativa que “”elas nos impõem”” é esta: “”ou um fundo indiferenciado, sem-fundo, não-ser informe, abismo sem diferenças e sem propriedades – ou então um Ser soberanamente individuado, uma forma fortemente personalizada. Fora deste Ser ou desta Forma, não tereis senão o caos””. [ Logique du sens, Paris, Minuit, p. 129]. Desfundar produtivamente, — sem inibir os arrepios da pele, as riquezas do caos, — é o direito conquistado por uma filosofia que evita a alternativa entre não manter a pergunta “o que funda” ou mantê-la submetida ao império de um Ser ou de uma Forma, seja qual for o nome dado a esses transcendentes. Ela evita a alternativa recomeçando seu desfundar a cada golpe de submissão que um fundamento qualquer desfira em detrimento das diferenciações [DMA, pp. 32-36].
  2. B) Desfundar e desterritorializar. Em outra passagem do livro, aproximando as idéias de fundação e de território, termo este que Deleuze e Guattari conceituam como “”primeiro agenciamento”” (conforme Mille plateaux, 397), Lapoujade se sente autorizado a admitir uma coalescência entre “desfundamento” (presente em DR) e “desterritorialização” (presente em MP). Os “movimentos aberrantes” atuam em ambos os casos, mesmo porque a “nova terra”, isto é, a própria “Terra se confunde com a própria desterritorialização”, sendo ela “uma terra infinitamente movediça, sem fundo, nem base”. Conforme expressões do próprio Deleuze: “”a Terra é portanto a Desterritorializada, ela é inseparável de um processo de desterritorialização que é seu movimento aberrante””(Deleuze, Pourparlers, p. 201). Assim, valorizados por Deleuze e Guattari, os “nômades são os que mais se desterritorializam”, os que “mais ocupam a aterra, só a terra, absolutamente, levados por seus vetores e suas linhas de força” [DMA: pp. 39-40]
  3. C) Desfundar e reverter o platonismo. As operações deleuzeanas levadas a cabo em prol do “desfundamento” buscam explicitamente “reverter o platonismo”. Isso ocorre porque é com Platão que se desfralda um modo de pensar que submete o existente a um “grande tribunal” filosófico guarnecido por uma “Ideia que se confunde com a pura identidade de si de uma qualidade”, como “o Bem em si, o Justo em si”… Ganha poder raciocinante uma mesmice da Idéia que passa a funcionar como “fundamento” abusivamente capaz de “julgar os fenômenos”, de hierarquizá-los, de escaloná-los de acordo com a “semelhança” deles ou com a “conformidade interna” deles “com a Ideia” tida como “modelo”. Se, diante desse tribunal, uma imagem ou uma “pretensão” (como a de uma minoria gritando por novos direitos), for “bem fundada, ela ganha o nome, como diz Deleuze, de “”re-presentação (ícone)””, e com a agravante de que, mesmo sendo “”a primeira em sua ordem é ainda a segunda em si, em relação ao fundamento””. Por isso Deleuze diz que, com Platão, “”a Ideia inaugura o mundo da representação”” (DR, 350), aparecendo Aristóteles como “”grande organizador””, aquele que dá uma “”estrutura”” a esse mundo por meio de “categorias” e de “diferença específica”. Percebe-se o que o pensamento deleuzeguattariano, através de um insistente desfundar, busca surrupiar desse fundamento arrumado a serviço da Identidade e dos pressupostos da representação, conforme estudados no cap. III de DR. Ele busca as linhas de acesso aos lances efetivos das diferenciações e das repetições diferenciais, de modo que, por exemplo, em vez de manter a atração pela mesmice, se sinta e se pense que “para além do fundamento, começa o mundo das diferenças livres e não vinculadas”, pois, como escreve Deleuze, “”a diferença está atrás de toda coisa, mas nada há atrás da diferença”” (DR, 80). E quanto ao tempo, a circularidade da mesmice platônica da Ideia é “quebrada” em “três grandes momentos da repetição” assim resumidos por Lapoujade: “através de aprofundamentos sucessivos, remontar do presente como fundação do tempo (primeira síntese) a um passado puro como fundamento do tempo (segunda síntese), até o para além de todo fundamento, o puro futuro como “desfundamento” (terceira síntese). A potência destrutiva da diferença e da repetição é tal que todas as questões relativas ao fundamento devem ser novamente colocadas, em virtude das metamorfoses que elas fazem o pensamento sofrer” [DMA, pp. 43-49]
  4. D) Desfundamento e eterno retorno. O “eterno retorno” do devir completa “a reversão do platonismo”. pois é “através de sua ação” que “todo fundamento se vê destruído”. Eis como Deleuze reúne eterno retorno e desfundamento em prol da diferença: “”afirmado em toda sua potência, o eterno retorno não permite instauração alguma de uma fundação-fundamento: ao contrário, ele destrói, engole todo fundamento como instância que colocaria a diferença entre o originário e o derivado, a coisa e os simulacros. Ele nos faz assistir ao desfundamento Por ‘desfundamento’ é preciso entender aquela liberdade não mediatizada do fundo, aquela descoberta de um fundo atrás de qualquer outro fundo, aquela conexão do sem-fundo com o não-fundado, aquela reflexão imediata do informal e da forma superior que constitui o eterno retorno”” (DR, 92). Sendo eterno retorno do devir, “o eterno retorno”, diz Lapoujade, “é o verdadeiro (re)começo, pois destrói todos os começos, todos os pressupostos descritos no cap. III de Diferença e repetição e que constituem a imagem” representativa “do pensamento”. [DMA, pp. 86-87].
  5. E) Desfundamento e corpo sem órgãos. A primeira das “grandes distinções do pensamento deleuzeano”, diz Lapoujade, é a noção de “corpo sem órgãos”. Como seu livro trata principalmente da questão do fundamento, o corpo sem órgãos ganha esse destaque pela potência que faz dele algo como uma primordial condição de transmutação dos fundamentos. A potência, da qual o corpo sem orgãos é um dos lances no “”processo””, que O anti-Édipo chama de “”produção desejante””, é a potência de uma “pura matéria intensiva”, matéria agitada por “forças de atração e de rejeição”, matéria “rebelde a toda operação que pretenderia ‘fundar'” o CsO e “submetê-lo a uma organização qualquer”. É tão considerável essa potência que o próprio CsO “tient lieu de fondement“, isto é, “faz as vezes de fundamento“, ou seja, substitui o fundamento que ele transtorna, seja para o melhor ou para o pior, mas isso é outro problema, o das dosagens. Dada a potência da matéria intensiva, “tudo desliza ou se ‘desfunda’ sobre” o CsO, “tendo em vista as variações de intensidade que o percorrem”. O CsO ganha nesse livro o prestígio de ser “como que a substância” espinosista, “pura matéria intensiva, auto-produzida, cujas máquinas-órgãos são os atributos, realmente distintos”, já que “nada têm em comum entre si”; “uma substancia para uma multiplicidade de atributos, nariz, boca, estômago, pulmões, que interpretam, cada um à sua maneira, os fluxos que sintetizam”. É essa esquizo potência que infla “o inconsciente do homem-natureza”, aquele esquizo que aparece no início de O anti-Édipo, o homem   “”tocado pela vida profunda de todas as formas ou de todos os gêneros, que é o encarregado das estrelas e até dos animais, que não para de ligar uma máquina-órgão a uma máquina-energia, uma árvore no seu corpo, um seio na boca, o sol no cu: o eterno encarregado das máquinas do universo”” operando como “”produtor universal”” justamente na “”universal produção primária”” (AOE, 10; 13, 11). [DMA, pp. 14-147].

Em outro momento Lapoujade salienta uma distinção entre CsO e corpo pleno. Primeiro, o CsO “das máquinas desejantes” está em “relação de imanência com a máquina orgânica, contra a qual luta”, e justamente luta por ser um “corpo sobre o qual tudo desliza, migra, permuta incessantemente”. Diferentemente disso, “o corpo pleno não é imanente à máquina social; ora é subjacente (selvagens), ora transcendente (bárbaros); daí seu papel organizador. Ele age como uma superfície de inscrição que permite distribuir e definir os papéis e as funções de seus agentes, seus direitos e suas obrigações, regular a circulação dos bens e das pessoas”. Do ponto de vista do interesse deste apêndice de anotações, essa distinção se completa com a seguinte frase: “se o corpo sem órgãos é o corpo do ‘desfundamento’, o corpo pleno é um corpo fundador, é o corpo do fundamento” [DMA, pp. 150-151].

  1. F) Desfundamento, poder e potência de desterritorialização.. A problemática que envolve o esforço por desfundar encontra nesse livro um momento de acentuada dramaticidade. Trata-se do problema do “desfundado de poder”. O problema aparece “no interior da axiomática” capitalista, quando alguém ou um coletivo está separado de um “direito”, quando não consegue “legitimar pretensões”, o que reduz possibilidades do seu “porvir”, ficando parcial ou totalmente “excluído” da axiomática. O desfundado de poder vive em estado de “ausência de poder”. Pois bem, é sobre essa ausência de poder que o desfundado se apóia “para fazer valer um novo direito”. Por isso Lapoujade pode dizer que “é a ausência de fundamento “legítimo” que constitui de direito o minoritário“. Sendo assim, é “de direito” que “o minoritário é universal e eterno”, pois “sempre e em toda parte as potências de existir e de exprimir são submetidas a formas de dominação, a começar em nós mesmos”, o que podemos testemunhar a cada experiência de retrações do que podemos, de retenções do nosso poder de afetar e de ser afetado.

Porém, quando se é levado a renunciar a uma pretensão que a axiomática não acolhe, isso “não quer dizer renunciar a todo direito”, mas “fazer existir o que não tem legitimidade” ou algo legítimo ameaçado em sua legitimidade. Vemos nestes dias um exemplo disso no que vem acontecendo, em escolas paulistas, com a resistência erguida por muitas crianças, adolescentes e adultos contra brutalidades policiais e abusivas imposições administrativas da paranóica governança do Estado. Até mesmo este fácil apoio verbal manifestado aqui por mim é bem visto por esse livro: trata-se de um “tomar o partido” de “multiplicidades” que se lançam “contra o intolerável de uma dada situação”, o que faz deste apoio um advogar “a favor dessas existências” em luta.

Como reunir o problema do minoritário de direito e as emergências de lutas efetivas de minorias de fato? Lapoujade aproxima os dois níveis, dizendo que a luta de minorias é “incessantemente reconduzida” ao nível do “minoritário de direito. como que para a sua condição“. O exemplo que ele escolhe aparece “no caso do devir-mulher”. Nesse caso, ele vê dois aspectos: o “aspecto macropolítico”, recheado pela “questão dos estatutos, dos direitos das mulheres” implicando “organizações coletivas” numa “luta efetiva”. O outro aspecto, entretanto, liga-se ao “nível” em que se “opera a condição de tal luta”, nível no qual se “cria” o que Deleuze e Guattari chamam de “”mulher molecular”” — circulação de “partículas de feminidade que atravessam tanto os homens quanto as mulheres” (MP, 338). É na vibração intensiva desse nivel, em meio a uma “percepção molecular”, é nele “que se engendra a potência de agir”, a potência que se exerce efetivamente no outro nível, o da luta de fato. Os dois níveis são dizíveis como “desterritorializações”. Só que, no nível das lutas de fato, as desterritorializações são ditas “relativas” por estarem “às voltas com as estratificações da axiomática”, com dispositivos legais e golpismos de vários naipes. Entretanto, mesmo os movimentos relativos implicam variaões intensivas criadoras de instantes ou lances de “desterritorialização absoluta“, ocasiões nas quais não é bem “tal ou qual aspecto da axiomática” que é enfrentado, mas algo como que um transbordante intolerável exalando de tudo, da “língua inteira”, do “organismo inteiro”, da “história”, do “capitalismo inteiro” incluindo “sua organização da miséria, todas as suas formas de despossessão, de opressão, de mutilação”. Nessas ocasiões, levadas as desterritorializações ao absoluto, as minorias, diz Lapoujade, “enfrentam os próprios fundamentos“. Com isso, diz ele ainda, “são ‘desfundadas’ todas as formas organizadas da linguagem, do corpo, do pensamento, a exibição das visibilidades, o fluxo das informações. A luta não concerne mais as minorias de fato, e sim atinge as potências revolucionárias do que é minoritário de direito. Luta eterna”. [DMA, pp. 260, 264].

  1. G) Reivindicações revolucionárias e movimento mais profundo. A última frase do bloco F de anotações ganha uma espécie de explicação numa frase de Deleuze e Guattari, frase que Lapoujade incorpora para caracterizar como revolucionárias as reivindicações assinaladas acima: “Se tais reivindicações são revolucionárias, “”é porque trazem um movimento mais profundo que recoloca em questão a axiomática mundial”” (MP, 589) [DMA, 265]. Pois bem, a ideia de um “”movimento mais profundo”” aparece três vezes em Mille plateux.

No platô 5 (Sobre alguns regimes de signos), entende-se por “”movimento mais profundo“” aquele que “”conjuga matéria e função””. O regime dessa conjugação é intensivo, regime próprio de uma “”desterritorialização absoluta””, desterritorialização tida como “”idêntica à própria terra””. Por conjugação intensiva, matéria e função capturam, respectivamente, os termos conteúdo e expressão, de maneira que os autores podem dizer coisas como estas: “”um conteúdo-matéria, apresenta tão somente graus de intensidade, de resistência, de condutibilidade, de aquecimento, de estiramento, de velocidade ou de tardança””; e a “”expressão-função””, por sua vez, “”apresenta tão só ‘tensores’, como numa escrita matemática ou musical””. O movimento dessa conjugação intensiva dá acesso àquilo que é buscado pelo “”diagramatismo”” deleuzeguattariano: “”o mais desterritorializado conteúdo e a mais desterritorializada expressão””. Entretanto, esse movimento mais profundo só aparece sob aquilo de que ele é a condição: “”só aparece sob a forma das territorialidades respectivas, das desterritorializações relativas ou negativas e das reterritorializações complementares”” (MP, pp. 175-179).

No platô 13 (Aparelho de captura), é que aparecem as duas outras referências a um movimento mais profundo.

Primeiramente, no social, a captura de um “”movimento mais profundo”” aparece no destaque do “”imposto”” como aquilo que “”constitui a primeira camada de um preço ‘objetivo’, o ímã monetário ao qual os outros elementos do preço, renda e lucro, vêm juntar-se, aglutinar-se, convergir no mesmo aparelho de captura””. Ora, as duas “”operações”” que formam o aparelho de captura, essa “”megamáquina”” que agencia a terra, o trabalho e a moeda são as de “”comparação direta”” (entre terras, atividades e mercadorias) e de “”apropriação monopolística”” (implicando renda absoluta, sobre trabalho e meio de comparação). Os personagens que se destacam nessa tríade são o “”Proprietário”” colado à Renda, o “”Empreiteiro””, colado ao Lucro, e o “”Banqueiro””, colado ao Imposto (MP, pp. 552-555).

Finalmente, transcrevo sem qualquer rearranjo a passagem da terceira incidência da expressão em pauta neste bloco de anotações.

“”O extermínio de uma minoria faz nascer ainda uma minoria dessa minoria. Malgrado a constância dos massacres, é relativamente difícil liquidar um povo ou um grupo, mesmo no terceiro mundo, desde que ele apresente conexões suficientes com elementos da axiomática. Sob outros aspectos ainda, pode-se predizer que os problemas imediatos da economia, consistindo em reformar o capital com relação a novos recursos (petróleo marinho, nódulos metálicos, matérias alimentares), não exigirão somente uma redistribuição do mundo que mobilizará a máquina de guerra mundial e oporá suas partes em relação aos novos objetivos; assistiremos também provavelmente à formação ou reformação de conjuntos minoritários, em relação com as regiões concernentes. — De maneira geral, as minorias tampouco recebem solução para seu problema por integração, mesmo com axiomas, estatutos, autonomias, independências. Sua tática passa necessariamente por aí; mas, se elas são revolucionárias, é porque trazem um movimento mais profundo que recoloca em questão a axiomática mundial. A potência de minoria, de particularidade, encontra sua figura ou sua consciência universal no proletário. Mas, enquanto a classe trabalhadora se define por um estatuto adquirido ou mesmo por um Estado teoricamente conquistado, ela aparece somente como “capital”, parte do capital (capital variável) e não sai do plano do capital. Quando muito o plano se torna burocrático. Em compensação, é saindo do plano do capital, não parando de sair dele, que uma massa se torna sem cessar revolucionária e destrói o equilíbrio dominante dos conjuntos numeráveis””. (MP, 589-590).

O objetivo deste bloco G de anotações não foi o de encontrar uma espécie de sustentação metafísica para o que seria a mais indicada palavra de ordem a ser considerada no combate ao capitalismo. Potencializando esse combate, trata-se, igualmente, de manter destacada a principalidade do envolvimento intensivo das minorias nas suas lutas, sem que elas se descuidem de uma dupla dimensão esperta do intensivo: a da “”determinação das condições dos problemas”” que as atingem e a da atenção aos “”liames transversais dos problemas entre si””. Isto quer dizer que a luta implica um “”cálculo ou concepção dos problemas””, cálculo que “”passa””, dizem Deleuze e Guattari, “”por um devir das minorias””. Essa combinação de intensidades-em-luta e de cálculo dos problemas evita a alternativa “”anarquia ou organização”” (MP, p. 588). Em prol de uma contaminação recíproca das minorias em luta, nada melhor, parece-me, que cada um nós experimentar passagens por uma anarco-disposição para lutas minoritárias, essas lutas tão capazes de disparar umas às outras seus diferentes gritos, gritos que se reanimam numa internacional das intensidades imanentes ao questionamento vital.

Luiz B. L. Orlandi

DF-IFCH-Unicamp

[1] Lapoujade, D., Deleuze – Les mouvements abérrants. Paris: Minuit, 2014. Às páginas desse original (identificado com a sigla DMA) é que serão remetidas as referências entre às aspas presentes nestas anotações. As frases de Deleuze estarão entre pares de aspas duplas, tipo “”…””. Sou responsável pelo que não aparece entre aspas e pela combinação dos termos aspados.

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