Pesquisar no contemporâneo – B.O

Tomando como referência a dita “perspectiva cartográfica” de pesquisa podemos pensar na seguinte questão:

Como vincular pressupostos ideais desses conceitos às suas supostas inserções operatórias?

Essa questão implica pelo menos um esboço de encaminhamento a duas perguntas. Uma primeira, mais geral, poderia ser assim enunciada:

Considerando uma pesquisa como “instância problematizante” como distinguir a operatoriedade de conceitos cartográficos/diagramáticos/rizomáticos de certos constrangimentos da tradição epistemológica e cultural instrumentalista?

Em segundo lugar, é preciso perguntar pelo agenciamento conceitual a ser ativado a todo instante para que o uso operatório desse “pensamento cartográfico” não congele seus próprios conceitos como categorias representativas meramente abstratas, isto é, indiferentes aos problemas concretos pesquisados.

versão adaptada de B.O

 

Uma subjetividade estreita, incapaz de perceber que o “marginal” não habita tão-somente o mundo, mas, igualmente, as suas entranhas, será uma presa mais fácil de ideologias fascistas, que dividem o mundo em Bem e Mal: “ovelhas brancas” e “ovelhas negras”, “raças puras” e “raças impuras”, “homens de bem” e “bandidos”, “homens normais” e “loucos”, “heterossexuais” e “homossexuais” etc. Há alguns dias, a Folha de S. Paulo trazia um artigo de Fernando Gabeira, em que ele comentava os crimes praticados contra homossexuais cometidos nos últimos tempos e a quantidade de facadas envolvidas em cada caso. E se perguntava o porquê de tantas facadas, quando apenas algumas já seriam suficientes para matar. Concluía, sabiamente, dizendo que aqueles assassinos tentavam matar o “homossexual” que havia dentro deles. Entretanto, a possibilidade de acolhimento e elaboração afetivas “desses lados”, tornados escuros e malditos por milênios a fio; constitui uma tarefa bastante difícil, num mundo em que o sentido da vida torna-se cada vez mais restrito, mais miserável, mais voltado à mera sobrevivência e em que as ideologias fascistas tornam-se extremamente úteis, na medida em que são capazes de justiticar todos os racismos, exclusões e eliminações daquilo que importuna e questiona o caminho homogeneizante e totalizador do capital. “Crianças de rua”, “sem-terras”, mendigos, para que serve essa gentalha? Só atrapalham, com sua pobreza, seu fedor, sua animalidade. Mais fácil eliminá-los…

Eu e o bandid0

Viver na grande metrópole significa enfrentar a violência que ela produz, expande e exalta, no mesmo pacote em que gera e acalenta as criações mais sublimes da cultura. São Paulo não é exceção a essa regra. Num curto espaço de tempo, somos afetados pelos mais diferentes tipos de estimulação: ao acordar de manhã e ler os jornais, temos acesso, simultaneamente, a críticas dos melhores concertos e das’ mais importantes exposições da cidade, bem como ao relato dos piores crimes; nesse último tipo de reportagem os jornalistas sempre fazem questão de se esmerar ao máximo. Nesse sentido, talvez a primeira violência de que somos vítima, já no início do dia, é a do jornalismo, sempre muito sequioso de retratar e reportar, nos mínimos detalhes, o que de mais contundente e chocante a humanidade produziu no dia anterior: há um gosto exacerbado pelo sangue, pela corrupção, pelo escândalo. O espaço reservado para a produção mais silenciosa e construtiva da humanidade é sempre muito menor. Talvez em parte por essa visão um tanto deformada, que nos habituamos a consumir ou, quiçá, porque o jornalismo ape­nas expresse uma tendência geral da humanidade, nesse momento, o fato é que nos sentimos bastante assolados pela violência. Quem não se lembra, por exemplo, da notícia do assassinato daquele menino inglês por dois outros meninos, com todos aqueles requintes de crueldade? E quem não foi tomado por um grande espanto e indignação, pensando: “E são apenas crianças!”? Pois, de lá para cá, as coisas só pioraram: afora os assassinatos de meninos de rua, de presidiários, de população “sem terra”, que são crimes com conotações claramente políticas e econômicas, frutos da luta de classes ou da impunidade de grupos fascistas, há outros aparentemente menos compreensíveis. Um jovem universitário, de índole aparentemente pacífica, um belo dia – sem mais nem menos-pega um revólver e mata a família inteira: pai, mãe, irmãos; em seguida, vai visitar os avós falando dos crimes e demonstrando arrependi­mento; ninguém acredita nele. Enquanto a avó lhe prepara algo de comer, assassina também os avós, friamente. Então, nos perguntamos: “Será que a humanidade está enlouquecendo? Ou será que sempre foi assim, apenas nunca fora tão bem esquadrinhada pela mídia?” Violência e crueldade são manifestações agressivas “tipicamente humanas”, bastante te matizadas por diferentes pensadores. Nietzsche, por exemplo, vê na crueldade, não só um traço básico da humanidade, como o próprio solo sobre o qual qualquer cultura se edifica: Quase tudo o que nós denominamos “cultura superior” baseia-se na espiritualização e aprofundamento da crueldade – tal é a minha tese: aquele “animal selvagem” não foi morto em absoluto, vive, prospera, unicamente – foi divinizado. O que constitui a volúpia dolorosa da tragédia é crueldade; o que produz um efeito agradável na chamada compaixão trágica e, no fundo, inclusive em todo o sublime, até chegar aos mais altos e delicados estremecimentos da metafísica, recebe a sua doçura unicamente do ingrediente de crueldade que leva misturado… Finalmente, considere-se que, inclusive o homem do conhecimento. ao coagir o espírito a conhecer contra a inclinação do espírito e também, com bastante freqüência, contra os desejos do coração … atua como artista e glorificador da crueldade; o tomar as coisas de um modo profundo e radical constitui já uma violação, um querer danificar a vontade fundamental do espírito, que quer caminhar incessantemente para a aparência e para as superfícies: em todo querer conhecer há uma gota de crueldade[2]. A afirmação de que a cultura se constitui por uma espiritualização da crueldade realmente dá o que pensar. O próprio sentido das minhas colocações iniciais aqui – quando falava do constraste nas reportagens jornalísticas: de um lado, grandes produções culturais; de outro, crimes hediondos ­muda radicalmente. O que, num primeiro momento, aparecia como joio e trigo, revela-se, então, como trigo e farinha, ou seja, cereais do mesmo saco. O trigo nu e cru, tal qual cresce no campo e o trabalho paciente, que o transforma em farinha branca e daí em pão etc. etc.: um processo de depuração e refinamento da mesma índole parece ser aquele que nos leva da crueldade às produções culturais. E como a crueldade é irmã da violência, temos, na verdade, vasos comunicantes entre o lado mais primitivo e o mais sublime do homem: é precisamente isso que se afirma ao se postular o conhecimento como uma violação da vontade fundamental do espírito e dos desejos do coração, um braço de ferro em direção à profundidade, quando o caminhar espontâneo é em direção à aparência, à superfície. Entretanto, essas constatações pão nos eximem de perguntar o que, por vezes, impede essa espiritualização da crueldade e da violência, condenando-as à expressão nua e crua. O que a psicanálise nos ensinou, neste mais de século de existência, é que quanto mais reprimidos estão os nossos impulsos agressivos, tanto mais eles podem irromper em situações quaisquer da vida cotidiana, totalmente fora do nosso controle e levar-nos a cometer os atos mais violentos, mais cruéis. Os gregos da época trágica já sabiam disso, só que interpretavam o fenômeno de outra forma: viam-no como uma espécie de possessão divina, em que o lado demoníaco que assumia o controle da ação e cometia os desatinos era associado ao deus possessor. Nessa época, nem a noção de responsabilidade estava totalmente formada: como alguém pode ser considerado responsável pelos crimes que cometeu sob a possessão de um deus? Mas o direito, que fazia a sua aparição no mundo ocidental, já procurava instituir uma nova ordem: a do sujeito responsável, distinguindo crimes cometidos “de bom grado” dos cometidos “de mau grado”, ou seja, na ignorância ou com conhecimento de causa. Desta forma, no universo trágico, a avaliação da responsabilidade oscilava entre duas interpretações diferentes: por um lado associava-se à noção de falta (hamártema = “erro” de espírito, polução religiosa, em que o ser humano era tomado por forças sinistras que o arrastavam e enlouqueciam), por outro lado, era engolfada pela noção legal de delito (adíkema = delito intencional, que deveria ser punido, a ser distinguido de atýchema = acidente imprevisível, não passível de punição). A vantagem que o homem trágico levava sobre nós é que conseguia integrar esses atos violentos e cruéis no restante da vida, ainda que com dor. Eles poderiam ver aquele crime familiar, do rapaz que assassinou a família inteira, como um ato de possessão religiosa, tão possível como respirar ou comer. Nós, para tentar entender e digerir o que suspostamente aconteceu, temos que utilizar exames neurológicos e psicológicos, eletroencefalograma, teste de Rorschach etc., e ainda assim saímos com a sensação de não entender nada, além de uma certa dispepsia afetiva. São as marcas deixadas em nós por dois mil e quinhentos anos de cultura socrático-platônica continuada e exacerbada pela cultura cristã, um universo de valores altamente moralizado que, a partir do século XVII ganhou a vestimenta racionalista que chegou até nós. É dele que herdamos alguns mitos como o de consciência moral, autocontrole, ou a própria noção de responsabilidade, entendida como “determinação volitiva adequada”. Quando alguém é tomado por um impulso assassino, como no caso acima citado, a única forma de impedir que essas noções entrem em colapso total, é inventando alguma “doença”, ainda que “desconhecida”. E para isso serve toda a parafernália dos exames. O fato é que nós, homens contemporâneos, perdemos o contato cotidiano com o nosso lado agressivo, violento, cruel. Nossa envergadura interior é pequena demais, moralizada demais, para poder reconhecer que a “besta humana”, o “bandido”, o “assassino” habitam cada um de nós, por mais escondido e dissociado que possa estar da nossa consciência. Mas os acon­tecimentos não mentem e um velho ditado popular já dizia: “a ocasião faz o ladrão”. Então, não é estranho que os crimes mais violentos, descontrolados e inusitados sejam cometidos por pes­soas aparentemente equilibradas, sem quaisquer sinais de agressividade, em geral tímidas e introvertidas: quanto maior o nível de dissociação entre a consciência e esses impulsos, maior o descontrole, mais intensa a ação das forças marginalizadas. Nietzsche, ao falar sobre a formação do criminoso, dizia: o tipo do criminoso é o tipo do homem forte, colocado em condições desfavoráveis, é o homem forte tornado doente. O que lhe falta é a selva, uma natureza e um modo de vida mais livres e mais perigosos, que legitime tudo o que, no instinto do homem forte, é arma de ataque e defesa. Suas virtudes são proscritas pela sociedade. As mais ardentes das suas inclinações inatas são, de imediato, inextrincavelmente misturadas com sentimentos depressivos, suspeita, medo, desonra. Mas, eis ai, quase literalmente, a receita da degeneração fisiológica … É a sociedade, nossa sociedade policiada, medíocre, castrada, que, fatalmente, faz degenerar em criminoso um homem próximo da natureza, vindo das montanhas ou das aventuras do mar[3].Penso ser importante interpretar esse aforismo não como uma proposta romântica de volta à natureza, mas como uma denúncia de que a sociedade contemporânea caminhou para um rumo incompatível com certas forças da vida e do homem, entre elas, a agressividade, a violência: suas armas de ataque e defesa. Assim, aqueles que, por uma razão ou outra, são mais malsucedidos na sublimação, espiritualização, desses impulsos, só possuem duas outras saídas: ou reprimi-los ou exercê-los de forma marginal. No primeiro caso estão os bons-rapazes-que-se-tornam-assassinos-de-repente; no segundo, os criminosos contumazes. A capacidade diferente de cada ser humano acolher e elaborar afetivamente o seu lado agressivo, violento, cruel, é decisiva não só na determinação da maneira como fica mais ou menos à mercê desses impulsos, nas diversas situações de vida, como na determinação das maneiras com que interpreta a emergência desses impulsos em situações outras. O homem de subjetividade estreita, incapaz de perceber que o “marginal” não habita tão-somente o mundo, mas, igualmente, as suas entranhas, será uma presa mais fácil de ideologias fascistas, que dividem o mundo em Bem e Mal: “ovelhas brancas” e “ovelhas negras”, “raças puras” e “raças impuras”, “homens de bem” e “bandidos”, “homens normais” e “loucos”, “heterossexuais” e “homossexuais” etc. Há alguns dias, a Folha de S. Paulo trazia um artigo de Fernando Gabeira, em que ele comentava os crimes praticados contra homossexuais cometidos nos últimos tempos e a quantidade de facadas envolvidas em cada caso. E se perguntava o porquê de tantas facadas, quando apenas algumas já seriam suficientes para matar. Concluía, sabiamente, dizendo que aqueles assassinos tentavam matar o “homossexual” que havia dentro deles. Entretanto, a possibilidade de acolhimento e elaboração afetivas desses lados., tornados escuros e malditos por milênios a fio; constitui uma tarefa bastante difícil, num mundo em que o sentido da vida torna-se cada vez mais restrito, mais miserável, mais voltado à mera sobrevivência e em que as ideologias fascistas tornam-se extremamente úteis, na medida em que são capazes de justiticar todos os racismos, exclusões e eliminações daquilo que importuna e questiona o caminho homogeneizante e totalizador do capital. “Crianças de rua”, “sem-terras”, mendigos, para que serve essa gentalha? Só atrapalham, com sua pobreza, seu fedor, sua animalidade. Mais fácil eliminá-los. “E o mundo segue o seu rumo, ante o estupor cada vez maior do senso comum. Somente uma pequenina parcela da população tem consciência de que o germe de tudo isso esconde-se numa dobra, nos confins da subjetividade de cada um, naquela margem esquecida em que o “eu”, o “bandido”, o “homossexual” ,o “louco”, o “mendigo”e um exercito de outros personagens marginais lutam a batalha interminável, nunca concluída, do reconhecimento mútuo. Avatares da alma contemporânea. Usina na qual se debate e se produz a nossa inalienável violência.

 

[2] Nietzsche, F. Mas aliá del bien y del mal, Aforismo 22.9, Madri, Alianza, 1981, p.176-8.

[3] Idem, Crepuscule des Idoles, Aforismo 45, in Oeuvres Philosophiques Completes, Paris, Gallimard, 1974, vVIII, p.139-41.

A.N.N.

 

NA UNIFESP – Ato-Debate: Universidade, democracia e direitos sociais

 

 

A crise conjuntural brasileira demanda uma reflexão crítica e aprofundada sobre suas origens, motivações e eventuais consequências. Com o objetivo de promover um debate sobre o tema, a Reitoria da Unifesp assumiu a iniciativa de organizar uma atividade com os seguintes convidados, que integrarão uma mesa expositora:

 

Fábio Konder Comparato: jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo

 

Amelinha Teles: militante feminista, ex-presa política e integrante da Comissão da Verdade de São Paulo

 

José Arbex Jr: jornalista (coordenador da atividade)

 

Os trabalhos serão abertos pela reitora Soraya Smaili e contará com a presença de diretores e entidades

 

Após a exposição dos convidados, a palavra será aberta a todos os participantes no ato/debate.

 

Dia: 29.03 (terça-feira)

Horário: 18h00

Local: Anfiteatro da Reitoria da Unifesp

 

SERÁ TRANSMITIDO PELA INTRANET