Sonhos: sismógrafos do comum, das redes e políticas contemporâneas

Ainda que as narrativas e mapas afectivos não produzam nenhum espanto, recolher sonhos e pesadelos podem ser uma espécie de sismógrafos do que está aí e mais, está vindo.. É difícil “tomar o pulso” de um momento, suas redes, ainda mais em escala tão regional, planetária, contemporânea.. Penso em instrumentos atípicos, que medem deslocamentos tectônicos ou temperaturas subterrâneas. Charlotte Beradt uma amiga de Hanna Arendt recolheu minuciosamente sonhos de uns trezentos alemães comuns entre 1933 e 1939 e insistiu no seguinte: os sonhos das pessoas comuns deixavam entrever mecanismos que se instalavam cotidianamente na vida de milhões de pessoas, mas que ainda não eram visíveis. Mesmo campos de concentração surgem nos sonhos, muito antes que fossem construídos. Foram apenas o início do terror, mas justamente é o momento em que essa intimidação cotidiana já vem de toda parte e vai tomando a totalidade do espaço psíquico-político..(…) A questão cosmopolítica de hoje não poderia ser: qual é a dor que cada agente, humano ou não-humano, carrega? E quais dispositivos, expressivos ou não, é preciso ativar ou inventar para lhes dar voz? É o saber feito de fragmentos de mundo em colisão, das conexões que surgem, das forças em jogo; as coisas compreendidas como pássaros que não podemos enjaular. É que não se trata de esperar a música uníssona, o conhecimento apaziguado, o grande domingo da vida ou do mundo que abolirá a inquietude (…) Recolher sonhos pode integrar uma investigação-interferência que encontra – e também pode produzir outras redes partilhando esses sonhos – e ser um equivalente da ideia de Foucault “tornar as epidermes mais irritáveis para detectar o intolerável” com a partilha desses pequenos sismógrafos íntimos da atual política. (…) talvez respostas livres a uma situação de opressão em plena democracia (…) Para Charlotte, essa matéria impalpável era como um sismógrafo. Claro, enquanto transcrevia os sonhos, mudava os nomes que representassem algum perigo, caso fosse presa. “Partido” virou “família”, Hitler tornou-se tio João, “ser preso” era “pegar uma gripe” etc.Mas vários sonhavam apenas: “é proibido sonhar, e no entanto estou sonhando. “Sonhar com a proibição, mas no ato mesmo do sonho, transgredi-la. Já era uma forma de resistência. Um dirigente político havia anunciado, logo no início do regime: “a única pessoa na Alemanha que ainda tem uma vida privada é aquela que dorme.” Mas a sequência dos acontecimentos viria mostrar que nenhuma parcela de vida estava a salvo, nem a do sonho. Como no sonho de um médico que de repente vê desaparecerem as paredes de sua casa, e ouve os alto-falantes anunciarem o decreto que proíbe construção de paredes. É um mundo sem exterioridade, é toda uma nova topologia que se instala, não há dentro nem fora, não há exílio, nem sequer interior que garantisse algum refúgio, como se as casas se escancarassem a todos os ventos, as divisórias e muros caíssem, e um vento mortal varresse todos os escombros. É o mais cotidiano que bascula em uma feroz devastação, sem que nos relatos e narrativas pareça haver nada de anormal (…) ninguém deveria espantar-se com as desventuras de um homem sistematicamente excluído do mundo. Pensemos no sonho do advogado judeu que, diante de um banco de praça que lhe está interditado, se senta sobre uma lata de lixo e pendura sobre si um cartaz que diz: “se necessário, cedo lugar aos papéis”. É Beckett puro. Mas será que o historiador vê nesses sonhos um alerta, a premonição política, o prognóstico que antecipava o que naquele momento ainda parecia inverossímil? É todo o mistério, de uma desmedida pressentida, que extrapola os recursos expressivos disponíveis, precisando, portanto, enunciar-se na linguagem da sobriedade, na qual o espantoso é despojado de espanto, ou como em Kafka, onde o mais espantoso é que o espantoso não espanta mais ninguém. É a solução “realista”, seja ela defensiva ou cômica, diante do absurdo – a descrição neutra , quase displicente, sem pathos. Tal contraste entre o tom da descrição e seu conteúdo só nos dá, ainda mais fortemente, a medida da desmedida aí em jogo, se assim podemos nos expressar (…) o livro sobre os sonhos durante o III Reich, faz ver que os alemães sonhavam não com aquilo que pudessem desejar, pelo menos a nível coletivo, mas com aquilo que lentamente se ia instalando entre eles, o terror cotidiano, a maquinaria de sujeição, o descarte, a desmedida se travestindo de medida.(…) “desmedida absoluta dos acontecimentos”. É possível que estejamos em um momento assim, em que voam pelo ar muitas “medidas”, do valor, do trabalho, do tempo, do sujeito, do Estado, da governança global, do controle da vida, e vem à tona, por toda parte, a desmedida dessa medida do poder, ou do biopoder, a desmedida das novas dores que requerem de nós outra coisa para a qual ainda não temos nomes adequados, e que as revoltas e insurreições do presente deixam apenas entrever, a seu modo.

Recolha com pequenas interferências no artigo de PPP quando comenta o “O Terceiro Reich dos Sonhos” de Charlotte Beradt

ACERCA DESSA QUESTÃO SAIBA MAIS NA CONFERÊNCIA ABAIXO AOS 7 MINUTOS E 30 SEGUNDOS.

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