A utopia asséptica

A consigna central de um evento favorável a uma sociedade sem manicômios, embora óbvia e cristalina, é das mais espinhosas.A cada vez que se tenta problematizá-la em profundidade,uma vertigem se insinua no discurso, como a querer mostrar que talvez se esteja enriquecendo o pensamento, mas paralisando a ação. Risco constrangedor, sem dúvida, o de ver um questionamento radical funcionar como um dormente ideológico.Alguns dirão que essa desmobilização é própria do ofício de pensar. Tolice, obviamente. Quando praticado com audácia, quando há coragem de levar as questões até seu extremo, aí o pensamento necessariamente deixa de ser um sonífero da práticapara tornar-se ele mesmo ato político.A idéia de uma sociedade sem manicômios mereceria enfim ser problematizada desde a base. Não para que seus termos sejam recusados, mas ao contrário, a fim de que eles sejam radicalizados, isto é, para que ao mesmo tempo se entendam os seus limites e se estenda o seu alcance. O que só é possível, como tentarei mostrar a seguir, se evitarmos que a idéia de uma sociedade sem manicômios se esgote em sua evidência primeira.É preciso que este chamamento de apenas três palavrinhas —SOCIEDADE SEM MANICÔMIOS – recupere a força de uma questão candente. A pergunta mais geral que merece ser colocada inicialmente é a seguinte: o que significa de fato, no plano da cultura, essa  utopia asséptica de uma sociedade em que os loucos não mais estariam confinados nos asilos, nem discriminados nas famílias, nem segregados no trabalho? Quando derrubarmos definitivamente os muros do manicômio e acolhermos entre nós seus inquilinos, quando passarmos a considerá-los serenamente como nossos vizinhos, em suma, quando os loucos passarem a fazer parte integrante de nossa paisagem cultural e antropológica a mais cotidiana — aí, nesse futuro longínquo mas a cada dia mais próximo, o que acontecerá efetivamente com os loucos, e com a loucura?Trata-se de saber, primeiramente, se faremos com os loucos aquilo que já se fez com homossexuais, índios, crianças ou outras minorias — ou seja, definir-lhes uma identidade, atribuir-lhes um lugar, direitos, reconhecimento, até mesmo privilégios— mas ao mesmo tempo torná-los inofensivos, esvaziando seu potencial de desterritorialização. Por potencial de desterritorialização entenda-se esse poder secreto e admirável de embaralhar os códigos, subverter as regras do jogo e transpor ou deslocar os limites, sempre de outro modo, seja através de um devir-bicha, de um devir-negro, de um devir-nômade ou de um devir-louco, e ora assumindo um rosto estranho, ora ameaçador, sacrílego, herege, criminoso ou delirante.

Ao borrarmos essa fronteira simbólica e concreta entre a sociedade e seus loucos não estaremos, sob pretexto de acolher a diferença, simplesmente abolindo-a? Não estaremos, com um carinhoso abraço de urso, conjurando o perigo que os loucos representam? Não estaremos, através de uma tecnologia soft,baseada na brandura e na diluição, domesticando a fera que os habita e nos livrando da estranheza que eles transmitem? Para dizê-lo de modo ainda mais incisivo, será que a libertação do louco não corresponde, no fundo, a uma estratégia de homogeneização do social?

Com isso entro na segunda série de questões que caberia levantar, relativas à nossa cultura. Quando os loucos já forem nossos vizinhos pacíficos e estiver diluída sua singularidade, o que restará da loucura, ou melhor, da dimensão desarrazoada que até hoje tem sido monopólio quase que exclusivo dos próprios loucos?

Que me seja permitida uma pequena distinção conceitual entre louco e o que aqui chamei de loucura. Por louco entendo esse personagem social discriminado, excluído e recluso. Por loucura, que em trabalho anterior designei por desrazão, entendo uma dimensão essencial de nossa cultura: a estranheza, a

ameaça, a alteridade radical, tudo aquilo que uma civilização enxerga como o seu limite, o seu contrário, o seu outro, o seu além.

Nem sempre coube ao louco a tarefa de encarnar a desrazão. Em épocas mais remotas essa dimensão estava embutida na Natureza (antes que ela se transformasse em mera reserva material disponível para uma dominação tecnológica), ou no Sagrado (antes que a Ciência recentrasse nossa cosmovisão),ou na Mulher, ou no Artista, ou no Judeu (ou até, em certos momentos de febre revolucionária, no próprio proletariado).Data de apenas três séculos a confluência de parte desse índice de desterritorialização ou, para usar palavras mais simples, a concentração de parte dessa força de disrupção, predominantemente na figura do louco.

Seria possível concluir, com um certo esquematismo, que o louco, esse tipo social criado e isolado a partir do século XVII e sobre quem depois se construiu um saber médico e psicológico, recebeu a “incumbência” de levar em seu próprio corpo uma dimensão desarrazoada que o precedeu de muito. A desrazão não nasceu com o louco nem coincide com ele.

A pergunta provocativa que caberia relançar a partir dessa hipótese é se nós realmente desejamos eliminar de nosso horizonte aquilo que é o outro de nossa cultura — a desrazão. Será que nós realmente queremos que desapareça de nossa frente a estranheza, a alteridade radical, a transgressão absoluta, a disrupção do humano — tudo isso que por uma série de razões históricas tem sido o encargo simbólico dos loucos?

Formulando todas essas perguntas desta forma e nesta sequência corremos, é claro, alguns riscos sérios. O primeiro é o da mistificação e idealização da loucura. O segundo é o de nãolevar em conta o sofrimento concreto dos loucos que alguns de nós, trabalhadores em saúde mental, que convivemos com eles diariamente, conhecemos de perto.

E, finalmente, o risco maior, o de chegarmos ao seguinte dilema estapafúrdio: ou mantemos os loucos confinados nos asilos e pelo menos alguém segura para nós a bandeira da desrazão, nem que seja às custas do sofrimento deles próprios — ou evacuamos os manicômios e acolhemos os loucos entre nós, mas abrimos mão, ao mesmo tempo, da desrazão.

Se deixamos aflorar este dilema absurdo, foi só para mostrar de forma mais aguda os riscos teóricos e práticos que rondam a questão em jogo. É óbvio que não se trata de fazer a apologia do confinamento manicomial. Mas é preciso insistir desde já que não basta destruir os manicômios. Tampouco basta acolher os loucos, nem mesmo relativizar a noção de loucura compreendendo seus determinantes psicossociais, como se a loucura fosse só distúrbio e sintoma social, espécie de ruga que o tecido social, uma vez devidamente “esticado” através de uma revolucionária plástica sociopolítica, se encarregaria de abolir.

Nada disso basta, e essa é a questão central, se ao livrarmos os loucos dos manicômios mantivermos intacto um outro manicômio,mental, em que confinamos a desrazão.E isto por uma razão histórica muito simples. Em seu  magistral estudo sobre a loucura, Michel Foucault mostrou que no mesmo século em que se decidiu pela primeira vez na história do Ocidente europeu enclausurar de forma sistemática os desatinados,ao invés de deixá-los vagando nos campos ou à deriva dos mares e rios, como se fazia na Renascença, no mesmo século XVII Descartes, considerado hoje o fundador do moderno racionalismo, decretava a incompatibilidade absoluta entre a loucura e o pensamento. Enquanto a cidade trancafiava os desarrazoados, o pensamento racional trancafíava a desrazão. Esses dois gestos, se não foram o mesmo, ao menos foram solidários, e é a marca dessa solidariedade que chega a nós como uma urgência política. Libertar o pensamento dessa racionalidade carcerária é uma tarefa tão urgente quanto libertar nossassociedades dos manicômios.

Isso significa que no plano de nossa geografia cultural e política é preciso recusar o Império da Razão. Talvez seja isso também que os loucos sempre quiseram nos dizer, e que nós ainda não conseguimos escutar. A nossa razão, a forma hegemônica de racionalidade vigente é carcerária, mesmo quando ela é edulcorada pelos burocratas do desejo com uma terminologia inefável. Seria preciso desmontar essa racionalidade a fim de deixar o pensamento permeável à desrazão.

Isto não significa optar pela irracionalidade (que não passa de uma razão camuflada,Razão de Estado, de Raça ou de Religião), mas praticar um trânsito com tudo aquilo que os loucos nos sugerem, embora eles mesmos, por estarem imersos nesse funcionamento exclusivo, tenham sido reduzidos a corpos passivos e impotentes (em sua forma manicomial cronificada os loucos não mais evocam a desrazão, a não ser de longe e residualmente, mas a morte).

O que significa então, para o pensar, poder pensar loucamente, poder enfim desarrazoar? Essa questão é a mais difícil porque não basta gritar novas palavras de ordem em substituição às antigas — como por exemplo, Viva a Multiplicidade, ou Viva a Diferença, ou Viva o Devir, ou Abaixo a Metafísica — isso

tudo não muda absolutamente nada, pois a desrazão não é uma nova ideologia, muito menos uma nova tecnologia — mas o exercício, no seio do próprio pensar e das práticas sociais, de uma nova forma de relacionar-se com o Acaso, com o Desconhecido,com a Força e com a Ruína. Trata-se de não burocratizar

o Acaso com causalidades secretas ou cálculos de probabilidade, mas fazer do Acaso um campo de invenção e imprevisibilidade; de não recortar o Desconhecido com o bisturi da racionalidade explicativa; de não fazer da Ruína um momento de uma superação dialética, mas uma linha de fuga micropolítica. Trata-se enfim de um pensamento que não transforma a força em acúmulo, mas em Diferença e intensidade.

Isso tudo implica, naturalmente, inventar uma nova relação entre corpo e linguagem, entre a subjetividade e a exterioridade, entre os devires e o social, entre o humano e o inumano, entre a percepção e o invisível, entre o desejo e o pensar.

Talvez todas essas palavras amontoadas desse jeito façam pouco sentido, e nós, bons cartesianos que somos, abominamos o não-sentido.

É provável, porém, que seja preciso incluir nesse programa insensato que acabo de esboçar sem nenhum rigor um lugar também para o não-sentido — um lugar que não seja mais o lugar do manicômio.

Enfim, se pudéssemos sugerir alguma reivindicação que não depende da aceitação de uma emenda legal, pois não pode ser atendida por decreto, seria preciso resumir tudo o que precede numa fórmula lapidar: sim, fim do manicômio, mas igualmente fim do manicômio mental, isto é, um direito à desrazão. E seria necessário acrescentar imediatamente: um direito à desrazão, mas sem confiná-la àquele cantinho privado e secreto de nosso psiquismo chamado “nossas fantasias”, onde ela costuma dormitar inofensiva.

O direito à desrazão significa poder pensar loucamente, significa poder levar o delírio à praça pública, significa fazer do Acaso um campo de invenção efetiva, significa liberar a subjetividade das amarras da Verdade, chame-se ela identidade ou estrutura, significa devolver um direito de cidadania pública ao invisível, ao indizível e até mesmo, por que não, ao impensável.

Libertar-se do manicômio mental é isso tudo e muito mais. No entanto, para que a “libertação” da desrazão não venha a ser mais uma astúcia da Razão — como talvez o seja a libertação dos loucos — é preciso evitar suas ciladas, que não são poucas.

Há quase 2.500 anos atrás o fundador da Razão no Ocidente forjou uma utopia política que recebeu o nome de A República.Para preservar a perfeição e harmonia dessa cidade ideal, Platão resolveu banir dela os poetas, considerados por ele cidadãos nocivos, já que eram mestres na arte da ilusão. Os poetas foram expulsos da cidade de Platão pela porta da frente, mas voltaram pela porta dos fundos, e com glória. É que Platão, ao escrever sua utopia política, lançou mão, e com mestria inigualável, justamente da arte sublime da poesia. Os poetas perderam, mas a poesia venceu.

Nossa modernidade não expulsou os poetas, mas os loucos.Ora, se a hipótese sugerida acima é verossímil, isto é, se o fim dos manicômios é também uma forma dissimulada de borrar a Diferença que antes os loucos portavam, e se a humanização e homogeneização caminham juntas no combate aos riscos disruptivos da loucura, deixemos ao menos que a desrazão — até recentemente “privilégio” quase que exclusivo dos loucos — vingue em nós.

Desta vez, porém, não mais a serviço da razão,como foi o caso da poesia em Platão, mas a serviço de uma modalidade inédita entre pensar, viver e desarrazoar.

PPP, maio de 1989

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