Caos na Poesia por D. H. Lawrence

Num texto violentamente poético, Lawrence descreve o que a poesia faz: os homens não param de fabricar um guarda-sol que os abriga, sob o qual desenham um firmamento e escrevem suas convenções, suas opiniões; mas o poeta, o artista abre uma fenda no guarda-sol, ele rasga até o firmamento, para fazer passar um pouco do caos livre e ventoso e enquadrar numa luz brusca uma visão que aparece através da fenda, prímula de Wordsworth ou maçã de Cézanne, silhueta de Macbeth ou de Ahab. Então segue-se a multidão de imitadores que consertam o guarda-sol com um remendo que se assemelha vagamente à visão, e a multidão de glosadores que preenchem a fenda com opiniões: comunicadores. Sempre haverá necessidade de outros artistas para abrir outras fendas, fazer as destruições necessárias, talvez cada vez maiores, e restituir assim a seus predecessores a incomunicável novidade que não se sabia mais ver. Quer dizer que o artista bate-se menos contra o caos […] do que contra os “clichês” da opinião. O pintor não pinta sobre uma tela virgem, nem o escritor escreve sobre uma página em branco, mas a tela ou a página já estão tão cobertas de clichês preexistentes, preestabelecidos, que é preciso, primeiro, apagar, limpar, laminar, até mesmo retalhar para fazer passar uma corrente de ar saída do caos que nos traga a visão.

(…)

Pedimos apenas um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante que um pensamento que escapa de si próprio, idéias que fogem, que desaparecem mal são esboçadas, já roídas pelo olvido ou que se precipitam sobre outras que tampouco dominamos. São invariabilidades infinitas cuja desaparição e aparição coincidem. São velocidades infinitas que se confundem com a imobilidade do nada incolor e silencioso que elas percorrem, sem natureza nem pensamento. É o instante que não sabemos se é demasiado longo ou demasiado curto para o tempo. Recebemos golpes de chicote que batem como artérias. Perdemos sem parar nossas idéias. É por isso que queremos tanto nos apegar a opiniões fixas.

[…]

D.G

 

A poesia, dizem, é uma questão de palavras. E é verdade, tanto quanto a pintura é uma questão de tinta e o afresco, uma questão de água e ocra. Mas isso está tão longe de ser toda a verdade que soa um tanto simplista quando dito secamente. A poesia é uma questão de palavras. A poesia consiste em combinar palavras para fazê-las ondular e vibrar e colorir. A poesia é um jogo de imagens. A poesia é a iridescente sugestão de um idéia. A poesia é todas essas coisas e, contudo, é algo mais. […] A qualidade essencial da poesia consiste em que ela exige um esforço renovado da atenção, e que “descobre” um mundo novo no interior do mundo conhecido. O homem, e os animais, e as flores, vivem todos dentro de um caos estranho e permanentemente revolto. Chamamos cosmo ao caos ao qual nos acostumamos. Chamamos consciência – e mente, e também civilização – ao indizível caos interior de que somos compostos. Mas trata-se, em última instância, do caos, iluminado por visões, ou não iluminado por visões. Exatamente como o arco-íris pode ou não iluminar a tempestade. E, tal como o arco-íris, a visão perece. Mas o homem não pode viver no caos. Os animais podem. Para o animal tudo é caos, havendo apenas algumas poucas e recorrentes agitações e aparências em meio ao tumulto. E o animal fica feliz. Mas o homem não. O homem deve envolver-se em uma visão e construir uma casa que tenha uma forma evidente e que seja estável e fixa. No pavor que tem do caos, começa por levantar um guarda-chuva entre ele e o permanente redemoinho. Então, pinta o interior do guarda-chuva como um firmamento. Depois, anda à volta, vive, e morre sob seu guarda-chuva. Deixado em herança a seus descendentes, o guarda-chuva transforma-se em uma cúpula, uma abóbada, e os homens começam a sentir que algo está errado. O homem ergue, entre ele e o selvagem caos, algum maravilhoso edifício de sua própria criação, e gradualmente torna-se pálido e rígido embaixo de seu pára-sol. Então ele se torna um poeta, um inimigo da convenção, e faz um furo no guarda-chuva; e oba!, o vislumbre do caos é uma visão, uma janela para o sol. Mas depois de um certo tempo, tendo se acostumado à visão, e não lhe agradando a genuína golfada de ar do caos, o homem do lugar-comum rascunha um simulacro da janela que se abre para o caos, e remenda o guarda-chuva com o remendo pintado do simulacro. Isto é, ele se acostumou à visão; ela faz parte da decoração de sua casa. De maneira que o guarda-chuva finalmente parece um amplo e brilhante firmamento, Pagina 1/3 de vistas variadas. Mas, que pena!, é tudo simulacro, feito de inumeráveis remendos. Homero e Keats, cheios de anotações e acompanhados de um glossário. Esta é a história da poesia em nosso tempo. Alguém vê Titãs no ar selvagem do caos, e o Titã torna-se uma parede entre as sucessivas gerações e o caos que elas deveriam ter herdado. O céu selvagem pôs-se em movimento e cantou. Até isso torna-se um grande guarda-chuva entre a humanidade e o céu de ar fresco; ele tornou-se, então, uma abóbada pintada, um afresco num teto abobadado, sob o qual os homens empalidecem e se tornam infelizes. Até que um outro poeta faça um buraco no amplo e tempestuoso caos. Mas finalmente nosso teto não nos ilude mais. É gesso pintado, e nem todo o engenho de todas as épocas da humanidade conseguirá mais nos enganar. Dante ou Leonardo, Beethoven ou Whitman: oba!, pintaram no gesso de nossa abóbada. Como São Francisco pregando para os pássaros em Assis. Maravilhoso, como o ar e o espaço passarinheiro e o caos de muitas coisas – em parte porque o afresco desbotou. Mas ainda assim, ficamos felizes em sair daquela igreja, e entrar no caos natural. Esta é a grave crise para a humanidade, quando temos que voltar ao caos. Enquanto o guarda-chuva servir, e o poeta fizer furos nele, e a massa de gente puder ser gradualmente educada para a visão no furo: o que significa que eles o remendam com um remendo que se parece com a visão no furo: enquanto esse processo puder continuar, e a humanidade puder ser educada, e assim encaixada, a civilização continuará mais ou menos feliz, completando sua própria e pintada prisão. Isso chama-se completar a consciência. A alegria que os homens tiveram quando Wordsworth, por exemplo, fez um furo e viu uma prímula! Até então, os homens tinha visto uma prímula apenas obscuramente, na sombra do guarda-chuva. Eles a viram por meio de Wordsworth no pleno brilho do caos. Desde então, gradualmente, acabamos por ver na primavera nada mais do que prímulas. O que significa que remendamos o furo. E a grande alegria quando Shakespeare fez um grande rasgo e viu o homem emocional e desejoso ao desabrigo, no caos, para além da idéia convencional e do guarda-chuva pintado das imagens morais e dos rígidos paladinos, que foram instituídos na Idade Média. Mas agora, que pena!, o teto de nossa abóbada está simplesmente todo pintado de Hamlets e Macbeths, as paredes laterais também, e a ordem está fixada e completa. O homem não pode ser absolutamente diferente dessa imagem. O caos fica inteiramente do lado de fora. O guarda-chuva ficou tão grande, os remendos e o gesso estão tão rígidos e duros que ele não pode ser mais furado. Se fosse furado, a abertura não seria mais uma visão, mas apenas uma afronta. Deveríamos borrá-lo todo de uma vez, para combinar com o resto. Assim, o guarda-chuva torna-se absoluto. E assim o desejo do caos torna-se nostalgia. E isso continuará até que algum vento terrível parta o guarda-chuva em tiras, e destine a maior parte da humanidade ao esquecimento. O resto gelará em meio ao caos. Pois o caos está sempre ali, e sempre estará, não importa como armemos guarda-chuvas de visões. E que dizer dos poetas, então, nesse intervalo? Eles revelam o desejo interior da humanidade. O que eles revelam? Eles mostram o desejo de caos, e o medo do caos. O desejo de caos é o sopro de sua poesia. O medo do caos está em seu desfile de formas e técnica. A poesia é feita de palavras, dizem eles. Assim, eles sopram bolhas de som e imagem, que logo explodem com o sopro do desejo de caos de que estão plenos. Mas os poetastros podem fazer reluzentes bolhas para a árvore de Natal, que nunca explodem, porque não existe qualquer sopro de poesia nelas, mas elas ficam lá até que as derrubemos.

D.H.Lawrence

Tradução de  TT

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