Carta de Samuel Beckett a Carlheinz Caspari (Bonn, 25 de julho de 1953)

Caro senhor,

Agradeço sua carta amável e peço desculpas pela demora em responder.

Para mim, é muito difícil explicar meu trabalho. E não quero influenciar sua direção. Não tentarei, portanto, aprofundar as questões que você levanta, ainda que elas o mereçam. De todo modo, como o senhor já percebeu, a vontade de ir fundo demais aqui traz um risco. Eis, então, tão simples quanto possível, a minha maneira de sentir as coisas.

Se minha peça tem elementos expressionistas, não fiquei a par disso. De qualquer modo, sobre o estilo tenho apenas noções confusas. Tampouco é, para mim, uma peça simbolista, eu não insistiria nisso. Trata-se, primeiramente, e mais importante que tudo, de algo que acontece, quase uma rotina, e é essa cotidianidade e materialidade que, em minha opinião, devem ficar visíveis. Que em todo momento Símbolos, Ideias, Formas se mostrem, isso para mim é secundário – não há por detrás nada que não se mostre? Realçar as coisas, em todo caso, não trará nenhum ganho.

Os personagens são seres vivos, queiramos ou não, não são emblemas. Compreendo bem seu embaraço diante da pouca caracterização deles. No entanto, peço que veja neles menos o resultado de esforços de abstração – da qual não sou capaz – que uma recusa a atenuar tudo aquilo que eles têm de complexo e amorfo de uma só vez. Além disso, se eu puder julgar a partir de nossa experiência aqui em Paris, o senhor notará as identidades tomarem forma na medida em que o trabalho avança. O próprio Godot não é de uma espécie diferente daquele que não pode ou não quer ajudar. Eu próprio o conheço tão mal quanto qualquer outra pessoa, e nunca soube, nem vagamente, do que eu precisava. Se seu nome sugere o paraíso, é o mesmo que um produto para fazer crescer cabelos parecer divino. Cada um dá a ele o rosto que bem entender. Outros, mais afortunados, verão nele a figura de Tânato.

Em relação à montagem alemã em geral, temo a simplificação metafísica e o recurso aos símbolos. O grande mérito de Roger Blin foi evitá-los, e é por isso que sua produção, que naturalmente podemos discutir em outros aspectos, me parece exemplar.

O tempo estagnado, que salta vidas inteiras, e o espaço impossível de percorrer, tal qual uma cabeça de alfinete, esses talvez sejam os verdadeiros falsos deuses da peça, caso seja absolutamente necessário que eles existam. Falsos tarde demais. Os gritos que eles exteriorizam, primeiro Estragon (páginas 99 e 100), depois Pozzo (página 155), são renúncias de homens sacrificados. O que o senhor diz sobre isso é muito bonito, mas ainda não tinha me ocorrido. E o que tenho a dizer não é nada convincente. Nesse aspecto da peça, assim como infelizmente nos outros, não podemos afirmar nada para tentar satisfazer a mente, podemos apenas adicionar ou extrair.

O lado farsesco me parece indispensável tanto do ponto de vista técnico (como forma de relaxamento), quanto do ponto de vista do espírito da peça. Portanto, não se deve escamoteá-lo, nem exagerá-lo. Aqui, a infelicidade é a medida do grotesco, e todo ato é clown. Rir e então fazer rir, da infelicidade e do ato, mas não o tempo todo, seri muito bom, e sempre um pouco mais radiante.

De tudo o que foi dito, que me parece um dever de casa, temo que o senhor não consiga aproveitar grande coisa. Leve em conta apenas o que lhe disser respeito. Sou o primeiro a sentir a inutilidade disso. Em um trabalho em que há tão pouco da minha cabeça, minha cabeça jamais encontrará nada que sirva.

Eu lhe agradeço imensamente, e também a Herr Rose, pelo amável convite. Adoraria estar entre vocês na noite da estreia, mas ainda não sei se vou poder. De todo modo, mantenho-o informado.

Eu acharia melhor, se não for incomodar, que seu programa não tivesse nenhum texto meu. Para a foto, por favor entre em contato com meu editor, sr. Jérôme Lindon, Editions de Minuit, 7 rue Bernard-Palissy, Paris 6.

Receba, caro senhor, minhas cordiais saudações.

Samuel Beckett

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s