A tartaruguinha de D.H. Lawrence

 

Para  D.H Lawrence, a experiência tartaruga na qual ele entra não tem nada a ver com uma relação sentimental e doméstica. Lawrence, por sua vez, faz parte dos escritores que nos causam problema e admiração, porque souberam ligar sua escrita a experiências animais reais inauditas. Mas, justamente, recrimina-se a Lawrence: “Suas tartarugas não são reais!” E ele responde: é possível, mas meu devir o é, meu devir é real, inclusive e sobretudo se vocês não podem julgá-lo, porque vocês são cachorrinhos domésticos.”

D.G

“Estou cansado de ouvir dizer que não há animais deste tipo. (…) Se eu sou uma girafa, e os ingleses ordinários que escrevem sobre mim gentis cachorrinhos bem educados, é isso aí, os animais são diferentes. (…) Vocês não gostam de mim, vocês detestam instintivamente o animal que sou”.

D.H. Lawrence

ABAIXO

A tartaruguinha

D.H. Lawrence

Tu sabes o que é ter nascido só,

Tartaruguinha!

 

No primeiro dia esticar

Os pés aos pouquinhos

Pra fora do casco

Ainda mal acordada,

E continuar estirada na terra,

Pouco viva ainda.

 

Uma miúda, frágil, semi-animada noz.

 

Tentar abrir tua miúda e bicuda boca,

Que parece uma porta de ferro,

E parecendo que nunca vai conseguir.

Levantar teu aquilino bico desde baixo,

Para elevá-lo até teu pequeno e magro pescoço

E dar tua primeira mordida em algum fiapo de erva,

Solitário e pequeno inseto,

Inseto de olhos brilhantes,

E lento.

 

 

Dar tua primeira e solitária mordida

E continuar tua lenta e solitária caçada.

Teu pequeno e brilhante e escuro olho,

Teu olho de uma escura e turbulenta noite,

Sob tua lenta cobertura, tartaruguinha,

Quanta coragem tens.

Nunca se ouviu uma queixa tua.

 

Lanças tua cabeça para a frente, lentamente,

Emergindo de tua pequena capa

E avanças, arrastando-te, com tuas quatro patinhas

Indo lentamente em frente,

Para onde, pequeno pássaro?

 

Como um bebê mexendo seus membros,

Só que  fazes pequenos, infinitos progressos

Enquanto um bebê não faz nenhum.

 

O toque do sol te anima

Mas as eras longínquas e o permanente frio

Te obrigam a fazer uma pausa para bocejar,

Abrindo tua impenetrável boca,

Subitamente bicuda e muito larga

Tal como uma tenaz subitamente aberta;

Tua língua  é rosada e macia

E tuas gengivas finas e firmes,

Depois fechas a cavidade

Dessa pequena e montanhosa fachada,

Que é o teu rosto, tartaruguinha.

 

Tu te maravilhas com o mundo

Ao mesmo tempo em que, lentamente,

Giras tua cabeça em sua capa

E olhas com olhos negros, lacônicos?

Ou é o sono que te bate outra vez,

A não-vida?

 

É tão difícil te acordar.

 

És capaz de te maravilhar?

Ou se trata apenas da tua indômita vontade

E o orgulho da primeira vida

Que olha ao redor

E lentamente coloca-se à prova contra a inércia

Que parecia invencível?

 

Ali o vasto inanimado,

Aqui o fino brilho de teus olhos tão minúsculos,

Desafiantes.

 

Nada disso, miúdo pássaro-carapaça,

É contra um enorme e vasto inanimado que  vais contra,

Contra uma incalculável inércia.

 

Desafiadora,

Pequeno Ulisses, precursora,

Nada maior que meu polegar:

Buon viaggio.

 

Toda a criação animada sobre tuas costas,

Vai em frente, pequeno Titã, sob teu escudo de guerra.

 

Ali o pesado, dominante

E inanimado universo,

E aqui tu, lentamente te mexendo, pioneira, sozinha.

 

Quão animado,

Estóico, ulissiano átomo,

Parece teu passeio agora,

À perturbadora luz do sol.

Subitamente te apressas, ousada,

Apoiada sobre tuas patinhas dianteiras.

 

Pequeno pássaro mudo,

Repousas tua cabeça

Só a metade para fora de sua capa

Na lenta dignidade de tua eterna pausa.

 

Só, sem nenhuma idéia de que está só,

E por isso seis vezes mais solitária,

Envolvida na lenta paixão de armar,

Através de eras imemoriais,

Tua acanhada e redonda casa em meio ao caos.

 

Sobre a terra do jardim,

Minúsculo pássaro,

À beira de todas as coisas.

 

A vida, toda ela, posta sobre tuas costas,

Invencível precursora.

Tradução: T T

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