O QUE A VOZ TRAZ AO TEXTO… Gilles Deleuze

O que um texto, principalmente quando é filosófico, espera da voz do ator? É certo que um texto filosófico pode se apresentar como um diálogo: os conceitos, então, remetem a personagens que os sustentam. Porém, mais profundamente, a filosofia é a arte de inventar os próprios conceitos, de criar novos conceitos de que temos necessidade para pensar nosso mundo e nossa vida. Deste ponto de vista, os conceitos têm velocidades e lentidões, movimentos, dinâmicas que se estendem ou que se contraem através do texto: já não remetem a personagens, mas eles próprios são personagens, personagens rítmicas. Completam-se ou se separam, afrontam-se, apertam-se como lutadores ou como amantes. É a voz do ator que traça tais ritmos, tais movimentos do espírito no espaço e no tempo. O ator é o operador do texto: ele opera uma dramatização do conceito, a mais precisa, a mais sóbria, a mais linear também. Quase linhas chinesas, linhas vocais.
O que a voz revela é que os conceitos não são abstratos. As coisas que lhes correspondem, eles as cortam e as recortam de maneira variável, sempre de uma nova maneira. Assim, os conceitos não são separáveis de uma maneira de perceber as coisas: um conceito impõe-nos que percebamos as coisas de outro jeito. Um conceito filosófico de espaço nada seria caso não nos desse uma nova percepção do espaço. E os conceitos são outrossim inseparáveis de afetos de novas maneiras de sentir, todo um “páthos”, alegria e cólera, que constitui os sentimentos do pensamento como tal. É [304] esta trindade filosófica, conceito-percepto-afeto, que anima o texto. Cabe à voz do ator fazer com que novas percepções e novos afetos surjam, ambos a rodear o conceito lido e dito.
Quando a voz do ator é a de Alain Cuny… Talvez seja a contribuição mais bonita a um teatro de leitura.
Sonha-se com a Ética de Espinosa lida por Alain Cuny. A voz é como que arrastada por um vento que impele as ondas de demonstrações. A potente lentidão do ritmo dá lugar, aqui e ali, a precipitações inauditas. Torrentes, mas setas de fogo também. O que então levanta são todas as percepções sob as quais Espinosa nos faz apreender o mundo e todos os afetos sob os quais apreender a alma. Um imenso desacelerar capaz de medir todas as velocidades de pensar.

i : Alain Cuny (1908-1994), grande ator francês, de cinema e de teatro.

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