Aposta Tchekov (fragmento de carta)

Os escritores que chamamos de eternos ou simplesmente de bons e que nos inebriam possuem um traço comum e extremamente importante: rumam para um lugar determinado e nos chamam para lá, e sentimos, não com a razão, mas com todo o nosso ser, que eles têm uma meta, assim como a sombra do pai de Hamlet, que não por acaso surgia e sobressaltava a imaginação. Alguns, de acordo com o seu calibre têm uma meta mais próxima – o fim da escravidão, a libertação da pátria, a política, a beleza, ou apenas a vodka, como Denis Davidov; outros tem uma meta remota – Deus, a vida após a morte, a felicidade da espécie humana e assim por diante. Os melhores entre eles são realistas e escrevem sobre a vida como ela é, mas, uma vez que cada linha está impregnada, como se fosse de uma seiva, pela consciência da meta, nós, além da vida como ela é, também pressentimos a vida tal como deveria ser, e isso nos cativa. E nós? Nós! Nós escrevemos a vida tal como ela é e não damos nem mais um pio…Mesmo chicoteados, não avançaremos um passo além daí. Não temos meta nem próxima nem remota e nossa alma está totalmente vazia. Não temos política, não acreditamos na revolução, Deus não existe, não temos medo de fantasmas, e eu pessoalmente, não temo a morte nem a cegueira. Quem nada deseja, nada espera e nada teme, não pode ser um artista. Talvez isso seja uma doença, ou não – a questão não é de nomenclatura, mas é preciso ter consciência de que a nossa situação é péssima. Ignoro o que será de nós, daqui a dez ou quinze anos, quando, talvez, as circunstâncias tiverem mudado, mas por enquanto seria insensato esperar de nós alguma coisa efetivamente útil, a despeito de sermos talentosos ou não. Escrevemos mecanicamente, apenas para cumprir uma ordem, estabelecida há muito tempo, segundo a qual uns entram no exército, outros são comerciantes e outros escrevem…Você e Grigorócvich acham que sou inteligente. Sim, sou inteligente, pelos menos o bastante para não esconder de mim mesmo a minha doença e não mentir para mim mesmo, não encobrir o meu vazio com os farrapos dos outros, como as ideias dos 60 ou coisa assim. Não vou me atirar do vão da escada, como Garchim, mas também não me deixo seduzir por esperanças de um futuro melhor. Tampouco sou culpado da minha doença e não me cabe medicar a mim mesmo, pois é de se supor que essa doença tem lá os seus bons propósitos, ocultos para nós, e não foi enviada à toa..

Do seu A. Tchekhov,
(final do séc. XIX)

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