A modernidade mediava tudo pelo modelo do atraso arcaico do qual pretendia nos arrancar; daqui em diante tudo se mede pela lógica do seu desmoronamento próximo.

Fala-se de “crise” a propósito daquilo que se pretende “reestruturar”, tal como se designa por “terroristas” aqueles a quem se planeja atacar. A crise é um modo de governo. A crise é o momento vivificante da “destruição criadora”, criadora de oportunidades, de inovação, de empreendedores, em que só os ditos melhores, os mais motivados, os mais competitivos sobreviverão. O capitalismo cria um conflito em cada um de nós. Não estamos vivendo uma crise do capitalismo, mas antes pelo contrário o triunfo do capitalismo de crise. “A crise” significa: o governo cresce. Ela tornou-se a última ratio daquilo que reina. A crise presente, permanente e omnilateral, já não é a crise clássica, “o momento decisivo”. Pelo contrário, ela é um final sem fim, apocalipse sustentável, suspensão indefinida, diferimento eficaz do afundamento coletivo e, por tudo isso, estado de exceção permanente. A crise atual já não promete nada: ela tende, pelo contrário, a libertar quem governa de toda e qualquer contrariedade quanto aos meios aplicados.

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Isso é doloroso e, por causa disso, geralmente negado. Tivemos uma fé cega na crise, uma fé tão cega e tão antiga que não vislumbramos a ordem neoliberal fazer da crise peça-chave do seu arsenal. Marx escrevia, nos dias seguintes a 1848: “Uma nova revolução só é possível na sequência de uma nova crise. Mas uma é tão certa como a outra.” E ele passaria efetivamente o resto dos seus dias a profetizar, ao menor espasmo da economia mundial, a grande crise final do capital, que em vão terá aguardado. Ainda há marxistas capazes de nos vender a crise presente como “the big one”, obrigando-nos a esperar a sua curiosa espécie de julgamento final. “Se queres impor uma mudança”, aconselhava Milton Friedman aos seus Chicago Boys, “desencadeia uma crise”. O capital, longe de temer as crises, esforça-se agora por produzi-las experimentalmente. Da mesma forma que se desencadeiam avalanches para garantir a escolha da sua hora e o domínio da sua amplitude. Da mesma forma que se incendeiam planícies para garantir que o incêndio que ameaça acabará morrendo ali, por falta de combustível. “Onde e quando” é uma questão de oportunidade ou de necessidade tática. É notoriamente público que em 2010, recém-nomeado, o diretor do Elstat, o instituto grego de estatísticas, as falsificou sem parar, de modo a agravar as contas da dívida do país e assim justificar a intervenção da Troika. É portanto factual que a “crise das dívidas soberanas” foi lançada por um homem que na altura era ainda um agente oficialmente remunerado do FMI, instituição que supostamente iria “ajudar” os países a desenvencilhar-se. Tratava-se aqui de experimentar em escala “natural”, num país europeu, o projeto neoliberal de refundação completa de uma sociedade, os efeitos de uma boa política de “ajustamento estrutural”. Com a sua conotação terapêutica, a crise foi durante toda a modernidade esta coisa natural que surgia de forma inopinada ou cíclica impondo a necessidade de uma decisão, de uma decisão que poria termo à insegurança geral da situação crítica. O final era feliz ou infeliz, segundo a justeza da medicação aplicada. O momento crítico era também o momento da crítica – o breve intervalo em que se abria o debate relativo aos sintomas e à medicação. Não resta nada disso nos dias de hoje. O remédio já não serve para pôr fim à crise. Pelo contrário, a crise é desencadeada visando introduzir o remédio. A partir de agora fala-se de “crise” a propósito daquilo que se pretende reestruturar, tal como se designa por “terroristas” aqueles a quem se planeja atacar. Dessa forma, a “crise dos subúrbios”, em França, em 2005, terá anunciado a maior ofensiva urbanística dos últimos trinta anos contra os ditos “subúrbios”, orquestrada diretamente pelo Ministério do Interior. Para os neoliberais o discurso da crise é um duplo discurso – eles preferem falar, entre si, de “dupla verdade”. Por um lado, a crise é o momento vivificante da “destruição criadora”, criadora de oportunidades, de inovação, de empreendedores, em que só os melhores, os mais motivados, os mais competitivos sobreviverão. “Talvez seja no fundo a mensagem do capitalismo: a «destruição criadora», a recusa de tecnologias obsoletas e de velhos modos de produção em proveito de novos é a única forma de elevar os níveis de vida. (…) O capitalismo cria um conflito em cada um de nós. Nós somos sucessivamente o empreendedor agressivo e o mandrião que, no mais íntimo de si, prefere uma economia menos competitiva e stressante, em que todos ganhariam o mesmo”, escreve Alan Greenspan, o diretor da Reserva Federal norte-americana de 1987 a 2006. Por outro lado, o discurso da crise intervém como método político de gestão das populações. A reestruturação permanente de tudo, dos organogramas como dos apoios sociais, das empresas como dos bairros, é a única forma de organizar, por via de uma perturbação constante das condições de existência, a inexistência do partido adverso. A retórica da mudança serve para desmantelar qualquer hábito, quebrar quaisquer laços, desfazer qualquer evidência, dissuadir qualquer solidariedade, manter uma insegurança existencial crônica. Ela corresponde a uma estratégia que se formula nestes termos: “Prevenir, por via da crise permanente, toda e qualquer crise efetiva.” Tal assemelha-se, na escala do cotidiano, à bem conhecida prática contra-insurrecional de “desestabilizar para estabilizar”, que consiste em suscitar voluntariamente, pelas autoridades, o caos a fim de tornar a ordem mais desejável do que a revolução. Da microgestão à gestão de países inteiros, manter a população numa espécie de estado de choque permanente, siderada, desamparada, a partir do qual se faz de cada um e de todos praticamente aquilo que se quiser. (…) Não estamos vivendo uma crise do capitalismo, mas antes pelo contrário o triunfo do capitalismo de crise. “A crise” significa: o governo cresce. Ela tornou-se a última ratio daquilo que reina. A modernidade media tudo pela bitola do atraso arcaico ao qual nos pretendia arrancar; daqui em diante tudo se mede pela bitola do seu desmoronamento próximo. Quando se divide por dois o vencimento dos funcionários públicos gregos, tal é feito argumentando que se poderia muito bem nunca mais lhes pagar nada de nada. Cada vez que se alonga o período de descontos dos assalariados franceses para a segurança social, tal é feito a pretexto de “salvar o sistema de reformas”. A crise presente, permanente e omnilateral, já não é a crise clássica, o momento decisivo. Pelo contrário, ela é um final sem fim, apocalipse sustentável, suspensão indefinida, diferimento eficaz do afundamento coletivo e, por tudo isso, estado de exceção permanente. A crise atual já não promete nada: ela tende, pelo contrário, a libertar quem governa de toda e qualquer contrariedade quanto aos meios aplicados.

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