Uma subjetividade é uma dobra do fora (transcrição de fragmento de áudio)

Uma subjetividade é uma dobra do fora.O que é o fora? Um campo pré-pessoal, inumano. É uma multiplicidade de forças, sua velocidade infinita, sua invisibilidade. E a dobra que é? A dobra é como uma dobra de tecido. Uma prega de tecido. A dobra não é diferente do tecido, ela acontece no tecido. Não tem, por um lado, a dobra, por outro lado, o tecido. Ela dobra do tecido, é uma curvatura, é uma certa curvatura do fora, é uma certa inflexão do fora, é uma maneira, por exemplo, de ver que essa velocidade das forças talvez se tornem um pouco mais lentas. Essas partículas se desaceleram da sua velocidade infinita quando sofrem essa inflexão subjetiva. Essa inflexão do fora, essa desaceleração, cria uma certo dentro, um certo campo interno de ressonância. Mas isso aí não é uma interioridade fechada em si, mesmo porque é justamente uma dobra do fora. É uma espécie de envergamento do fora. Claro, tem aí um ‘certo’ si, mas esse si não tem nada a ver com aquele que é totalmente individuado, centrado em si mesmo, contraposto ao mundo e idêntico a si mesmo. O universo dos gregos anteriores a Sócrates valorizado por Nietzsche, é esse mundo povoado por deuses intra-mundanos em que há a ordem humana e a ordem religiosa, dos deuses, embora já em algum nível discriminadas mas indissoluvelmente imbricadas uma na outra. Um mundo ainda repleto de mistérios e um mundo ao qual o homem não controla, um mundo cujo sentido lhe escapa por todos os lados. Os trabalhos de helenistas como Pierre Vidal Naquet e Jean Pierre Vernant, entre outros, encontram uma noção de “eu” nunca totalmente individuado, que ele está sempre em individuação: “O eu não é nem delimitado nem unificado: é um campo aberto de forças múltiplas, diz H. Frankl. Sobretudo, essa experiência é orientada para o exterior, não para o interior (…) O sujeito não constitui um mundo interior fechado, no qual deve penetrar para se encontrar, ou antes para se descobrir. (…) A “sua consciência de si” não é refletida, dobrada  sobre si, encerramento interior(…)”[2] Contemporaneamente, Deleuze acompanhou o trabalho de Foucault na descrição o mundo grego. Foucault mostra como os gregos desdobravam sua força em todos os seus hábitos, na cidade, na alimentação, na sexualidade, eles dobravam as forças de tal modo que criava-se um si, mas esse si não era uma redoma contraposta. Era uma certa maneira de fazer ressoar alguma coisa numa espécie de auto-afetação. Esse si é uma maneira de afetar-se. Isso se relaciona com toda a temática do Foucault[3] que impregna os últimos livros voltados à questão das práticas de si. Os gregos preocupavam-se com um certo cuidado de si, na existência, nas práticas em relação à alimentação, à sexualidade ou à conduta na cidade. Era uma espécie de existência estética, como fazer de si mesmo uma obra, o que é tema constante nos trabalhos de Foucault. De qualquer maneira, esse cuidado de si que os gregos exercitaram muito, não tem nada a ver com a idéia que geralmente nós temos do si psicologizado, porque o que concebemos como o exercício do si, a introspecção, é a promessa de nossa apelação conosco mesmo. Descobrir o que é que nos aliena de nós mesmos, a nossa maneira de nos relacionarmos (a nós mesmos) separados de nós mesmos, ou seja, nós tentamos na perspectiva do indivíduo descobrir nossa ‘verdade interna’. Contemporaneamente são comuns enunciados como: “eu preciso encontrar o que eu tenho mais lá dentro no fundo que é eu mesmo, minha identidade que está recoberta por um monte de coisas, assim da minha história familiar e muitas outras então eu preciso de algum jeito remover e encontrar  de novo o meu si verdadeiro”[4].A experimentação dos gregos era totalmente diferente. Não se tratava de reencontrar o si verdadeiro, mas produzir uma forma de existência com essas forças do si, que fosse uma dobra. Como dobrar a vida? Vivemos ainda a brincadeira de descobrir a nossa verdade interna mais recôndita, ficando nesse jogo do mistério velado e desvelado, tentando descobrir, e quanto menos se descobre, mais interessante fica, e mais há gozo com esse insondável que é a nossa interioridade recôndita. É um jogo com si mesmo, baseado na idéia de que: “a gente vai se reapropriar de si ”.Toda questão é: Que múltiplas  maneiras de dobrar estão aí virtualmente presentes? Quais as outras possibilidades, quantas maneiras de dobrar desconhecidas? Quer dizer, essas inúmeras outras maneiras de dobrar não são uma questão de verdade, (que para um pensador trágico como Nietzsche não é uma boa questão). As dobras estão para serem experimentadas ou inventadas. Por conseguinte é abrir-se para as possibilidades, as múltiplas dobras virtualmente presentes.O universo trágico tem uma relação com uma exterioridade inumana, com uma multiplicidade pré-pessoal, com a linha do fora na relação com as diferenciações. O si não pensado em relação a segurança e a uma identidade que ele tem como centro, mas à luz das diferenciações, das metamorfoses multifacéticas que ela vive, com todas as estranhezas ali embutidas. Cada tipo de dobra estabelece um certo tipo de relação com o Fora. E a maneira que tem os loucos de dobrar o Fora é curiosíssima. Se por um lado é como se quase não houvesse dobrar, num certo sentido estão inteiramente abertos ao Fora, completamente dispostos a ele, sem proteção alguma, dispostos a essas multiplicidades de forças na sua velocidade, e sem conseguirem encurvar essas coisas, desacelerá-las. Por isso que dentro de uma perspectiva ainda excessivamente genérica, mas temos que comentá-la, daria até para pensar a loucura não como uma dobra do Fora, mas com um paradoxalmente, com um dentro do Fora.Como se os loucos estivessem ou a loucura estivesse inteiramente jogadas no Fora, à deriva do Fora, inteiramente expostos a todas as forças que atravessam um campo, inteiramente atentos a todos os vetores que compõe o campo, inteiramente tomados por todos os movimentos moleculares, que nós não vemos nem enxergamos porque nós temos um monte de anteparos, proteções, mecanismos de dobraduras e de filtragem, n mecanismos de filtragem.  Então, se a gente pensar, por um momento, a loucura nessa perspectiva, pelo menos de início aponta e mostra até que ponto uma loucura não é isolamento, mas quase o contrário, um excesso de exposição. É o contrário daquele conceito clássico, assim da esquizofrenia, que o esquizofrênico é aquele que está inteiramente voltado para si. O louco não está isolado, está fora. Ele não está fora (alienado), ele está no Fora, não é isolamento, não é uma cegueira, não é uma surdez, não é uma insensibilidade a tudo, mas antes, ao contrário, uma super audição, uma super visão, uma super vidência, uma hipersensibilidade a tudo, um excesso de sensibilidade, um excesso de vidência, um excesso de conexão com tudo o que nos rodeia. Antes de começar falar mais diretamente sobre loucura eu queria um pouquinho trabalhar com vocês uma diferença que eu não mencionei na aula passada, que é a diferença entre sujeito e subjetividade..Eu quero dizer um pouco, é muito complexo isso. Eu vou ser muito rápido nisso, mas eu acho que tem sua importância pensar a questão da subjetividade na loucura.  Então eu vou dar uma idéia em poucas palavras sobre a diferença entre sujeito e subjetividade, e aqui eu não vou contar alguma coisa que é consenso entre os filósofos que é uma questão muito problemática e tem gente que nem aceita essas diferenças. Mas eu diria assim: que a noção de sujeito EMERGE DA GRANDE REAÇÃO MODERNA (final do século XVI em diante, larvarmente com a cultura Socrático- platônica) e pressupõe o mínimo de interioridade, de contorno, de autocentramento. Eu diria que a idéia de sujeito pressupõe uma identidade, uma identidade consigo mesmo, mas com uma reapropriação daquilo que difere de si mesmo. O sujeito se repropria do que é diferente dele nessa estrutura autocentrada de contorno delimitado e uma idéia de identidade referenciando isso tudo.  E subjetividade? diferentemente disso é algo mais complexo, está menos referido à identidade própria, do que a uma certa relação com a exterioridade. A subjetividade está mais relacionada com a exterioridade, com as forças presentes nessa exterioridade, então é algo menos individual, menos privado e menos reapropriador. A noção de sujeito ainda transforma o que é diferente no mesmo. O que é diferente dele, e está fora dele ele transforma no que é dele mesmo.  Já a noção de subjetividade tem essa possibilidade de interagir com a exterioridade, uma abertura maior à exterioridade sem necessariamente subsumir essa exterioridade à própria identidade, sem trazê-la para si, mantendo o si como uma referência central. Se vocês pensarem um pouquinho, eu vou dar duas figuras da filosofia bem rapidinho. Um é Descartes (século XVII) que descobre o pensamento próprio como uma referência de existência: penso; logo, existo. Eu penso, eu, tem aí uma idéia de sujeito como última célula do mundo, eu posso duvidar de tudo, mas eu tenho essa certeza de eu penso, e isso já é um solo firme para eu reconstruir o mundo. Mas tem esse solo firme que é a idéia de um pensamento idêntico a si mesmo, próprio.  Agora, essa é uma figura identitária, autocentrada, que tem um contorno interiorizado, mas com aquela dicotomia em relação ao mundo, eu e o mundo (NÃO É UMA DOBRA) e tem uma unidade nesse sentido.  Agora vamos pensar numa outra figura alguns séculos depois que o Hegel, que é um filósofo do século XIX, que define o sujeito da seguinte maneira: o que mantêm em si sua contradição, o sujeito é aquele que preserva  em si mesmo os mesmos seus contrários. Ou seja, é diferente do Descartes, Descartes é uma unidade idêntica a si mesmo, no Hegel já não é uma unidade idêntica a si mesmo, pode ter coisas diferentes, pode ter conflitos, contradições, paradoxos, porém o sujeito tem essa qualidade de se reapropriar dessas coisas diferentes que estão nele mesmo. Ele de algum jeito transforma o outro no mesmo, ele faz uma síntese dos contraditórios que o habitam, tem aí o movimento de preservar uma unidade apesar das contrariedades internas. Agora, em contraposição a essa idéia mesmo, tanto Descartes quanto Hegel tem essa matriz, de uma certa unidade, de uma certa identidade, de um certo contorno,  uma certa  interioridade. Em contraposição a esse modelo, eu estou tentando mostrar que a idéia de subjetividade é muito mais aberta, ela não está calcada neste modelo de identidade, de interioridade, de uma delimitação, ela é mais aberta a tudo que é exterior, ela não tem um centro, ela não tem uma identidade, ela está mais disponível para as forças que a atravessam e a habitam, ou seja, a subjetividade, por definição, está mais aberta aos devires que a tomam, mais aberta a uma multiplicidade que a habitam, mais aberta aos atravessamentos e aos outramentos que empurra para n lados. Eu vou dar um exemplo, não é um exemplo concreto de subjetividade, mas é como pensar a subjetividade mais à luz da química quântica. Tem um autor chamado Gilbert Simondon, olha só, o Simondon diz uma coisa, ele diz o seguinte: o indivídua não existe enquanto tal, o indivíduo que cada um de nós é, é o resultado precário, provisório de um processo em curso, processo esse que também quero chamar de processo de individuação. Então, a partir do que acontece o processo de individuação? A partir de um campo, é nesse campo que se dá um processo de individuação, o campo precede o indivíduo, é diferente do Descartes dizendo que tudo começa com o eu. Aqui tudo começa com o campo, onde começa com o processo de individuação, cujo resultado é o eu, mas esse eu não é uma identidade fixa, ele é um processo em curso. O que é esse campo?O campo é um campo de forças.Então eu, esse campo de forças tem n partículas, vetores, singularidades, coisas concretas e menos concretas, mas impalpáveis, invinsíveis, n coisas que tem num campo de força; algumas a gente vê, outras a gente sente, outras nos afetam de uma maneira que a gente nem sabe. Então nesse campo de forças se dão processos de individuação, por exemplo, eu acabo contraindo em mim um monte de partículas desse campo; olha só, quem sou eu? Eu sou uma contração na individuação desse campo de onde eu provenho, um campo físico, um campo biológico, um campo psicossocial, etc. Eu dou a impressão para vocês que eu sou acabado, que eu sou um ser acabado, prontinho, e no entanto o tempo todo me compondo com todos os elementos do campo que vão me realimentando, me reabastecendo, me modificando, me esgaçando, me transformando. então eu trago comigo esse campo inteiro como se eu carregasse comigo uma placenta, cada indivíduo carrega uma placenta, mas a placenta não é da mãe, é do campo, e esse campo reabastece esse processo de individuação que nunca se acaba, é como se eu carregando esse campo comigo eu tivesse uma à disposição o tempo todo muitos elementos de renovação interior. Imagina eu de uma placenta e eu o tempo todo vou me renovando a partir dos elementos dessa  placenta, e essa placenta é enorme, é um campo de forças, não está delimitado no espaço, nem no tempo. Então, talvez a gente pudesse definir uma subjetividade a partir daí, esses dois pólos, o primeiro é o indivíduo que nunca é acabado, que sempre está num processo de individuação e esse campo pré-individual, pré-pessoal de onde o indivíduo provém, então o indivíduo seria essas duas coisas, não só o indivíduo, mas é o indivíduo em processo de individuação e o campo. Quer dizer, o campo não está fora do indivíduo, não está só fora, o indivíduo carrega esse campo em si mesmo como uma espécie de reservatório para configurações futuras, como se cada um de nós carregasse o seu campo como um reservatório de renovação o tempo todo. O Simondon deu a esse reservatório, a esse campo, a essa indeterminação, ele deu um nome pré-socrático, que é apeiron. apeiron em grego quer dizer o ilimitado; apeiron, o ilimitado. É no mínimo curioso que a gente tenha para definir subjetividade, que ao invés da gente recorrer a noção acabada de indivíduo, que é justamente limitado, a gente inclua nessa definição o ilimitado, já o limitado que a gente põe nessa definição do indivíduo é alguma coisa em curso, então não é tão limitado assim, é um limitado aberto, e a gente acrescenta na definição o ilimitado, ou seja, esse campo, essa placenta funcionando como um reservatório para as constantes refigurações. Essa placenta é coletiva? Totalmente, exatamente. Ela é pré-pessoal e transpessoal, ela é muito menos do que uma pessoa e muito mais do que uma pessoa. O campo de força é do minúsculo, microscópico, molecular, até o cósmico. Isso amplia a definição de Hegel? Amplia pelo fato que descentra do próprio sujeito, porque o Hegel recentra em torno de uma identidade que por mais que ela seja contraditória ela sustenta a contradição, mas ela sustenta a partir de um eixo que funciona com um eu , como um indivíduo, como uma redoma, e aqui eu estou tentando mostrar um modelo completamento aberto à exterioridade e que não precisa recentrar toda essa exterioridade em torno de um centro, então esse ilimitado, esse campo, esse reservatório ele descentra o sujeito, ele funciona como um pólo de descentramento, é como se o sujeito estaria mais nesse reservatório do que no que ele já tem acabado porque é desse reservatório que lhe vem tudo o que de novo lhe acontece e para onde ele vai, todas as formas novas que ele vai tomar vem desse reservatório, então onde está o sujeito, está na forma que ele tem agora e tem tudo que abastece a ele para novas reconfigurações, então é óbvio que aí a forma atual dele é apenas, eu não diria um detalhe, mas é um pedaço pequeno, não é o que recentra tudo. Quer dizer, esse reservatório  me abastece o tempo todo de novos possíveis, novas possibilidades.E tem uma noção de sujeito que pensa dicotomicamente o externo, o eu e o mundo, a realidade psíquica, etc. E aí toda a dificuldade de fazer a ponte. Você já pensou dicotomicamente, já separou, e aí não tem como.Alguma coisa não encaixa porque você já cortou uma operação, você cortou a placenta.A idéia do sujeito tradicional, ela já é constituída num plano de fundo dicotômico  externo e interno, individual, coletivo, privado, social, n outras dicotomias.Eu diria que esse apeíron é esse ilimitado, essa indeterminação, esse reservatório de possíveis que nós carregamos o tempo todo é como uma reserva natural de biodiversidade que a gente carrega o tempo todo.

Essa idéia que referi em aula que a loucura é uma imersão no Fora, de que a esquizofrenia investe o campo social como um todo, essa maneira de habitar o Fora está disposta, também é uma maneira de captar deste Fora todas as estratégias políticas que coexistem no Fora. Como conseguir entender ou pensar certos delírios como captação de forças realmente operantes do Fora. O quanto muitas dessas viagens, digamos assim, são realmente viagens, em que sentido, quando um louco sai de um lugar para viajar, são viagens intensivas, quantas viagens intensivas o louco experimenta, que intensidades dos índios da América, dos mongóis de Átila, de Nero, que viagem, que vibração celeste ou subterrânea o louco faz; num certo sentido, ele faz do seu próprio corpo uma superfície de experimentação em carne viva de todas as intensidades cósmicas. Isso é só para ilustrar, não tem nenhum julgamento de valor aqui, a gente só está experimentando um pouquinho que elementos que nos ajudam a ver de uma maneira mais múltipla isso que se manifesta na loucura.Também os conteúdos dos delírios vão mudando com o  tempo, por um tempo eram mais espaciais, com satélites, galáxias, naves superestelares. De alguns anos para cá a maioria são delírios religiosos, santos , Deus, santos, purgatório, etc. Quer dizer, pode ser uma dedução totalmente obsessiva que eu estou fazendo, mas uma das coisas que me ocorria nestes tempos de globalização em que o capitalismo entra em toda a parte e devasta todos os entraves do globo numa selvageria imensa, desterritorializando tudo, e o quanto que as pessoas buscam se reterritorializar em coisas as mais arcaicas, a nação, a religião, em todos esses ícones os mais arcaicos para retomar pé, esse é o caso também da quantidade de seitas que tem nos Estados Unidos, está dando retorno ortodoxo na Rússia, a Igreja Universal do Reino de Deus, todas são maneiras, como se essa desterritorialização total que o capitalismo produz também provoca uma espécie de reação crispada de reterritorialização das coisas mais arcaicas. Eu só estou dizendo isso para ressaltar um pouco o quanto me parece que os loucos estão totalmente antenados com movimentos completamente planetários, pois esse retorno aos conceitos religiosos não é deles, é do globo, do mundo, é um movimento histórico totalmente pregnante e totalmente assustador. Quando eles dão vozes a isso não estão falando do seu mundinho e de sua família (apenas!), estão antenando alguma coisa.Eu estava dizendo essa história de ser vigiado, controlado, o quanto esses delírios também nos captam essa estrutura de panóctico que a gente vive; panóctico vocês devem saber, é como Foucault analisou isso muito bem é um certo modelo de prisão circular com uma torre no meio, onde o vigia tem um olhar absoluto sobre todas as celas e cada mínimo gesto de cada mausoléu, é um modelo de prisão. E Foucault no fundo usou isso para pensar que é um modelo social de vigilância. O modelo de vigilância, de esquadrinhamento na vigilância. Como que a minha idéia é de que o louco veja esses mecanismos de poder inscritos no seu próprio corpo, ele dá voz a isso do jeito mais extremo no seu estado bruto, puro e insuportável. Eu não estou dizendo que é só isso que está em jogo na loucura; não , mas que isso está plenamente presente, escondido, claro, essa persecutoriedade se vê de n maneiras, também psicanaliticamente, n coisas que é preciso ter um repertório muito rico para poder intervir, em todas as situações, isso pode ser muito importante, mas , que esses planos dos quais eu estava falando enfim não são ouvidos, vistos, considerados e acompanhados. se encerra o louco num enquadre absolutamente familiarista se o transforma num sujeito alterado. Quando aí tem uma riqueza, uma positividade a qual tem que se trabalhar. Eu não estou idealizando nada disso, olha que bárbaro, olha que abertura, não, não é isso, tem observações de prudência totalmente cabíveis, pois que essa abertura excessiva, esse escancaramento, essa maneira vazada de ser, tão pouca possibilidade de curvatura, de desaceleração, de dobra, de proteção impede isso, muito facilmente pelo excesso de abertura pode vir a se transformar numa absoluta impossibilidade de estabelecer com esse Fora um trânsito, é o que Peter Pelbart chamou de uma espécie de clausura do Fora, é quando esse Fora é tão invasivo que já até mesmo a relação com ele se vê impossibilitada. Então é como se aí não houvesse nenhum descanso possível, nenhuma desaceleração e aí a gente vê essa conjunção estranha e tão inexplicável que é por um lado uma extrema velocidade das forças que nos atravessam e por outro uma extrema paralisia, paralisia que encerra circuitos reduzido da circulação familiar, social … é como se por um lado eles viessem puxados e empurrados por todos os medos de todos os lados, mas ao mesmo tempo estivessem confinados a uma espécie de percurso totalmente milimétrico, como um terapeuta no meio de uma ventania e sobre um único fio se equilibrando em meio ao abismo, essa convulsão tão complexa de pensar, absoluto vazamento de exposição de todas as forças e as suas velocidades, rapidez absoluta ao trânsito do mundo, mas ao mesmo tempo uma paralisia absoluta. Eu diria assim, o que dificulta é essa precariedade da dobra, porque se a dobra é tão precária não tem a desaceleração necessária para ter trânsito. É uma deriva.No Fora é uma coisa à deriva. Quer dizer, é transposta ao Fora que de algum modo fica impermeável ao Fora. Transposta e impermeável, este é o paradoxo. É uma reversão curiosa, eu vou fazer uma comparação, é como se nos arrombassem o tímpano; ora, é pelo tímpano que nós podemos ouvir. se nos arrombam entra tudo, mas já nada entra, essa imagem é mais adequada para pensar nessa idéia que tem como que uma mínima pele ou uma mínima dobra, ou uma seleção que permite uma relação com o Fora, se ela é arrombada , é como se não fosse possível, tudo entra, mas já não há nem mesmo audição,  e aí aquela imagem de arrombar. Tudo tem a ver com maneiras de se relacionar com o Fora e de dobrá-lo.

TPPPCOMIA-DOBRA subjetividade

 

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