INCLUSÃO HEGEMÔNICA

Passamos hoje de uma sociedade disciplinar, segundo o diagnóstico de Foucault, para uma sociedade de controle, conforme a expressão de Burroughs. A sociedade discipli­nar era constituída por instituições de confinamento, como a família, a escola, o hos­pital, a prisão, a fábrica, a caserna. Depois da Segunda Guerra mundial, porém, as instituições de confinamento começaram (lentamente e ainda estão) a entrar em crise. Seus muros desmoronam (digamos, a família se pulveriza, a escola entra em colapso, o manicômio vira hospital­-dia, a fábrica se atomiza) mas, paradoxalmente, sua lógica se generaliza ou seja, a lógica disciplinar que presidia as instituições disciplinares se espraia por todo o cam­po social, prescindindo hoje do confinamento, e assume modalidades mais fluidas, flexíveis, tentaculares, informes e esparramadas. Se antes o social era recortado e quadriculado pelas instituições, configurando um espaço estriado, agora navegamos num espaço aberto, sem fronteiras demarcadas pelas instituições – espaço liso. Enquanto a sociedade disciplinar forjava moldes fixos (pai de família, aluno, soldado, operário) e circuitos rígidos, a sociedade de controle funciona com redes moduláveis. O exemplo de Deleuze é simples: em alguns países os presos já não ficam confinados entre quatro paredes, num espaço fechado, mas circulam pela cidade livremente, com uma coleira eletrônica capaz de localizá-los por toda parte e a qualquer momento. Maior fluidez e mobilidade, acompanhada de maior controle: sociedade de controle. A lógica que antes estava restrita à prisão abarca agora o campo social inteiro, como se a própria sociedade tivesse se tornado uma prisão. Também nós podemos circular livremente entre os diversos espaços, tal como os presos das sociedades mais avançadas, e o fazemos sob o olhar atento das câmeras que nos vigiam e nos pedem para sorrir, excitados com nossa parafernália celular cuja função de coleira eletrônica apenas começa a ser percebida (onde você está? pergunta a mãe ao filho, a mulher ao esposo, o patrão ao funcionário), munidos do cartão magnético que permite igualmente rastrear os mínimos detalhes de nossa vida, ao mesmo tempo que somos monitorados pelas diversas ondas eletrônicas que nos rodeiam por todos os lados: prisioneiros a céu aberto. Deleuze lembra que antes se funcionava do seguinte modo: você não está mais na escola, aqui é o exército, ou você não está mais no exército, aqui é a fábrica, você não está mais na fábrica, aqui é a família. Com a diluição dessas fronteiras, e a extensão ilimitada da lógica de cada uma dessas modalidades, bem como a sobreposição delas, nunca se abandona nada, nem se quita nada: não é mais o homem confinado, diz Deleuze, mas o homem endividado. Por exemplo, não há mais escola, e sim um proces­so de formação permanente, a sociedade ela mesma torna-se uma escola interminável, segundo um processo de avaliação incessante. Não há mais produção restrita à fabrica, ou lazer restrito aos espaços de lazer, ou consumo reservado aos espaços de consumo: ao produzirmos estamos ao mesmo tempo consumindo e nos entretendo, ou vice­-versa. Quando as fronteiras entre os espaços se apagam tudo é escola, e tudo é empresa, e tudo é família, e tudo é caserna. Michael Hardt amplia o alcance dessa análise e comenta que não só passamos de uma sociedade disciplinar para uma sociedade de controle, como também de uma sociedade moderna a uma sociedade pós-moderna e, sobretudo, do imperialismo ao Império. A sociedade disciplinar funcionava por espaços fechados em contraposição a um exterior aberto. A sociedade de controle suprimiu essa dialética entre fechado e aberto, entre dentro e fora, pois aboliu a própria exterioridade, realização maior do capitalismo no seu estágio atual. O neocapitalismo apaga as fronteiras, nacionais, étnicas, culturais, ideológicas, privadas. Ele abomina o dentro e o fora, é inclusivo, e prospera precisamente incorporando em sua esfera efetivos cada vez maiores e domínios de vida cada vez mais variados. A economia globalizada constituiria o ápice dessa tendência inclusiva, em que se abole qualquer enclave ou exterioridade. Na sua forma ideal, observa Hardt, não existe um fora para o mercado mundial. O planeta inteiro é seu domínio, nada fica de fora. Chama-se de Império essa forma de soberania que abocanhou tudo (inclusão hegemônica).

PPP

Ver DELEUZE.G. Post Scriptum sobre as Sociedades de Controle. In Conversações. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992, p. 220. e M. Hardt. A sociedade Mundial de Controle. In Gilles Deleuze – Uma vida Filosófica.São Paulo.Ed. 34, 2000.

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