Um gesto de menos

Caminhança em fim. Palavreado esgotado em distâncias incomensuráveis. Escrever. “Não quero nem quero não. Nada a escrever e a ninguém. Isso não é de querer”. O lagarto coloca-se estendido no chão unhado de sol, todo pele como balão esvaziado. É o caso de dizer como não se diz, e assim também com o ver. Olhos de agora e há muito molestados de luz. Um olhar qualquer é também o mais extremo. Vistas em ponta de flechas, olhinhos lufados a cada vez com velocidades de extremidades, fora do globo, ocular desertor de cabeça. A visão coloca-se estendida no chão. O silêncio não é esperança, é um desabrigar-se de rançosa carapaça, muito bonita, sim, mas muito útil também como capa isolante. É quase um renascer ao avesso. Não se quer nada, mas tudo o que se quereria, se possível fosse, seria exilar-se da própria cidade. Sem querer antes, mas após o acontecido, no exterior até mesmo da porta da boca, em alegre canto alastrar-se pelo chão. “Meritíssima língua, de vós não vejo resquício de imagem, de vós não lembro com memória de chumbo. Foste tudo com a grande sombra. De nós, resta o quase tudo em que o assombroso gesto do sol deita sua escuridão”. Secura rarefeita, os ossos espalhados não são partes de esqueletos, são ossos de sobras. Nada de cemitério de palavras. Ossos de eco.[1] A sedutora ninfa, morta, agora alguma vida em meio a ossos arrastados pela terra, trama sua acústica existência. Assim também com o escrever. A escrita retorna à lama, lugar de onde nunca deveria ter saído, sem mexer-se demais, quando muito algum espasmo por insuficiência, algum susto. A fraca mão há muito desocupou seu posto, e história alguma subsiste para sustentar um mero parágrafo. Restamos, nem em pé nem deitados, sem corpo para uma sombra qualquer. “O sol estava lá sim, mandando brasa atrás, no leste, ignorando-o de todo. Esse corpo que não interceptava a luz, esse invólucro de entranhas que tinha rompido as cinéreas peias […]”.[2] Não se faz muito mais do que bagunçar restos, sem expectativas de encontrar algo de valioso escondido. Rajadas ventosas escrevem uma conversação entre ocas conchas. Fala-se baixo para não perturbar o merecido sono do entendimento. Amontoamos pó, montamos desagradáveis torvelinhos e observamos esse inútil divertimento ser levado por algum vento bastardo de rosa. E a lama só cresce, sem nada a constituir, apenas sobra sobre sobra. A escrita é lançada, sem cabo, através de um imprestável “plágio de si mesmo”[3], ameaçando humorosas traições a cada curva, sinuosidades que somos incapazes de deter – disso nos certificamos.

C.E

[1] É o nome dado a um conto de Beckett. Cf. BECKETT, S. Ossos de eco: um conto inédito. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015.

[2] BECKETT, S. Ossos de eco: um conto inédito. São Paulo: Biblioteca Azul, 2015, p. 31.

[3] Escreve Beckett em ensaio sobre Proust: “A memória voluntária insiste na mais necessária, salutar e monótona forma de plágio –  o plágio de si mesmo.” In: BECKETT, S. Proust. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 32.

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