Algo de Platão em certa Psicanálise. Uma anotação

É inegável que grande parte das conceptualizações do inconsciente – sejam elas originárias de desdobramentos ou diversificações dentro do campo psicanalítico ou simplesmente de diferentes óticas de leitura da obra de Freud – nascem e crescem à sombra da tradição teórica aberta por Platão, geralmente designada por filosofia da representação. Representação significa, etimologicamente, re-apresentação onde “este prefixo parece antes exprimir a idéia de uma segunda presença, de uma ‘repetição imperfeita da presença primitiva e real”[1]. Repetições imperfeitas de uma essência primitiva, original; cópias moldadas num mesmo modelo, com maior ou menor grau de fidedignidade. No caso de Platão, o modelo designava a idéia (ou o mundo inteligível, das idéias), forma perfeita e imutável que todos teríamos um dia contemplado e que, graças a uma espécie de reminiscência, poderíamos evocar como princípio racional, ordenador da realidade. Assim, o mundo empírico, mutante e imperfeito, era hierarquizado segundo graus de verossimilhança com as formas ideais, postas como primeiras e perfeitas, conseguindo-se, desta forma, um princípio racional transcendente capaz de disciplinar “a” realidade e esconjurar a multiplicidade, o acaso, o devir. O mundo trágico dava lugar a um outro, domesticado pela razão[2]. Esse processo disciplinar foi, posteriormente, completado por Aristóteles, através de processos de ordenação classificatória dos entes onde, se o princípio racional tornou-se menos transcendente, nem por isso permaneceu menos abstrato, dado que as classes eram definidas pelo conjunto de características comuns a um grupo de objetos, excluídas as diferenças individuais e os casos pouco freqüentes[3]. Ora, toda a história do pensamento ocidental carrega o peso deste processo disciplinar, com marcas maiores ou menores da tradição platônica e/ou da tradição aristotélica e seus desenvolvimentos subseqüentes. A psicanálise, enquanto tal, não foge à regra. (…) Na escola francesa vamos encontrar exemplos de neoplatonismo, acrescidos, então, de uma variante singular: doravante será o signo lingüístico na maior parte das vezes, a noção de significante que deverá funcionar como princípio transcendente, ordenador da produção inconsciente e capaz de dar conta da sua variedade transbordante. Digo princípio transcendente porque, na medida em que é posto como inconsciente, ele será em si mesmo até mais inacessível do que a Idéia platônica: não será nem mesmo evocável; funcionará, na sua inacessibilidade, simplesmente como princípio ordenador e doador de sentido. É o caso, por exemplo, do papel outorgado ao significante falo em certas formulações lacanianas. Para exemplificar o que quero dizer, basta acompanhar a leitura que Serge Leclaire faz de um dos casos de Freud: “O homem dos lobos” [4]. Nos sintomas desse paciente, o falo – em sua alternância binária presença-ausência – estaria representado pelo signo V cinco em romano, que Freud depreende de sua fobia de borboleta e que evocaria, ao mesmo tempo, as asas da borboleta, a quinta hora do dia (hora em que o humor do paciente se tornava sombrio) e uma mulher que abre as pernas[5].Serge Leclaire vai ainda mais longe: dois V formam o W da palavra Wolf (= lobo), dois V invertidos formam as orelhas dos lobos do sonho, tais quais o paciente as representou num desenho, um V deitado evoca, ao mesmo tempo, a goela dos lobos e os olhos que se abrem e fecham na visão do coito dos pais, e assim por diante. V é, pois, nesta acepção, a letra que articula e preside toda a fantasmagoria do paciente de Freud, o emblema em torno do qual gira toda a sua existência. Seu funcionamento evoca, entretanto, o de uma máquina quebrada, que não pára de emitir, sempre, o mesmo e monótono fragmento de mensagem, indecifrável em si próprio e que, a partir daí, acaba se ligando a variados entornos e acrescentando-se a diferentes monogramas, capazes de aludir ao acontecimento fundamental que, um dia, o produziu. Mas· será que os processos inconscientes se reduzem, de fato, a essa tarefa enfadonha de aludir, pelo resto da vida do paciente, à visão insuportável – e precluída da consciência[6] – do coito de seus pais, simbolizada pelo V das pernas abertas da mãe?[7] Ou será que este signo, que se “descobre” no final do desfiladeiro, realiza apenas o que antes já se tinha definido como ponto de chegada necessário: atingir um invariante que, por si só, pudesse dar conta das inúmeras variações do acontecer inconsciente? Colocando a questão de outro modo: até que ponto essa busca não implica, pela própria premissa que a constitui, uma forma de extrair, recortar, da multiplicidade do acontecer inconsciente, uma idealidade totalizante, capaz de englobar realidades diversas? Penso que sim: produz-se um signo para cobrir diferentes singularidades empíricas e autentica-se a sua suposta “autoridade” para tanto, remetendo-o a um princípio racional transcendente, universalizado, do qual o signo é posto como representação. Esse mais além é o Falo que, operando como princípio ordenador da realidade, acaba tendo uma função disciplinar análoga à da Idéia (mundo inteligível de Platão). Por outro lado, essa metodologia reafirma, também, o preceito aristotélico de que só existe ciência de fenômenos regulares, freqüentes, classificáveis em categorias que homogeneizem os acontecimentos para extrair deles as características comuns. Assim sendo, é bem possível que, se não estivesse debruçado na busca desse invariante simbólico, o psicanalista – a partir do tipo de associações que privilegia no discurso do seu paciente acabasse encontrando coisas mais ricas e interessantes numa produção psíquica tão variada, em vez do mesmo e monótono V, escondido por todas as partes.

[1] LALANDE, A. Vocabulaire technique et critique de Ia philosophie, PUF, Paris, 1972, p. 921, rodapé.

[2] Sobre a noção de trágico, cf. DELEUZE, G., Nietzsche e a filosofia, Rio de Janeiro, 1973, 1. O Trágico e NAFFAH NETO, A. “Devir – herói: o psicodrama em busca de uma ética”, in Paixões e questões de um terapeuta, Ágora, São Paulo, 1990.

[3]Cf. LEWIN, K. “El conflito entre las perspectivas aristotélicas y galileanas en la psicologia contemporânea”, in Dinâmica de la personalidad, Morata, Madrid, 1969, pp, 11-52.

[4] LECLAIRE, S. Psicanalisar, Perspectiva, São Paulo. 1977, cap. 4.

[5] FREUD, S. História de uma neurose infantil, citação de LE­CLAIRE, S., op. cit. p. 75.

[6] Preclusão, precluir são os termos portugueses equivalentes aos franceses forclusion, forclore, do vocabulário conceitual lacaniano que, por sua vez, são uma tradução do alemão verwerfung (cf. J. Laplanche e J. -B. Pontalis, Vocabulário da psicanálise, Livraria Martins Fontes, Santos, 1970, p. 571, onde a tradução adotada para o termo é rejeição ou repúdio).

[7]. Esta é a interpretação de Serge Leclaire. Já Freud enfatiza que a preclusão que teria havido seria a da castração materna. Para as análises aqui desenvolvidas, tanto faz que assumamos uma ou outra interpretação, pois em ambas o que está em questão é a presença/ausência do falo.

A.N.N

 

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