MANIFESTO PROVISÓRIO PELA REPACTUAÇÃO DA VIDA NA UNIVERSIDADE PÚBLICA

[VERSÃO ABERTA EM CONSTRUÇÃO ENTRE ESTUDANTES, PROFESSORES E TÉCNICOS DA UNIFESP]

 

Diante dessas transformações, sem dúvida é necessário inventar novidades inimagináveis, fora do âmbito habitual que ainda molda nossos comportamentos, nossa mídia, nossos projetos. Vejo em nossas instituições universitárias o mesmo brilho das constelações que os astrônomos nos dizem ter morrido há muito tempo.

Michel Serres

Polegarzinha

 

A universidade agoniza e somos animais em extinção.

A instituição universitária, antes ancorada no modelo disciplinar, agora transformada em empresa, para a qual todos operamos como autônomos/autômatos, gerindo nossas formações-carreiras, subordina o conhecimento à produção ininterrupta. O tempo tornou-se bem indisponível, não havendo nenhum vazio ou desregulagem suportável. Nosso gozo é estar, por segundos, em dia com os prazos, para imediatamente recair na condição de débito.

O poder despersonalizou-se e foi colonizado pela via dos financiamentos. Agências não universitárias dizem as leis que vigem aqui. Aos gestores restou a função administrativa, aos professores o poder de conferir o passe-título aos estudantes, por meio de avaliações. Aos estudantes, os projetos pedagógicos parecem bem mais restritivos do que promotores de aberturas. Os saberes padecem.

Ataca-se, a todo momento, a dimensão pública deste bem coletivo, produzido no comum, que é o conhecimento. Ele tem sido privatizado: pelas parcerias público-privadas; pela terceirização de serviços; pela política de desmonte da educação e da saúde estatais; pelos especialismos; pelos nossos gestos diários, demasiadamente adequados e neoliberais que sustentam e irrigam governos predatórios. Nas universidades públicas mesmo quando resistimos ou alimentamos a normopatia que nos invade, alguma coisa também se dissolve  e caduca em nós, entre nós.

As ocupações em escolas e universidades, pelo país, são um sintoma do que perdeu a validade ou está caducando no contemporâneo, que ultrapassa lutas políticas pontuais, e têm indicado a possibilidade de reinventar este estado de coisas. Os estudantes mostram-se à altura de bem mais do que se lhes atribui pela idade e inexperiência; aliás, a imaturidade, desses em que a fôrma ainda não pegou, tem sido uma força vital em apostas menos determinadas, sem docilizá-los ou domesticá-los, sem insensibilizá-los para tudo aquilo que não serve a nossos desígnios de poder-saber, de pressa, de produtivismo, de institucionalização com suas formatações e soluções já sabidas: eles tomam pelas mãos a gestão de complexos, encontrando soluções inauditas para seus impasses. Este movimento parece indicar uma ética, pois é de modos de vida que se trata.Neste movimento percebemos um modo de se desconectar, uma esquiva ao excesso que lhes é imposto no cotidiano acadêmico. Eles abdicam ou mais precisamente abdicou neles a lógica da democracia representativa e fazem democracia direta. Com isso, põem em xeque limites cotidianos da educação que se lhes eram declarados como intransponíveis o que tensiona em nós o discurso dos experts. Querem mais do que participar das decisões pedagógicas, pois o que lhes está sendo oferecido é aquém do que precisam e desejam. Agenciam a todo momento a gestão de um cotidiano comum, em que alimentação, limpeza, jardinagem, aulas, debates, segurança, artes, assembleias se revezam e se sobrepõem; não há atividade mais ou menos nobre e aplainam-se hierarquias entre quem pensa e quem faz. As ocupações parecem ser experiências raras de comunidade e formação cravadas no presente, indicando que algo da relação entre educação e mero consumo de conhecimento está se esgotando. As teorias, a aposta em ideologias e no futuro, talvez tenham menos força que a espessura do presente de aprendizagem da ocupação. Os estudantes estão encontrando um modo de se reinventar, ao mesmo tempo em que reinventam a percepção da própria educação. Não querem tomar o poder, sendo essa sua fragilidade e potência.

O momento é decisivo: ou a universidade transmuta-se, ou enfraquece. O célebre “publish or perish” ganha agora um novo sentido e verdade: é tornar público ou morrer.

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