O amor não é fácil, a gente sabe disso. Para conseguir, para manter, para conservar, para renovar, é pedido da gente que exista um trabalho psíquico, que exista um trabalho mental. A pergunta é saber como a gente começou a imaginar que o amor ia ser essa coisa fácil, ao alcance de todo mundo e ao alcance de um sujeito muito tempo na vida ou várias vezes na vida.

Esse tema de hoje foi qualquer coisa que foi proposta a partir de uma conversa que eu tive com o Renato, o Renato Janine Ribeiro. Ele, como filósofo preocupado com a ética e a política, tem uma preocupação muito grande de como é que a gente pode investir o dia-a-dia da democracia. Falando comigo, então, ele disse: “Então, meu problema é esse” e eu disse: “Bom Renato, você fale enquanto filósofo e, enquanto analista, meu problema é outro. Você fala de como a gente vai pôr afeto na democracia e eu já queria saber como é que a gente pode pôr democracia no afeto.” E é disso, então, que se trata.

ACIMA E ABAIXO A TRANSCRIÇÃO INTEGRAL DA PALESTRA: DEMOCRATIZAR O AMOR E AMIZADE

por Jurandir Freire Costa

É claro que se trata mais de ver o que é que a gente pode, como é que a gente pode melhor entender e lidar com uma coisa extremamente importante na vida de cada um de nós, que pode dar muita alegria, mas pode dar muito sofrimento e nos últimos tempos vem fazendo mais sofrer do que ser feliz. Conseqüentemente, a minha preocupação com isso, que é um termo que a gente sabe que é retórico, democracia. Democracia é uma palavra que diz respeito à interação nossa na esfera pública e o amor é um sentimento privado. Mas, com isso e com essa brincadeira, eu estava simplesmente querendo apontar para algo que eu acho fundamental, que é: “Será possível a gente imaginar uma vida afetiva no trilho da vida amorosa ou congêneres sem os impasses que o romantismo amoroso nos está fazendo viver?” Ora, seguindo a linha de Freud, eu diria, como outros autores, alguns dos casos eu repertoriei aqui, em particular o Michael Balint (1896-1970), que é hungaro, que viveu nos Estados Unidos e também na Inglaterra, eu diria que o amor também não é solução, amor é problema.

Como tudo que tem valor na vida da gente,como tudo que tem valor, o amor não é fácil, a gente sabe disso. Para conseguir, para manter, para conservar, para renovar, é pedido da gente que exista um trabalho psíquico, que exista um trabalho mental. Ora, se isso é verdade do ponto de vista, é claro, psicológico, a pergunta é saber como a gente começou a imaginar que o amor ia ser essa coisa fácil, ao alcance de todo mundo e ao alcance de um sujeito muito tempo na vida, ou várias vezes na vida. Como todo mito, esse mito estrutura a nossa existência, ele é fundador. Como todo mito, é difícil a gente tomar distância dele. Mas essa idéia que eu acabei de falar pra vocês, essa idéia nem sempre existiu.

A gente quando começa a falar de amor, mais especificamente de romantismo amoroso, imediatamente nós fazemos um desenho, uma pintura dessa emoção, que é uma pintura que não é falsa, mas que não é necessária, atemporal e que sempre existiu. E que nasce com a gente como nascem nossos órgãos ou que nasce com a gente  como nasce nossa capacidade de nos orientarmos no eixo gravitacional na posição ereta, ou nos movimentarmos, ou respirar. Isso não é verdade e isso é desmentido. O desmentido disso pode ter duas consequências: uma consequência é que as pessoas que são muito convertidas ao mito podem se sentir desarvoradas, desorientadas. Outra conseqüência, pelo contrário, que é a que eu espero que a gente possa discutir e é a que em particular eu acredito, é que, uma vez que a gente tem distância, a gente pode se reaproximar do sentimento de uma maneira que talvez nos faça menos infeliz, que nos faça menos frágeis. É mais ou menos assim, como uma adesão a uma visão religiosa de mundo.

Eu acho que a gente pode ter uma adesão a uma visão religiosa do mundo que seja sobretudo tudo ou nada, que seja uma adesão a uma religiosidade que basicamente nos diga: “ou você é virtuoso ou vicioso”, “ou está no céu ou está no inferno”. Se a gente toma distância dessa visão, a gente pode se aproximar da religiosidade de outra maneira, de uma maneira que eu acho que é humanamente rica. Ou seja, a gente passa a ter uma religiosidade em meios tons, como eu acredito que seja tudo na vida: Ou… ou. “Ou oito ou oitenta” , “Ou tudo ou nada”, em psicanálise a gente diz, em geral, é o dilema da neurose, é a neurose que faz da vida da gente isso.

A vida jamais é em claro ou escuro, ela jamais é contrastada de forma expressionista. A vida é impressionista, ela é feita de pontos, de limites, que somos nós que pomos. Ela transita, ela flui, ela está lá e cá, de tal forma que na afetividade ou no que diz respeito às nossas práticas amorosas, eu acredito que a gente também pode vir a ter, pode vir a desenvolver crenças desse tipo, como eu vou mostrar. E isso, eu acredito que seria uma coisa produtiva. Isso faria com que, talvez, quem sabe – eu não sou profeta – a gente se aproximasse de um sentimento que é rico, de uma maneira que fosse menos paralisante, que fosse menos sofrida do que vem sendo agora, em particular na atualidade, em particular, eu repito pras novas gerações, em particular, dentro das novas gerações para as mulheres.

Novamente é uma dessas fantasias masculinas que fazem da mulher objeto das fantasias deles. Elas compram esse ponto de vista, acredito, e passam muitas vezes a arcar com o ônus do deleite ou do gôzo daquilo que os homens inventaram.O que Nietzsche dizia é que pra gente saber quem a gente é a gente tem que por entre a gente e a gente mesmo, pelo menos a pele de três séculos.

Agora eu vou por pra vocês a pele de dez séculos, de vinte séculos, para ver se, por efeito de contraste, aparece de maneira mais clara a construção cultural do romantismo amoroso. O que mantém o mito amoroso em pé, o que faz com que a gente acredite, adira e imagine que fora da arca ou fora da barca não tem salvação, é porque existe, a meu ver, três pilares nesse mito – e quando eu falo de mito, falo no sentido antropológico, a gente não passa sem –  mito é tudo aquilo que assegura a coesão da sociedade, é tudo aquilo que nos dá a idéia de onde viemos, para onde vamos, qual é a origem do prazer, qual é a origem da dor. Isso ninguém dispensa. Isso faz parte da nossa ética, isso faz parte da nossa constituição psíquica. Pois bem, esse mito, o mito que estrutura nossa vida, afirmando que o amor é algo que nos constitui e sem o qual nós não nos realizamos plenamente como pessoas humanas, é baseado num tripé que eu acredito que é básico: primeiro é que o sentimento amoroso é universal; segundo, que ele é espontaneo; terceiro, que ele é o máximo, o top, top da felicidade à qual o ser humano pode aspirar.

Os três são invenções relativamente recentes. Se a gente recua em relação à universalidade desse sentimento, o que é que nós vamos ver? Que o amor que a gente fala atualmente não é o amor do qual Platão (427 a.C – 347 a.C) falava,  que o amor do qual a gente fala atualmente não é o mesmo do qual Santo Agostinho, um grande pensador cristão ( 354-430), falava. Esse amor, então, de onde é que ele vem? Quais são suas raízes?

O amor, como a gente conhece, ele se cristaliza sobretudo no final do século XVIII e começo do século XIX. O sentimento romântico era um sentimento praticamente desconhecido na Antiguidade Greco-Romana. Quando a gente começa a misturar e dizer que o amor estava lá igualzinho como está cá, a gente diz: “Mas, olha a prova: Helena e Pares e aquela catástrofe de Tróia. Pobre de Melenau, de Agamenon. Até hoje deu  as troianas”,  é claro que aquilo ali era paixão alucinada. “Está vendo como o amor estava lá como estava aqui?”. Quando a gente diz isso o que é  que a gente quer dizer? A gente quer dizer o seguinte: que o potencial pra sentir isso é claro que todos nós tivemos, faz parte da nossa compreensão humana. Claro, que o que a gente sente outros poderiam ter sentido e outros poderão sentir. Em absoluto, isso quer dizer que o que a gente sente agora era uma coisa que todo mundo sentia, ou que todo mundo prezava, ou a que todo mundo aspirava. Isso é falso. Faz parte do mito amoroso, para não dizer que ele é universalizado, você selecionar no passado tudo o que é coerente com o presente para retrospectivamente se reencontrar naquilo que você diz estar ali. Essa origem não tem datação, isso aí é aistórico, isso aí é o potencial que todo mundo quer e que todo mundo aspira. No entanto, não é verdade, porque uma das marcas do romantismo amoroso é a idealizaçao do parceiro.

Essa idealizaçao do parceiro amoroso que vem substituir, na cultura leiga, a idéia de Deus no cristianismo ascético ou a idéia das formas na antiguidade, no racionalismo grego.Platão, vocês sabem que o eros dele era o amor às formas puras. Você tinha aquela escada do amor que ia do sensível até o inteligível e ao chegar no inteligível, pela contemplação à teoréia pura, eu alcançava, então, o céu das formas perfeitas, das arché; então pra ele esse é que era o amor puro. O que é que isso tem a ver com se apaixonar por uma pessoa igual  a gente? Nada. No cristianismo era a mesma coisa.

O amor do qual Agostinho falava, que é o grande teorizador do sexo na história ocidental e o grande filósofo do cristianismo, nao há dúvida, o primeiro grande, o amor do qual Agostinho falava também não tinha isso. Tinha dois tipos de amor, ou dois amores, como ele dizia. Um era o amor cupiditas, o da concupiscência, era o amor carnal. Veja só,  quando falava de amor carnal não se pensa imediatamente em sexo. Amor carnal é tudo aquilo que vem da ordem da libido, que é impulso para domínio.

Amor carnal ou cupiditas significava toda adesão, ou todo apego a qualquer coisa que o homem, por sua arrogância, que é o pecado do demônio, acredita que pode dominar. Então, esse amor carnal, ou seja, o apego às coisas de fora, ele dizia que isso só nos faria infeliz, eu revoco a vocês, que pra Agostinho o que é inferno? O inferno é morrer e continuar desejando, porque quem deseja está sempre ansiando, não tem paz , não tem serenidade. Então, essa é a pena máxima do incréo, do ímpio: é morrer e na vida eterna continuar desejando como a gente deseja aqui. Em contrapartida, o que é que  o bom cristão fazia? Qual era o outro amor de Agostinho? Era o amor caritas ou cáritas, como a gente costuma, às vezes, pronunciar. Esse amor cáritas, de caridade, era amar o quê? Era amar o que não perece. Era amar o que não termina. Porque qual é o dilema do humano?  É primeiro desejar o que  não tem e aí ele sofre porque não tem. E quando ele tem, tem medo de perder. Então sofre duas vezes. Justamente, porque eu amo aquilo que perece, aquilo que é volúvel, que é aparência mundana, eu jamais posso ter aquela paz que o Deus de Agostinho, que o Deus cristão dele prometia aos seus fiéis. Ora, no momento em que eu amar a Deus, o amor cáritas, no momento em que eu voltar pra dentro de mim, e reencontrar nele o Deus,  aí eu vou ter paz, eu vou ter tranqüilidade e serenidade.

Esse amor dos primeiros padres da igreja, desses grandes filósofos construtores do cristianismo, bem como o amor grego, em absoluto, podia imaginar como expressão máxima da realização pessoal  que você se apegasse a alguém a ponto de dizer: “Ah! eu quero morrer porque ele está me faltando”. Isso jamais poderia ser visto como virtude. Isso jamais poderia ser visto como um bem, isso era o mal, isso era o demônio que estava te enganando e te fazendo ver naquelas espécies mortais tão perecíveis, tão fungíveis como o outro, alguma coisa que pudesse trazer felicidade. Quando é que isso começa a mudar no ocidente? Vamos dar um grande salto. Isso começa a mudar no ocidente quando começa a mudar a linguagem pela qual eu falava com o outro. E vejam só, a nossa linguagem amorosa de hoje, curiosamente, surge na mística cristã dos primeiros séculos.

Você, dentro do cristianismo, tem uma corrente racionalista que é herança de Santo Agostinho, se eu pensar bem eu chego lá, e você tinha outra corrente, que era a corrente mística ou irracionalista, que é de uma série de outros nomes, eu vou citar um só – porque ele é talvez o primeiro – que é Paulino de  Nola (353-431),uma figura desconhecida que tanto marcou a gente. Pois bem, esse Paulino da elite romana gentia, ele não era judeu, era cristão convertido, lembrem tudo  que a gente está em torno do ano 400. Vejam só, fui até Adão e Eva, mas começa lá, está certo? Até ali começa a haver uma ruptura, um corte, dentro das sociedades ou da comunidade monacal, da vida monástica. Ele  diz: “Agostinho, você é arrogante. Você acha que a gente pode, de fato, qualquer que seja o nosso esforço, entrar em contato com Deus ? Isso não é humano, nós somos muito menos que isso, e a prova que a gente é muito menos que isso –  vejam só essa teologia do amor que se constituia –  a prova que nós somos muito aquém disso é que o próprio Deus, pra que a gente pudesse ter experiência dele, mandou o filho dele à terra, ele fez-se carne, para que a partir daí nós, em nossa medíocre humanidade, a gente pudesse amá-lo através de um filho em tudo semelhante a nós.

E por  que Deus fez isso? É porque ele sabe que, por mais que seja o esforço da razão, que isso é  a soberba de Lúcifer, por mais que seja esforço da razão, não é por aí que  a gente ama. A gente só chega ao amor de Deus via amor de outro humano. E como é que a gente pode amar um outro humano? Amar outro humano é amar os monges da mesma comunidade ou quem tinha a vida monástica porque, evidentemente, a mulher não tinha boa fama entre eles naquele tempo, a gente vai ver quando é que a mulher vai ter boa fama, entende? Ela era fonte de pecado. Elas eram as evas que tinham desencaminhado Adão com aquela história da maçã – todo mundo sabe que não era maçã coisa nenhuma, tudo bem. Pois bem, então o que acontece é que ele dizia: “Bom, uma vez que é isso, vamos começar a treinar’”.

            Se a gente pudesse dizer simplificando o amor a Deus começando a treinar o amor ao outro. E essa linguagem da comunicação mística começou a elaborar expressões  e um vocabulário pra falar de amor completamente desconhecido. Muitas coisas dessas eram vistas por outros  racionalistas como um demônio. Aquilo parecia heresia, parecia idolatria mas se você pega literatura monástica desses anos, que vai de 400 até 800-900, vocês vão ver que se eu pudesse ter ocasião de ler aqui vocês iam  ver que são as cartas de amor mais desvairadas que eles escreviam uns pros outros: “Estou morrendo de amor, minha vida foi arrancada e tu que não apareces e tu que não voltas” e isso não tinha nenhum intuito sexual como a gente poderia imaginar numa leitura atual. Tudo isso era feito como uma maneira de dizer que cada um deles estava se exercitando e se olhando internamente pra saber quando é que eles podiam começar a conhecer Deus. E Deus, evidente, era um percurso que a gente vinha de dentro pra fora até ele, mas ele nos amava, e ao nos amar e ao quase que, por exemplo ao nos “seduzir” com esse amor, nos obrigava a responder com palavras, que é essa literatura amorosa monástica.

Então, se vocês tivessem ocasião, alguns dos exemplares eu citei em alguns trabalhos que eu fiz, vocês vão ficar espantados e você vê como aquela literatura profundamente religiosa e profundamente individualista deu o vacabulário de base pro que vocês podem imaginar de mais açucarado em Vinícius de Morais.

Isso veio e, evidentemente, a gente já está aí pelo ano  900 e isso já tem o Império  Romano-Germânico, já começou a Europa de novo a sair da barbárie, algumas cortes começaram a se cristalizar e uma dessas cortes efetivamente era a corte da Quitania, do que a gente chamava de Província ou Provence Francesa. Aí nesses lugares, você começa a ver surgir um outro experimento absolutamente novo que é o chamado amor provençal. Você começa a ter dentro desses castelos, dessas fortalezas, o que a gente chama as sociedades de cortesia, o ideal cavaleresco. Isso era francês e isso era irlandês – ou isso era britânico – como a gente queira.Tudo o que vocês ouvem falar de Guinevere, de Camelot, da Saga do Rei Artur, tudo isso que se passou é a imagem mesma de uma cultura de cortesia, não é de corte – essa vai vir depois – onde se colocou,  no lugar de Deus, pasmem, a dama.

Por uma série de mudanças econômico-políticas que não adianta, as mulheres começaram a ocupar aquele lugar que antes era absolutamente devolvido a Deus e antes era absolutamente devolvido racionalisticamente por Platão  às idéias. A cultura cavaleresca, vocês sabem, era soma zero. Alguém era um cavalero, de lança e armadura e que amava uma dama que era casada com o rei ao qual o cavaleiro servia. Ele devia amar aquela dama mas em absoluto podia tocar ou encostar nela. O amor dela tinha que ser um amor não realizado para ser puro e sublimado. Mas vocês vão dizer: “E esse miserável vai ser completamente infeliz, não vai ter nada onde possa ancorar lá?” Não, pelo contrário, ele ia casar com outra dama a quem não ia necessariamente amar, ia casar para assegurar a linhagem, ia casar pra assegurar os bens, que por sua vez ia ser a amada de outro cavaleiro que ia em busca de aventuras, enfrentar dragões, etc, etc, até descobrir uma outra com ele casava, simplesmente porque devia ter filhos e devia assegurar a herança, a linhagem, a posse de terras, o direito da primogenitura, que era o direito medieval, e conseqüentemente, ele começava em cima desses amores que se chamaram amor louco ou amores infelizes, se construiu canções, poesia, prosa, sobretudo, e um imaginário riquíssimo. O imaginário provençal, por exemplo, ou medieval,  é claro que foi recuperado, é  evidente, pelo romantismo, a gente vai ver porque, e vocês já sabem qual é o exemplar maior: é o exemplar wagneriano, é Tristão e Isolda, por excelência o amor frustrado, por excelência o amor infeliz.

Quando você tem, então, essa espécie de rebatimento, de reapropriação da linguagem monástica que já estava sendo mais ou menos trabalhada, aquilo é retomado e recolocado no contexto que agora é contexto do amor de um homem por uma mulher, amor  que não pode se realizar. Evidentemente, esse amor pra muitos era completamente sacrílego, nao é?, boa parte dos padres da igreja, em particular um padre assim tão político quanto Sao Bernardo de Claraval (1090-1153) que fundou a ordem dos monges cisterciences,  que é uma grande ordem, ele disse “Isso é pecado”, foi aí que começou a surgir a Mariologia.

Nossa Senhora, até então, não tinha muito cartaz. Todo mundo dizia, “Tudo bem é mãe de Deus, é mãe de Jesus,” mas ninguém nunca foi de dizer, “Que bom o nec plus ultre”. No momento em que essas mulheres começaram a ser amadas – e esse movimento era grande, deu origem à heresia, como  a heresia dos albigense , a heresia cátara, que foi absolutamente arrasada no sul da França, entende?,  esse movimento era enorme – e vejam só o que acontece, começou a se fundar o que a gente chama de mariologia. Dizia, “Mulher sim, mas a mulher só a  Virgem, só a mãe de Deus”. Em vez de sair gostando de várias damas em particular a gente constrói uma só, inacessível, evidente ninguém ia aspirar,  amar a mãe de Deus, seria pecado, e então você drena todo esse esforço, se você quiser , amoroso, desses homens todos ociosos  que só fazem tocar lira quando estão fora da guerra, entende, e canaliza tudo isso pra essa mulher.

Surgiu, então, uma outra literatura que de novo a Virgem, de novo essa Nossa Senhora era reapropriada e olhe só que esse vocabulário está sendo cada vez mais refinado. Até que você vem chegando, vamos subindo, a gente está na Renascença. Quando chega na Renascença, você tem o resíduo disto. Esse ideal de cavalaria é completamente desacreditado, é a época de D.Quixote. O que o Cervantes faz é mostrar o ridículo daquilo fora de tempo.

Você chega a um nível em que a dama vira uma pobre Dulcinea e o apaixonado vira D.Quixote, que é exatamente a crítica, a ironia de um ideal que a realidade já tinha absolutamente destronado, porque agora já estou na Renascença. Agora o homem já começa a olhar pra si e aí no caso do sujeito masculino e, narcisicamente, se dizer “Bom, mas é a mim que é devido honras e pompas e não às mulheres, não àquelas que estão lá. Somos nós  que somos o rei da criação, o rei do universo”. Veja só,  a gente está descobrindo tudo, os grandes teares, está descobrindo a
América, está descobrindo outros povos, está começando a desenvolver o que seriam os esboços da Ciência, ou seja, dessa dominação absoluta da naturalidade,  e cabe a nós, então, dizer qual é a mulher que nos serve. A mulher que nos serve, evidentemente, é a mãe, é a que vai cuidar dos filhos e a outra, claro, vai ser para que a gente se divirta, pra que a fantasia erótica agora da gente saia ao máximo.

Essa regra funcionou perfeitamente no antigo regime ,ou seja, no absolutismo . As mulheres sabiam disso e os homens sabiam disso. As mulheres sabiam que iam casar com alguém . No dia que casavam, elas tinham relações sexuais para ter filhos. Depois, cada uma tinha seu hotelle, como se dizia na França, sua casa,  onde ela morava completamente afastada da outra. Em seguida, se a vida era monótona, ela ia fazer brincadeiras sexuais com quem quisesse e pudesse e o marido também, e isso nunca foi problema pro casamento. Eles diziam “Casamento é uma coisa muito séria pra que a gente vá atrelar isso ao amor”. Casamento diz respeito à transmissão de riqueza,  à estabilidade da sociedade, imagina agora se vou dizer “Ah, não, só casa porque ama.” Não, casa porque tem que casar, porque a família A com a família B que vai ter o filho C, que vai herdar A, B, C e D e a gente vai continuar com os nossos hotéis e transando com quem bem a gente queira  porque  ninguém vê nenhum problema nisso. Desde o Papa que fazia isso, Alexandre VI (1431-1503), pensem bem, ele era daqueles escândalos, onde a gente diz que o papado estava degenerado.Foi por aí que surgiu a reforma protestante contra esse bandalho, que era o que eles imaginavam que seria, não era bandalho nenhum, era outra regra. Isso vem, então, se arrastando quando, no final do regime absoluto – a gente está por aí nos anos  de 1700 – começa a haver a crise civilizatória desse regime com todos os  valores e aí a gente já está perto da gente.  E no ataque à crise civilizatória, na contestação à autoridade dos reis, da nobreza, vai a contestaçao absoluta ao estilo de vida. O que é que se diz? Se diz é que aquelas pessoas trancadas dentro dos palácios, daquelas cortes, eram ociosos, parasitas e que, além de tudo isso, desconheciam os verdadeiros sentimentos. Aquelas pessoas viviam só de fachada, de aparência, era um teatro de civilidade desumano, todos eles eram profundamente infelizes e sem coragem de romper com aquilo.
Surge, então, o que a gente chama do desenraizamento ou da idéia da idealização campestre. Uma série de literatos e filósofos começam a dizer  “A gente só pode ser feliz se sair dos palácios italianos, franceses, ingleses, alemães e for pro campo onde lá – vejam –  como as pessoas têm relações espontâneas. Aqui dentro não.”  O pai disso tudo foi   Rousseau (1712-1778) que é um dos ideólogos da nossa modernidade. Foi Rousseau que disse, vejam bem, “Por que é que isso não dá certo?”.  A pessoa humana é naturalmente egoísta, mas se uma vez que você é egoísta você tem uma sociedade que lhe encaminhe bem, esse egoísmo tem uma maneira de ser controlado. É porque entre os egoísmos da pessoa humana tem uma egoísmo muito produtivo que é o egoísmo sexual, a pessoa quer prazer sexual. Basta que você pegue esse prazer sexual, ligue ao casamento, ligue à prole e à família, basta que você faça isso, de um lado, e do outro lado você deixe que essas pessoas sejam o que elas sejam, que elas percebam os outros, que elas tenham possibilidade de escolher livremente o parceiro, que voces vão ver que mundo maravilhoso a gente vai ter. Rousseau foi arrasador na Europa.
Rousseau é o fundador do romantismo. Quando ele escreveu Emílio e Heloísa ele queria mostrar como seria o novo mundo absolutamente harmonioso fora daquele mundo do regime absoluto.

Um dos seguidores de Rousseau era um engenheiro curioso que escreveu uma obra prima e parou de escrever. Um engenheiro francês chamado Choderlos de Laclos.  Este escreveu um livro epistolar que teve um sucesso extraordinário que se chama “Ligações Perigosas”. Modernamente, os mais jovens viram um filme lindíssimo feito sobre isso, que é  um filme do Steven  Friers, com John. Malcovich, Glen Close e a Michelle Pfeiffer nos papéis principais. Quem náo viu veja. Porque o que Choderlos de Laclos quis falar nas Ligaçoes Perigosas é justamente dessa transiçao do amor como ele era vivido na corte para o amor romântico. Todos os ingredientes do amor romântico estão aí:  ela se apaixona por ele, o amor é infeliz, ela acaba morrendo no convento, com a cara mais pura possível; e ele do lado de cá  é um escroque que exercia perfeitamente as artes da sedução como Casanova ou D. Juan e ele é apresentado como um monstro. E entre essa apresentaçao do monstro, o que é mostrado aquilo ali é simplesmente uma troca de padrão da maneira como a gente entende que a felicidade deva existir. É isso, mas que aos olhos da gente é um horror porque de tal forma a gente está identificado que diz “Tadinho, os dois deveriam sair juntos, superar a vida toda e serem felizes para sempre”, o happy end. Até entáo não. Isso estava disputando.

Isso começa a surgir no folhetim do final do século XIX. Ali a gente ainda está no início do romantismo. O amor ainda é louco, ainda é infeliz , ainda é trágico, ainda é sobretudo o gozo do próprio sofrimento de amar. Veja, isso aí depois, nessa maneira, que é uma maneira que ainda guardava curiosamente algo das éticas trágicas ou de grandeza do antigo regime, ou seja, tudo tinha que ser superlativo porque nobre não podia sentir qualquer besteira. Então, se ele tinha que amar que amasse em tom grandiloqüente, que amasse de tal maneira que as massas que estavam afastadas daquele amor se sentissem absolutamente fascinadas e hipnotizadas pela grandeza daquela gente que até na infelicidade parecia gemer em tom maior. Que mesmo chorando as lágrimas pareciam pirotecnia. Eles guardavam ainda de coisa.

Acabou que a Revoluçao Francesa chegou e quem não perdeu a cabeça, literalmente, perdeu mentalmente. Acaba tudo, essa festa está boa , durou muito tempo, agora nós chegamos, nós burgueses, herdeiros do protestantismo, herdeiros da ética da família, herdeiros do cotidiano, herdeiros do feijão com arroz,  acaba com isso, a gente vai guardar disso o que nos serve, o romantismo amoroso.  Mas ele tem que ter de fato um outro tom. Ele tem que ter uma tonalidade que não possa ser aquela tonalidade dada com aquele romântico de início com tantas infelicidades, com tantos suspiros, prostrações, rios de lágrimas e corações partidos e mortes a granel. Isso agora a gente vai ter que fazer o quê? A gente vai ter que baixar a voltagem. A gente vai  construir uma grande arte onde isso é explorado e a gente vai construir uma pequena arte que vão ser os romances edificantes. Esses romances edificantes é o folhetim, é o folhetim inglês, é o folhetim francês, é o folhetim alemão, é o folhetim italiano, sobretudo são esses quatro que dominam o mundo. E eles vão contar histórias de peripércias de pessoas que vão ser felizes um dia porque acreditaram no amor. Vão lutar contra pais interesseiros, contra o dinheiro, vão lutar contra pessoas incompreensíveis, vão lutar muitas vezes contra aquele lobo velho que tenta seduzir a família que tinha 70 anos de idade e queria casar com a garota de 15, porque era a prática, e ela sofre e os pais obrigam e no final o amado dela que era tão legal mas não tinha um centavo, tocava piano, falava francês ,mas dinheiro que era bom não tinha, em suma. E tem as intrigas dos  que estão ao lado e acabava que aquilo ficava bem. Isso aí começou a invadir o mercado.

No século XX uma autora chamada Madame Delly, que talvez as pessoas da minha geração conheçam , porque eu vi minhas primas e tias com quilos de livros de Madame Delly , essa coleção Menina e Moça, as mulheres eram acostumadas a dizer o seguinte “Tudo bem, eu vou casar, casar por amor, depois o amor passa, o meu marido, desde que me respeite, pode ter la femme de la couter, pode ter a  mulher do lado, e eu, uma vez que passou isso aqui, vou me dedicar a construir a felicidade e o amor da minha filha. Ela vai ser debutante, ela vai ter filho, eu vou viver pro neto, etc, etc. E quando eu quiser grandes espasmos e grandes entusiamos, ah! eu vou pra ópera, eu vou pro concerto”. O auge do romantismo musical surgiu aí, pra ter a função catártica, aquelas mulheres tuberculosas, morrendo ao som do bel canto italiano, vocês sabem disso, entende? Chovia. E se vocês pegarem hoje em dia a produção musical romântica vocês vão ver que raramente é o acorde, raramente é o tom, a melodia que vocês gostam hoje em dia que já náo foi de certa forma anunciada por Schubert, Chopin, Shumann, Brahms. Ali, todo mundo chorava, todo mundo ia ao teatro. Ali os dramas e as tragédias eram enormes. Madame Butterfly que  gritava “Um belo dia quem sabe!”,  sublinhado por uma música linda, sentimental, açucarada, completamente grudenta de tanto sentimento e as pessoas choravam como choram hoje com Nelson Cavaquinho, com Paulinho da Viola, com a balada americana.

O amor, quando começou a se constituir dessa forma, evidente que a partir dai ele começou a dizer, ele tinha uma função precípua, ele era feito e articulado pra assegurar um dos pilares fundamentais da coesão social que é a família nuclear. É a idéia de que, de fato, a gente é incapaz de gostar de todo mundo,  como de fato existe, a gente pode respeitar todo mundo, amar a gente só ama um círculo próximo e esse círculo próximo, qual é o círculo que a gente acredita, que é o círculo mais bem sucedido em matéria de coesão? É o círculo familiar. Primeiro, porque já se apoia na pauta instintiva dos humanos, os adultos cuidarem  dos seus filhotes . Depois, porque ele, depois de mil anos, ele vem alimentado com o imaginário das figuras da Sagrada Família, no caso da Europa do Cristianismo, notável, porque todas essas imagens fossem remanejadas.

Se vocês prestarem bem atenção, vocês vão ver que na literatura trágica grega, na família,  ninguém vai morrer porque a mãe gostou ou deixou de gostar. Talvez os homens nao estão nem aí pras mulheres, as mulheres se queixam está entendendo? “Oh, tu que vais às muralhas e me deixas aqui”e o homem: “Eu não tô nem aí”, entende? Não tinha isso. Dentro do próprio cristianismo original, que era uma série de pessoas, de pescadores ou de pessoas meio desregradas naquele  fim de mundo da Galiléia, nos confins do Império Romano, a idéia era outra. Claro que existia pelo judaísmo já um forte vínculo à idéia de família, isso é outra vertente que o cristianismo tirou, mas não tinha a mesma coisa.

A família no entanto, começou a ser o verdadeiro pivô como queria Rousseau. Ali, a gente ensinava o afeto pelo amor romântico e ensinava o indivíduo a se ligar à sociedade pela prole familiar. Era o achado, um achado único na história da humanidade, pelo menos a história gravada, a história que foi registrada. Essa família, conseqüentemente, que abrigava tudo isso e que – vejam só – foi responsável pela educação da infância, que foi responsável por uma outra idéia de responsabilidade, que foi alimentada por todo movimento de reforma que invadiu a Europa e  depois da Contra-Reforma católica, que tentou combater isso, essa família era o lar abrigado do romantismo amoroso. Ela é que mantinha, ela é quem dava corda e que puxava. Ela é quem dizia “pode ir até aqui: ópera e teatro. Vai. Lê o folhetim. Chora, chora, chora e depois vem pra cá , cuida do fogão, cuida da cozinha, cuida do xixi da criança , cuida das fraldas, etc, etc.”  Mas, claro que sensações a gente sabe, sensações físicas. Sentimentos são as narrativas históricas do nosso percurso individual , de nossas dores e prazeres.          Mas tem outra coisa no amor. Amor é crença e julgamento, ou seja, crença significa o seguinte: eu aprendo a saber o que é que é amor, eu aprendo a saber o que é o verdadeiro amor, alguém tem que me ensinar. Amor é menos espontâneo do que a gente imagina. Você veja como o amor é racional, como o amor é bem sabidinho. Voce diz, “Amar, a gente não ama quem quer”, mas não ama quem quer vírgula, não é? Nunca vi, não existe caso de uma pessoa bonita, jovem, bem sucedida, rica, inteligente se apaixonar pelo mendigo preto, pobre, miserável da esquina. Amor, quando diz  “Eu não posso amar qualquer um”, mas no fim das contas você ama quem está na sua vizinhança. O que acontece  é que essas condições do romantismo amoroso persistirem estão começando a quebrar. Elas estão começando a se quebrar. E, curiosamente, por mais que exista a versão de quem quebrou isso foi o consumismo capitalista, a publicidade, os meios de comunicação de massa a serviço dos interesses econômicos, não foi isso não. Eu acho que isso pegou carona. E que pegou carona é evidente que as pessoas que estão querendo, é claro, vender produto, elas sabem o que sensibiliza as pessoas, elas montam em cima e fazem. Mas os grandes ataques às bases do romantismo amoroso vem da contracultura. A contracultura de modos, ou como se diz, de estilos de vidas, ou então a contracultura socialista que é propriamente cotra a cultura familiar.

O ataque à familia, e o ataque à moral burguesa, esse movimento que nos anos 60-70 sacudiu a Europa e os Estados Unidos e, por tabela, também as cidades brasileiras, foi aí que se começou a dizer “Mas, não, de maneira nenhuma, imagina, eu quero ser livre pra sexualidade”, e começaram a surgir esses ditados que hoje se banalizaram: “olha, meu amor é teu, mas meu tesão é meu.” Isso é indicativo de um certo ethos que se dissemina . Você começou a não ter mais a idéia de que aquele núcleo familiar ia reproduzir, ia repetir e ia retomar a tradição do romantismo amoroso.

As mulheres ajustam o título  por conta da dissimetria e da desigualdade a que é submetida disseram: “Eu também quero a liberdade libidinal que você tem. Se você quer se dar o direito de sair e transar com outra eu também quero me dar o direito de sair e transar com outro”. O que nem sempre é verdade porque a constituição feminina ou a psique feminina ainda funciona em outra faixa. É até possível que chegue lá, mas mesmo agora não é assim. Isso que os homens têm elas não têm, podem até algumas se esforçar, tem umas que são mais ousadas, mais pioneiras, etc, mas a maioria não pensa dessa maneira, o ideal ainda é o vínculo afetivo junto com a sexualidade. Donde elas sofrerem muito mais porque o casamento está tendo uma mobilidade muito maior e elas no fundo acabam sendo a parte que perde porque mesmo que elas queiram elas não conseguem.             Mas veja, esse ataque e que em boa parte vem das feministas também, de certa forma é uma espécie de efeito colateral do movimento de restituição da dignidade humana, isso começou a desfazer o molde do romantismo  de tal maneira que hoje em dia você quer, de fato, guardar uma espécie de elan amoroso querendo ter ao mesmo tempo liberdade libidinal e sem, em  absoluto, se satisfazer com a diminuição do teor da emoção que você pode sentir pelo outro.

Quando você tinha a idéia de que a família era um núcleo sólido essa frustração era compensada por um bem maior. Atualmente, poucos de nós vê isso com a admissão, com a aceitação que a geração de 4 décadas ou 5 décadas atrás via. Mesmo quando ele diz racionalmente “é isso que eu quero” o sentimento de contrariedade é enorme. Então, ou estão dentro do casamento insatisfeitos ou estão fora do casamento; repete a primeira experiência o amor acaba, repete a segunda experiência o amor acaba, quando chega na terceira, já não quer se apaixonar mas se não quer se apaixonar e fica sozinho, que é a grande coisa, começa a sentir falta do amor. E como ele aprendeu que fora da barca não tem salvação, se a gente não está amando, não está se realizando, nem é feliz, ou está sendo privado daquele tipo de êxtase que parece que o vizinho está tendo – parece, em 90% do tempo não está tendo. Então você, motivado por essa emulação, você começa a ter uma espécie de vivência do cotidiano que aí eu chego a mim, à minha experiência de clínica, onde a vida começa a ficar cinzenta .

Com isso, o que a gente vê mais sinceramente é que você começou a construir nas camadas urbanas brasileiras – pelo menos nas camadas mais favorecidas, que não estão lidando mais diretamente com a sobrevivencia, esse infeliz, coitado, a gente sabe o que é que é, não tem tempo pra essas coisas porque está vivendo – nesses que já têm um patamar material suficiente pra fruir da vida , as pessoas dentro da maior infelicidade. “Ah, sabe por que eu não sou amada? Porque meu corpo não está em forma” . Então a corrida frustrada do amor começou a se duplicar pela corrida frustrada do corpo. Em vez de sofrer de um lado só do coração, está sofrendo dos dois “porque não me querem , porque eu não sou exatamente como aquele modelo X ou Y que o outdoor está mostrando, que a revista de fofoca da vizinha fala, ou que o costureiro doido de Milão ou de Paris inventou.”

Isso está fazendo com que, quando eu digo que é mais as mulheres , é mais as mulheres, porque aos homens tradicionalmente agora é que está diminuindo, vem dado o que a gente chama de suborno complemento narcísico que é do gozo do poder social. “Ah  não tem amor não? Muito bem, pego o meu pitbull , minha maromba e vou arrebentar tudo o que eu encontro.” Enquanto que as garotas estão lá, chorando e discutindo, “O que é que eu faço agora, spinning ou esteira ou pilates” eles estão lá, “puf, puf” inchando, e chega ali quebra ali, quebra acolá, ou então estão na sociedade mandando e manobrando: vai, faz, despede, reengenharia aqui, reengenharia ali, aumenta juros, diminui juros, faz isso e aquilo, acerta isso . Já viram na televisão? Os donos? Então é claro que se você passa o dia inteiro naquele teatro teu narcisismo, de certa forma, tem o reconhecimento .           Agora, a mulher não. Elas continuam atreladas, digamos, àquilo e agora é que estão começando a elaborar. Elas pedem isso, dizem o seguinte “não dá, não me interessa, não quero ficar 24 horas numa ponte aérea pra cima e pra baixo por melhor remuneração, por melhor reconhcimento. A minha vida, eu queria um companheiro pra dividir tristeza, pra dividir alegria, pra dividir cuidado com os filhos, que a gente pudesse conversar , que a gente pudesse tomar um vinho junto, em que a gente quando chegasse de noite fosse pra cozinha , chegasse na mesa , começasse a conversar do dia a dia em que eu trocasse , em que eu sentisse o apoio que ele também, numa demanda de ternura, de cuidado e de carinho que o novo ethos moderno está arrebentando e consequentemente inviabilizando esse tipo de sonho.

Quanto mais a gente tem consciência disso, menos a gente é capaz de sofrer, mais  a gente é capaz de começar a olhar pro outro de uma maneira que ele não seja a última Coca-Cola do deserto. Uma vez que a gente faz isso, a gente começa a ver o dito cujo e a dita cuja do tamanho dele. Nem é Tristão nem Isolda . Quem a gente está vendo? É uma pessoa comum, como qualquer outra, com todos aqueles defeitos que, em absoluto, vai responder a todas as nossas fantasias e em especial às fantasias do romantismo amoroso e onde a gente pode, quem sabe, com muito trabalho sobre si e, com muito esforço, vir a construir relações que nos satisfaçam mais e nos deixe menos insatisfeitos. Essa é a nossa tarefa. Qual é o risco? O risco é um só (isso é um perigo que a gente tem e em toda época viveu e atualmente a gente vive) : é a gente desacreditar que a gente tem poder de mudar.

 

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