Uma subjetividade estreita, incapaz de perceber que o “marginal” não habita tão-somente o mundo, mas, igualmente, as suas entranhas, será uma presa mais fácil de ideologias fascistas, que dividem o mundo em Bem e Mal: “ovelhas brancas” e “ovelhas negras”, “raças puras” e “raças impuras”, “homens de bem” e “bandidos”, “homens normais” e “loucos”, “heterossexuais” e “homossexuais” etc. Há alguns dias, a Folha de S. Paulo trazia um artigo de Fernando Gabeira, em que ele comentava os crimes praticados contra homossexuais cometidos nos últimos tempos e a quantidade de facadas envolvidas em cada caso. E se perguntava o porquê de tantas facadas, quando apenas algumas já seriam suficientes para matar. Concluía, sabiamente, dizendo que aqueles assassinos tentavam matar o “homossexual” que havia dentro deles. Entretanto, a possibilidade de acolhimento e elaboração afetivas “desses lados”, tornados escuros e malditos por milênios a fio; constitui uma tarefa bastante difícil, num mundo em que o sentido da vida torna-se cada vez mais restrito, mais miserável, mais voltado à mera sobrevivência e em que as ideologias fascistas tornam-se extremamente úteis, na medida em que são capazes de justiticar todos os racismos, exclusões e eliminações daquilo que importuna e questiona o caminho homogeneizante e totalizador do capital. “Crianças de rua”, “sem-terras”, mendigos, para que serve essa gentalha? Só atrapalham, com sua pobreza, seu fedor, sua animalidade. Mais fácil eliminá-los…

Eu e o bandid0

Viver na grande metrópole significa enfrentar a violência que ela produz, expande e exalta, no mesmo pacote em que gera e acalenta as criações mais sublimes da cultura. São Paulo não é exceção a essa regra. Num curto espaço de tempo, somos afetados pelos mais diferentes tipos de estimulação: ao acordar de manhã e ler os jornais, temos acesso, simultaneamente, a críticas dos melhores concertos e das’ mais importantes exposições da cidade, bem como ao relato dos piores crimes; nesse último tipo de reportagem os jornalistas sempre fazem questão de se esmerar ao máximo. Nesse sentido, talvez a primeira violência de que somos vítima, já no início do dia, é a do jornalismo, sempre muito sequioso de retratar e reportar, nos mínimos detalhes, o que de mais contundente e chocante a humanidade produziu no dia anterior: há um gosto exacerbado pelo sangue, pela corrupção, pelo escândalo. O espaço reservado para a produção mais silenciosa e construtiva da humanidade é sempre muito menor. Talvez em parte por essa visão um tanto deformada, que nos habituamos a consumir ou, quiçá, porque o jornalismo ape­nas expresse uma tendência geral da humanidade, nesse momento, o fato é que nos sentimos bastante assolados pela violência. Quem não se lembra, por exemplo, da notícia do assassinato daquele menino inglês por dois outros meninos, com todos aqueles requintes de crueldade? E quem não foi tomado por um grande espanto e indignação, pensando: “E são apenas crianças!”? Pois, de lá para cá, as coisas só pioraram: afora os assassinatos de meninos de rua, de presidiários, de população “sem terra”, que são crimes com conotações claramente políticas e econômicas, frutos da luta de classes ou da impunidade de grupos fascistas, há outros aparentemente menos compreensíveis. Um jovem universitário, de índole aparentemente pacífica, um belo dia – sem mais nem menos-pega um revólver e mata a família inteira: pai, mãe, irmãos; em seguida, vai visitar os avós falando dos crimes e demonstrando arrependi­mento; ninguém acredita nele. Enquanto a avó lhe prepara algo de comer, assassina também os avós, friamente. Então, nos perguntamos: “Será que a humanidade está enlouquecendo? Ou será que sempre foi assim, apenas nunca fora tão bem esquadrinhada pela mídia?” Violência e crueldade são manifestações agressivas “tipicamente humanas”, bastante te matizadas por diferentes pensadores. Nietzsche, por exemplo, vê na crueldade, não só um traço básico da humanidade, como o próprio solo sobre o qual qualquer cultura se edifica: Quase tudo o que nós denominamos “cultura superior” baseia-se na espiritualização e aprofundamento da crueldade – tal é a minha tese: aquele “animal selvagem” não foi morto em absoluto, vive, prospera, unicamente – foi divinizado. O que constitui a volúpia dolorosa da tragédia é crueldade; o que produz um efeito agradável na chamada compaixão trágica e, no fundo, inclusive em todo o sublime, até chegar aos mais altos e delicados estremecimentos da metafísica, recebe a sua doçura unicamente do ingrediente de crueldade que leva misturado… Finalmente, considere-se que, inclusive o homem do conhecimento. ao coagir o espírito a conhecer contra a inclinação do espírito e também, com bastante freqüência, contra os desejos do coração … atua como artista e glorificador da crueldade; o tomar as coisas de um modo profundo e radical constitui já uma violação, um querer danificar a vontade fundamental do espírito, que quer caminhar incessantemente para a aparência e para as superfícies: em todo querer conhecer há uma gota de crueldade[2]. A afirmação de que a cultura se constitui por uma espiritualização da crueldade realmente dá o que pensar. O próprio sentido das minhas colocações iniciais aqui – quando falava do constraste nas reportagens jornalísticas: de um lado, grandes produções culturais; de outro, crimes hediondos ­muda radicalmente. O que, num primeiro momento, aparecia como joio e trigo, revela-se, então, como trigo e farinha, ou seja, cereais do mesmo saco. O trigo nu e cru, tal qual cresce no campo e o trabalho paciente, que o transforma em farinha branca e daí em pão etc. etc.: um processo de depuração e refinamento da mesma índole parece ser aquele que nos leva da crueldade às produções culturais. E como a crueldade é irmã da violência, temos, na verdade, vasos comunicantes entre o lado mais primitivo e o mais sublime do homem: é precisamente isso que se afirma ao se postular o conhecimento como uma violação da vontade fundamental do espírito e dos desejos do coração, um braço de ferro em direção à profundidade, quando o caminhar espontâneo é em direção à aparência, à superfície. Entretanto, essas constatações pão nos eximem de perguntar o que, por vezes, impede essa espiritualização da crueldade e da violência, condenando-as à expressão nua e crua. O que a psicanálise nos ensinou, neste mais de século de existência, é que quanto mais reprimidos estão os nossos impulsos agressivos, tanto mais eles podem irromper em situações quaisquer da vida cotidiana, totalmente fora do nosso controle e levar-nos a cometer os atos mais violentos, mais cruéis. Os gregos da época trágica já sabiam disso, só que interpretavam o fenômeno de outra forma: viam-no como uma espécie de possessão divina, em que o lado demoníaco que assumia o controle da ação e cometia os desatinos era associado ao deus possessor. Nessa época, nem a noção de responsabilidade estava totalmente formada: como alguém pode ser considerado responsável pelos crimes que cometeu sob a possessão de um deus? Mas o direito, que fazia a sua aparição no mundo ocidental, já procurava instituir uma nova ordem: a do sujeito responsável, distinguindo crimes cometidos “de bom grado” dos cometidos “de mau grado”, ou seja, na ignorância ou com conhecimento de causa. Desta forma, no universo trágico, a avaliação da responsabilidade oscilava entre duas interpretações diferentes: por um lado associava-se à noção de falta (hamártema = “erro” de espírito, polução religiosa, em que o ser humano era tomado por forças sinistras que o arrastavam e enlouqueciam), por outro lado, era engolfada pela noção legal de delito (adíkema = delito intencional, que deveria ser punido, a ser distinguido de atýchema = acidente imprevisível, não passível de punição). A vantagem que o homem trágico levava sobre nós é que conseguia integrar esses atos violentos e cruéis no restante da vida, ainda que com dor. Eles poderiam ver aquele crime familiar, do rapaz que assassinou a família inteira, como um ato de possessão religiosa, tão possível como respirar ou comer. Nós, para tentar entender e digerir o que suspostamente aconteceu, temos que utilizar exames neurológicos e psicológicos, eletroencefalograma, teste de Rorschach etc., e ainda assim saímos com a sensação de não entender nada, além de uma certa dispepsia afetiva. São as marcas deixadas em nós por dois mil e quinhentos anos de cultura socrático-platônica continuada e exacerbada pela cultura cristã, um universo de valores altamente moralizado que, a partir do século XVII ganhou a vestimenta racionalista que chegou até nós. É dele que herdamos alguns mitos como o de consciência moral, autocontrole, ou a própria noção de responsabilidade, entendida como “determinação volitiva adequada”. Quando alguém é tomado por um impulso assassino, como no caso acima citado, a única forma de impedir que essas noções entrem em colapso total, é inventando alguma “doença”, ainda que “desconhecida”. E para isso serve toda a parafernália dos exames. O fato é que nós, homens contemporâneos, perdemos o contato cotidiano com o nosso lado agressivo, violento, cruel. Nossa envergadura interior é pequena demais, moralizada demais, para poder reconhecer que a “besta humana”, o “bandido”, o “assassino” habitam cada um de nós, por mais escondido e dissociado que possa estar da nossa consciência. Mas os acon­tecimentos não mentem e um velho ditado popular já dizia: “a ocasião faz o ladrão”. Então, não é estranho que os crimes mais violentos, descontrolados e inusitados sejam cometidos por pes­soas aparentemente equilibradas, sem quaisquer sinais de agressividade, em geral tímidas e introvertidas: quanto maior o nível de dissociação entre a consciência e esses impulsos, maior o descontrole, mais intensa a ação das forças marginalizadas. Nietzsche, ao falar sobre a formação do criminoso, dizia: o tipo do criminoso é o tipo do homem forte, colocado em condições desfavoráveis, é o homem forte tornado doente. O que lhe falta é a selva, uma natureza e um modo de vida mais livres e mais perigosos, que legitime tudo o que, no instinto do homem forte, é arma de ataque e defesa. Suas virtudes são proscritas pela sociedade. As mais ardentes das suas inclinações inatas são, de imediato, inextrincavelmente misturadas com sentimentos depressivos, suspeita, medo, desonra. Mas, eis ai, quase literalmente, a receita da degeneração fisiológica … É a sociedade, nossa sociedade policiada, medíocre, castrada, que, fatalmente, faz degenerar em criminoso um homem próximo da natureza, vindo das montanhas ou das aventuras do mar[3].Penso ser importante interpretar esse aforismo não como uma proposta romântica de volta à natureza, mas como uma denúncia de que a sociedade contemporânea caminhou para um rumo incompatível com certas forças da vida e do homem, entre elas, a agressividade, a violência: suas armas de ataque e defesa. Assim, aqueles que, por uma razão ou outra, são mais malsucedidos na sublimação, espiritualização, desses impulsos, só possuem duas outras saídas: ou reprimi-los ou exercê-los de forma marginal. No primeiro caso estão os bons-rapazes-que-se-tornam-assassinos-de-repente; no segundo, os criminosos contumazes. A capacidade diferente de cada ser humano acolher e elaborar afetivamente o seu lado agressivo, violento, cruel, é decisiva não só na determinação da maneira como fica mais ou menos à mercê desses impulsos, nas diversas situações de vida, como na determinação das maneiras com que interpreta a emergência desses impulsos em situações outras. O homem de subjetividade estreita, incapaz de perceber que o “marginal” não habita tão-somente o mundo, mas, igualmente, as suas entranhas, será uma presa mais fácil de ideologias fascistas, que dividem o mundo em Bem e Mal: “ovelhas brancas” e “ovelhas negras”, “raças puras” e “raças impuras”, “homens de bem” e “bandidos”, “homens normais” e “loucos”, “heterossexuais” e “homossexuais” etc. Há alguns dias, a Folha de S. Paulo trazia um artigo de Fernando Gabeira, em que ele comentava os crimes praticados contra homossexuais cometidos nos últimos tempos e a quantidade de facadas envolvidas em cada caso. E se perguntava o porquê de tantas facadas, quando apenas algumas já seriam suficientes para matar. Concluía, sabiamente, dizendo que aqueles assassinos tentavam matar o “homossexual” que havia dentro deles. Entretanto, a possibilidade de acolhimento e elaboração afetivas desses lados., tornados escuros e malditos por milênios a fio; constitui uma tarefa bastante difícil, num mundo em que o sentido da vida torna-se cada vez mais restrito, mais miserável, mais voltado à mera sobrevivência e em que as ideologias fascistas tornam-se extremamente úteis, na medida em que são capazes de justiticar todos os racismos, exclusões e eliminações daquilo que importuna e questiona o caminho homogeneizante e totalizador do capital. “Crianças de rua”, “sem-terras”, mendigos, para que serve essa gentalha? Só atrapalham, com sua pobreza, seu fedor, sua animalidade. Mais fácil eliminá-los. “E o mundo segue o seu rumo, ante o estupor cada vez maior do senso comum. Somente uma pequenina parcela da população tem consciência de que o germe de tudo isso esconde-se numa dobra, nos confins da subjetividade de cada um, naquela margem esquecida em que o “eu”, o “bandido”, o “homossexual” ,o “louco”, o “mendigo”e um exercito de outros personagens marginais lutam a batalha interminável, nunca concluída, do reconhecimento mútuo. Avatares da alma contemporânea. Usina na qual se debate e se produz a nossa inalienável violência.

 

[2] Nietzsche, F. Mas aliá del bien y del mal, Aforismo 22.9, Madri, Alianza, 1981, p.176-8.

[3] Idem, Crepuscule des Idoles, Aforismo 45, in Oeuvres Philosophiques Completes, Paris, Gallimard, 1974, vVIII, p.139-41.

A.N.N.

 

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