A noção de complicatio na perspectiva de um caos positivamente pensado II continuação com a transcrição de parte da aula de Luiz Orlandi

 

Mas o nosso barato não é a ordem, nem a desordem. Nosso barato é a complicação. Se vocês conseguirem provar, hoje, que nós vivemos em estado de absoluta ordem, eu dou um doce. Também não é mera desordem. O que nós conseguimos elaborar a partir da idéia de complicação é a idéia de um caos positivo. Eu pedi pra Suely (Rolnik) desenvolver junto a vocês um pequeno prefácio que ela fez ao livro de Luís Claudio (Figueiredo), que ela fala um pouco desse caos positivo. Caos positivamente pensado. O que seria isso? Para além da oposição ordem e desordem, um caos positivamente pensado é um excedente de determinações, é uma proliferação de devires. Não é mera confusão. Eu queria frisar isso bem pra que vocês tomem a noção de complicatio na perspectiva desse caos positivamente pensado. Se vocês saem pela rua vocês podem fazer a experiência desse caos. Se vocês ficarem sozinhos com vocês mesmos, fiquem bem quietinhos, e vocês vão sentir o caos trabalhar nos seus próprios corpos e nas suas próprias mentes. É só ficar bem quietinho. Acho que o recado do Nietzsche na aula do Peter (Pal Pelbart) é mais ou menos esse: suspendam provisoriamente pelo menos os sentimentos e os conceitos estabilizadores e deixem fluir em vocês, seja no ponto de vista do corpo, sendo no ponto de vista da alma, o que Nietzsche, naquele texto, está chamando de intuições originais, de impressões imediatas, súbitas, que é o que contraria mais fortemente os conceitos tradicionais que ordenavam o universo. Seja o universo corpóreo, seja o universo mental. É nesse sentido que nós retomamos a complicatio. Ou seja, em cada ente, em cada coisa, em cada acontecimento que vocês se apresentem, seja o gesto de uma criança na clínica, seja o ar acabrunhado do Lula, vocês vão ver que em qualquer um dos recantos que vocês terão sempre a vista, seja parte ou teoricamente, considerando a coisa, é um dobrar, é um redobrar, é um desdobrar.

Dobra, redobra e desdobra: são esses três termos que buscados, digamos, na leitura do barroco, são esses três termos que começam a nos ajudar a pensar o caos. Em todo e qualquer detalhe do universo, seja átomo, seja o Sol, grande, seja o gesto de criança. O que se dobra, redobra, desdobra? Se você for estritamente nietzschiano, você dirá: são forças atuantes no homem e forças do fora, daquilo que não depende simplesmente do homem. Eu posso levar o meu corpo a dobrar em si uma força da gravidade. Eu vou pra janela e pulo do 5º andar. Eu consegui incorporar num lance impressionante a força da gravidade em mim. Vivê-la efetivamente, não me equilibrando apenas, ao andar a toda hora e a todo lugar, ficando vitimado por ela. Não. Eu assumo o fim da minha existência incorporando na possibilidade do meu corpo, fico navegando nessa ultima adesão a uma força do fora. Esse suicídio ocorreu – vocês sabem -, Deleuze se suicida assim. Ele não poderia pegar um revolver e matar-se. Também poderia, mas não ficaria bem. E ficar no mesmo lugar, seria Edipiano demais, matar-se na própria casa. Jogue-se para fora, irmanando-se com a força sobre a qual você não tem controle algum. Mas então, o “E”[1], para nós, é um operador lógico de dobra, desdobra e redobra. “E”, numa matematiquinha simples, está apontando a intersecção. Ele é multiplicativo nesse sentido, multiplicativo de vias, porque se você leva bem em consideração como funciona o “E”, o que é? Ele é articulação de uma coisa com qualquer outra. Eu posso bem fazer uma pesquisa assim: rato bom de cama e navegação. O sujeito faz isso, faz ciência. Tenta tirar uma função: se bom de cama, então mais resistência na água. Ou: se mais burro, mais resistência na água. Algo assim, sei lá. De qualquer modo, o “E” é um operador de conexões, e o resto se desdobra. Você tem exemplo de algum ente humano que pratica constantemente o “E” por uma espécie de fatalidade do corpo, ou por uma fatalidade da sua inconsciência. Eu não posso, por exemplo, fazer assim: eu pego meu corpo e chego no seu e faço um ato sexual. Não posso pegar a sua mão, enfiar na minha boca. Porque tem mil interveniências, têm outros “E”s cruzando, junta outras explicações. Mas quem é que faz livremente isso? O bebê. O “E”, o bom exemplo, é um devir criança. Ou seja, a criança é a conectividade intempestiva. Uma conectividade atemporal que passa por cima de qualquer outra coisa. Porque o “E” é atravessante, ele atravessa dimensões, camadas. Onde vocês vêem mais “E”, estapafúrdios, em que vocês falam “mas o que que é isso?”. É Isso! Cinema, artes quaisquer. Então, o “E”, é como se eu dissesse, com Nietzsche, ele é para nós um operador de uma outra lógica que olha as conectividades como sendo elas mesmos, soltas. Ou seja, o que é necessário é o acaso dos encontros. O que é mais necessário é o acaso dos encontros. Estou dando uma série de frases, pra vocês encontrarem com elas essa necessidade de um caos positivo. Eu não posso, toda vez que olho o conjunto das singularidades, eu posso ter a ilusão de que se tem um conjunto de átomos. O que vocês tem é miríades de conexões, das mais estranhas. Espontaneamente na natureza, procuradas. Então, quando se fala no inconsciente, o nosso inconsciente… – eu não quero discutir dentro de psicologia X ou Y – o nosso inconsciente mais profundo, para o Nietzsche, é esse mundo de complicação das conexões. Esse mundo de encontros, que já estão nos atravessando. Nós temos um encontro permanente com o Sol, com a noite. Passa e vai passando. De repente você olha o céu… Agora é bom olhar porque tem cinco planetas em linha leste e oeste. Mas, é uma ordenação deles. De repente eles já estão em outra, e continuam as leis. Até quando, não se sabe. Você tem um esforço sempre pra repor um centro, e Giordano Bruno dizia “mas porra, não pode por um centro nisso!” Qual é o esforço de hoje pra botar um centro? O homem já foi, por conta do Nietzsche. O texto que vocês estão lendo é pra desconfiar do homem como centro. Deus já foi há algum tempo, agora Nietzsche desloca o homem como centro. Bom, mas quando Giordano diz: “não, mas não pode por um centro, o Sol não pode ser um centro, Copérnico. Isso é muito pouco. O universo é todo o infinito.” Ele é todo o infinito. O Giordano distingue entre todo o infinito e totalmente infinito. Todo infinito é o universo. Em que sentido ele é todo infinito? Porque não pára, não tem limites. Porque ele não é totalmente infinito? Porque para ele, naquela época, em cada parte, ele não era infinito.

Então eu pego essa bala, segundo ele, e digo: essa bala faz parte de um universo, que é todo ele infinito, mas ela mesma é finita. Então ele é todo infinito, o Bérgson vai dizer “é um todo aberto que nos toma”. O Deleuze herda isso do Bérgson. Giordano, diz “ele é todo infinito”, ou seja, não tem limite fora dele, porque não pára. Mas não é totalmente infinito no sentido de que são finitas as partes que compõe o universo. A terra é finita. Época de circunavegação, você vê que ela não vai embora de todo. Hoje a gente começa a desconfiar disso também, porque você vai dividindo a matéria, você não para de dividir. Então, quem sabe? Mas para ele, esse bicho que seria totalmente infinito, seria Deus. Deus é todo infinito e totalmente infinito. Porque ele é capaz de infinitude em todas as partes. Pronto. Agora volta.

Essa tentação de dizer que no fundo, não está querendo, apostando, simplesmente contra Deus. É que as coisas estão acontecendo e eu preciso de outras palavras. Então não podemos ser tão radicais. Nietzsche está falando naquele texto, em cerca de 1873, por aí. Em 1888, a radicalidade diminui um pouco porque ele precisa pensar que é magnífica a construção conceitual. Ele já dá esse sinal em 1873. É magnífica a construção conceitual. O que não podemos fazer com os conceitos é aquela velha história: petrificá-los. É retomar o impulso, Nietzsche fala em impulso, que levou alguém a tentação de dizer que a coisa é outra. Pensar diferentemente isso daí. Esse daí é o pano de fundo do nosso curso. Então, nós temos antepassados bons, caras simpáticos pra nos ajudar a dizer que a coisa é muito complicada, é muito complicado. Tudo é complicado. Quando falam assim: “ah, isso é muito simples.” Simples, porque você incidiu sobre a complicação uma ordenação que amarrota a complicação. Então o que faço? Vou ficar sempre com a dúvida a respeito da doença desse filha da puta? Ué, não sei.         Você ganha o suficiente enquanto ele estiver trabalhando, enquanto você estiver trabalhando com ele, mas você sabe teoricamente que você esta abusando, se você pensa que a coisa “acabou”. Então o trato com o paciente, é outro trato. Vão tentar co-participar da sua coisa, a tal modo que você não fique pior. Pior em que sentido? Pior da produtividade da sua vida, no sentido da sua existência, da dignificação da sua existência. Seja lá qual for a idéia, nós vamos chegar nisso. Nós vamos chegar lá, a partir do momento que estivermos elaborando uma espécie de quadro de emancipação teórica de cada um de nós. Não se trata de falar: “- Você é psicanalista freudiano, acabe com isso e leia lá o anti-édipo.” Não se trata disso. “- Você é winnicottiano, pare com essa história do Zeljko que Kuhn não dá conta do que o Winnicot fez com Freud. E pare de pensar o Winnicot em função do Heidegger. Não, não é. Continue pensando. Mas você tem que ter consciência durante o curso que isso é uma epistemologia que propugna por uma filiação escrita entre determinada psicologia e determinada epistemologia. Então o que nós queremos é fazer com que o “E” contamine os dois termos. Nenhuma psicologia, nenhuma relação com outra, cabe em modelo algum. É essa a idéia. Mas então vamos parar com a psicologia? Não! Ao contrário. Multiplicar as vias de acesso à complicação. É o único recado. Então precisamos elaborar um quadro que seja o mais abstrato possível no sentido de conteúdos internos, que levem vocês pra essa ou aquela filosofia. Nós precisamos elaborar um quadro que seria uma espécie de um quadro de deliberação teórica. Operável, como linhas de indagação. Como pontos de ataque. No fundo é o seguinte: pegue o martelo de Nietzsche, que ele fica distribuindo sobre gente que você pode ler com a maior tranqüilidade sem se contaminar… é engraçado ler Sócrates. Vai lendo. Ah, não, ele fica martelando a cabeça de Sócrates, de Cristo. Ah não… Pegue o martelo de Nietzsche. Bate na própria cabeça. Quem quiser bibliografia mais detalhada sobre Nicolau e Bruno, depois me fala.(pergunta)O que o Nietzsche não explicita ali é com quem está conversando. Ele está conversando com “???” da folha. É como se eu pegasse as mãos de alguém e fazer ver a diferença em domínio e verso. Então ele pegava as mãos de princesas, ia pelo jardim, mostrando na variação das folhas, principalmente outonais, porque aí dá poema, ele vai mostrando o quanto é que a diferença atua. Cada uma é diferença de outra. Cada uma vive no universo de um jeito. Então o infinitesimal dessa proliferação de diferenças que é o grande barato. Por que então subsumir futricando a vida de um certo crentismo, por que judiar das diferenças colocando tanta diferença em folha debaixo da palavra folha? A incompetência da linguagem cotidiana de nos acostumar a pensar a diferença. No fundo é isso que ele está dizendo, num passeio quase hedonista, prazeroso. É muito gostoso dá aula em jardim. Tem um fenômeno engraçado nos escritos tardios de Nietzsche que é um personagem que aparece… Vocês lembram que há uma gangorra de descontrole entre Dionísio, o Deus das profundezas, das intuições, das metáforas intuitivas. Depois discutimos isso, porque muita gente pensa que filosofia é metaforização.

Nietzsche não está propugnando por metáforas. Propugna por metáforas originárias, impressões decisivas, o imediato. A palavra metáfora como, no fundo, variação permanente, e não como semelhança. Porque o fundo da metáfora é analogia, portanto a semelhança, portanto a identidade. Se você for leitor de Aristóteles você percebe isso: a metáfora é uma equivalência. Seja direta, eu chamo isso aqui de chupeta, por exemplo, essa bala é uma chupeta. Mas tirei a balinha na posição de bala e coloquei como chupeta. Ou então a metáfora é fruto de não mais uma relação de um ente com outro, por exemplo, essa bala com a chupeta, mas uma relação entre relações. Então eu digo que A está para B, assim como C está para D. Já é uma relação de relações. É uma metáfora mais pensada, Aristóteles já vê como um sintoma que o sujeito está pensando, e não simplesmente escorregando de uma coisa pra outra. Ora, assim mesmo, esse jogo de igualdade de relações implica uma identidade de fundo. Platão adoraria essa idéia de metáfora. Uma identidade garantindo a equivalência das relações embaixo. O modelo garantido.

Ora, hoje é difícil aceitar que o pensamento opere por metáforas. Quando ele opera por metáforas ele está ainda naquilo que Nietzsche está condenado. Ainda está num rebanho. Então pensando como todo mundo pensa. A metáfora transfere a indagação efetiva sobre a coisa. É sobre ela que nós temos que falar.

Melhor dizendo, não é sobre, que qualquer palavra fica sobre: palavra folha fica sobre as folhas diferentes. A metáfora atrapalha. É um mergulho sub. A minha idéia tem que ficar debaixo das coisas, contaminado pelas coisas. Meu olho tem que ser atacado pela coisa. A minha sensibilidade é primeira, senão a minha palavra vai amarrotar a minha relação efetiva com aquilo que eu estou estudando, com aquilo que está se relacionando comigo.Por que eu estava falando isso? Ah, o Dionísio! Nietzsche, no fim do livro que o Peter usou , puxa o que alguns tentam ler como uma espécie de conciliação entre Dionísio e Apolo. Ora, Apolo, Deus das formas perfeitas, uma forma que tende a segurar, durante algum tempo pelo menos, a instabilidade das agitações dionisíacas de fundo. Tá tudo na superfície. Agitação é de pele. Claro, tem lá os movimentos intestinais, mas a nossa relação com o intestino é complicadíssima.  Enfim, tantos movimentos na gente que a gente nem percebe. Então a pele. Agitações dionisíacas já estão na pele. E a gente não interpreta. Não sabe se é um estimulo nervoso, ou algo mais complicado, e tal. Desses dois (Apolo e Dionísio), também não pode ficar prisioneiro da oposição. Eles não são opostos, simplesmente. Não é por oposição ao conceito, ele está dizendo coisas contra determinada estratégia conceitual.Você transforma conceito em modelo pra ver a coisa. Vou dar um exemplo aparentemente ofensivo: se em tudo eu ver, apenas e tão somente, um triângulo edipiano, eu estou submetendo a acontecimentos, a um modelo criado. Aí eu vou pra Winnicott. Modelo binário: mamãe e filhinho. Tá, perfeito, porque Winnicott está complicando de outro jeito. Submeter a um modelo, não é o olho que Winnicott faz na prática clinica. E, logicamente, Freud é mais sutil que um modelo petrificado.

É nesse sentido que ele está criticando. O que quero dizer é o seguinte: se Nietzsche fosse um mero oposicionista, então ele se contentaria com o estado de coisas em que você vê uma coisa oposta à outra. Isso vai ferir o ouvido de gente que a partir de Hegel, e depois de “Marx mal lido petrificou a idéia de oposição e depois de contradição.  A dialéitca pode ser se organizar a partir de oposições e contradições. O problema é ver se isso basta. O problema é esse. Por exemplo, você entra na classe operária, em que não entra outras questões senão a de oposição. Quando eu fixo o conceito de mais-valia, é difícil eu evitar a idéia de contradição. Acontece que o conceito de mais valia acontece no meio de mil e um acontecimentos que tomam a classe operária e a burguesia de um determinado país. Então você pode ter um paradoxo de um ex-operário ser mais conservador que um industrial. Ou no Brasil: só não partimos pro impitimam ainda porque não confiamos no vice. Daqui a pouco eu derrapo, eu vou derrapar. Porque impitimam eu acho que não funciona. Já funcionou, basta aquele. Acho que o parlamentarismo pode vir a ser uma boa, porque eles estão cozinhando o fracasso do Lula em água morna, pra vir o Fernando Henrique de novo. Então vamos dar um golpe não no Lula, mas na sucessão. Acho que em junho e julho temos que estar na rua lutando pelo parlamentarismo. E aí a briga será cotidiana, mensal, etc. Então, voltando. Você vê que eu posso ordenar a complicar, então Hegel olha o universo e você tem singularidades separadas uma da outra e isso daria o diverso. Ora, quando eu digo o diverso, eu to numa condição de olhar, em que eu digo que você é diferente dessa, que é diferente dessa. Como as folhas de X. Mas não só diversa. Elas são diferentes. Uma diferença que não é superficial, produzida, sedimentada, é cruzada por mil e outras diferenças. Ou seja, há uma coexistência de diferenças em cada ente diverso. Vou organizar esses entes conforme uma linha de oposição, e uma contradição. E então eu só definirei essa coisa quando eu encontrar sua contradição principal. Com isso ele fala a riqueza das diferenças. Sejam superficiais, porque você já as reduz a contradição superficial, sejam as outras diferenças concomitante a essa, e que fazem a virtualidade dessa diferença. O que é virtual em você? É um mundaréu de diferenças que existem com essas que eu estou vendo. Essa que eu estou vendo é um destaque. Eu digo “sou mulher”. Tá errado. Não posso ser chamado de mulher. Isso, o que Nietzsche no texto escolhido, quer chamar atenção. Olhe. Vá mais. Nosso problema qual é? Vocês já são adultos, estão em fase de mestrado. Estão à beira do rebanho, como diz o Nietzsche. Estão arrebanhados pelo saber, pelas formas do saber disponíveis. Já tem esse problema.    Somos arrebanhados porque somos latino-americanos. É uma historia de capturas, nós somos capturados. Então vamos dar um passo atrás. De repente vem uma autenticidade, revolta e dá um capto magnífico. Basta uma micro rebeldia pra justificar do melhor modo. Ao contrario de Suely e Peter, eu faço o papel do ignorante em psicologia. Por isso eu posso me atrever a abrir o campo de relação epistemológica respeitosa em relação ao que vocês fazem, apesar de não aceitar que um profissional se filie. Porque o Nietzsche fala de rebanho, para nós hoje é filiação. Então você fala: “pô, com essa idade que eu estou, você quer que eu mude?”. Não. Você não vai mudar, você já está mudando. Você é livre para variar um pouquinho lá na filiação. E é isso que é tese, no fundo. Variar um pouquinho. Vou colocar na lousa algumas letras.

* Orlandi escreve na lousa:

T {E, I, C…}

T1, {C1, C2, C3… Cn}

T2, [C1, C2, C3… Cn}

T3, {C1, C2, C3…Cn}

Tn, {C1, C2, C3… Cn}

 

Pronto. Então vamos às idéias do quadro. Eu peço que vocês anotem esse quadro. Aliás, vocês têm alguma pessoa que gostam de decorar? Tipo, decorar dicionário? Que doença seria essa pra vocês, ou sintoma do que?

Enfim. Suponha o seguinte: o que seria esse T? T como Teoria. Vocês estão fazendo tese, embocados nesse universo de teorias. Tem um monte de teorias epistemológicas, psicológicas, políticas, e tudo mais. Bom, o que tem dentro da palavra teoria? Várias coisas. Estou privilegiando por enquanto três coisas: esse “E”, esse “I” e esse “C”.Essas duas chaves vocês interpretem como sinal de implicação. Uma teoria implica, dobra dentro de si, pelo menos “E” e “C”. Esse “E”, eu estou tomando como sendo um “interesse por determinados encontros”. “E” é encontro. Mas o que está sendo implicado na teoria a respeito desse “E” é um interesse por determinados encontros.          Você gosta de encontrar-se com crianças, você vai para um território de teorias. Você gosta do sujeito normal, aí é outro… interesse por determinados encontros.Alem disso, implica “I”, que é idéias. Nós não sabemos ainda o que entender por idéias, vamos deixar isso de lado. E implica C, os conceitos, que vão do mais operatório, técnico, estrito senso, como a idade, até os mais aparentemente abstratos. O próprio conceito de psicose. Quando me aventuro a um dicionário de psicanálise, é difícil pegar, ele não consegue localizar direito. Pega um dicionário qualquer e fica vagando pelo vocabulário do psicanalista, do filósofo, do físico, etc. O conceito do Freud é uma certa operação da fala, do olhar, e outros que ficam como uma tópica.Vamos agora descer pro território mais especifico dessas palavras. O que é que “E” está implicando? Eu vou dobrando, dobrando e encontro dobras. É uma técnica importante pra quem admite que o bicho é complicado. O que é que está implicando? Não é adesão imediata a uma explicação. O que é que os encontros, o interesse pelo encontro, está implicando? Se há interesse por algo, eu tenho que acionar em mim uma certa abertura. Então “E” implica uma abertura sensível; uma abertura intelectual; uma abertura ética e outras aberturas, claro.Uma teoria física, às vezes precisa enxergar o que ele ta falando. Precisa da abertura sensível de vocês, que vão refinando sensibilidades, ou não. Toda uma gama de implicações quando fala que a abertura sensível tem suas implicações.

Olha, Foucault, é isso aqui:

Veja bem, vamos distribuir. Do ponto de vista do saber e da sensibilidade ele tem essa dupla face que Foucault viu nessa face do saber. Uma face, que é a da visibilidade, por conta do sensível, é uma fase da “divisibilidade”. Então quando você diz que “E” implica abertura sensível intelectual, eu estou falando do saber. Quando você fala “eu preciso saber”, você tem esse duplo jogo: o jogo do ver e do dizer. Isso é uma conquista moderna, pós-fenomenológicas entre ambas as formas do saber (ver e do fazer) há uma correspondência não biunívoca, ou seja, eles não se recobrem exatamente. Eu digo que tal coisa é tal outra, como “aí está essa mulher”. O meu dizer está batendo com o meu ver. Há uma correspondência entre a pressuposição recíproca entre o ver e o dizer. Esse bicho chama ser humano, o diabo não para de falar, de ver e de dizer às coisas que vê. Essa abertura sensível e abertura intelectual, do ponto de vista de ver, sentir e dizer, é uma chave complicada porque não se recobrem exatamente. Eu chamo de estrela da tarde, e estrela da manhã, mesmo corpo. É o intelecto que vai descobrir, e não o olhar. Então, há sempre essa dificuldade que é a velha dificuldade que os filósofos traduziam em termos de essência e aparência. O que aparece não é necessariamente verdadeiro, o verdadeiro se esconde atrás da aparência… Esse jogo. Nós podemos dizer isso de outro jeito: entre o ver e dizer há pressuposição recíproca porem não por semelhança. No fundo você está esquizofrenizando o jogo entre os sentidos. Aristóteles também via que o senso comum era passível de erro porque ele tinha mania de juntar coisas que cada sentido percebia diferentemente. Então como é que uma única palavra pode capturar? É abusivo. E assim vai. Mas o que eu queria chamar atenção no desenho do Foucault é outra coisa: essas duas formas do saber, do ver e dizer, são historicamente configuradas, elas se cruzam historicamente de maneiras diferentes. E isso que ele está chamando de diferentes, aquele A1 e A2… onde é que nos estamos? Estamos na intersecção, onde há um arquivo, A1 e um arquivo A2, o que é um arquivo? São as formas de ver e dizer que estão nos tomando em A, que mostram seus limites, suas competências, suas crises, e formas de dizer, e ver, que já começam a perturbar-se, anunciando um novo arquivo que não dominamos ainda.Vivemos na intersecção de algo que conhecemos e estar a ser incompetente e algo que esta a ser competentes, cujo conjunto não dominamos ainda. Quando viermos a dominar, estaremos nessa intersecção, um arquivo A3 que ainda não dominamos. Então você olha e “ah! Esse cara está ficando louco”. Século XIX e o cara está falando isso…  Mas que absurdo! Ou seja, num certo momento do século XIX da biologia, não havia formas disponíveis do dizer e do ver que seriam capazes de absorver esse padre da biologia e da genética. Mendel cai num arquivo, com ele brotando um novo arquivo. Havia uma polícia discursiva que não via e não sabia do que se tratava esse Mendel. Não havia formas do saber capazes de absorver a novidade. A inovação pode ser de tal modo que o sujeito fique isolado. Heróis do pensamento, da novidade trazidos ao mundo, mas por uma pressão, porque a pesquisa já havia. É um passo, que às vezes, por acaso, o sujeito deu.Aqui no Brasil citei uns exemplos contra a vacina… bom, enfim. Quando eu estou falando em abertura sensível, intelectual, eu estou falando disso. O diabo é que você não abre por conta própria. Esse é o fenômeno engraçado. É nossa diferença com Heiddeger, com Merleau-Ponty. Nós vivemos em chaves de costumes. O Nietzsche reúne tudo isso na idéia de rebanho.Tudo bem, nós sabemos que somos um rebanho. Mas vamos pelo menos abrir para a intersecção. Vamos fazer uma experiência no limiar do nosso arquivo. Não por vontade narcisista de originalidade. Mas porque os acontecimentos da nossa situação pedem um pouco mais de atenção. Agora voltando: o “E” implica abertura sensível, intelectual e ética,Quando falei ética, é só acrescentar, como se fosse Foucault dizendo… As formas de saber são sensíveis a um jogo de forças e é isso que Foucault chama de poder. Sou orientador, e preciso… isso é um poder que está pondo sobre você. Por exemplo, na divisão de verba de filosofia, você tem mais X que Deleuze. Por quê?

De onde vem isso? São jogas extra… sempre há isto. Faz parte, né? Você tem amigos na FAPESP, ou não? Onde vai cair a análise do seu texto? Há um jogo engraçado. Pra você não prejudicar as pessoas, a FAPESP, como outras instituições de financiamento, você não sabe quem é o parecerista do seu projeto.

Então é uma linha de ataque único. Você não pode descobrir, pela questão da ética. Então você fica a mercê daquele que te conhece. É uma merda. É uma merda na qual estamos embutidos. Ética é que esse interesse por encontros implica saber ver, saber viver, saber dizer, saber analisar, etc. mas implica também num jogo ético no qual o que está pulsando são processos de subjetivação, por isso é ético.

Você está compondo o seu paciente como mero objeto, como um auxiliar de seu autodomínio? Que tipo de jogo você está fazendo com aquela subjetividade, e nisso já está incluído a sua subjetividade. Que sujeito estou sendo em relação a esse bicho? Que subjetivação ele está sofrendo? Estou pressupondo que na cabeça de vocês já existe a idéia de que não existe individuo pronto. Há sempre uma individuação constante. É uma forma de saber que não é nossa. Se eu radicalizar eu digo “Não há sujeito. Há costume de um eu que vai se fazendo.”. Ao dizer processos de subjetivação é que o bicho não está pronto. Bom, processo de subjetivação.Então, o interesse por encontros implica abertura sensível, intelectual e ética… abre ao que? Ao bicho que já está te abrindo ou fechando. Implica abertura há algo que já está funcionando, te abrindo e fechando. Que nome dar a esse troço que me abre e fecha?  Que nome dar a isso? Vamos transformar tudo que vocês encontram em acontecimentos. Um campo problemático de acontecimento. Eu to fechado ao que está acontecendo com o Lula. Eu estou aberto, eu estou triste, porque votei num filho da puta que não ta fazendo o que prometeu. Não estou contente, não me delicio com a miséria. É totalmente isso. Confiar, e uma grande população se depara com essa tristeza. Então, um campo problemático de acontecimentos. É preciso que haja um campo de acontecimento que abra e que fecha.Esse moleque me fecha, esse moleque me abre. Estou mais puto com ele que deveria estar. Vou bater nele. Bom… tudo bem. Aí completa a idéia. Vamos completar a idéia. Esse interesse por encontros implica abertura sensível, intelectual e ética a um campo problemático de acontecimentos… e o que ocorre nesses acontecimentos?

Eu acabei de falar mal do Lula. Objetivei como um cretino que não mereceu meu voto. Ocorre o que nesses acontecimentos? Ocorrem processos de objetivação (você fazer do seu paciente um objeto e o destrói), processos de subjetivação (ver o bicho emergir como um sujeito cada vez mais interessante – eu estou esperando que o presidente vire essa coisa), processos de significação (porque eu estou usando a linguagem) e processos, finalmente, de expressão de sentidos – essa coisa mais nebulosa, que eu ando sabendo bem o que é. Emerge num negócio assim: “ – Catzo, o que está acontecendo?”. O sentido do acontecimento está divergindo. E é aí que as aventuras das formas do saber titubeiam mais ou menos. Que sentido dar a essa destruição que está acontecendo no governo? Ou então na clínica? Que sentido está aí pulsando, que eu não consigo dizê-lo? Porque eu dei as significações linguajeiras, dos gestos, mas o sentido não se esgota naquilo que eu estou dizendo. Ele está fugindo, eu não estou conseguindo dizer o que está acontecendo.Esse tipo de coisa que está embutido naquela letra “E”, interesse por encontros. Bom, isso daí é o “E”. Agora vamos para o I. Vocês têm essa frase inteira, então?

A frase inteira eu vou repetir: “O interesse por encontros implica abertura sensível, intelectual e ética a um encanto problemático de acontecimentos onde ocorrem processos de objetivação, de subjetivação, de significação e de expressão de sentidos. Pra essa última frase (processos de subjetivação, objetivação, significação e expressão de sentidos), vocês têm na bibliografia possível, já cito agora para engatar, porque tecnicamente bem definido e já colado a problemas de análise de situação psicológica… quem explorou bem isso foi Mara Selaibe. “Ensaio Clínico sobre o Sentido”, de 2003… Uma das séries de um livro chamado “Lógica do Sentido”, onde o autor Deleuze estuda as quatro dimensões de uma proposição: A objetivação, quando eu digo “esse microfone”, que é a relação da palavra com esse “fora” imediato.

Uma subjetivação, que é o que sinto ao dizer microfone. Significação que é a palavra microfone no campo lingüístico da língua Portuguesa e todos seus significados. E sentido, que é uma dimensão que foge dessas três outras. Isso daí é uma subversão da Teoria dos Sentidos.  O sentido como não imediatamente desliga pelo jogo simples da linguagem. Como se eu dissesse com isso “as significações aprisionam o sentido do rebanho.” O sentido escapa, e é isso que eu tenho que trabalhar.

Bom, I. Aqui eu estou um pouco mais…do Deleuze, por uma razão que eu posso justificar, mas não é o caso agora. As idéias… É um estado meio rebelde que eu vou expor agora, porque eu reconceituei um pouco as coisas… As idéias implicam (dois palavrões agora que fazem parte da tradição complicante) virtualizações e atualizações. Pra conectar com a história da filosofia, se vocês tiverem curiosidade… Antigamente, se dizia que o conceito diz o possível, e a atualização eles diziam realização. Então você tem o possível e a realidade. Essa equação que nos coloca no centro do universo, no fundo está dizendo o seguinte: o homem é capaz de enunciar em conceitos o possível da realidade. Como que o Nietzsche chama esse homem aí? Chama de “Intelecto altivo”. Cega em relação ao que ela pode. Como é que você, com seus míseros conceitos, pode achar que você está enunciando a possibilidade da realidade? Como se a realidade fosse menos e o conceito mais. Hegel embarca nessa coisa de conceito é igual ao real. Iguala saber é igual. Ou seja, vamos ser menos altivos, e admitir que desde o nosso corpo a realidade nos escapa, escapa aos nossos conceitos. Ela é escapante. Então vamos fazer outro jogo com a realidade. Vamos ser mais modestos e dizer as idéias, lógico que tem a ver com a realidade. Elas são realidade. Faz parte do mundo ter idéias. Nós circulamos por idéias. Mas elas não são o possível do real. Elas são meramente virtuais. Então você tem as virtualizações, aventuras de virtualização, que são reais, e você tem as atualizações. Ela sai de um estado e cai em outro estado. Ou, elas estão em um estado de virtualidade e, de repente, estão em um estado de atualidade. Vamos clarear isso aqui.Vamos dizer assim: em sua dimensão virtual, a idéia implica – você ta vendo que eu evitei o que ela é, vou dizer o que ela implica como atividade nossa, pois nós queremos ter idéias – a idéia implica a esquematização de relações e elementos (depois eu dou um exemplo) que co-participam daquilo que se pretende, que se trata de estudar.Vou dar um exemplo: Suponhamos que a relação triárdica freudiana seja um esquema desse tipo.

Você tem esquemas de relações, então a teoria dele implica a idéia, o triângulo Edipiano, implica uma antevisão de relações, implica elaboração de relações no plano mental. Há relações que você esquematiza, os formaliza, pensa como pode ser, que tipo de linhas existem entre pai, mãe e filho. Ou então você evita o pai, e esquematiza de outro jeito – mãe e filho – e esquematiza de outro modo, ou seja, elimina a determinação sexual do triângulo, vou ficar com a bíade, mãe e filho, no nível do jogo das emoções e vou estudar o desenvolvimento emocional. Estou esquematizando os elementos mãe e filho. Agora você vai, mãe e filho, cai na realidade. Ou seja, sai da virtualidade desses elementos virtuais “mãe” e “filho”, e vai pra mãe e filho aqui, agora. Então, na sua dimensão atual, o que a idéia faz? O que a idéia é? Ela é a discriminação. Você pode deter esse triângulo na sua cabeça, mas sem a atualização você não faz nada. Você vai discriminar ali na realidade, do modo como essas relações e elementos estão encarnados. Se atualizam. Se encarnam. Seria o mesmo que dizer que a idéia implica um modelo mental de pesquisa e enfim, a sua atualização. Só que nós não podemos aceitar a palavra modelo, nós dizemos virtual. E virtual é coexistência, vou dar uma elucidação a esse respeito, senão fica obscuro. Por que a virtualidade é real? Por que ela não é mera habitante da minha mente? De onde eu tiro essa possibilidade de dizer isso? Um exemplo bergsoniano ajuda a esclarecer. Você tem a palavra “cores”. O verde é uma cor, o amarelo é uma cor, o branco, etc… Essa palavra “cor”, todavia, é palavra.  Qual é o pecado dessa palavra? Que a desgraçada é indiferente às cores. Como as mangas são indiferentes às mangas.             As folhas são indiferentes às folhas. Se for ficar só nisso, é só uma crítica a linguagem. Agora vou dizer o seguinte: o que pulsa entre as cores – e virtual é isso, é pulsação entre – o que pulsa entre as cores, é o que faz delas coisas diferentes. Cores diferentes. O que pulsa entre as cores vai dizer o que é coexistente a multiplicidade cores, o que é imanente a multiplicidade cores, é o fluxo de matizes entre elas. O diferencial entre elas. Com a palavra virtual, estou olhando para esse lugar de coexistência. Como é que a relação triárdica efetivamente coexiste aqui, agora, na relação “pai-mãe-filho”. Aí eu tenho a possibilidade de verificar que as palavras te dizem o virtual. Volto a aplicar o modelo triárdico amarrotando aos interesses. Vou aceitar o jogo de Freud. O que ocorre aqui, agora, com pai, mãe e filho? Com todas as aberturas que eu possa fazer no primeiro estágio. Eu quero o virtual que está pulsando ali. Eu estou armado com as palavras, relações e elementos abstratos. São diagramas de operação das minhas observações. Mas eu quero ver agora como é que se modula o triângulo aqui, e agora. Como é que isto está se operando sem que a futrica das palavras tomem conta de mim, sem que o modelo se imponha. O que deve impor-se a mim é a busca do virtual que está efetivamente pulsando.

Aí eu vou ver se cabe ou não no triângulo toda a coexistência possível entre pai e mãe. Se eu preciso ou não abrir ou fechar. Se eu posso dispensar o pai. Se eu posso abrir uma brecha pra outras coisas intervenientes. É isso a atenção ao virtual: é atenção ao que coexiste no arranjo efetivo dos elementos do meu caso. Por isso que eu digo: eu não sei o que ele é em palavras, é por isso que ele não é mera significação. Eu sei o que ele é, eu sei que ele só é sendo efetivamente coexistente aos matizes. Ele é coisa de matizes, ele é intervalar, ele é inter, ele é pulsação intervalar. Não é fácil dizê-lo. Ele é parente do sentido que sempre escapa, esse virtual. Provisoriamente você usa as palavras boas que você possa encontrar, pra dizer “a minha idéia é a seguinte: há relações A, B e C, e elementos A, B e C. Como é que aqui, agora, isso ocorre? Vou dar exemplo do velho marxismo: há relações de produção, há relações de apropriação real e relações de propriedade, pra dizer mais rigorosamente. Relações de apropriação real, o que é isso? É a transformação da natureza através das relações. Eu tenho uma relação com o meu operário, eu sou um técnico que inventa maquinas e o operário vai operar essas máquinas. Então você tem uma relação operatória de invenção e uma relação operatória de aplicação, de efetuação. Essas relações operatórias, essas relações de atração de propriedade, ou seja, no fundo nós trabalhamos pra lucro do patrão. O sujeito que é não trabalhador e proprietário e outro que é trabalhador e não proprietário. São relações de apropriação da natureza e relações de propriedade, no fundo de apropriação da mais valia. Do outro lado: elementos. Mão de obra, que é o que? São pessoas? Não, ele não é uma pessoa. Enquanto elemento ele é virtual, ele é suporte de mão de obra, suporte de trabalho, ele é força humana do trabalho. No fundo, energia calculada como gasto, x de energia. É, é uma quantidade. Aí você vai à realidade de uma fábrica. Pronto. Você vai atualizar aquilo. Aquilo é realidade: você vai numa fábrica e vê como isto é. O patrão é um patrão. Bom, esse cara não está trabalhando, ele não é só… Começa a complicar. Ou ele é isso, ou ele é aquilo. O operário é um merda de um conservador, não faz isso, não faz aquilo. Aí você vai ver como a coisa é. Então não há relação de semelhança entre o virtual e o atual. Há operações distintas, diferenciações distintas.

Você pode mexer no virtual nas idéias, na dimensão virtual da idéia, no caso essa aqui, e pode mexer de outro jeito na atualização. O importante é ver o que está efetivamente apta, atuando como coexistência lá no atual. Com que intensidade ocorre as coisas. E aí vai. Então, a idéia é o território aparentemente muito longe, mas é esse jogo complexo entre o encontro, onde eu tenho atualizações e virtualizações. E a idéia entre essas duas dimensões. Ora, como eu falei: entre o encontro e a idéia tem esse território aparentemente mais fácil, que é o último termo, que são os conceitos.Que são os conceitos? Os conceitos são operadores flexíveis das expressões que procuram estabelecer correspondências entre idéias e encontros. Você tem uma idéia de corpo, de pertença. Alguém acha que pertence a coisa. Por enquanto ela é uma virtualidade, o como ela pulsa na atualidade daquela família, se ela pode dizer efetivamente o que impregna os elementos da família no atual, e como impregna. Ou seja, no fundo você tem que procurar ver como a idéia que você tem, mesmo ainda muito abstrata – não vou falar no conceito porque ela não tem ainda a função de operar a junção dela mesma, idéia, com o caso, com o encontro – ver como pensá-la como um imã, se ela imanta bem, ou se ela não imanta bem os partícipes do encontro.    Se ela é contaminante, realmente impregna, se ela liga, ou se fala “olha, essa aqui não funciona, desloca do esquema, não está funcionando”. E os conceitos, eles operam, são elementos fortemente críticos, já não são um mero conceito que Nietzsche critica, eles são conceitos plásticos, eles são flexíveis, no sentido que ele se coloca a serviço do caso, que não amarrota o caso, eles procuram os diferenciais da situação.           Então os conceitos são operadores flexíveis das expressões que procurar estabelecer conexões com as correspondências – essa palavra é toda cheia de espinho. Correspondências entre idéias e encontros. Correspondência, pra não dizer, não representa. Correspondência aventureira, sempre precária, sempre pontilhada. No fundo, as praticas fazem isso muito mais rápido que esses quadros formais.

Bom, então, o que eu fiz embaixo foi um quadro de liberação teórica. Vocês já olhando já descobrem do que se trata. Suponhamos na teoria T1, T2, T3 seja sistema epistemológico, filosófico, seja o que for. T1, com seus conceitos: conceito 1 da teoria 1, conceito 2 da teoria 1, conceito 3 da teoria 1, conceito n, da teoria 1 (seria n, pois não tem fim). O que é que no fundo eu estou convidado vocês a fazer? Você tem duas atitudes, digamos, possíveis, como que pendulando na cabeça da gente. Acabei de mostrar criações minhas aqui, e ao mesmo tempo atrevimentos diferenciados. Vocês podem fazer uso obstrito de filiação, eu ia dar como exemplo dois exemplos de filiação, que é em Piaget e depois o texto do Loparic, que é muito bom, mas epistemologias por filiação. Ou seja, sou um psicólogo que procura estudar o desenvolvimento cientista da inteligência desse menino, desse adolescente. E uso a epistemologia genética do Piaget. E faço uma linha da epistemologia a psicologia pela ligação de um estruturalismo genético de Piaget. Bonito, bem feito, década de 60, estruturalismo durou até certo tempo, depois… enfim. Mas não é problema de moda. Nenhuma teoria perde o direito de ser revisitada. Então tem gente que vai, que volta. Mas você pode estabelecer uma linha filiativa pro seu trabalho. Mas você pode estabelecer, ou então você faz uma ligação de Winnicot, a epistemologia do Kuhn, e a filosofia do Heidegger. Se você não quiser discutir muito, só posso discutir que a coisa não começa com a morte com o nascimento de “???”, porque tem coisas antes do nascimento e tem coisas depois da morte. Posso discutir e complicar um pouco o esquema de aplicação imediata do Heidegger, ou então usar qualquer coisa. Por exemplo, se eu começo a ler como é que o Winnicott trabalha, é uma coisa maravilhosa. Se todo psicólogo fosse atento como ele é ao caso, não teríamos muito problema de escolha, atento ao que eu digo, pelo menos em coisas de teoria, etc, etc,. Mas como atitude, como abertura, o Winnicott pessoalmente, não estou falando de teoria nenhuma, é uma atitude de abertura, de coexistência efetiva com o caso, pelo menos, uma ou outra coisa que li dele permite, então é como se ele falasse assim: olha, garoto, vamos pensar junto seu troço, me ajude. É o que Nietzsche dá como recado. É preciso pedir auxilio a coisa para dizê-la. Pergunta: por que o problema dele de usar o conceito, o paradigma do Kuhn?Veja, eu acho apenas o seguinte: quando você tenta dizer a ruptura paradigmática é sempre, digamos, forçando um pouco. O jogo efetivo das ciências, ou então dessa coisa mais complicada, de nós não sabemos aonde se por direito as psicologias, há tremores entre as teorias que a idéia de que aqui funciona tal paradigma e aqui outro, é um pouco como eu chamar a variação das flores e das folhas como folha. Eu tenho aqui folha de mamoeiro, e aqui folha de bananeira. Se eu for à promiscuidade de um quintal, e é sempre disso que se trata, eu vou observar alguns bichos, besouros, que estabelece entre essas folhas, elos, um “E” coletivo, de tal modo que elas comecem a entrar em podridões das mais interessantes.    Então eu já não consigo falar “bom, aqui o jogo da diferença é outro: por intervenção de besouros – ontem eu vi esse programa na Cultura sobre besouros. Como existem besouros! É claro que entre Winnicott e o Freud tem muito besouro. E que você pode nomear a mudança. Isso é um esforço bom, tranqüilo. É um direito achar essas coisas, acho interessante. Mesmo porque, já ganhou isso pronto. Só que eu acho que nós podemos ter cuidados coexistentes também. De repente você encontra outra linha pra dizer que a rebeldia de Winnicott passa por aqui também, também por aqui. Então há muito trabalho a ser feito, não segurar por filiação. O Loparic não esqueceu nunca o Kant, que ele sabe muito bem. Qualquer hora a gente volta a isso.

O complicatio tem, no livro que eu indiquei, tem Kuhn, tem complicatio , nesse debate do paradigma, do não-paradigma, é um negocio que continua porque tem uma razão de fundo nesses paradigmatizantes, que é o seguinte: num determinado momento da sua filiação, a uma determinada linha psi, você de repente encontra no encontro privilegiado que está tendo na clínica, você encontra motivo para mudar a problemática anterior.    Esse é o fundo interessante do paradigma, que é mudar a questão, variar a questão.Olha, aí pra ser maldoso com o Loparic, eu diria “eu não preciso do Kuhn pra dizer isso, porque esse cara vem a reboque de uma filosofia bem mais trabalhada. Eu posso pensar isso a partir de Deleuze, com a idéia de que o que importa para um pesquisador é inventar novos problemas. Criar, co-criar, não é bem uma invenção intelectualista separada. Mergulhado no caso, variar a questão, o problema. Qual é o critério? E é isso que vamos enfrentar na outra aula.

Eu posso fazer quaisquer junções de conceitos, de quaisquer teorias, mesmo que eu não tenho a minha, eu já estou formando, mas não é a minha, não é a filiativa, é uma linha de alianças. O que eu estou privilegiando é a aliança. Eu, pessoalmente, gosto da idéia de aliança, e não de filiação. Eu fui expulso de duas etnias: da italiana e da brasileira, porque eu era misto. Então, eu estou acostumado a não aceitar filiações. Eu tive amigos que prezavam seus sobrenomes. Eu rachei o meu sobrenome, em varias situações, e joguei fora até pedaços deles. Pra que filiar-se? Partido, nunca entrei nesse troço de PTB, voto, mas não gosto da idéia de filiação. Então eu reconheço que é inevitável a filiação, porque as vezes ela é super poderosa, e te convence. O recado qual é? No interior da filiação, micro alianças. E é isso que é produtivo. Muitas vezes você não tem tempo, não tem várias vidas pra viver sempre novas alianças. Tenho que brigar e todavia estamos mais ou menos no mesmo campo paradigmático. A idéia de resistência não pode ficar na frente da idéia de afirmação diferenciada. Eu posso, é claro que, ao resistir, eu posso falar “eu estou resistindo mas com que ajuda?”. E então eu pego uma afirmação diferenciada, que me ajuda na oposição. Mas, o primeiro já foi essa afirmação diferencial a qual eu estou recorrendo agora. Ou seja, no fundo, o que eu acho? Que a afirmação diferencial é ontologicamente primeira, em toda a parte, mesmo que eu não saiba que eu já estou embarcando nela. Então eu me filio, tudo bem. Mas isso é o rebanho que me fez. É a fatalidade do ensino, da educação, da falta de contato, dos encontros. E depois lá dentro começa a mexer, começa a surgir, esse besouro.

[1] Faz referencia ao nome da disciplina, que é “Epistemologia E Psicologia” no núcleo de estudos e pesquisas da subjetividade (NEPS), em 2003.

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