Hitler descredenciado do pós-graduação. Humor sem ironia na semana do professor

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As instituições de ensino, tal qual se erigem atualmente, têm muito para corroborar com uma demasiada formação/formatação, a partir do ideal de tornarem-se “centros de excelência”, em que se formem os ditos “melhores profissionais do país” e nos quais se produza o denominado “conhecimento de ponta”. Percebida como vocação natural, pouco se destaca que essa aspiração, entretanto, favorece um modelo terrível, pois os excelentes são – e devem ser – poucos (questão agudamente assinalada pelo professor Sidnei José Casetto do Deptº de Ciências da Saúde da Universidade Federal de São Paulo), a excelência nos campos de conhecimento encerra-se como valor em si, essencial, interessada no poder de capitalização e mercadologização das pesquisas, em formas mais explícitas e outras mais sutis, que redundam na possibilidade de tornarem-se excelentes, secundarizando os aspectos de formação crítica do pensamento, alçando um pensamento que não se pensa. Conforme indica Deleuze (1992, p.225), no âmbito das sociedades de controle, isto implica “o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdução da “empresa” em todos os níveis de escolaridade”. Valorizam-se a especialização e, particularmente, a autoria de trabalhos como indicadores do desenvolvimento acadêmico, o que convoca à ininterrupta produção, inclusive na maneira de viver e nas relações com outrem. Nessa configuração, o científico tende a ser naturalizado; o ensino, mesmo o público, a operar na lógica da empresa; o cognitivo, a hipertrofiar-se, e o tempo, a acelerar-se de forma vertiginosa.

Um certo tipo de saber torna-se hegemônico,  bem como a demarcação clara entre quem o domina (e pode transmiti-lo) e quem dele necessita (e precisa recebê-lo). A formação desenha-se nestas linhas, reforçando o ensino verticalizado, o preenchimento máximo da “grade horária”, a preferência por um perfil competitivo, e a impaciência dos estudantes com conteúdos que não tenham aplicabilidade imediata. Talvez na formação, contemporaneamente, não possamos falar tão-somente em moldes ou fôrmas, isto é, formatações rígidas de modos de sentir, pensar e fazer. Importa, hoje, ressaltar outros movimentos, espécies de modulações, ondas de autodeformação contínua, que fixa-se ora em modos mais impermeáveis, ora em outros mais abertos e porosos. Com isso, haveria linhas de fuga, saídas, novos espaços de resistência e invenção. A todo o momento, nas salas de aula, nas intervenções, escavamos novas e difíceis saídas.

Saídas instaurando um espaço de ensino e partilha do sensível, numa espécie de paralelo à exigência da produção de papers e da contagem de pontos nos curricula e relatórios acadêmicos. Na lógica que articulamos na formação (de professores), se tivermos de contar pontos, será para preservar nichos de desregulagens: já que na formação temos a oportunidade de experimentações com sensibilidades in progress, podemos aproveitar para solapar alguns imperativos ditos racionais. E assim, desertarmos a pressa, a produtividade, a concorrência, a previsibilidade, a especialização. Podemos exercer, treinar, aproveitar para a sala de aula pequenas táticas não reificadoras, exercícios de invenção, de paciência, de lentidão, de gratuidade, de atenção, de angústia aceita, de dúvida, enfim, exercícios de resistência e largueza de alma.

Sabe-se que o fato de haver jovens estudantes, professores em formação, nas universidades não garante a possibilidade de uma configuração inventiva. Em muitas situações, a juventude também pode compor com a mais conservadora das culturas. Para uma grande parcela dos que ingressam na universidade, o que parece estar menos em questão é cuidar de sua formação, pois já chegam aos cursos demasiadamente formados: alguns, paradoxalmente, muito jovens e muito fechados em certezas. A questão não é apenas a da juventude; em alguma medida, trata-se do desafio de deformar, de abrir espaço na forma/fôrma, de tornar porosa a blindagem a que todos – não só os futuros professores – estamos submetidos.

De modo geral, estes professores em formação pouco têm inventado em termos de estratégias de resistência que permita introduzir mudanças nos funcionamentos conservadores. Há algumas décadas, havia a crença de que os jovens seriam capazes de produzir marcas ético-estético-políticas com suas mobilizações. Entretanto, isto se tornou gradativamente mais e mais difícil. Não é que a juventude tenha hoje se tornado menos interessante, mas as formas de ação que eram úteis no passado perderam sua efetividade. Muitas manifestações continuaram ocorrendo, em todas as grandes cidades do mundo, com milhões de estudantes nas ruas, sem serem consideradas seriamente pelas instâncias políticas, e menos ainda pelos meios de comunicação de massa, que preferem neutralizar o impacto destes protestos. Mesmo as pequenas rupturas são sentidas como profundas rachaduras num gigantesco iceberg flutuando no mar: alterar sua trajetória, para muitos, parece ser um projeto difícil, tendendo à rendição.

Pensar a formação de professores na chave da deformação pode ser uma estratégia eficaz para acompanhar dois movimentos: um primeiro daquilo que está desistindo em um grande cansaço, e um outro, por vezes concomitante, daquilo que está se gestando no registro do sensível e dos processos de aprendizagem. Isto exige um tanto de solidão e disponibilidade, não só para as formas acabadas que parecem definitivas, mas especialmente para as forças do coletivo, que produzem outras formas vivas (esgotadas) de pensar, sentir e colaborar. Essa esfera do sensível é, paradoxalmente, invisível, imperceptível, impalpável, às vezes molecular. O que não significa que seja para iluminados ou videntes, nem que sejam segredos ocultos. São coisas para as quais, em geral, não estamos disponíveis, saturados que estamos pelas formas acabadas, paradoxalmente debilitados e potentes, a experimentar as fissuras, os desfazimentos, os esgotamentos.

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