os contrários são de um mesmo mundo, e que os sentimentos se transformam em coisas apenas na medida em que as coisas se fazem de sentimentos.

Então onde está a vitória? Para achá-la é preciso avançar no domínio estético. É o Mímico. O verdadeiro mímico é lento e pesado; mas esta pesadez é a do instante, o qual (inserido no tempo) é apenas uma suprema leveza. As crianças pressentem isso – pelo menos aquelas que sabem dançar como os ursos, que buscam elas mesmas se espremer, e se esgotam em caretas que congelam seus rostos. O mímico (e sobretudo a lenta vida das mãos e dos dedos, aqui também como uma pasta que se endurece) é tendência à petrificação, à mineralização. Nada mais anti-romântico que o mímico; o grande pensamento do romantismo é o de uma oposição entre o homem e as coisas; a se perguntar se o romantismo, em sua casmurrice visual, é mesmo estético. O verdadeiro mímico é mímico das coisas. Ele é a aquisição do pleno ser. E que o sentimento se faça de coisa, mimicar-se-á o ódio e o amor. Ponge quer que as coisas se façam de sentimentos; “pois milhões de sentimentos”, diz ele, “estão para ser conhecidos, experimentados… Ora bem! quanto a mim tenho a dizer que sou sim uma coisa e, por exemplo, que afora todas as qualidades que possuo em comum com o rato, o leão e o laço, pretendo àquelas do diamante, e aliás me solidarizo inteiramente tanto com o mar quanto com a falésia que ele ataca e com o seixo que nele se encontra criado.”Ponge ou o Anti-mímico; o mímico, ao contrário, é a transformação dos sentimentos em coisas. Mas não nos esqueçamos de que os contrários são de um mesmo mundo, e que os sentimentos se transformam em coisas apenas na medida em que as coisas se fazem de sentimentos.

Os Dizeres do Mímico:

Atento e fecundo

            ele se pôs diante do espelho

            e então virou o olho

            e fez nascer

            um olho outro

            na ponta do nariz

 

            De eletricidade a pane chegou

            como um batimento cósmico das pálpebras

            e tão preciso

            que demando a Deus

            me faça bater como uma ampola

Trecho F. Ponge

Por  G. Deleuze

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Sonhos: Sismógrafos do comum e uma semiótica aberta.

 

 

Para os Yanomami, o pensar é, essencialmente, sonhar: sonhar com o que não é humano, sair da humanidade.

Davi Kopenawa Yanomami

Sonho, podem ser máquinas para detectar porcarias famililistas. É uma máquina para detectar os lugares onde se contraem as “produções de espaços”, isso em virtude da própria natureza do sonho, no sentido de que é uma atividade que, por definição, tende a ser cortada de toda conexão com o real, com o campo social. No mesmo lance é como se fosse uma radiografia de todos os pontos de bloqueio. Ora, é extremamente interessante repetir esses pontos de bloqueio. O sonho, para retomar a fórmula de Freud, é a via real, não do inconsciente, mas da familialização, individualização (liberal) do inconsciente. A análise do sonho é muito importante porque, quando você pode chegar a determinar, no sonho, por qual enganação, por qual espécie de desmontagem, por qual tipo de identificação você vai colmatar e levar sua política fascista, jogo policial consigo mesmo, isso devém um modo de ajustagem de uma outra política possível. Esse tipo de ajustagem é extremamente importante. Ali onde, no sonho, se produzem esses impactos fascistas, há, precisamente no mesmo lugar, o umbigo do sonho, quer dizer, o indício de forças em luta de uma outra política possível. No próprio lugar em que se é o mais fascista, o mais bloqueado, é que alguma coisa pode abrir-se numa outra cadeia, pois se é tanto mais fascista no lugar atrás do qual há uma ameaça de forças em lutas. Tudo depende do que se quer fazer do sonho. Se você quer interpretá-lo, reificá-lo, coisificá-lo na grade de interpretações, então, no mesmo lance, ele serve para reforçar uma política fascista. Inversamente, se você, mais do que interpretar, quer colocá-lo num sistema de produção, um sistema de quebradura de esquemas habituais, de esquemas reais, se você quer efetuar uma técnica de experimentação, então, mais do que alimentar uma semiótica enquadradora (modelo), individualizante, familialista, você pode servir-se da semiótica singular do sonho para reforçar uma semiótica aberta.

 

F.G