Aposta Beckett (fragmento de carta)

Está se tornando mais e mais difícil, até sem sentido, para mim, escrever num inglês oficial. E, mais e mais, minha própria língua me parece como um véu que precisa ser rasgado para chegar às coisas (ou ao Nada) por trás dele. Gramática e Estilo. Para mim, eles parecem ter se tornado tão irrelevantes quanto o traje de banho vitoriano ou a imperturbabilidade do verdadeiro cavalheiro. Uma máscara. Tomara que chegue o tempo, graças a Deus que em certas rodas já chegou, em que a linguagem é mais eficientemente empregada quando mal empregada. Como não podemos eliminar a linguagem de uma vez por todas, devemos pelo menos não deixar por fazer nada que possa contribuir para sua desgraça. Cavar nela um buraco atas do outro, até que aquilo que está a espreita por trás – seja isto alguma coisa ou nada – comesse a atravessar; não consigo imaginar um objeto mais elevado para um escritor hoje.Ou será que a literatura, solitária, deve permanecer atrasada em seus velhos caminhos preguiçosos que há tanto tempo foram abandonados pela música e pela pintura? Há alguma coisa paralisantemente sagrada na natureza viciosa da palavra que não se encontra nos elementos das outras artes? Há alguma razão pela qual a terrível e arbitrária materialidade da superfície da palavra não seria capaz de ser dissolvida, como pode, por exemplo, a superfície do som, rasgada pelas enormes pausas, da Sétima Sinfonia de Beethoven, de forma que, por páginas a fio, nós não podemos perceber nada a não ser um caminho de sons suspensos nas alturas vertiginosas, ligando insondáveis abismos de silêncio? Uma resposta faz-se necessária. Sei que há pessoas, pessoas sensatas e inteligentes, para quem não faz falta o silêncio. Não posso senão concluir que são orelhas de pau. Pois na floresta de símbolos, que não são nenhum, os pequenos pássaros da interpretação, que não é nenhuma, nunca silenciam.Por ora, é claro devemos nos satisfazer com pouco. Num primeiro momento, só podemos nos ocupar da questão de encontrar, de alguma maneira, um método pelo qual possamos representar esta atitude de ironia para com as palavras, através de palavras. Nesta dissonância entre os meios e seu uso talvez seria a possibilidade de experimentar um suspiro daquela música final ou daquele silencio que subjaz a Tudo.Com um programa destes, na minha opinião, o trabalho mais recente de Joyce não tem absolutamente nada a ver. Nele, parece tratar-se mais de uma questão de apoteose da palavra. A menos que Ascensão aos Céus e Descida aos Infernos sejam, de alguma maneira, uma e a mesma. Que bonito seria poder acreditar que este fosse mesmo o caso. Mas, por ora, devemos nos ater à mera intenção.Talvez as logografias de Gertrude Stein estejam mais próximas do que tenho em mente. Pelos menos, a textura da linguagem tornou-se porosa, se de fato o fez, e apenas por muito acaso, como uma conseqüência de uma técnica similar à de Feininger. A infeliz senhora (será que continua viva?) ainda está, sem sobra de dúvida, apaixonada por seu veículo, mesmo que apenas da maneira que um matemático se apaixona por seus algarismos; um matemático para quem a resolução do problema é de interesse completamente secundário, para quem, na verdade, a morte de seus algarismos deve parecer terrível. Estabelecer uma relação entre este método e o de Joyce, como é moda, espanta-me como uma insensatez comparável à tentativa de aproximar Nominalismo (no sentido dos escolásticos) e Realismo. À caminho desta literatura da despalavra, para mim tão desejável, alguma forma de ironia nominalista poderia ser um estágio necessário. Mas não é suficiente que o jogo perca um pouco de sua sacrossanta seriedade. Ele deveria cessar. Ajamos então como aquele matemático louco (?) que empregava um princípio de mensuração diferente a cada etapa de seu cálculo. Um ataque às palavras em nome da beleza.Neste meio-tempo, não estou fazendo absolutamente nada. Apenas, de quando em quando, tenho o consolo, como agora, de pecar involuntariamente contra uma língua estrangeira, como gostaria de fazer, com conhecimento de causa e de propósito, contra a minha própria e como – Deo juvante – farei.

Saudações cordiais
Samuel Beckett

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