Singular não é individual. Por que SINGULARIDADE NÃO é predicado do INDIVIDUO?

O indivíduo não é o primeiro na ordem ele é produzido, e, embora à primeira vista pareça a última realidade tanto para a linguagem – também para a clínica e o cuidado – como para a representação em geral (modelo hegemônico), o indivíduo supõe a convergência de certo número de singularidades, determinando uma condição de fechamento sob a qual se define uma identidade: o fato de que certos predicados sejam escolhidos implica que outros sejam excluídos. Nas condições da representação e do senso comum, as singularidades são, portanto, desde logo e tão-somente predicados, atribuíveis a sujeitos ou indivíduos. É preciso sublinhar que individual não é sinônimo de singular. As singularidades não se tornam homogêneas, não são reduzidas a uma unidade indivisa (indivíduo). Singularidades são “acontecimentos”, isto é, pontos “notáveis” numa multiplicidade, pontos não meramente “ordinários” e “regulares” (generalidades). Ora, as singularidades são por si mesmas indiferentes à predicação. Um exemplo seria “verdejar” que é um acontecimento (singularidade) como tal, solto, antes de se tornar a propriedade possível ou predicado de uma coisa ou sujeito, “ser verde”, por conseguinte, comunica-se de direito com qualquer outro acontecimento, independentemente da regra de convergência que o apropria a um eventual sujeito ou indivíduo. O plano onde se produzem os casos, os atendimentos, os encontros, os diagnósticos é povoado de singularidades soltas ao mesmo tempo inatribuíveis e não hierarquizadas, constituindo puros acontecimentos que não são exclusividade de uma área profissional, técnica ou sujeito. Essas singularidades têm entre si relações de divergência ou de separação, certamente não de convergência, uma vez que esta já implica o princípio de exclusão que governa a individualidade ou o reino do sujeito e do indivíduo: as singularidades só se comunicam por sua diferença ou sua distância, e o livre jogo das singularidades e de sua produção reside precisamente no percurso dessas várias distâncias, ou espécies de síntese que preservam a separação, a fragmentação e abertura. Os indivíduos que somos, derivando desse campo de singularidades variáveis de individuação[1] que conhece apenas acoplamentos e disparidades, campo completamente impessoal, coletivo e inconsciente, não reatam com esse jogo das singularidades sem fazer a experiência da mobilidade de suas fronteiras. A esse nível real, fragmentário e sutil que compõem a tessitura comum do que somos – casos, áreas profissionais, ações em conjunto, saúdes, individuações, concepções de clínica – cada coisa não é mais ela mesma senão uma singularidade que se abre ao infinito dos predicados pelos quais ela passa, ao mesmo tempo em que perde seu centro, isto é, sua identidade como conceito e como eu. As singularidades são pré-pessoais e pré-individuais, portanto, sempre relativas a um conjunto aberto. Ora as singularidades podem designar as “dimensões” fortes de um conjunto aberto – suavidades , complexidades, simpatias, transferência, complicações, ações inauditas, acasos extremos e,e,e –  e podem ser nomeadas “intensidades”, “afectos”; sua distribuição corresponde portanto ao mapa afetivo de um conjunto móvel em conjunção, a uma situação que está sendo sustentada em conjunto, que esta sendo operada ou ainda à modulação contínua de um material. Ora elas se distribuem no nível de cada dimensão, e também se redistribuem de uma dimensão a outra: são os “pontos brilhantes” ou observáveis a cada grau, os “pontos sobre os dados” de cada lançar de dados da distribuição de uma situação, os “pontos singulares” cuja distribuição determina as condições de resolução e etc. As singularidades ou uma singularidade, as duas significações interessam porque singularidades compõem uma multiplicidade que penetram umas nas outras através de uma infinidade de graus, cada dimensão sendo como um ponto de vista sobre todas as outras, que os distribui a todas em seu nível.  Também no acompanhamento de casos há “complicações” que pedem para ser tratadas: assim, só há trabalho sutil, atento à delicadeza daquela situação, se houver uma redistribuição do “já sabido” em favor do caso, um lançar de dados, uma retomada das singularidades umas nas outras, e isso acontece, se exerce, sob a condição de um encontro com “problemas” distintos a cada vez (não o reecontro do mesmo). Daí uma espécie de teoria da aprendizagem e do que significa “ter uma Idéia”, isto é, encontrar e compor singularidades pelo fio condutor dos problemas e experiências. Não podemos aceitar como alternativa algo que compromete ao mesmo tempo toda a clínica, o comum e as ações, ou seja, as singularidades serem assumidas em indivíduos e pessoas ou então uma sopa amorfa, abismo indiferenciado. Péssima dualidade. Quando o mundo se abre pululando de singularidades anônimas, sutis, impessoais, pré-individuais, coletivas, pisamos finalmente no campo da vida como ela é.

F.Z.A.H.

[1]Considerando a individuação como um campo povoado de singularidades pré-individuais, coletivas, anônimas, impessoais seria preciso “conhecer o indivíduo pela individuação e não a individuação a partir do indivíduo” cf. Gilbert Simondon. L’Individu et sa Genèse Physico-Biologique. Grenoble: Millon. 1995. p.22. Individuação feita de singularidades, uma matéria indeterminada, rica em energia mas, pobre em estrutura, povoado de potenciais e tensões. Feixes de relações quânticas, limiares de intensidade. Nem estável nem instável, mas metaestável, esse campo de singularidades pré- individuais é o Ilimitado (apeiron) para falar como Anaximandro, há partir dele, em todo o caso, que se dão as individuações física, biológica, psíquica, clínica, coletiva.

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