NIILISMO E OS MUNDOS QUE VEM. Que forças estão pressionando para passar? São forças ativas ou reativas? É um movimento afirmativo ou negativo? Estamos ante um processo de superabundância vital ou pendendo a uma pauperização da existência?

O niIlismo, em sua acepção mais imediata, poderia ser definido como a desvalorização de todos os valores “supremos”, o desmoronamento de um edifício moral, religioso e civilizatório; de modo tal que aquilo que valia deixa de valer e o que era respeitável se banaliza. Nietzsche detecta esta situação de crise como necessária, e, ao invés de lamentar-se, mostra até que ponto esses valores supremos (o “bem”, a “verdade”, a “justiça”, o “divino” e etc) estavan fundados sobre o nada. Mas ao mesmo tempo, percebe que esse momento em que o nada de fundamentos aparece como culminacão do proceso é muito complicado. O fato de que esses critérios morais tenham dado sentido e direção à vida é causa de que a vida mesma acabe depreciando-se. Nietzsche denuncia toda dependência da vida, toda sujeição em relação a algo extrínseco a si mesma. Esses valores que davam sentido à vida ao mesmo tempo a esvaziam de seu sentido intrínseco. Se a vida depende de outra coisa, é porque está esvaziada. Por isso, quando se revela que os atributos que davam valor perderam sua validade, a vida perde todo o sentido e fica nua, revelando sua falta de sentido intrínseco. Bem, se trata de um acontecimento necessário. Não é um sucesso histórico, mas é a história em sí mesma que pode ser vista como um proceso de desvalorização dos valores. Esse momento em que descobrimos que os valores não valem mais é o mais perigoso, porque estamos na beira de afimar que nada vale a pena e que tudo é igual. Há uma tonalidade afetiva que expressa esse momento agônico do niilismo: “tudo é vão, nada vale a pena, tudo se equivale”. Nós podemos muito fácilmente reconhecer no sujeito pos-moderno um exemplo desta tonalidade. E poderíamos adotar uma posição extrínseca e crítica, a maneira de um juiz. Mas não é o caso de Nietzsche, que acompanha esse processo até seu término, sua consumação, vai inclusive estimulá-lo, dizendo que não temos que freiá-lo nem interrompê-lo: Não tem sentido recompor o que está se quebrando, corrompendo-se, voltando a colar os pedacinhos soltos. Não só temos que deixar que se quebre aquilo que está se desfazendo, e mais ainda convem intensificar a decomposição. Achamos aqui a ambigüidade de Nietzsche: Está diagnosticando alguma coisa que condena ou ele mesmo se tornou niilista? Eu creio que são as duas coisas, pois nos fala de uma destruição que avança e que sem dúvida há quem queira freiá-la antepondo valores sustitutivos. Por exemplo: Deus está morto, mas seu lugar é ocupado pela ciência, a razão, o progresso, e, inclusive pelo homem. Todos esses herdeiros dos valores supremos, que pretendem sustitui-los, aspiram deter a desagregação. Mas Nietzsche recorda que se Deus está morto é porque também caducou “o homem” que projetou sobre Deus suas pretenções (é o anti-humanismo que logo retomaram também Foucault e Deleuze). Todas e cada uma das figuras substitutivas colaboran em impedir a possibilidade de uma passagem. E esse é o sentido da ambigüidade, pois Nietzsche propõe assumir a necesidade da destruição, para que outra coisa seja possivel, para que novas forças reinventem a vida. Nietzsche se encarrega de distinguir entre uma destruição que provem do arrependimento, da sede de vingança e o odio, e outro tipo de destruição que se origina de um enfático SIM. Essas figuras nos permitem realizar um diagnóstico diferencial dos niilismos, nos permiten interrogar que tipo de forças estão lutando por existir: Que forças estão pressionando para passar? São forças ativas ou reativas? É um movimento afirmativo ou negativo? Estamos ante um processo de superabundância vital ou pendendo a uma pauperizacão da existencia? Gostaria de ficar com a imagem deste momento delicadísimo do niilismo, a uma só tempo ambiguo e privilegiado em que está em jogo a passagem de forças incipientes, que aparecen enredadas em formas, que, ainda que quebradas, partidas e claudicantes, operan como prisões. Perceber esse ponto de viragem das forças é o mais difícil, pois não sabemos- e precisaríamos ver em cada caso- se estamos em um proceso que tende à morte ou se estamos em pleno nascimento. Pode ser uma pessoa, uma cultura, um acontecimento, dá no mesmo. Há um instante em que não sabemos ao certo se tudo está em vías de cansar-se (mortalmente) e sucumbir ou se está ocorrendo uma reinvención. Há quem desenvolva um olfato extremamente agudo nestas situacões. Nietzsche, por exemplo, sente com muita nitidez o cheiro da decadência e acompanha quase com prazer de anatomista o que está apodrecendo, pois ao mesmo tempo ele percebe aquilo que vai se liberando. Me pergunto se o nosso desafio hoje não tem a ver com essa operação quase esquizofrénica, que passa por apreender o que está morrendo e descobrir o que vai nascer, quem sabe ao mesmo tempo e, às vezes, nos mesmos fenômenos. Se for assim devemos ter em conta algo que poderíamos chamar a “tonalidade afetiva”, que para mim define a natureza de qualquer filosofía. É a capacidade, por um lado, de enterrar o que está morrendo. Goethe fala de um direito das coisas que se consumaram de serem enterradas. E simultâneamente há outro direito, que não é só o que tem as vidas que estão constituidas. Precisamos pensar também no direito daquilo que ainda não nasceu, o que como disse Nietzsche, está por vir. Enterrar o que está morto para que possa germinar o que está vindo e que ainda não sabemos o qué é, porque ainda não tem nome nem forma reconhecível. Nietzsche menciona uma figura um pouco dramática para referir-se ao que vem além do homem. O“super-homem” que não é o homem elevado a enésima potência, mas a dissolucão da forma-homem enquanton tal, da moral e da razão, do corpo adestrado, domesticado, racionalizado. Mas o que importa não é tanto a definicão do que vem, se não a ideia de que aquela destruição é a condição de uma travessia, a abertura de uma posibilidade. Esta sensibilidade habilita a alguns a atravessar a catástrofe com alegría e até com alívio. Em qualquer caso, sem catastrofismo. Zero de nostalgia e de melancolia, mas também sem ingenuidade. Porque o novo é absolutamente indeterminado, é imponderável e não há nenhuma necessidade (progresso) histórica para que aquilo que vem seja melhor do que foi. Não há garantías.

Trecho de uma Entrevista com PeterPálPelbart. Colectivo Situaciones Impasse : dilemas políticos del presente / coordinado por Colectivo Situaciones. – 1a ed. – Buenos Aires : Tinta Limón, 2009.

 

 

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