Nota Acerca da Tranversão. Luiz Orlandi

 

Transversão

 

Seja pequeno ou grande, universo ou grão de areia, texto ou gesto, fala ou silêncio…, todo e qualquer caso implica um meio pulsante de linhas que prendem ou liberam transpassagens[1]. Guias e modelos ou métodos da simplificação não passam de precários gradeamentos erigidos no meio. Por isso, uma mistura qualquer de leituras e sensações é suficiente para restaurar uma impressão de algum modo banal, mas que se pode, pelo menos em homenagem a Giordano Bruno, tomar como signo da complicatio: a sensação de que em todo e qualquer caso brota um riso que dele se emancipa, como o do gato de Alice, assim que uma reflexão auto-suficiente tenta prende-lo em suas malhas, seja porque estas se caracterizem por um empirismo que deixa as coisas por demais separadas umas das outras, seja porque se caracterizem por um racionalismo dogmático que “sempre preenche o que separa”[2]. Essas duas tendências reflexivas manipulam o caso ao privilegiar aquilo que, nele, é forçado a submeter-se aos seus poderes representativos.  É como o olhar narcisista que só vê no espelho os dados que reiteram as aparências ou o a atmosfera de uma fisionomia autocomplacente. São tendências muito apressadas, pois seu verdadeiro interesse parece residir nelas mesmas. Através de suas malhas grosseiras e auto-referidas escapa-lhes toda uma dramaturgia do próprio caso que elas submetem a si mesmas. Pois bem, para que o olhar estudioso deixe de sobrepor-se reflexivamente ao caso e se converta a ele, é preciso que o próprio caso se imponha como ocasião de um aprendizado das suas dimensões replexivas, de modo que, ao invés de tratá-lo como suporte de uma  reflexão auto-suficiente, ele venha a ser experimentado, isto é, sentido e pensado como dobraduras de uma  replexão. Portanto, as experimentações desse tipo não se satisfazem com versões reflexivas, mas exigem todo um esforço expressivo contaminado por arriscadas transversões replexivas.

O que esse esforço leva em conta é que a própria ocorrência de uma reflexão — seja ela determinada à mente pela percepção empírica de algo, seja ela autodeterminada por uma concentração do espírito sobre recursos ideais que ele imagina serem propriamente seus — é sempre ameaçada por uma variada e constante investida de linhas implexas, isto é, de linhas que ameaçam enreda-la em tramas complicadas, linhas que já são delineamentos objetivos de uma  multiplicidade de ângulos e pontos de vista, linhas que, no mínimo, ligam o percebido ao que escapa à percepção frontal, linhas que se impõem deste ou daquele modo, mas que certos poderes ou máscaras de auto-suficiência do espírito silenciam ou ignoram. É óbvio que as versões não podem, a cada proposição, contabilizar, tematizar etc. os fatores, os elementos, essas linhas implexas, enfim, que entram no processo de sua criação ou produção. Portanto, é fatal que eles, ao se apresentarem como encadeamentos ativos de uma reflexão, não deixem de ser, ao mesmo tempo, fluxos passivos de reencadeamentos, isto é, plexos distintos de uma replexão que os determina como partícipes de uma complexidade que eles, querendo ou não, ajudam a fomentar. No próprio ato de urdir, de tramar, de intrigar, de entecer, de dobrar ou de agenciar o que visam, os textos (e não apenas os textos como também os gestos do corpo) implicam o que neles opera como redobras que os entretecem, que os entrelaçam, que os põem de permeio, que os reagenciam, que os inserem numa heterogeneidade que eles proliferam sem dominar.

Pode-se dizer, em resumo, que as versões reflexivas, disciplinadas pela representação, operam a estabilização de dados ou sinais em codificações tendentes a isola-los da complexidade neles implicada, ao passo que as transversões replexivas, liberadas pela experimentação das linhas implexas, são expressões do aprendizado das transpassagens dos dados ou sinais a signos da complexidade implicada.

Embora pensador algum consiga expor algo como a complexidade, há sempre a tentação fundamentalista de se erigir um simples como fundamento reflexivo do complexo. Posições mais cuidadosas são possíveis: Jacques Derrida, por exemplo, diz que “a desconstrução parte sempre de um lugar de complexidade, e não de simplicidade”[3], o que talvez não baste, todavia, para livrar  o método da tentação de ‘ordenar a complexidade’. Com efeito, seja qual for a ordenação acessível aos humanos — jurídica, lexical etc. — também ela é vazada por transpassagens de linhas implexas que a rearticulam como peça, como outro vergão que dobra, redobra ou desdobra fatias ou estilhaços da complexidade relacional. Esta não cabe e nem se disciplina na face reflexiva e bem arrumada dos textos ou das ordenações, sejam quais forem, pois é replicada, é relançada e complicada pela indisciplinada vertente das replexões.

As intempestivas conexões desejosas, os cruzamentos genéticos, os enleios tecnológicos e todo um universo de combinatórias ilimitando conjuntos finitos de elementos, tudo isso indica o quanto o contato com a complexidade é o de uma experimentação ziguezagueante entre reflexões e replexões. É uma tal experimentação que exige cada vez mais um modo de pensar sensível a replexividades, às investidas das linhas implexas. Trata-se de um pensar desconfiado, desconfiado das coisas e dos seus próprios ardis: um pensar forçado a desconfiar do seu distanciamento sobranceiro em relação àquilo que sua prepotência neutralizava como impurezas ou restos, como estorvos ou entulhos dispensáveis ao bom deslocamento do fio condutor do exclusivismo de sua atenção; um pensar que não se livra da reflexão, é claro, mas que dela se avizinha para lhe transmitir sua espontânea ou forçada disponibilidade ao que pode haver de surpreendente ou contundente no bulício dos plexos, nas multilinhas que se intrometem como alternadores de intensidade, que atravessam o ligar e o desligar, que excitam bifurcações nos vincos das dobras, que vergam, encrespam, enlaçam ou torcem as fluências e cortes de um andamento almejado.

Artes e ciências parecem exibir a todo instante distintos exemplos de experimentações desse tipo. Na filosofia, uma certa sobriedade torna mais pesada essa atmosfera. Como os conceitos filosóficos padecem, geralmente, de empregos que se satisfazem com suas performances reflexivas – sejam as de subsunção de representações sensíveis, sejam as de suas mútuas remissões e auto-referências dedutivas ou indutivas – o problema que os signos acabam impondo é o das vias de acesso conceitual transreflexivo a replexões. Esse problema insiste, pois as replexões não param de se refazer como elos quebradiços de uma complexidade que se repõe — mutante, indomável e distintamente — a cada interferência reflexiva que a modula.

X X X

Atenção a conexões:

Empirismo e subjetividade:

[4] ). Há, certamente, uma idéia de necessidade. Porém, basicamente, se devemos falar de  uma impressão de reflexão, é no sentido de que a relação necessária é o espírito como afetado, como determinado (em certas circunstâncias) a formar pela idéia de um objeto a idéia de um outro objeto. A impressão de necessidade não poderia produzir a idéia como uma qualidade das coisas, pois ela é uma qualificação do espírito. O próprio das impressões de reflexão, efeitos dos princípios, é qualificar diversamente o espírito como um sujeito. Portanto, o que se desvela a partir das afecções é a idéia dessa subjetividade. A palavra idéia já não pode ter o mesmo sentido. A psicologia das afecções será a filosofia de um sujeito constituído.” [p. 13 do original francês]

 

Há o conceito guattariano de “transversalidade” (Félix Guattari, Psychanalyse et transversalité, Paris, Maspero, 1972)  tem certamente sua eficácia nesta minha mistura Cf. Guattari, Félix. Psicanálise e transversalidade: Ensaios de análise institucional. Trad. Sobral, A.U.;Gonçalves, M.S. Aparecida (SP): Editora Idéias & Letras, 2004, p. 111.

 

[2] Gilles Deleuze, Différence et répétition, Paris, PUF, 1968, p. 221: “e se o erro do dogmatismo é sempre preencher o que separa, o do empirismo é deixar exterior o separado”.

[3] Jacques Derrida, Entrevista a Evando Nascimento, SP, “Mais”, 15/06/2004, p. 11.

[4] Tr., 248.

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