os contrários são de um mesmo mundo, e que os sentimentos se transformam em coisas apenas na medida em que as coisas se fazem de sentimentos.

Então onde está a vitória? Para achá-la é preciso avançar no domínio estético. É o Mímico. O verdadeiro mímico é lento e pesado; mas esta pesadez é a do instante, o qual (inserido no tempo) é apenas uma suprema leveza. As crianças pressentem isso – pelo menos aquelas que sabem dançar como os ursos, que buscam elas mesmas se espremer, e se esgotam em caretas que congelam seus rostos. O mímico (e sobretudo a lenta vida das mãos e dos dedos, aqui também como uma pasta que se endurece) é tendência à petrificação, à mineralização. Nada mais anti-romântico que o mímico; o grande pensamento do romantismo é o de uma oposição entre o homem e as coisas; a se perguntar se o romantismo, em sua casmurrice visual, é mesmo estético. O verdadeiro mímico é mímico das coisas. Ele é a aquisição do pleno ser. E que o sentimento se faça de coisa, mimicar-se-á o ódio e o amor. Ponge quer que as coisas se façam de sentimentos; “pois milhões de sentimentos”, diz ele, “estão para ser conhecidos, experimentados… Ora bem! quanto a mim tenho a dizer que sou sim uma coisa e, por exemplo, que afora todas as qualidades que possuo em comum com o rato, o leão e o laço, pretendo àquelas do diamante, e aliás me solidarizo inteiramente tanto com o mar quanto com a falésia que ele ataca e com o seixo que nele se encontra criado.”Ponge ou o Anti-mímico; o mímico, ao contrário, é a transformação dos sentimentos em coisas. Mas não nos esqueçamos de que os contrários são de um mesmo mundo, e que os sentimentos se transformam em coisas apenas na medida em que as coisas se fazem de sentimentos.

Os Dizeres do Mímico:

Atento e fecundo

            ele se pôs diante do espelho

            e então virou o olho

            e fez nascer

            um olho outro

            na ponta do nariz

 

            De eletricidade a pane chegou

            como um batimento cósmico das pálpebras

            e tão preciso

            que demando a Deus

            me faça bater como uma ampola

Trecho F. Ponge

Por  G. Deleuze

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