Um trapezista se dá conta, subitamente, de que sua vida está por um triz: “Viver assim, com uma só barra entre as mãos … É vida, isto?” A existência de repente lhe parece estreita demais, pobre demais, frágil demais. Passa a exigir dois trapézios em vez de um, e promete “nunca mais e em circunstância alguma” voltar a apresentar-se como antigamente, pendendo de uma única barra. O trapezista de Kafka, na sua exclamação apavorada, expressa o que as acrobacias do mundo contemporâneo tentam dissimular a todo custo: a percepção vertiginosa de que estamos por um fio, a descoberta penosa de ver-se reduzido a quase nada, a suspeita crescente de que esse pouco talvez não baste para prosseguir. Ao lado da certeza esvaída, a vida depauperada, o abismo escancarado, a quebra irremissível no fio do tempo e no contorno da alma .(…) Pois se é certo que parecemos desarmados diante dos múltiplos sentidos que o desgosto primeiro do trapezista continua a suscitar (o conto de Kafka chama-se “A primeira dor”), é preciso ir além do susto e de seus efeitos de superfície para sondar os gestos de reinvenção da vida que ele esboça. Não há como fazê-lo, no contexto contemporâneo, sem antenar para a miríade de riscos, ofertas e urgências na qual nos lança, na sua oscilação sincopada, a barra do presente. (….) PPP

PRIMEIRA DOR – Franz Kafka

Um artista do trapézio – como se sabe, esta arte que se pratica no alto da cúpula dos grandes teatros de variedades é uma das mais difíceis entre todas as acessíveis aos homens – tinha organizado sua vida de tal maneira, primeiro pelo esforço de perfeição, mais tarde pelo hábito que se tornou tirânico, que enquanto trabalhava na mesma empresa permanecia dia e noite no trapézio. Todas as suas necessidades, aliás bem ínfimas, eram atendidas por criados que se revezavam; vigiavam embaixo e faziam subir e descer, em recipientes construídos especificamente para esses fins, tudo o que era preciso lá em cima. Esse modo de viver não causava aos outros dificuldades especiais; era apenas um pouco incômodo que durante os demais números do programa ele ficasse lá no alto, o que não se podia ocultar: apesar de, nesses momentos, na maioria das vezes se conservar quieto, de quando em quando um olhar do público se desviava para ele. Mas os diretores o perdoavam por isso porque era um artista extraordinário e insubstituível. Além do que admitia-se com naturalidade que ele não vivia assim por capricho e que só podia preservar a perfeição da sua arte mantendo-se em exercício constante. De mais a mais, lá no alto também era saudável, e quando nas épocas mais quentes do ano eram abertas as janelas laterais em toda a extensão da cúpula e junto com o ar fresco o sol entrava poderoso no espaço crepuscular, então era até bonito lá em cima. Sem dúvida seu convívio humano estava reduzido; só uma vez ou outra um colega de acrobacia subia até ele pela escada de corda; então os dois se sentavam no trapézio, inclinavam se à esquerda e à direita sobre as cordas de sustentação e proseavam. Ou então os operários que consertavam o teto trocavam algumas palavras com ele através de uma janela aberta; ou o bombeiro examinava a iluminação de emergência na galeria superior e lhe gritava algo respeitoso mas pouco inteligível. De resto o silêncio o cercava; algumas vezes um funcionário qualquer, que porventura errava à tarde pelo teatro vazio, erguia o olhar para a altura – que quase fugia à vista – onde o artista do trapézio, sem poder adivinhar que alguém o observava, exercia sua arte ou descansava. O trapezista teria assim podido viver tranqüilamente, não fossem as inevitáveis viagens de lugar em lugar que lhe eram extremamente molestas. É verdade que o empresário providenciava para que ele ficasse a salvo de qualquer prolongamento desnecessário desses sofrimentos: para as viagens nas cidades usavam-se automóveis de corrida com os quais se disparava, se possível à noite ou de madrugada, pelas ruas desertas na mais alta velocidade, que certamente era muito lenta para a nostalgia do artista do trapézio; no trem era reservado todo um compartimento onde ele passava a viagem na rede destinada à bagagem, numa substituição lamentável mas ainda possível da sua maneira habitual de viver; no local da apresentação seguinte o trapézio já estava colocado no teatro muito antes da chegada do artista; mantinham-se também abertas todas as portas que davam para o palco e livres todos os corredores. Mas os momentos mais belos na vida do empresário eram sempre aqueles em que o artista punha o pé na escada de corda e finalmente, num instante, estava de novo pendurado no alto do seu trapézio. Por mais bem-sucedidas que essas viagens fossem para o empresário, cada nova excursão lhe era penosa, pois a despeito de tudo perturbavam seriamente os nervos do trapezista. Certa vez em que ambos viajavam juntos – o trapezista sonhando na rede da bagagem e o empresário no canto da janela lendo um livro – o artista do trapézio dirigiu-se a ele em voz baixa. O empresário deu-lhe imediatamente atenção. O artista disse, mordendo os lábios, que de agora em diante ele ia precisar para a sua acrobacia sempre de dois trapézios ao invés de um – dois trapézios, um em frente ao outro. O empresário concordou rapidamente. Mas, como se estivesse querendo mostrar que a anuência do empresário tinha aqui tão pouco sentido quanto a sua negação, o artista acrescentou que nunca mais e em circunstância alguma trabalharia com ‘apenas um trapézio. Parecia estremecer só com a idéia de que isso acontecesse outra vez. Hesitante, o empresário observou o trapezista e se declarou novamente de pleno acordo com o fato de que dois trapézios eram melhor que um; além disso essa nova disposição apresentava a vantagem de tornar o número mais variado. De repente o artista do trapézio começou a chorar. Profundamente assustado, o empresário deu um salto e perguntou o que havia acontecido; por não receber resposta, subiu no assento, acariciou-o e apertou o rosto dele contra o seu, de tal modo que as lágrimas do trapezista lhe escorreram sobre a pele. Mas só depois de muitas perguntas e palavras de carinho o artista do trapézio disse soluçando: “Só com esta barra na mão, como é que posso viver?”. Agora era mais fácil para o empresário consolar o artista; prometeu telegrafar da primeira estação para o lugar da apresentação seguinte, pedindo o segundo trapézio; censurou-se por ter deixado o trapezista trabalhar tanto tempo com apenas um trapézio, agradeceu-lhe e elogiou-o muito por ter afinal chamado sua atenção para o erro. Foi assim que o empresário pôde aos poucos acalmar o artista e voltar ao seu canto. Mas ele mesmo não estava tranqüilo e com grave preocupação examinava secretamente o trapezista por cima do livro. Se pensamentos como esse começassem a atormentá-lo, poderiam cessar por completo? Não continuariam aumentando sempre? Não ameaçariam sua existência? E de fato o empresário acreditou ver, no sono aparentemente calmo em que o choro tinha terminado, como as primeiras rugas começavam a se desenhar na lisa testa de criança do artista do trapézio.

***

O que é a gorda saúde dominante? Deixemos ecoar a pergunta mais geral, de D.H Lawrence, talvez de Kafka, de Gombrowicz, certamente de Deleuze: será a vida essa gorda saúde de espetáculo, de frisson extasiado diante do sensacional, desse monopólio do mundo por um estômago fenomenal, que deglute tudo porque também expele tudo? Ou, ao contrário, estará a vida mais próxima de uma fragilidade diante do excesso, e também, por conseguinte, de uma certa seletividade? Tema nietzschiano, a vida como paladar, e o paladar horrível dos alemães, seu gosto pela cerveja e pela salsicha, e pelo espetacular e pelo pesado..Talvez seja preciso reler toda essa questão em termos de alimentação. É o que o poeta Henri Michaux diz de maneira tão simples: “escrevi esses textos para minha saúde. Quem se alimenta dos sons e de certas relações de som, sente que isso lhe convém, (ao passo que a) um outro serão os espetáculos e as relações reveladas pela biologia, outro a psicologia, que o cálculo matemático ou o estudo da metafísica deixariam sempre subnutrido (ou vice-versa) [ … ] Mas tudo isso não é claro nem excludente entre as “pessoas saudáveis”. Tudo lhes convém, a esses grosseiros indivíduos como aos bons estômagos (….) A gorda saúde dominante, que devora; e expele tudo, e que preserva a própria forma ao longo de toda sua operação onívora, num ,majestoso passeio pelo mundo, e a frágil saúde irresistível, que por não engolir qualquer coisa e não empanturrar-se pode permanecer mais aberta e permeável a muitas coisas com as quais entra em estranhas relações de choque e metamorfose … Manter a forma ou transfigurar-se, aferrar-se ao próprio formato ou estar sujeito às metamorfoses que advêm dessa relação com um exterior – duas políticas em relação à Forma, às formas que a vida produz.Um exemplo é o cinema do neo-realismo italiano, onde os personagens, estupefatos pela visão da guerra, da miséria ou da natureza revolta exclamam: é terrível, é belo demais! (no filme Stromboli, em Vitorio De Sica) A gorda saúde dominante é incapaz de ver, ouvir e deixar-se atravessar por tanto excesso …

PPP

***

(…) o escritor, enquanto tal, não é doente, mas antes médico, médico de si próprio e do mundo. O mundo é o conjunto dos sintomas cuja doença se confunde com o homem. A literatura aparece, então, como um empreendimento de saúde: não que o escritor tenha forçosamente uma saúde de ferro (haveria aqui a mesma ambigüidade que no atletismo), mas ele goza de uma frágil saúde irresistível, que provém do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais, irrespiráveis, cuja passagem o esgota, dando-lhe contudo devires que uma gorda saúde dominante tornaria impossíveis. Do que viu e ouviu, o escritor regressa com os olhos vermelhos, com os tímpanos perfurados. Qual saúde bastaria para libertar a vida em toda parte onde esteja aprisionada pelo homem e no homem, pelos organismos e gêneros e no interior deles? A frágil saúde de Spinoza, enquanto dura, dá até o fim testemunho de uma nova visão à passagem da qual ela se abre. A saúde como literatura, como escrita consiste em inventar um povo que virá. Compete à função fabuladora inventar um povo. Não se escreve com as próprias lembranças, a menos que delas se faça a origem ou a destinação coletivas de um povo por vir ainda enterrado em suas traições e renegações (…). É o devir do escritor. Kafka, para a Europa central, e Melville, para a América, apresentam a literatura como a enunciação coletiva de um povo menor, ou de todos os povos menores, que só encontram expressão no escritor e através dele. Embora remeta sempre a agentes singulares, a literatura é agenciamento coletivo …

G.D

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