Os paradoxos da repetição ‒ Dominique Fingermann (org.)

A potência do que não se deixa de repetir

os paradoxos da repeticao dominiquePor Paulo Antonio de Campos Beer.

Se a repetição pode ser considerada um conceito central para diversos campos e práticas, isso não significa, entretanto, que produzir articulações produtivas a partir dos diferentes modos como esse conceito pode ser encontrado seja uma tarefa simples. Muito ao contrário, pode-se facilmente cair tanto numa pura mesmice produzida por uma proximidade entre os modos de tratamento do conceito, assim como, do lado oposto, é possível perder-se na amplitude que tal tema apresenta. É esse risco que o projeto Os paradoxos da repetição, organizado por Dominique Fingermann enfrenta com coragem, ao reunir autores de diferentes áreas, primeiramente em um ciclo de palestras, e em seguida na publicação do livro que conta com alguns textos adicionados – além das transcrições das falas – propondo um potente articulador para reflexão da temática: o paradoxo presente na repetição.

Embora não se trate de uma obra composta exclusivamente por psicanalistas, é possível reconhecer que mesmo nas mais diferentes apresentações, a clínica parece estar presente enquanto horizonte. Isso se mostra já com Oswaldo Giacoia Junior, que em sua articulação entre Nietzsche e Kierkegaard, aponta o caráter paradoxal da repetição: o repetido só pode ser percebido enquanto tal uma vez que traz semelhanças com algo já vivido, ao mesmo tempo em que apresenta diferenças suficientes para que possa ser reconhecido enquanto algo outro. Se fosse exatamente igual, não poderia ser entendido como outra experiência, entretanto carrega consigo traços incontornáveis de algo que já foi. Nesse sentido, a repetição mostra, já de saída, uma tensão interna, que condensa em si um movimento de retorno e um ponto de desidentificação daquilo que se repete.

Desse modo, pode-se pensar, com Nietzsche, a repetição como um modo de subjetivação, de apropriação pelo sujeito daquilo que aparece novamente. Mais que isso, reconhece-se também uma dimensão de escolha, presente na consideração limite de que a vida deveria ser vivida como se cada momento fosse se repetir eternamente, sendo, assim, a repetição uma afirmação de algo do mais singular do sujeito. Nesse ponto, Giacoia Junior toma como interlocutor Kierkegaard, partindo do modo como a questão da repetição condensa em si o instante e a eternidade, apresentando-se também não simplesmente como eterno retorno, mas sim como retomada, reapropriação de si.

Uma reflexão bastante próxima, embora com acento absolutamente clínico, pode ser encontrada no texto de Maria Rita Kehl, que localiza com precisão o duplo caráter da repetição na clínica psicanalítica: se ela aparece enquanto compulsão, como repetição patológica de experiências não elaboradas, também se faz presente enquanto direção de tratamento, uma vez que a apropriação pelo sujeito de sua própria história torna possível um outro modo de viver. Nesse sentido, a clínica não se limita ao sofrimento individual a ser tratado no setting tradicional, mas deve ser pensado também na cultura, possibilidade relatada pela autora a partir de sua participação na Comissão da Verdade.

O modo como se lida com um momento traumático de uma cultura, marcado por violência e apagamento da alteridade, pode tanto ter como efeito a compulsão sintomática, causada pela negação do vivido e pela repetição de violações que não são assumidas enquanto tais (como vemos na violência policial, apontada pela autora em continuidade com a violência de estado da ditadura), como pode produzir algo novo, processo que passa pela nomeação e pela narrativa do ocorrido. Essa dimensão é trabalhada a partir de uma articulação não muito comum, porém bastante interessante, entre o pensamento freudiano e a obra de Walter Benjamin. A noção benjaminiana de redenção apare aí como interessante possibilidade de encaminhamento, embora permaneça ainda como algo que pode ser mais trabalhado.

Freud é retomado em diversos textos, e por meios absolutamente distintos. Se Kehl apresenta a articulação com o pensamento de Benjamin, Christian Dunker faz trabalhar o conceito a partir de um embate com Darwin, o qual revela, talvez de modo surpreendente, uma grande proximidade entre os autores. As diferentes maneiras como o psicanalista vienense desenvolve a questão da repetição mostra-se não somente compatível com o trabalho de Darwin, mas também pode-se pensar uma influência mais profunda do que uma leitura desavisada consegue perceber. Ainda mais surpreendente é o fato de que mesmo em uma discussão, a princípio, radicalmente teórica, Dunker consegue estabelecer pontos de encontro com a psicopatologia.

Freud não é o único autor cuja presença no livro é recorrente. O mesmo pode se dizer de Nietzsche, Kierkegaard, e, especialmente, Lacan, autor referido em diversos momentos por seus avanços em relação ao tema. Vladimir Safatle trata do modo como a repetição é desenvolvida pelo analista francês, num primeiro momento enquanto obstáculo, num segundo enquanto acontecimento. É nesse sentido que apresenta a divisão entre a repetição imaginária (ligada à fantasia), simbólica (automatismo da cadeia significante) e Real. Se as duas primeiras podem ser entendidas como retorno, a última ganhará um estatuto diverso, ao ser associada a lacunas que estariam presentes na significação, pontos irredutíveis de resistência à simbolização.

Nesse sentido, a repetição real, para além da reaparição conteúdos recalcados ou de efeitos da cadeia significante, traz à tona a insistência daquilo que não pode ser absorvido enquanto sentido. Uma situação paradoxal, na qual por um lado tem-se a sensação de que poderia haver certa racionalidade naquilo que acontece, por outro tem-se a certeza do acaso, ou, mais especificamente, da fortuna. Aqui o autor traz uma bela imagem, a do desencontro dos amantes, afirmando a porção de desencontro que sempre há nos encontros reais, demonstrando a incompletude das intencionalidades frente a isso que sempre se mostra algo a mais. É nesse encontro com o desencontro incontornável, na insistência da impossibilidade da racionalidade, nessa repetição da incompletude que o sujeito pode justamente experienciar aquilo que talvez seja sua faceta mais singular.

De modo ainda mais amplo, a centralidade da questão da repetição na obra de Lacan é profundamente explorada nos textos de Dominique Fingermann, estabelecendo uma cartografia dos modos como essa noção é paradoxalmente desenvolvida no ensino do psicanalista francês. Tal esforço, de tamanha verticalidade, poderia causar certa vertigem ao leitor, não fosse a astuta costura entre clínica e teoria, que oferece certos pontos de apoio em caminhos sinuosos. Seus textos se articulam de modo interessante com a organização do livro, de modo que por um lado desbravam a potência do tema no ensino de Lacan e na clínica psicanalítica, e por outro demonstram a abertura a outros encaminhamentos.

E é justamente na pluralidade que o livro ganha um interessante colorido. Seja nas considerações de Luiz Orlandi acerca do modo como repetição e diferença se conjugam no pensamento de Deleuze, seja na apresentação de Manuel da Costa Pinto sobre as nuances da repetição na literatura e na vida de Camus, a obra que vai aos poucos se construindo mostra como o mesmo conceito pode ser retomado de modo inventivo, mas sem causar grandes rupturas. Juliano Pessanha, ao tomar para si a voz de Nietzsche, coloca na forma aquilo que excede os conteúdos, reafirmando a repetição no gesto. Nessa direção, a participação de José Miguel Wisnik é notória: tanto por sua apresentação que toma a questão da repetição na poesia e na música, assim como por estar disponível enquanto áudio, em um cd que acompanha o livro. Mostra-se, portanto, que repetição e experimentação não são excludentes, pelo contrário.

Os textos que não fizeram parte do ciclo de palestras são uma boa contribuição para aqueles que os antecederam. Vinícius Castro Soares aprofunda a questão em Kierkegaard, e Michel Bousseyroux retoma a discussão com um forte acento psicanalítico. Sergio Fingermann trata, com delicadeza, a repetição na pintura, oferecendo um bonito adendo, e finalizando o livro com sensibilidade.

Em linhas gerais, o livro consegue colocar a questão da repetição para além de seu conteúdo racional. Algo que me lembrou, em diversos momentos, a obra de Walter Hugo Mãe, escritor que mostra como se pode, ao mesmo tempo, falar sobre algo e fazer esse algo falar. Trata-se, portanto, de uma excelente curadoria de Dominique Fingermann:  na convergência entre teoria, clínica e arte, o que se tem, ao menos potencialmente, não é só uma discussão conceitual, mas também um esforço de que o caráter paradoxal da repetição possa ser colocado em ato, desvelando seu caráter disruptivo. Se, por um lado, é possível ler este livro apenas como um conjunto de argumentações teóricas, sem produzir qualquer tipo de envolvimento do leitor – algo que, aliás, nunca pode ser garantido –, por outro encontra-se nele a possibilidade de uma leitura (e escuta) implicada, que mais do que um debate de ideias, é um convite a uma experiência com a obra – que pode causar, pode produzir efeitos inesperados. O paradoxo da repetição coloca-se assim de modo potente, não somente enquanto explicação racional, mas como possibilidade de experiência da obra. Possibilidade que, entretanto, só existe, acompanhando Juliano Pessanha, quando se está disposto a deixar-se tocar por aquilo que se encontra.

***

Paulo Antonio de Campos Beer é psicanalista, mestre e doutorando no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), e editor de Lacuna: uma revista de psicanálise. Membro do Laboratório de Teoria Social (LATESFIP – USP), Filosofia e Psicanálise, e da Sociedade Internacional de Psicanálise e Filosofia (SIPP-ISPP).

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