ELOGIO AO MUNDO TRÁGICO

 

[ACERCA DO MUNDO TRÁGICO, BEM ACESSÍVEL E SANTO FORTE DE EDUARDO COUTINHO]

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Responsabilidade e culpa

O mundo trágico assinala um período de transição da aristocracia para a democracia, da cidade regida pelos privilégios dos laços de sangue para a cidade regida pelo direito. Para nós, é muito difícil imaginar um mundo sem leis válidas para todos os cidadãos, pois mesmo nos casos de golpes de Estado [1964 e 2016 no Brasil], ditaduras ou guerras, não é que as leis não existam; elas simplesmente são suspensas, anuladas ou, então elaboradas para favorecer a classe dominante/dirigente.Entretanto, no mundo trágico, nem a noção de responsabilidade existia totalmente formada, com todo o peso que tem para nós hoje em dia. Os gregos viviam num mundo povoado de deuses e heróis, onde – e eles acreditavam nisso! – potências divinas podiam, muitas vezes, possuir a alma de um homem, enlouquecê-lo, tirá-lo de si, fazendo-o cometer os atos mais desatinados: crimes, roubos, assassinatos, etc. Ora, como alguém pode ser considerado responsável pelos atos que cometeu sob a inspiração ou sob o mando de um deus? Não faz nenhum sentido. Também nessa época, o direito já procurava instituir uma nova ordem, a do sujeito responsável, distinguindo crimes cometidos “de bom grado” dos cometidos “de mau grado”, ou seja, na ignorância ou com conhecimento de causa. Dessa forma, no universo trágico a avaliação da responsabilidade oscilava entre duas interpretações diferentes: por um lado, associava-se à noção de falta (hamártema = “erro” de espírito, polução religiosa, em que o ser humano é tornado por forças sinistras que o arrastam e enlouquecem); por outro, era engolfada pela noção legal de delito (adíkema = delito intencional, que deve ser punido, a ser distinguido de atýchema, acidente imprevisível, não passível de punição). Assim, quando um herói trágico como Édipo fura os próprios olhos ele sem dúvida o faz ao descobrir que – no mais puro desconhecimento e realizando um oráculo do deus Apolo – havia matado o seu pai e partilhado o leito de sua mãe, como esposo, cometendo os crimes de parricídio e de incesto. Se existe hamártema (uma vez que Édipo realiza esses crimes por um “erro” de espírito, polução advinda de uma maldição ligada aos seus descendentes, destino comandado por um oráculo), não se trata, entretanto, de um adíkema. O herói é, aí, vítima de um atýchema, não cabendo, pois, interpretar o ato de cegar-se como motivado por qualquer sentimento de culpa. Ocorre, simplesmente, que esses olhos não guardavam mais qualquer utilidade diante de um mundo que se tornara pura desolação, ruína, vergonha. É o que dizem as palavras de Édipo, na peça Édipo-rei (cf. Sófocles, 1989: 88):

 

Foi Apolo. Foi Apolo, sem, meu amigo!

Foi Apolo o autor de meus males,

De meus males terríveis; foi ele!

Mas fui eu quem vazou os meus olhos.

Mais ninguém. Fui eu mesmo, o infeliz!

Para que serviriam meus olhos

Quando nada me resta de bom

Para ver? Para que serviriam?

 Vivemos num mundo eminentemente racional. Tudo tem de ter sua lógica, a sua razão de ser. Entretanto, como já disse Shakespeare, “há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode sonhar a nossa vã filosofia”.

Houve um tempo, anterior à criação da “vã filosofia”, em que os homens realmente partilhavam dessa visão de mundo ou mais precisamente de outros mundos de visão. Mais do que isso: respeitavam esses mistérios. Trata-se do mundo trágico, que se constituiu na Grécia antiga, entre os séculos VI e V a.C., e que teve seu declínio justamente a partir do século V a.C., com a criação da filosofia socrática, a afirmação crescente do direito e a universalização de toda a racionalidade que nos atravessa até os dias de hoje.

 

Aquém e além dos deuses

 No universo trágico, quem cometia hýbris era todo aquele que, através de um ato, ultrapassasse a medida humana, seja em direção à dimensão ilimitada de um deus, seja em direção à dimensão irrefletida de um animal. Édipo, por exemplo, ao cometer parricídio e incesto ultrapassa essa medida, dado que esses crimes são prerrogativas dos deuses ou da inconsciência animal. É verdade que seus atos não tiveram caráter intencional, que foram marcados pelo puro desconhecimento: ele matara um velho ao entrar em Tebas, porque fora provocado e açoitado por ele, sem saber que era Laio, rei de Tebas e seu pai; da mesma forma, recebera a mão da rainha Jocasta como prêmio por ter decifrado o enigma da Esfinge livrado a cidade do monstro. Entretanto, apesar do desconhecimento, há uma hýbris que atravessa todo o seu percurso, tal qual aparece na tragédia Édipo-rei, de Sófocles: o orgulho, a prepotência, que o acompanham desde a saída de Corinto e o levam até o final da trama, a tentar descobrir o assassino do rei Laio, sem suspeitar que ele pudesse ser o assassino, sem sequer imaginar que Laio pudesse ser seu pai. Embora oficialmente Édipo fosse filho dos reis de Corinto, ele sabia da possibilidade de ser apenas filho adotivo, pois, certa vez, um cortesão embriagado jogara-lhe essa ofensa no rosto. Também havia consultado o Oráculo de Delfos, santuário do deus Apolo, e recebido a previsão de que mataria seu pai e partilharia o leito de sua mãe. Foi então que se desviou de Corinto e tomou o caminho de Tebas, imaginando que, assim, escaparia da previsão. Opera, pois, aí, uma prepotência que desconsidera a força do oráculo, que se imagina acima das injunções do destino humano, imune à circunstâncias capazes de produzir desgraça e infortúnio, como se não habitasse este mundo, feito de surpresas e acasos inesperados, como se a vida não fosse meramente No final de tudo, ao se perceber completamente cego à trama que determinara sua vida, Édipo cega-se de fato, furando os olhos: na escuridão, deverá aprender a “ver” o mundo invisível das forças que ele desconsiderara até então, aquele que opera sob o mundo das formas visíveis e que os gregos chamavam de moîra (= destino).

Roberto Calasso em seu livro As núpcias de Cadmo e Harmonia mostra que, na Grécia arcaica, a noção de culpa carregava um sentido completamente diverso daquele que, mais tarde, o mundo ocidental lhe daria: estava associada à idéia de delito, mas como algo que pertence à vida, não sendo depositada em ninguém em especial. Por essa razão, deslocava-se sempre por vários supostos “sujeitos”, sem nunca se centrar numa pessoa [noção moderna]. Assim, culpada foi a faca que matou o boi; ou culpado foi o próprio boi, que comeu o bolo oferecido aos deuses e foi então, morto por um camponês enfurecido – segundo um mito que nos conta a origem dos sacrifícios de animais aos deuses. Nesse exemplo, o camponês pode livrar-se facilmente da culpa, deslocando-a apra seres que, não tendo o Dom da palavra, não sabem se defender, como a faca ou o boi.

No mundo trágico, a coisa era um pouco diferente, mas não inteiramente. Se já se podia acusar o autor de um crime por adíkema, nunca se podia ter certeza de que ele não fora de alguma forma comandado por uma potência religiosa, de que não cumprira o desígnio de algum deus. Assim, por exemplo nas Eumênides de Ésquilo, após ter assassinado sua mãe (como vingança pela morte de seu pai, que ela e o amante haviam apunhalado), Orestes poderá justificar seu crime dizendo que foi ordenado por Apolo, acabando por ser absolvido por Palas Atenas. Todos esses deslocamentos serviam para afastar a culpar apara esferas distantes, desconhecidas, libertando o homem do seu peso moral.

Essa possibilidade de projetar em forças religiosas a responsabilidade por seus desvarios era uma das grandes vantagens que Nietzsche via no mundo trágico, uma vez que, por meio do sentimento de culpa, o homem moderno se volta contra si próprio e ataca, desqualifica, uma dimensão fundamental de seu ser: a agressividade, além de outros afetos considerados pouco “dignos”, tais como ódio, ciúme, inveja. Ora, o homem trágico sabia, muito mais do que qualquer um de nós, respeitar esse lado escuro da alma, ele sabia que, quando era tomado por certos impulsos vitais sob a possessão de um deus e ficava fora de si, ocorriam desgraças.

Entretanto, em outras circunstâncias esses mesmos impulsos, quando bem dirigidos, eram forças importantes, seja de criação, seja, pelo menos, de apoio vital: a agressividade como força transformadora (em processos de autodefesa); o ódio (como um aliado da agressividade, nesses mesmos processos; o ciúme e a inveja como forças de auto-sustentação, em momentos em que a nossa existência está alienada de si própria, só capaz de desejar o que fantasiamos que o outro recebe ou possui.

Esse respeito integral às forças vivas, nos trágicos, advinha do fato de não conceberem as ações como totalmente centradas nos “egos”, de postularem um universo múltiplo e polivalente, pelo qual os homens eram atravessados de ponta a ponta. Os crimes, os delitos, tinham origem justamente no que eles denominavam hýbris (que significa desmesura), ou seja, em estados em que os indivíduos se centravam em si próprios, fechando-se no próprio poder, inflando-o para aquém ou além da medida, dos limites da condição humana, e esquecendo-se das forças misteriosas que os dominavam. Nesses estados, ficavam à mercê dessas forças, fora de si, cegos, advindo daí atos de conseqüências imprevisíveis (hamártema).

Quando voltavam a si, tinham uma dívida a resgatar com aqueles seres atingidos por esses atos, e essa dívida se transmitia a seus descendentes. Então, sofriam as punições – impostas pelos deuses ou pelos homens – e choravam suas dores, num castigo diretamente provocado pelo seu orgulho, pela ausência de uma avaliação correta de seu tamanho, de sua medida, por terem se esquecido de que erram apenas homens e aspirado à condição divina, ilimitada.

Quão nefastas eram, pois, as conseqüências quando os homens se colocavam como centro do mundo, no puro esquecimento das forças do destino, invisíveis, misteriosas e transcendentes!

As forças do destino

De acordo com a mitologia grega, o destino é representado pelas Moîras, as três deusas (Cloto, Láquesis e Átropos) que fiam dobram e cortam o fio da vida. Personificam a “porção” de vida, felicidade e desgraça que cabe a cada um neste mundo. Tanto as entidades tecelãs como o destino que elas tecem possuem o mesmo nome (moîra).

Mesmo diante de todos os castigos e sofrendo inúmeras dores, o homem trágico estava livre da pior delas: a auto-acusação, a autoflagelação ou seja, aquilo que denominamos sentimento de culpa.

Um distanciamento estético

A tragédia ensinava uma sabedoria de viver isenta de qualquer conotação moral. Ao deslocar a hýbris e os acontecimentos nefastos que dela decorriam para a vida de um herói, criando um distanciamento estético, a tragédia mantinha essas forças atuante e visíveis, ao mesmo tempo que evitava sua perigosa destrutividade. Assim, em vez de ser atravessado por elas de forma descontrolado, o homem grego podia presenciar o herói nessa condição e aprender através das suas desgraças. A tragédia funcionava, assim, como uma escola de vida.

É importante lembrar, aqui, que a tragédia grega era um acontecimento público, encenado em grandes estádios. Havia concursos de tragédias, com encenação das vencedoras em grandes festivais. A tragédia originalmente envolvia a música, o canto e a dança, além da representação teatral (que, por sua vez, pressupõe a poesia e as artes cênicas); reunia, nesse sentido todas as formas artísticas entrelaçadas numa mesma manifestação.

O grande elogio mundo trágico, Nietzsche o realizou em seu primeiro livro, o nascimento da tragédia. Aí ele descreve a tragédia como união de dois impulsos básicos da natureza: o impulso apolíneo e o impulso apolíneo.

Ao impulso dionisíaco, assim nomeado em referência o deus Dioniso, pertencem todas as forças que estão presentes ira vida sob a forma de êxtase, união cósmica com a natureza em alegria ou sofrimento, expansão, intensidade, fecundidade, eterna transmutação.

Dioniso é o caos originário, o sem-fundo proliferante a partir do qual se produzem todas as formas; o conjunto das forças do mundo em eterno movimento de expansão e de intensificação,

prenhe de virtualidades, aspirando a alguma forma possível.

Ao impulso apolíneo, que faz referência o deus Apolo, pertencem as forças ligadas a processos de dar forma, limites, contornos, individualidade, clareza e direção a impulsos originalmente caóticos. A tragédia realiza, pois, essa união dos dois impulsos, ao dar forma estética às profusões transbordantes da vida.

Entretanto, a angústia diante dos perigos desse caos originário, dionisíaco, levou o homem grego a achar que não bastava disfarçá-lo, sob o manto da bela forma apolínea: era preciso discipliná-lo, ordená-lo, dividindo-o em verdades e falsidades, em categorias de Bem e de Mal. Era preciso substituir esse saber intuitivo, artístico, por um conhecimento racional, capaz de permitir o controle do mundo.

Isso foi realizado pela metafísica e pela moral, a primeira fundando um mundo verdadeiro por meio da razão; a segunda fundando um mundo bom por meio do imperativo moral. Mas, ao fazer isso, o homem grego passava a selecionar, filtrar os impulsos da natureza: doravante somente aqueles disciplináveis e ordenáveis em termos de valores de Verdade e de Bem passariam na seleção. E a vida, que para os trágicos era integralmente justificada, passou a ter uma parte considerada falsa e outra má, portanto ambas repudiáveis.

Com a filosofia socrática nasciam os valores metafísicos e os valores morais, transferindo o logos (= razão) e a dikê (= justiça), que para os trágicos eram imanentes ao cosmos, para a esfera das habilidades e decisões humanas, dando forma, então, às noções de inteligência, responsabilidade e culpa. O homem, finalmente, ocupava o centro do mundo, esconjurando todas as forças misteriosas que um dia aprendera a respeitar. Rapidamente, a tragédia declinou e desapareceu.

A Ésquilo, Sófocles e Eurípedes (que Nietzsche já considerava um trágico decadente) seguiram-se Sócrates, Platão, Aristóteles. A vida perdia sua fecundidade e sua profusão cósmica em formas disciplinadas, ordenadas.

A intensidade cedia lugar ao meio-termo; o mundo das intensidades reais, multiproliferante, ao mundo ideal – o mundo das Idéias platônicas, o universo dos conceitos e da lógica aristotélicos – à medida que esse segundo mundo, o ideal, tornava-se critério do primeiro, passando a avaliá-lo, discriminá-lo selecioná-lo, hierarquizá-lo, ou, num só termo, a controlá-lo a partir de critérios metafísicos e morais, quer dizer, de critérios racionais.

Quando emergiu o cristianismo, mais tarde, ele só veio reforçar e dar forma a esse ascetismo, através da noção de pecado, que se sobrepôs à de culpa. O homem misturado, inocente, de dores, alegrias, esplendor, já se tornara responsável e culpado, torna-se, então, pecador, num mundo gerador de pecado, só lhe restando renunciar à vida terrena, “má” ou menos qualificada, o mundo real pecaminoso, por uma vida eterna, “boa”, e um mundo “redentor” na eternidade/futuro. Estava fundada a cultura ocidental.

A.N.N.r

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