Comum, crise da medida, livro de Jó e a atualidade – Diálogos com Antonio Negri (vídeo com Vladimir, Peter, Tatiana e Ricardo)

DIÁLOGOS COM ANTONIO NEGRI
27/10/2016

Peter Pál Pelbart
(PUC/SP – Núcleo de Estudos da Subjetividade)

No início dos anos 80, ainda na prisão, Toni Negri expôs as circunstâncias em que se viu impelido a debruçar-se sobre o Livro de Jó no rastro de uma derrota política cujo sentido ainda não aparecia. E ele se refere a esse componente crucial em toda a trama de Jó: a incomensurabilidade da dor e sua desmedida.
Ora, oriundo de uma tradição marxista, calcada na medida, porque começar pela desmedida? Pergunta ele. Foi justamente vivia-se a crise da medida. Eu cito, foi somente em 1968 que percebi maravilhado que uma grande mutação da fortuna do homem e do destino era possível, que poderia sim abalar qualquer medida do mundo. Portanto, quando respondo à questão – Por que nos rebelamos? Digo que o que estava em jogo na época era a razão ou a medida. A mutação do trabalho estava na base na derrota do movimento operário, e da degradação (…) baseava-se na ruína da medida de valor. Sem uma medida de valor, o socialismo tornava-se impossível, mas o capitalismo também.
Era preciso criar algo novo. A ruína das leis da medida era algo que abalava o mundo em profundidade. Jó foi leal a todas as medidas que regulavam o mundo regido por Deus. Os operários foram leais a todas as medidas que regulavam o mundo regido pelo capital. Mas agora a medida explodiu. Jó protestava contra a medida e sofria a dor da incomensurabilidade da vida. Agora a medida foi pelos ares (isso é o Negri falando).
O que tudo isso tem a ver com minha ânsia de libertação? Tem a ver com a pequena, simples, mas profunda razão, valia também para mim, assim como para o movimento operário. A experiência vivida por Jó, ou seja, a dor da incomensurabilidade e a consequente descoberta de que só a paixão da criação poderia responder a derrocada da medida. Lá onde as velhas medidas caíram era preciso criar novas, e a partir daí, a paixão residia inteiramente na capacidade de mover-se com alegria para além da medida. É um parágrafo que faz inteiramente jus ao livro de Jó em que se inspira, estendendo uma ponte entre a paisagem bíblica e a nossa mais viva atualidade. Pois no fundo Jó é também o sem medida, o desmedido, o indomável, aquele que contesta as razões do poder, aquele que suspeita do poder da razão, aquele que sente em torno de si que a tragédia não pode ser dominada, já que ela domina, como diz ele, todas as perspectivas.
Jó é aquele que vive na carne o fato de que a medida voou pelos ares. Que a medida que regula nossa vida é desmedida, caduca, mortífera. Por ontológica e boa lógica negriana, segue-se a recusa ontológica, é onde começa a aventura ética da liberação. Eu cito (o Negri) a realidade de nossa miséria é aquela de Jó; as perguntas e as respostas que fazemos ao mundo são as mesmas de Jó, com o mesmo desespero, as mesmas blasfêmias nós nos exprimimos. Conhecemos a riqueza e a esperança, tentamos Deus com a razão, nos restam agora o pó e a desrazão. Poderemos nós também guiar a nossa miséria através de uma análise do ser e da dor? E a partir dessa profundidade ontológica remontar a uma teoria da ação, ou melhor, a uma prática de reconstrução do mundo? Até onde? Até quando? (fim da citação).
Entre Deus e Jó, entre o mestre e o escravo, não é pelo reconhecimento, e desde o início a dissemetria entre o capital e o trabalho é abissal, é impreenchível, não pode haver dialética nem (…). A Jó só cabe partir da materialidade da dor para enfrentar a vibris divina (??). Embora Deus tente provar que o caos é cosmos, que a injustiça é justiça, que a desmedida é medida, reiterando seu poder infinito, Jó não pode aceitar a transformação do terror em cosmogonia. Daí todo o processo através do qual ele transfigura a dor, recusa o juiz, denuncia os valores e se recria. Já que não há juiz, é preciso inventar uma outra justiça. Já que não há mais valores confiáveis, é preciso criá-los a partir de um elemento mais terreno. É indispensável pois, romper com a pretensa racionalidade do mundo, com as medidas que o regulam ou apenas encobrem a desmedida de sua violência. É preciso, em suma, subtrair a potência humana ao poder (pequeno ou não?) e encontrar um outro fundamento ontológico que se faça acontecimento.
Se o valor do trabalho antes era mensurável pelo tempo, concebido como medida, tudo muda quando o trabalho se libera da régua do tempo, tornado-se valor sem medida, potência pura, expansão ilimitada. Quando ele se reconquista como inteligência, como cérebro, como carne, como corpo, é o único ponto de partida possível para a criação de outros valores.
Um nietzschiano, um (…) ou um deleuziano, talvez remetessem a criação de valores a uma instância outra que não o trabalho, o que importa apesar desse postulado granítico negriano, é que doravante a aventura já não pode ser linear, é um work in progress, observa o Negri, pragmática e experimental, seguindo os ritmos e as disritmias da criação.
Livre do mestre e de sua Teodiceia, a criação de valores já não se submete a medidas extrínsecas, mas abre a partir de sua própria desmedida, um outro tempo. Já não há, a partir daí, Jó resignado, Jó paciente, mas ao contrário, uma nova impaciência, que a partir de sua dor uma nova comunidade se anuncia. Pois a dor nunca é individual, ao contrário, diz ele, ela é uma chave que abre a porta da comunidade. Todos os grandes sujeitos coletivos são formados pela dor. Pelo menos aqueles que lutam contra a exploração do tempo da vida por parte do poder, aqueles que descobriram o tempo de novo como potência, como recusa do trabalho explorado e dos ordenamentos que se instauram com base na exploração.
A dor é o fundamento democrático da sociedade política, na mesma medida em que o medo é seu fundamento ditatorial e autoritário – arremata o autor.
A propósito, Negri tinha uma queixa específica, eu leio: sempre que jornalistas ou companheiros vêm me entrevistar ou discutir comigo, percebo neles a ilusão de conseguirem obter de mim palavras de potência e de esperança. Mas de fato não me sinto como uma espécie de sacerdote espinosista que pode exprimir retóricas de alegria e de superabundância (Peter: “Eu adoro essa frase. Claro que ele vai decepcionar os que sustentam essa expectativa”), mas a responsabilidade (diz ele) por tal expectativa deve ser imputada àqueles que querem ser confortados, e não se trata de confortar ninguém, e sim fazer outra coisa. Ele insiste, em bom espinosano, não há palavras de esperança, não existe a possibilidade de imaginar um novo sol que nasce no horizonte… Não há como lançar passarelas sobre o abismo… O abismo ao qual ele se refere naquele momento é entre duas épocas, moderno e o pós-moderno, tal qual ele o entende. E ele retoma o refrão que não é comum na boca de um militante, mas que a meu ver não deveria ser negligenciado. Dói muito… Esse é o refrão. Não é uma dor vaga, é uma dor específica, determinada, histórica, em meio a uma mudança profunda, na qual a alma é posta a trabalhar, na qual ela se cansa como um corpo, e não há liberdade suficiente para a alma, assim como não há salário suficiente para o corpo. Por isso o trabalho é cada vez mais alma e cada vez mais sublima o corpo, nós o experimentamos como separação e exílio, é uma nova experiência da exploração.
Claro que essa não é a última palavra do pensador, mas esse ritornelo do dói, dói muito que poderia encontrar um equivalente na ideia de Foucault sobre o intolerável, parece necessário para evitar que se salte e se evita o problema da dor, para evitar que se ancore a resistência num plano outro que não o do corpo, da carne, da vida. Por exemplo, a utopia por um mundo outro reluzente. Eu leio: Toda utopia é de fato uma traição. Só existe isso, esse mundo no qual estamos e é de dentro dessa condição material que devemos, queremos, desejamos. Mas como? Assumindo o contexto por aquilo que ele é, apropriando-se dele. Ou seja, para usar metáforas próximas da sua experiência pessoal, naquele momento, por um lado detectando a prisão global em que nos encontramos, apreendendo-a como jaula destrutiva e, por outro, transformando-a por dentro, metamorfoseando a nós mesmos, quimeras e monstros, libertando-nos de todas as subjetivações capitalistas.
Eu poderia parar aqui, mas tenho outro pedaço… Esse livro me impressionou muito… Jó, a força do escravo… Eu não consigo lembrar de livro mais pungente a respeito das dores do escravo e da desmedida do poder. Um livro recente do Achille Mbembe – Crítica da Razão Preta – que a n-1 vai traduzir, vai lançar agora. No início desse livro extraordinário, o autor sustenta que a constituição do pensamento europeu como um humanismo, ou um discurso sobre a humanidade é indissociável da figura do preto (…). A partir do século XVIII, segundo ele, essa conjunção humanismo do projeto moderno, humanismo e racismo, figuras gêmeas, eu cito “do delírio que terá produzido a modernidade”. É aí que comparece no Mbembe a citação de Deleuze, que a meu ver teve que esperar décadas pra receber o seu sentido historio radical. Diz Deleuze: um judeu, um chinês, um grande mongol, um ariano no delírio, delírio mistura entre outras coisas, as raças. Ora, eis como Mbembe revela o avesso dessa frase – o racismo é um delírio, delírio comporta o racismo, o racismo é um delírio. Escravo sempre houve ao longo da história da humanidade, mas era um fruto em geral da vitória de uma guerra e, portanto, nunca se tornariam escravos em virtude da cor da pele. Mas com o tráfico atlântico de homens e mulheres originários da África a partir do século XVI, se transformaram em homens objetos, homens mercadoria, homens moeda. Nem por isso deixaram de ser sujeitos (…). Só a partir do século XVIII articulam uma linguagem própria, reivindicando estatuto de sujeitos integrais no mundo vivente. Revoltas de escravos que vão desde a independência do Haiti em 1804, o combate pela abolição do tráfico, até a descolonização africana e as lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos, chegando até o fim do apartheid nos últimos anos do século XX. Mas um terceiro momento frisa Mbembe, é já no século XXI, frente a planetarização dos mercados, a privatização do mundo sob a égide do neoliberalismo, nessa junção entre economia financeira, complexo militar e tecnologias digitais. Quando, segundo o autor, já não há trabalhadores enquanto tal, mas apenas nômades do trabalho, animais prontos para vestir todo tipo de roupagem que o mercado solicita e transformáveis no que deles for… E ele assim define sujeitos neuroeconômicos absorvidos pela dupla preocupação exclusiva, sua animalidade (reprodução biológica de sua vida) e de sua coisidade (o desfrute dos bens desse mundo). Esse homem coisa, homem máquina, homem código e homem fluxo… Ou seja, tudo aquilo que antes era exclusivo do preto no primeiro capitalismo passou a ser, senão a norma, ao menos, o local de todas as humanidades subalternas. Trata-se de uma universalização tendencial da condição preta. Aliás há o surgimento de práticas imperiais inéditas que utilizam tanto lógicas escravagistas de captura e predação, quanto lógicas coloniais de ocupação e extração, pra não falar das guerras civis ou (…) das décadas anteriores.
Um outro eixo desse livro de Mbembe, pela primeira vez na história humana o nome preto não remete mais comente a condição imposta a pessoas de origem africana na época do primeiro capitalismo, essa pungibilidade nova, essa solubilidade, sua institucionalização enquanto nova norma de existência e sua generalização ao conjunto do planeta, que nós designamos de devir preto do mundo, devir preto do mundo. No momento em que se alastra o racismo até mesmo sem raça. Inventando-se discriminações, hierarquias, assimetrias. Quando a religião ou a cultura vão tomando o lugar da biologia como fundamento da discriminação, o que fazer com o preto? Pergunta Mbembe. Esquecê-lo, ou ao contrário, já que ele foi fabricado, ou preservar sua potência do falso?
Esse estranho sujeito (…?) ao longo de uma fronteira que ele não cessa de seguir, e se o preto devesse sobreviver e por uma dessas reviravoltas da história, os subalternos da humanidade se tornassem preto. Partimos do mais elementar, a Europa se considerava o centro do mundo civilizado e se contrapunha ao resto, onde o símbolo maior foi a África e o preto…
Por que estou expondo isso tudo? O Mbembe retoma a questão:
Como se opera a passagem do estatuto de escravo em direção a uma nova comunidade dos homens livres? Sendo que a condição comum que lhes é comum é de serem estrangeiros a si mesmos. O desafio é conjurar a estrutura de assujeitamento.
A cultura branca se vê assediada pela ameaça de uma revolta capaz não apenas de liberá-los, mas de refundar o sistema da propriedade, do trabalho, os mecanismos de redistribuição, os fundamentos da própria reprodução de vida, com todos os fantasmas que desde o inicio acompanhavam a construção da condição preta.
Se Mbembe reconhece que não estamos no mesmo mundo da época do Fanon(?), as guerras neocoloniais ressurgem, formas de ocupação se metamorfoseiam com seu local de torturas, prisões secretas, pilhagens, e o aparecimento de muros, fronteiras militarizadas, restrições da mobilidade segundo categorias raciais ressurgem por toda a parte.
Nesse contexto, o apelo de Fanon, décadas atrás para o desenclausuramento do mundo, continua válido. Isso significa, segundo Mbembe, que a construção do comum é inseparável da reinvenção da comunidade. Assim como se pode pensar uma vontade de poder se deve postular uma vontade de comunidade, mas uma comunidade descolonizada, o que implica necessariamente uma provincialização da Europa, ou seja, resituar a Europa no mapa do mundo e não como centro do mundo.
(…)? A provincialização da Europa é fruto da própria Europa, não há eurocentrismo.
Num outro contexto, (…) escreveu: sim, valeria a pena estudar clinicamente, no detalhe, as trajetórias de Hitler e do hitlerismo e revelar ao burguês do século XX, muito distinto, muito humanista, muito cristão, que ele burguês ocidental carrega um Hitler que se ignora, e Hitler é seu demônio e ele vitupera é por falta de lógica, o que ele não perdoa a Hitler não é o crime em si, o crime contra o homem, não é a humilhação em si, é o crime contra o homem branco. Esse foi o grande crime de Hitler, de ter aplicado à Europa procedimentos colonialistas que até então eram exclusividade dos árabes da Argélia, (…) e dos negros da África… E a grande acusação eu lanço ao pseudo humanismo, de ter por muito tempo apequenado os direitos do homem, de ainda ter ainda uma concepção estreita e racial, ou sordidamente, racista. No final do capitalismo, desejoso de sobreviver à Hitler, no final do humanismo formal e da renúncia filosófica à Hitler.
Eu lembro a frase do Negri e do Hardt – a escravidão pode servir de símbolo da psicose da república da propriedade, que preserva sua coerência ideológica através da negação por (…) dando–se a reconhecer a existência da realidade traumática da escravidão ou tratando de projetá-la para fora.
Talvez seja, em parte, que o motivo da rebelião haitiana tenha sido tão negligenciada, pois foi a primeira revolução moderna contra a escravidão, e por isso poderia ser considerada a primeira revolução propriamente moderna.
Peter, pra encerrar – se pra Negri Jó e o escravo foram meios para pensar a condição contemporânea e as forças de reversão nela embutidas, mas algo similar a partir do preto fabricado pela escravidão por um lado e do devir preto do mundo por outro. Enquanto Negri tentava através do escravo e da dor pensar as condições do comum, Mbembe através do escravo e da dor pensam hoje no que ele chama em comum, (…) uma comunidade sem estrangeiros. Não resisti a tentação de conectar esses dois projetos pra aterrissar em nosso solo. Não há possibilidade de derrubar nossas práticas de casa grande, da qual o golpe recente é apenas uma das manifestações, sem um tal reconhecimento e uma tal reviravolta. Seria preciso repensar nosso contexto escravagista à luz destas perspectivas da desmedida, dor, extração, revolta, alegria, é preciso que esse circuito se propulsione e não fique estacionado no meio permitindo a ressurgência do pior.
Eu creio que há algo disso no último parágrafo de Bem-Estar Comum, e onde eu encerro: a erradicação em nós mesmos do nosso apego às identidades e de maneira geral as condições de nossa escravidão será extraordinariamente dolorosa, mas ainda assim nós rimos.

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