Félix Guattari Acerca de Donald Trump

Uma outra espécie de alga, desta vez relativa à ecologia social, consiste nessa liberdade de proliferação que é consentida a homens como Donald Trump que se apodera de bairros inteiros de Nova York, de Atlantic City etc, para “renová-los”, aumentar os aluguéis e, ao mesmo tempo, rechaçar dezenas de milhares de famílias pobres, cuja maior parte é condenada a se tornar moradores de rua, o equivalente dos peixes mortos da ecologia ambiental.

LEIA O TRECHINHO ABAIXO E ACOMPANHE A PROBLEMATIZAÇÃO DO TRECHO ACIMA.

Há a experiência de Alain Bombard na televisão quando apresentou duas bacias de vidro: uma contendo água poluída, como a que podemos recolher no porto de Marselha e na qual evoluía um polvo bem vivo, como que animado por movimentos de dança; a outra, contendo água do mar isenta de qualquer poluição. Quando ele mergulhou o polvo na água “normal”, após alguns segundos, vimos o animal se encarquilhar, se abater e morrer. Mais do que nunca a natureza não pode ser separada da cultura e precisamos aprender a pensar “transversalmente” as interações entre ecossistemas, mecanosfera e universos de referência ditos naturais, artificiais, sociais e individuais. Tanto quanto algas mutantes e monstruosas invadem as águas de Veneza, as telas de televisão estão saturadas de uma população de imagens e de enunciados “degenerados”. Uma outra espécie de alga, desta vez relativa à ecologia social, consiste nessa liberdade de proliferação que é consentida a homens como Donald Trump que se apodera de bairros inteiros de Nova York, de Atlantic City etc, para “renová-los”, aumentar os aluguéis e, ao mesmo tempo, rechaçar dezenas de milhares de famílias pobres, cuja maior parte é condenada a se tornar moradores de rua, o equivalente dos peixes mortos da ecologia ambiental. Para se desintoxicar do discurso sedativo que as televisões em particular destilam, conviria, daqui para frente, apreender o mundo através dos vasos comunicantes que constituem os muitos pontos de vista ecológicos. Que singularidade e finitude sejam levadas em conta pela lógica multivalente das ecologias mentais e pelo princípio de eros de grupo da ecologia social e afrontar o face-a-face vertiginoso com o cosmos (ecologia ambiental) para submetê-lo a uma vida possível tais são as vias embaralhadas das visões ecológicas ambiental, genética, mental, política, biotecnológica e etc. As ecologias deveriam ser concebidas como sendo da alçada de uma “disciplina” comum ético-estética e, ao mesmo tempo, como distintas uma das outras do ponto de vista das práticas que as caracterizam. Seus registros são da alçada do que chamei heterogênese, isto é, processos contínuos de singularizações, assim, os ditos “indivíduos” devem se tornar a um só tempo solidários, solitários e cada vez mais diferentes. (o mesmo se passa com a resingularização das escolas, das prefeituras, do urbanismo etc). Uma ecosofia de um tipo novo, ao mesmo tempo prática e especulativa, ético política e estética, deve a meu ver substituir as antigas formas de engajamento religioso, político partidário, associativo gregário ou ambientalista empresarial. Ela não será nem uma disciplina de recolhimento na interioridade, nem uma simples renovação das antigas formas de “militantismo”. Tratar-se-á antes de um movimento de múltiplas faces dando lugar a instâncias e dispositivos ao mesmo tempo analítico-políticos, biotecnológicos e produtores de subjetividade. Certamente seria absurdo querer voltar atrás para tentar reconstituir as antigas maneiras de viver. Jamais o trabalho ou o hábitat voltarão a ser o que eram há poucas décadas, depois das revoluções informáticas, robóticas, depois do desenvolvimento do gênio genético, da mundialização do conjunto dos mercados, há também a aceleração das velocidades de transporte e de comunicação e a interdependência dos centros urbano. No futuro a questão não será apenas a da defesa da natureza – a ecologia ambiental pode ser um novo fundamentalismo -, mas a de uma ofensiva para reparar o pulmão amazônico, para fazer reflorescer o Saara, habitar mangues e palafitas (não como peixes mortos). A criação de novas espécie vivas, vegetais e animais, está inelutavelmente em nosso horizonte e torna urgente não apenas a adoção de uma ética ecosófica adaptada a essa situação, ao mesmo tempo terrificante e fascinante O princípio comum das ecologias consiste, pois, em que os territórios existenciais com os quais elas nos põem em confronto não se dão como um em si, fechado sobre si mesmo, mas como um para si precário, finito, finitizado, singular, singularizado, capaz de bifurcar em reiterações estratificadas e mortíferas ou em abertura processual a partir de práxis que permitam torna-lo “habitável”. Assim, toda uma catálise da retomada de confiança no mundo e na vida está para ser forjada passo a passo e, às vezes, a partir dos meios os mais minúsculos. Tal como esse ensaio que quereria por pouco que fosse tolher a falta de graça e a passividade ambiente.
F.G.A.H

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