Sem síntese.Dilma é uma morta viva, Marina é uma viva morta e Aécio é um morto morto

O eleitorado de Dilma Rousseff é mais homogêneo do que o de Marina Silva. Votaram em Dilma os pobres diretamente beneficiados pelas políticas igualitárias do PT e a esquerda orientada pelo valor da justiça social, para a qual, apesar dos pesares, é imprescindível o aparato institucional do Estado e sua força de lei para promover a igualdade. Já o eleitorado de Marina reuniu o sentimento antipetista em sua dimensão “negativa” (qualquer um, menos o PT), em sua dimensão “positiva” (contra a repressão, o desprezo por direitos civis, o atropelamento das minorias e a lógica política petistas), e ainda uma perspectiva radicalmente anticapitalista. É nessa última que se encontra uma compreensão de alcance mais longo e penetrante sobre o debate político do Brasil e do mundo. Pode-se encontrar sua formulação na entrevista concedida por Eduardo Viveiros de Castro e Deborah Danowski a Eliane Brum, publicada na versão brasileira do “El País” (e comentada aqui por José Miguel Wisnik na semana passada).

Os que acompanham as ideias de Viveiros de Castro conhecem seu repúdio veemente ao projeto político da esquerda tradicional, representado por Dilma Rousseff. Sob a perspectiva do antropoceno (a ideia de que o homem branco moderno se tornou um agente geológico que está alterando as condições da Terra, num sentido hostil à espécie humana), o “crescimentismo” da esquerda tradicional é uma política insustentável, mortífera à Humanidade como um todo, e que acabará fazendo dos pobres, num giro dialético, suas vítimas mais vulneráveis. Ou seja, a justiça social, nos parâmetros do desenvolvimentismo, produzirá injustiça. E a esquerda tradicional é essencialmente capitalista quanto ao imperativo do crescimento econômico incessante, de que depende sua política igualitária de distribuição de renda.

Para Viveiros de Castro, há uma armadilha nessa lógica. O capitalismo produz os pobres, e a esquerda tradicional, irmanada em seu fundamento, continua produzindo-os, no mesmo lance pelo qual ameniza sua pobreza. Foi assim na origem: tiraram do índio a terra, a língua, a religião; deixaram-no só com sua força de trabalho — ele virou pobre. Hoje, na Amazônia, entram as grandes plantações e a pecuária, transformando quem mora ali em pobre. Então vem o governo, o Bolsa Família, e ameniza a pobreza. Em vez disso, defende o antropólogo, seria preciso “ajudar o pobre a ficar mais parecido com ele mesmo”. Isto é, propiciar que ele se transforme “em algo que ele sempre foi”, que viva fora dessa lógica produtora de sua própria pobreza.

Mais que problematizar alguns aspectos dessa perspectiva, me interessa aqui marcar a divisão nítida entre essa esquerda e a esquerda tradicional. Num artigo do ano passado, Vladimir Safatle identificava essa divisão (a partir da entrevista de Viveiros de Castro à “Piauí”) e defendia a sua superação, por meio de um esforço de compreensão mútua e da busca por denominadores comuns fundamentais. Se tomarmos a política de Dilma Rousseff como símbolo da esquerda tradicional, esses denominadores não existem: sua concepção de igualdade é radicalmente diferente daquela defendida por Viveiros de Castro. De um lado, o vínculo entre crescimento e distribuição da renda; de outro, a necessidade imperiosa de frear o crescimento, isto é, um verdadeiro anticapitalismo, o que implica distribuir riqueza, não renda — e pode ser considerado uma política revolucionária, já que diversa da lógica dos pactos dissolventes. Isso explica a divisão irredutível entre parte do eleitorado marinista e o eleitorado dilmista — e o agora inevitável voto nulo dessa parte.

Quanto a mim, acho difícil refutar o sentido geral da perspectiva de Viveiros de Castro. O problema é que, no contexto atual, não vejo a sociedade brasileira capaz de dar um passo mais ousado nessa direção. Tudo somado, não penso que Marina representou esse passo contra o crescimentismo. Como conciliar, na vida real, as ideias de crescimento zero inspiradas em Paul Gilding e o rentismo de Neca Setúbal? O desenvolvimento sustentável e as ligações de Beto Albuquerque com o agronegócio? No fim das contas, acho que com Marina teríamos mais o ônus do enfraquecimento da justiça social da esquerda tradicional do que um passo na superação de sua lógica condenada. Com sua saída, sobrou o ônus puro-sangue de Aécio.

Na equação geral entre essas variáveis — igualdade, crescimento, antropoceno, pobreza, sistema político brasileiro —, eu chego às seguintes fórmulas: Dilma é uma morta viva, Marina é uma viva morta e Aécio é um morto morto. Fico com a parte da vida (o que ela ainda pode produzir de transformação social do Brasil) — mas é preciso obrigá-la a encarar sua parte de morte.

Francisco Bosco.

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