Luiz Orlandi [dois fragmentos] pensamento em tensões de pesquisa e um neo-narcisimo contemporâneo

“Ora, como não nos cabe a tarefa de patrulhar o advento dos problemas (o que não significa isentar-se das guerras de legitimação/falsificação de problemas), é delicada a situação de quem pretende manter o pensamento em tensões de estudo, o que o obriga, em face desse quadro geral, a evitar duas tentações complementares: de um lado, a de só levar em conta os problemas suscetíveis de resolução e, por outro lado, a de curtir e realimentar a irresolução dos problemas. A primeira tentação determina excessivamente a indeterminação que envolve até mesmo as chamadas questiúnculas, castrando recobrimentos, encurtando trajetos, induzindo o pensamento a não verificar sua própria utilidade prática; a segunda insufla subjetivamente a indeterminação, alimentando a atmosfera de uma fingida hesitação ou indecisão, satisfazendo-se, no limite, com uma inefável perenidade dos problemas. Essas tentações são complementares porque maltratam a própria indeterminação, que elas castram por meio de um objetivismo de trajeto curto ou estufam por meio de um subjetivismo autocomplacente.”

***

“ certo comunicativismo parece consistir em levar cada eu, cada si, a viver com a impressão  de ser pensado, visado, procurado, querido, bajulado, espelhado, biografado, noticiado, engrandecido, justiçado, cuidado, venerado, agraciado, compreendido, aplaudido, cumprimentado, velado, representado etc., tudo isso e muito mais compondo mil espelhos para um neo-narcisismo, esse do eu exposto a mil e uma visgo-ofertas que acabam separando-o daquilo que sobrava ao velho Narciso, o tempo da perigosa contemplação de si. Perigosa, porque o espelho d’água podia virar água viva ou tremer revelando a fragilidade da fisionomia. Talvez não se trate mais da velha ilusão da identidade própria, mas da ilusão de não se ter qualquer poder, ou de se ter um poder absoluto de controle sobre a multiplicidade de suas exposições. Sou aliciado por linhas que me tecem como meu próprio inimigo ou aliado. Chego até mesmo a viver intensamente ao sabor das vagas de comunicações e trocas, acostumando-me aos tipos de satisfação ou insatisfação que elas propiciam, mas fazendo-o de tal forma que o eu ou o pedaço de eu capturado se sinta valorizado ou deprimido em sua ego referência e chegue mesmo a esquecer que essas vagas são o próprio hífen, são o traço traçando sua vidinha, são as vias que enredam a ligação de cada eu grande ou pequeno consigo próprio”

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