A formação histórica contemporânea [super-homem ou além-do-homem]não é prodigiosa, é outra coisa, sem Deus e o Homem.

“Não esperem que o super-homem seja prodigioso. É outra coisa.”

Seria preciso não idealizar o super-homem de Nietzsche e Foucault.

Queria mesmo vulgarizar o super-homem. Com efeito, creio que é uma noção grotesca se não acrescentarmos que o super-homem é algo simples. Há um erro em acreditar que o super-homem é um esplendido advento que faz com que os velhos problemas sejam liquidados. Em absoluto! Forço um pouco os textos de Nietzsche, mas não importa. Como Nietzsche não se ocupou muito disso, não importa, posso forçar um pouco. O super-homem, tem também todo o seu barro, tem seu…não sei o que dizer…toda sua erva daninha. Não acreditemos que tudo é bom. Nem tudo era bom sob a forma de Deus, nem tudo era bom sob a forma do homem, e também nem tudo é bom sob forma do super-homem. Não acreditemos que o super-homem emerge com os problemas resolvidos. Toda a idade do homem teve que debater-se com os restos de Deus, o que Nietzsche chama de o último papa. A idade do homem é inseparável do último papa. Quer dizer que não está tão resolvido, a luta continua. E acho – aqui há haveria que reler muito de perto, talvez tenhamos tempo se terminamos Foucault – que se consideramos os textos de Nietzsche, o super-homem tem a ver com o que chama às vezes de último homem, e outras vezes os últimos homens. E que então, sob cada forma – forma-deus, forma-homem e forma-além-do-homem ou super-homem –  há sempre uma espécie de agitação muito grande. De modo que isso me ajuda a dizer-lhes que não esperem que o super-homem seja prodigioso. É outra coisa.

“Super-homem” não é uma palavra que Foucault utilize com frequência, e quando a emprega a remete explicitamente a Nietzsche, não a toma como sua. Mas o que Foucault toma como sua é uma “forma do porvir” que não seria Deus nem o homem. Então, por comodidade, e pelo conhecimento perfeito que Foucault tem de Nietzsche, falo para ir mais rápido, o super-homem.

Fragmento transcrito da nona aula do curso de Deleuze acerca de Foucault em 25 de março de 1986. (Inédita em português).

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s