“Tudo fora, errante” (Pirandello e Deligny e Janmari)

Nenhum nome resta, nenhuma lembrança, hoje, do nome de ontem – ou do nome de hoje, amanhã. […] Esta árvore, respiro trêmulo de folhas novas. Sou esta árvore. Árvore, nuvem. Amanhã, livro ou vento: o livro que leio, o vento que bebo. Tudo fora, errante.
 
Saio todas as manhãs ao alvorecer, porque agora quero conservar o espírito assim, fresco como a aurora, com todas as coisas recém-descobertas, ainda impregnadas do gosto cru da noite, antes de o sol as ofuscar e ressecar sua umidade orvalhada. Aquelas nuvens de água lá em cima, pesadas de chumbo, amassadas contra os montes lívidos, que fazem parecer mais largo e mais claro aquele verde trecho do céu, por entre as manchas de sombra ainda noturna. E estes fiapos de grama, também tenros de água, impregnados do vivo frescor das margens do rio. E aquele burro lá, que passou a noite toda ao relento e agora tem os olhos apagados e relincha nesse silêncio que está tão próximo dele, mas que aos poucos parece que vai se afastando, quando começa clarear ao seu redor, sem causar espanto, com essa luz que se espalha de leve sobre as planícies desertas e atônitas. E essa estradinha aqui, cortada entre colinas escuras e muros gretados, que parece parada na ruína de seus sulcos, sem levar a lugar nenhum. O ar é novo. E tudo é o que é, segundo a segundo, iluminado de vida. Desvio de repente os olhos para não ver cada coisa se fixar na sua aparência e morrer. Só assim consigo me manter vivo, renascendo a cada segundo e impedindo que o pensamento se ponha de novo a trabalhar, reabrindo por dentro o vazio de suas vãs construções.
 
A cidade está longe. Às vezes me chega na calma da tarde o som dos sinos. Mas agora eu ouço esses sinos não mais por dentro, mas de fora, como se eles tocassem por si, talvez vibrando de alegria em sua cavidade sonora, suspensos no belo céu azul, cheios do calor do sol misturado ao som das andorinhas ou do vento de nuvens pesadas e altas, pairando sobre os campanários aéreos. Pensar na morte, rezar. Há ainda os que necessitam disso, e os sinos tocam também por eles. Eu não preciso mais disso, porque morro a cada segundo e renasço novo e sem lembranças: vivo e inteiro, não mais em mim, mas em cada coisa externa.
(luigi pirandello)
(deligny-janmari)

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