Foucault e a escrita (trechos de entrevista com Claude Bonnefoy)

Para chegar a descobrir o prazer possível da escrita, foi preciso que eu estivesse no exterior. Estava então na Suécia, obrigado a falar ou sueco, que conheço muito mal,ou inglês, que pratico com bastante dificuldade. Meu pouco conhecimento dessas línguas me impediu durante semanas, meses e mesmo anos de dizer realmente o que queria. Via as palavras que queria dizer se travestirem, simplificarem-se, tornarem-se como que marionetes irrisórias à minha frente no momento em que as pronunciava.

Nessa impossibilidade em que me encontrei de utilizar minha própria língua, percebi, em primeiro lugar, que ela tinha uma espessura, uma consistência, que não era simplesmente como o ar que se respira, uma transparência absolutamente insensível; depois, que ela tinha suas leis próprias, seus corredores, seus atalhos, suas linhas, suas escarpas, suas costas, suas asperezas, em suma, que ela tinha uma fisionomia e formava uma paisagem onde a gente podia passear e descobrir, no desvio das palavras, ao redor das frases, bruscamente, pontos de vista que não apareciam anteriormente. Naquela Suécia onde eu devia falar uma língua que me era estrangeira, compreendi que podia habitar minha língua, com sua fisionomia subitamente particular, como sendo o lugar mais secreto, porém mais seguro, de minha residência esse lugar sem lugar que é o país estrangeiro onde nos encontramos. […] Tratou-se para mim, então, de reanimar essa língua, de construir para mim uma espécie de casinha da linguagem da qual eu seria o dono e conheceria cada cantinho. Acho que isso que me deu vontade de escrever. Entre prazer de escrever e possibilidade de falar, existe certa relação de incompatibilidade. Ali onde não é mais possível falar, descobre-se o encanto secreto, difícil, um pouco perigoso de escrever.

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[…] o que chama muito minha atenção é que meus leitores costumam imaginar que há em minha escrita certa agressividade. Pessoalmente, eu não a percebo assim de modo algum. Creio nunca ter atacado realmente, nominalmente, alguém. Para mim, escrever é uma atividade extremamente suave, discreta. Tenho como que uma impressão de veludo quando escrevo. Para mim, a ideia de uma escrita aveludada é como que um tema familiar, no limite do afetivo e do perceptivo, que não para de assombrar meu projeto de escrever, de guiar minha escrita quando estou escrevendo, que me permite, a cada instante, escolher as expressões que quero utilizar. O aveludado, para minha escrita, é uma espécie de impressão normativa. Fico, portanto, muito surpreso ao ver que as pessoas reconhecem antes em mim a escrita seca e mordaz. Pensando bem, acho que elas é que têm razão. Imagino que haja em minha caneta uma velha herança do bisturi. Talvez, no fim das contas: será que não traço na brancura do papel aqueles mesmos signos agressivos que meu pai traçava no corpo dos outros quando operava? Transformei o bisturi em caneta. Passei da eficácia da cura à ineficácia do livre enunciado; substituí a cicatriz sobre o corpo pelo grafite sobre o papel; substituí o inapagável da cicatriz pelo signo perfeitamente apagável e rasurável da escrita. Talvez deva mesmo ir mais longe: a folha de papel talvez seja, para mim, o corpo dos outros.

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Com você, gostaria de me deter um pouco sobre esse avesso da tapeçaria. E direi que a escrita, para mim, está ligada à morte, talvez essencialmente à morte dos outros, mas isso não significa que escrever seja como assassinar os outros e consumar contra eles, contra sua existência, um gesto definitivamente mortífero que os expulsaria da presença, que abriria diante de mim um espaço soberano e livre. De modo algum. Para mim, escrever é mesmo lidar com a morte dos outros, mas é essencialmente lidar com os outros na medida em que já estão mortos. Falo de certa forma sobre o cadáver dos outros. Devo confessar, postulo um pouco sua morte. Falando deles, estou na situação do anatomista que faz uma autópsia. Com minha escrita, percorro o corpo dos outros, faço incisões nele, levanto os tegumentos e as peles, tento descobrir os órgãos e, trazendo-os à luz, fazer enfim aparecer esse foco de lesão, esse foco de doença, esse algo que caracterizou sua vida, seu pensamento e que, em sua negatividade, finalmente organizou tudo aquilos que eles foram. Esse coração venenoso das coisas e dos homens, eis, no fundo, o que sempre tentei trazer à luz.

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Só escrevo sobre o fundo da morte já declarada dos outros.

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Claro, acho que eu até poderia falar das coisas que ainda estão muito próximas de nós,  mas sob a condição de que houvesse entre essas coisas bem próximas e o momento em que escrevo essa ínfima defasagem, essa fina película através da qual a morte se instaurou. Em todo caso, o tema que se encontra tão frequentemente em todas as justificativas da escrita – escrever para fazer reviver, escrever para reencontrar o segredo da vida, escrever para atualizar a palavra viva que é ao mesmo tempo a dos homens e, provavelmente, a de Deus – me é profundamente estranho. Para mim, a palavra só começa após a morte, só uma vez estabelecida essa ruptura. A escrita é para mim a deriva do pós-morte, e não a marcha rumo à fonte da vida. Talvez seja isso o que torna minha forma de linguagem profundamente anticristã, provavelmente bem mais que os temas em que não paro de remexer.

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Quero fazer um diagnóstico, e meu trabalho consiste em trazer à luz através da própria incisão da escrita algo que seja a verdade daquilo que está morto. Nessa medida, o eixo de minha escrita não se estende da morte à vida ou da vida à morte, ele está antes no eixo que se estende da morte à verdade e da verdade à morte. Acho que a alternativa à morte não é a vida, e sim a verdade. O que é preciso reencontrar através da brancura e da inércia da morte não é a vibração perdida da vida, e sim o desdobramento meticuloso da verdade. É nessa media que eu me diria um diagnosticador. Mas o diagnóstico é a obra do historiador, do filósofo, daquele que faz política? Não sei. Em todo caso, trata-se de uma atividade de linguagem que é para mim muito profunda. No fundo, não escrevo porque tenho alguma coisa na cabeça, não escrevo para demonstrar aquilo que já, em meu foro interior e para mim mesmo, demonstrei e analise. A escrita consiste essencialmente em empreender uma tarefa graças à qual e ao final da qual poderei, para mim mesmo,  encontrar alguma coisa que não tinha visto inicialmente. Quando começo a escrever um estudo, um livro, qualquer coisa, não sei realmente aonde isso vai, nem em que vai dar, nem o que demonstrarei. Só descubro o que tenho para demonstrar no próprio movimento da escrita, como se escrever fosse precisamente diagnosticar aquilo que eu queria dizer no exato momento em que comecei a escrever.

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Em Nascimento da clínica, eram precisamente a anatomia, a autópsia, o diagnóstico, o modo de conhecimento médico que estavam em questão. Mas, se eu estava tão obcecado por esse modo de conhecimento médico, foi decerto porque ele estava no interior de meu próprio gesto de escrever.

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Eu não saberia dizer por que a escrita e a loucura entraram para mim em comunicação. É provável que a não-existência de ambas, seu não-ser, o fato de serem atividades falsas, sem consistência nem fundamento, espécies de nuvens sem realidade, tenha as aproximado.

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Uma coisa é certa, existe, acredito, uma enorme obrigação de escrever. Essa obrigação de escrever, não muito bem de onde ela vem. Enquanto não se começou a escrever, escrever parece a coisa mais gratuita, mais improvável, quase a mais impossível, aquela a que, em todo caso, ninguém se sentiria obrigado. Então chega um momento – será na primeira página? na milésima? Será no meio do primeiro livro? ou depois? Ignoro – em que se percebe que se é absolutamente obrigado a escrever. Essa obrigação é anunciada, significada, de diferentes maneiras. Por exemplo, pelo fato de que se sente uma grande angústia, uma grande tensão, quando não se fez, como a cada dia, sua paginazinha de escrita. Escrevendo essa página, damo-nos a nós mesmos, damos à nossa existência uma espécie de absolvição. Essa absolvição é indispensável para a felicidade do dia. Não é a escrita que é feliz, é a felicidade de existir que depende da escrita, o que é um pouco diferente. Isso é muito paradoxal, muito enigmático, pois como pode ser que o gesto tão vão, tão fictício, tão narcísico, tão fechado sobre si mesmo que consiste em se sentar à escrivaninha de manhã e cobrir certo número de páginas brancas tenha esse efeito de benção sobre o resto do dia? Como a realidade das coisas – as ocupações, a fome, o desejo, o amor, a sexualidade, o trabalho – se vê transfigurado porque houve isso de manhã, ou porque se pôde fazer isso durante o dia? Está aí algo muito enigmático. Para mim, em todo caso, é uma das maneiras como se anuncia a obrigação de escrever.

Essa obrigação é significada também por outra coisa. Escreve-se sempre, no fundo, não apenas para escrever o último livro de sua obra, mas, de maneira muito delirante – e esse delírio, acredito, está presente no mais mínimo gesto da escrita -, para escrever o último livro do mundo. Para dizer a verdade, aquilo que se está escrevendo, no momento em que se está escrevendo, a última frase da obra que estamos terminando, é também a última frase do mundo, de maneira que, depois, não haja mais nada para dizer. Há uma vontade paroxística de esgotar a linguagem na menor frase. Isso decerto está ligado ao desequilíbrio existente entre o discurso e a língua. A língua é aquilo com o que se pode construir um número absolutamente infinito de frases e de enunciados. O discurso, ao contrário, por mais longo, por mais difuso que seja, mais ágil, mais atmosférico, mais protoplasmático, mais suspenso em seu porvir que se possa imaginá-lo, é sempre finito, sempre limitado. Nunca se chegará ao limite da língua com um discurso, por mais longo que se possa sonhá-lo. Essa inesgotabilidade da língua, que mantém o discurso sempre em suspenso num porvir que nunca se completará, é ainda outra maneira de experimentar a obrigação de escrever. Escreve-se para chegar ao limite da língua, para se chegar, por conseguinte, ao limite de toda linguagem possível, para fechar enfim através da plenitude do discurso a infinidade vazia da língua.

E ainda mais isto, em que se verá que escrever é bem diferente de falar. Escreve-se também para não se ter mais rosto, para se fugir de si mesmo sobre sua própria escrita. Escreve-se porque a vida que se tem ao redor, ao lado, fora, longe da folha de papel, essa vida que não é divertida, mas tediosa e cheia de problemas, que está exposta aos outros, se desmancha nesse retangulozinho de papel que temos debaixo dos olhos e de que somos mestres. Escrever, no fundo, é tentar fazer fluir, pelos canais misteriosos da pena e da escrita, toda a substância, não apenas da existência, mas do corpo, nesses traços minúsculos que depositamos sobre o papel. ão ser mais, em matéria de vida, que essa garatuja ao mesmo tempo morta e tagarela que depositamos sobre a folha branca, é com isso que se sonha quando se escreve. Mas a essa reabsorção da bida buliçosa no buliço das letras nunca chegamos. A vida sempre retoma fora do papel, sempre prolifera, continua, nunca chega a se fixar nesse retangulozinho, nunca o pesado volume do corpo chega a se desdobrar na superfície do papel, nunca passamos pare esse universo de duas dimensões, para essa linha pura do discurso, nunca chegamos a nos fazer finos e sutis o bastante para não sermos nada mais que a linearidade de um texto, e, no entanto, é a isso que gostaríamos de chegar. Então, não paramos de tentar, de retomar, de nos confiscar a nós mesmos, de escorregar no funil da pena e da escrita, tarefa infinita a que estamos fadados. A gente se sentiria justificado se só existisse nesse minúsculo arrepio, nesse ínfimo arranhão que se fixa e que é, entre a ponta da caneta e a superfície branca da folha, o ponto, o lugar frágil, o momento imediatamente desaparecido em que se inscreve uma marca enfim fixada, definitivamente estabelecida, legível apenas para os outros e que perdeu toda possibilidade de ter consciência em si mesma. Essa espécie de supressão, de mortificação de si na passagem aos signos, é isso, acredito, que dá também à escrita seu caráter de obrigação. Obrigação sem prazer, como vê, mas, no fim das contas, quando escapar a uma obrigação o entrega à angústia, quando infringir uma lei o deixa na maior inquietude, na maior aflição, será que obedecer a essa lei não é a maior forma de prazer? Obedecer a essa obrigação que não se sabe nem de onde vem nem como se impôs a você, obedecer a essa lei, decerto narcísica, que pesa sobre você e o domina por toda parte, é isso, acredito, o prazer de escrever.

*

Não sou um escritor. Para começar, não tenho nenhuma imaginação. Sou de uma “inventividade” total. Nunca consegui sequer conceber alguma coisa como o tema de um romance. Claro, tive às vezes vontade de escrever nouvelles no sentido quase jornalístico do termo: contar microacontecimentos, contar, por exemplo, a vida de alguém, mas em cinco, 10 linhas, não mais do que isso. Não sou, portanto, um escritor. Situo-me resolutamente ao lado dos escreventes, daqueles cuja a escrita é transitiva. Quero dizer, do lado daqueles cuja escrita destina-se a designar, a mostrar, manifestar fora dela própria alguma coisa que, sem ela teria permanecido, se não oculta, ao menos invisível. Talvez seja aí que exista, apesar de tudo, para mim, um encantamento da escrita.

Não sou um escrito, porque a escrita tal como a pratico, o ínfimo trabalho que faço todas as manhãs, não é um momento que deve permanecer erigido sobre seu pedestal e se manter de pé a partir de seu próprio prestígio. Não tenho de modo algum a impressão, nem mesmo a intenção, de fazer uma obra. Tenho o projeto de dizer coisas.

Tampouco sou um intérprete. Quero dizer que não tento fazer aparecerem coisas absolutamente escondidas, camufladas, esquecidas há séculos ou milênios, nem reencontrar, por trás do que foi dito por outros, o segredo do que quiseram ocultar. Não tento descobrir um outro sentido que estaria dissimulado nas coisas ou nos discursos. Não, tento simplesmente fazer aparecer o que está muito imediatamente presente e ao mesmo tempo invisível. Meu projeto de discurso é um projeto de presbita. Gostaria de fazer aparecer o que está próximo demais de nosso olhar para que possamos ver, o que está aí bem perto de nós, mas que nosso olhar atravessa para ver outra coisa. Devolver densidade a essa atmosfera que, à nossa volta, por toda parte, garante que vejamos as coisas longe de nós, devolver sua densidade e sua espessura àquilo que costumamos experimentar como transparência, está aí um dos projetos, dos temas que me são absolutamente constantes. Igualmente, chegar a circunscrever, a desenhar, a designar essa espécie de ponto cego a partir do qual falamos e vemos, a reconhecer aquilo que possibilita que tenhamos um olhar distanciado, a definir a proximidade que, à nossa volta, por toda parte, orienta o campo geral de nosso olhar e de nosso saber, apreender essa invisibilidade, esse invisível do visível demais  esse afastamento daquilo que está próximo demais, essa familiaridade desconhecida, é para mim a operação importante de minha linguagem e meu discurso.

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[…] leio assim, divirto-me lendo, um pouco por curiosidade, em todo caso através de um jogo de associações que não vem ao caso explicar aqui, livros de botânica do século XVII, livros de gramática do XVIII, livros de economia política da época de Ricardo, de Adam Smith. Meu problema – e para mim a tarefa da escrita – não consiste em reescrever esses livros num vocabulário que seria o nosso. Tampouco tentar descobrir aquilo que se costuma chamar de o impensado do discurso, saber aquilo que, no próprio texto de Ricardo, de Adam Smith, de Buffon, de Lineu, se encontra de certa forma presente – mas sem ter sido dito – nos interstícios, nas lacunas, nas contradições internas. Leio todos esses textos rompendo todas as familiaridades que poderíamos ter com eles, evitando todos os efeitos de reconhecimento. Tento erigi-los em sua singularidade, em sua maior estranheza, e isso a fim de que surja a distância que nos separa deles, a fim de poder introduzir minha linguagem, meu discurso, nessa distância mesma, nessa diferença em que nos encontramos situados e que somos em relação a eles. Inversamente, meu discurso deve ser o lugar onde essa diferença aparece. Ou seja, quando me interesso por objetos um pouco longínquos ou heteróclitos, o que gostaria de fazer aparecer não é o segredo que está além deles e que eles escondem por meio de sua presença manifesta, é antes essa atmosfera, essa transparência que nos separa deles e que, ao mesmo tempo, nos liga a eles e faz com que possamos falar deles, mas falar deles como de objetos que não são nossos próprios pensamentos, nossas próprias representações, nosso próprio saber. Assim, para mim, o papel da escrita é essencialmente um papel de colocação a distância e de medida da distância. Escrever é se situar nessa distância que nos separa da morte e daquilo que está morto. Ao mesmo tempo é aquilo em que essa morte vai se manifestar em sua verdade, não em sua verdade oculta e secreta, não na verdade daquilo que ela foi, mas nessa verdade que nos separa dela e que faz com que não estejamos mortos, com que eu não esteja morto no momento em que escrevo sobre essas coisas mortas. É nessa relação que a escrita, para mim, deve constituir.

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[…] estou nessa distância entre o discurso dos outros e o meu. E meu discurso nada mais é que a distância que tomo, que meço, que acolho entre o discurso dos outros e o meu. Nesse sentido, meu discurso não existe, e é por isso que não tenho de modo algum a intenção nem a pretensão de fazer uma obra. Sei muito bem que não faço uma obra. Sou o agrimensor dessas distâncias, e meu discurso não é mais que o metro absolutamente relativo  e precário por meio do qual meço todo esse sistema de afastamento e de diferença. Medir a diferença com aquilo que não somo, é nisso que exerço minha linguagem e é por isso que lhe dizia agora há pouco que escrever é perder seu próprio rosto, perder sua própria existência. Não escrevo para dar à minha existência uma solidez de monumento. Tento antes reabsorver minha própria existência na distância que a separa da morte e, provavelmente, por isso mesmo, a guia para a morte.

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Quando escrevo, é claro que sempre tenho alguma coisa em mente. Ao mesmo tempo, dirijo-me sempre a alguma coisa que está fora de mim, a um objeto, a um domínio a descrever, à gramática ou à economia política do século XVII, ou ainda à experiência da loucura durante o período clássico. E, contudo, esse objeto, esse domínio, não tenho de modo algum a impressão de descrevê-lo, de me colocar como que à escuta daquilo que ele mesmo diz, de traduzir com palavras sobre o papel e num certo estilo uma certa representação que eu teria elaborado daquilo que tento descrever. Eu já lhe disse, tento fazer aparecer a distância a que estou, a que estamos dessas coisas, minha escrita é a própria descoberta dessa distância. Acrescentarei isto: tenho como que a cabeça vazia no momento em que começo a escrever, embora tenha sempre a mente dirigida para um objeto preciso. Isso faz com que, evidentemente, para mim, escrever seja uma atividade muito esgotante, muito difícil, muito angustiante também. Sempre tenho medo de falhar; falho, erro indefinidamente o alvo, é claro. Isso faz também com que aquilo que me leva a escrever não seja tanto a descoberta ou a certeza de certa relação, de certa verdade, mas bem mais o sentimento que tenho de que certa forma de escrita, certo modo de funcionamento de minha escrita, certo estilo permitirá fazer surgir essa distância.

Por exemplo, um dia, em Madri, fiquei fascinado por Las meninas, de Velásquez. Fiquei olhando esse quadro por muito tempo, assim, sem pensar em falar dele um dia, muito menos em descrevê-lo – o que, naquele momento, teria me parecido irrisório e ridículo. Então, um dia, já não sei muito bem como, sem tê-lo revisto, sem sequer ter olhado reproduções, senti vontade de falar de memória desse quadro, de descrever o que havia ali dentro. Assim que tentei descrevê-lo, certa coloração da linguagem, certo ritmo, certa forma de análise, sobretudo, me deram a impressão, a quase certeza – falsa, talvez – de que eu tinha exatamente ali o discurso através do qual poderia surgir e se medir a distância a que estamos da filosofia clássica da representação e do pensamento clássico da ordem e da semelhança. Foi assim que comecei a escrever As palavras e as coisas. Para esse livro, utilizei todo um material que reunira nos anos precedentes um pouco ao acaso, sem saber o que faria, não tendo certeza alguma sobre a possibilidade de um dia transformá-lo num estudo. Era uma espécie de material morto que eu percorria um pouco como uma espécie de jardim desértico, como uma extensão inutilizável, que eu percorria como, imagino, o escultor de outrora, o escultor dos séculos XVII e XVII, devia contemplar, tocar, o bloco de mármore, sem saber ainda o que fazer dele.

[O belo perigo, Autêntica Editora, 2016]

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