Tornar-se imperceptível é a Vida.Acaso não é preciso isto, cessar de ser para tornar-se imperceptível? Como tornar-se imperceptível? Uma saída contemporânea.

O MAIOR FILME IRLANDÊS (17 minutos, versão completa do único FILM de Samuel Beckett)

(“FILM” DE BECKETT)

Problema
Se é verdade, como o disse o bispo irlandês Berkeley, que ser é ser percebido (esse est percipi), acaso é possível escapar à percepção? Como tornar-se imperceptível?

História do problema
Poderíamos pensar que toda essa história é a de Berkeley, que está farto de ser percebido (e de perceber). O papel, que só Buster Keaton poderia representar, seria o do bispo Berkeley. Ou melhor, é a passagem de um irlandês a outro, de Berkeley que percebia e era percebido, a Beckett que esgotou “todas as felicidades do percipere e do percipi”. Devemos pois propor uma decupagem (ou uma distinção dos casos) um pouco diferente daquela do próprio Beckett.

Condição do problema
É preciso que algo seja insuportável no fato de ser percebido. Acaso consiste em ser percebido por terceiros? Não, pois os terceiros percebedores eventuais se prostram assim que por sua vez percebem que estão sendo percebidos, e não só uns pelos outros. Por conseguinte há algo de horroroso em si no fato de ser percebido, mas o quê?

Dado do problema
Enquanto a percepção (câmara) está atrás do personagem, não é perigosa, pois permanece inconsciente. Ela só apreende o personagem quando forma um ângulo que o atinge obliquamente, e lhe dá consciência de ser percebido. Diremos por convenção que o personagem tem consciência de ser percebido, que ele “entra em percipi” quando a câmara por trás de suas costas excede um ângulo de 45°, por um lado ou outro.

Primeiro caso: a parede e a escada, a Ação
O personagem pode limitar o perigo andando rápido, ao longo de uma parede. Com efeito, só um lado é ameaçador. Fazer um personagem caminhar ao longo de uma parede é o primeiro ato cinematográfico (todos os grandes cineastas se exercitaram nisso). A ação evidentemente é mais complexa quando se torna vertical e mesmo espiralada, como numa escada, visto que o lado vai mudando alternadamente em relação ao eixo. De todo modo, cada vez que o ângulo de 45° é ultrapassado, o personagem pára, interrompe a ação, se atira à parede e oculta a parte exposta de seu rosto com a mão, ou então com um lenço ou uma folha de couve que poderiam pender de seu chapéu. Tal é o primeiro caso, percepção da ação, que pode ser neutralizado pela parada da ação.

Segundo caso: o quarto, a Percepção
É o segundo ato cinematográfico, o interior, o que se passa entre as paredes. Antes, o personagem não era considerado como alguém que percebe: a câmara lhe proporcionava uma percepção “cega”, suficiente para sua ação. Mas agora a câmara percebe o personagem dentro do quarto, e o personagem percebe o quarto: qualquer percepção torna-se dupla. Antes, os terceiros humanos eventualmente podiam perceber o personagem, mas eram neutralizados pela câmara. Agora, o personagem percebe por sua própria conta, suas percepções tornam-se coisas que por sua vez o percebem: não só animais, espelhos, um cromo do bom Deus, fotos, mas também utensílios (como dizia Eisenstein depois de Dickens: a chaleira está me olhando…). Nesse sentido as coisas são mais perigosas que os humanos: eu não as percebo sem que elas me percebam, toda percepção como tal é percepção de percepção. A solução desse segundo caso consiste em expulsar os animais, velar o espelho, cobrir os móveis, arrancar o cromo, rasgar as fotos; é a extinção da dupla percepção. Na rua, há pouco, o personagem ainda dispunha de um espaço-tempo, e mesmo fragmentos de um passado (as fotos que ele levava). No quarto, ainda dispunha de forças suficientes para formar imagens que lhe devolviam sua percepção. Mas a partir de agora só lhe resta o presente, sob forma de um quarto hermeticamente fechado do qual desapareceu qualquer idéia de espaço e de tempo, qualquer imagem divina, humana, animal ou de coisa. Só subsiste o Berço no centro do dormitório, pois, melhor do que qualquer cama, é o único móvel de antes do homem ou de depois do homem que nos põe em suspenso no meio do nada (vai-e-vem).

Terceiro caso: a cadeira de balanço, a Afecção
O personagem pode vir sentar-se a cadeira de balanço, e adormecer, à medida que as percepções se apagam. Mas a percepção ainda espreita atrás do berço, onde dispõe dos dois lados simultaneamente. E ela parece ter perdido a boa vontade que manifestava anteriormente, quando se apressava em voltar a fechar o ângulo ultrapassado por inadvertência, e protegia o personagem dos terceiros eventuais. Agora ela o faz de forma deliberada, e tenta surpreender o adormecido. O personagem se defende e se encolhe, cada vez mais fracamente. A câmara-percepção aproveita, ultrapassa definitivamente o ângulo, gira, chega diante do personagem adormecido e se aproxima. Revela, assim, o que é, percepção de afecção, isto é, percepção de si por si, puro Afecto. Ela é o duplo reflexivo do homem convulsivo na cadeira de balanço. Ela é o personagem caolho que contempla o personagem caolho. Estava à espera de sua hora. Então era isso, o terrorífico: que a percepção fosse de si por si, nesse sentido, “insuprimível” . É o terceiro ato cinematográfico, o primeiro plano, o afecto ou a percepção de afecção, a percepção de si. Também ela se apagará, mas ao mesmo tempo em que o movimento da cadeira de balanço estiver morrendo, e em que o personagem morre. Acaso não é preciso isto, cessar de ser para tornar-se imperceptível, segundo as condições estabelecidas pelo bispo Berkeley?

Solução geral
O filme de Beckett atravessou as três grandes imagens elementares do cinema, as da ação, da percepção, da afecção. Mas em Beckett nada acaba, nada morre. Quando a cadeira de balanço se imobiliza, é a idéia platônica de Berço, o berço do espírito que se põe em movimento. Quando o personagem morre, como dizia Murphy, é que ele já começa a mover-se em espírito. Ele está tão bem quanto uma rolha flutando no oceano revolto. Deixou de mover-se, porém se encontra num elemento que se move. O próprio presente, por sua vez, desapareceu, num vazio que já não comporta escuridão, num devir que não comporta mais mudança concebível. O quarto perdeu suas divisórias, e solta no vazio luminoso um átomo, impessoal e no entanto singular, que já não tem um Si para distinguir-se ou confundir-se com os demais. Tornar-se imperceptível é a Vida, “sem interrupção nem condição”, atingir o marulho cósmico e espiritual.

G.D

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