A anorexia é uma história de política. Gilles Deleuze

Pensamos que esta digressão sobre a anorexia devia tornar as coisas mais claras. Talvez, ao contrário, não se deva multiplicar os exemplos, pois há uma infinidade deles, e em direções diversas. A anorexia ganhará cada vez mais importância. A anorexia é, talvez, aquilo de que se falou da pior maneira, sob a influência de Lacan, notadamente: o vazio, próprio ao corpo sem órgãos anoréxico, não tem nada a ver com uma falta, e faz parte da constituição do campo de desejo percorrido de partículas e de fluxos. Gostaríamos de retornar, mais à frente, a esse exemplo, detalhá-lo. Mas já o deserto é um corpo sem órgãos que nunca foi contrário às tribos que o povoam, o vazio nunca foi contrário às partículas que nele se agitam. Caso de anorexia. Trata-se de fluxos alimentares, mas em conjunção com outros fluxos, fluxos vestimentares, por exemplo (a elegância propriamente anoréxica, a trindade de Fanny: Virginia Woolf, Murnau, Kay Kendall). O anoréxico compõe para si um corpo sem órgãos com vazios e cheios. Alternância de enchimento e de esvaziamento: as devorações anoréxicas, as absorções de bebidas gasosas. Não se deveria falar sequer de alternância: O vazio e o cheio são como dois limiares de intensidade, trata-se, sempre, de flutuar em seu próprio corpo. Não se trata de uma recusa do corpo, trata-se de uma recusa do organismo, de uma recusa do que o organismo faz o corpo sofrer. De modo algum regressão, e sim involução, corpo involuído. O vazio anoréxico não tem nada a ver com uma falta, é, ao contrário, uma maneira de escapar à determinação orgânica da falta e da fome, à hora mecânica da refeição. Há [129] todo um plano de composição do anoréxico, para se fazer um corpo anorgânico (o que não quer dizer assenlado: ao contrário, devir-mulher de todo anoréxico). A anorexia é uma política, uma micropolítica: escapar às normas do consumo, para não ser objeto de consumo. É um protesto feminino, de uma mulher que quer ter um funcionamento de corpo, e não apenas funções orgânicas e sociais que a entreguem à dependência. Ela voltará o consumo contra si mesma: será, na maioria das vezes, manequim – será, na maioria das vezes, cozinheira, cozinheira volante, ela dará de comer aos outros, ou então gostará de estar à mesa sem comer, ou então multiplicando a absorção de pequenas coisas, de pequenas substâncias. Cozinheira-manequim, uma mistura que só pode existir nesse agenciamento, nesse regime, ou então que vai se dissolver nos outros. Seu objetivo é arrancar da comida partículas, minúsculas partículas das quais poderá fazer tanto seu vazio quanto seu cheio, conforme as emite ou recebe. O anoréxico é um apaixonado: ele vive de várias maneiras a traição ou o duplo desvio. Ele trai a fome, porque a fome o trai, sujeitando-o ao organismo; ele trai a família porque a família o trai sujeitando-o à refeição familiar e a toda uma política da família e do consumo (substituir a isso um consumo interrompido, mas neutralizado, asseptizado); enfim, ele trai o alimento, porque o alimento é traidor por natureza (idéia do anoréxico, que o alimento está cheio de larvas e de venenos, vermes e bactérias, essencialmente impuro, daí a necessidade de escolher e de extrair dele partículas, ou de cuspi-las novamente). Estou morrendo de fome, diz ela, precipitando-se sobre dois “yogurts dietéticos”. Engana-a-fome, engana-a-família, engana-o-alimento. Em suma, a anorexia é uma história de política: ser o involuído do organismo, da família ou de uma sociedade de consumo. Há política desde que haja contínuo de intensidades (o vazio e o cheio anoréxico), emissão e captação de partículas de alimentos (constituição de um corpo sem órgãos, por oposição à dietética ou ao regime orgânico), e sobretudo conjugação de fluxos (o fluxo alimentar entra em relação com um fluxo vestimentar, um fluxo de linguagem, um fluxo de sexualidade: todo um devir-mulher molecular no anoréxico, seja ele homem ou mulher). É o que chamamos de um regime de signos. Não se trata de modo algum de objetos parciais. É verdade que a psiquiatria ou a psicanálise lacaniana não compreendem, porque elas rebatem tudo sobre um código neuroorgânico, ou simbólico (“falta, falta…”). Surge, então, outra questão: porque o agenciamento anoréxico corre o risco de descarrilhar, de tornar-se mortífero? Que perigos ele sempre beira, e em quais ele cai? É uma questão que deve ser colocada de maneira diferente de como Lacan a coloca: é preciso procurar quais são os perigos que ocorrem no meio de uma experimentação real, e não a falta que preside a uma interpretação preestabelecida. As pessoas estão sempre no meio de um empreendimento, onde nada pode ser assinalado como originário. Sempre coisas que se cruzam, jamais coisas que se reduzem. Uma cartografia, jamais uma simbólica.

***

A própria anorexia esboçava outro regime de signos, que só reduzimos a esse esquema por comodidade (…) já não se pode saber se é um fluxo alimentar ou verbal, de tanto que a anorexia é um regime de signos, e os signos, um regime de calorias (agressão verbal quando alguém, de manhã cedinho, quebra o silêncio; o regime alimentar de Nietzsche, de Proust ou de Kafka é também uma escritura, e eles a compreendem assim; comer-falar, escrever amar, você jamais apreenderá um fluxo sozinho).

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