Cidade de Leubann

Quanto às origens de Leubann, sabe-se apenas que foi, em tempos remotos, uma precária e mísera paragem onde as caravanas e carroças se detinham para carregar mantimentos e água; uma pausa obrigatória na rota comercial, um ponto na imensidade da planície, um local onde, ocasionalmente, os viajantes se encontravam e, após fugaz acasalamento, continuavam prontamente a jornada. Às vezes, alguns desistiam de chegar ao destino final. Outras, seus parceiros, cheios dos seus vícios, forçavam eles a desistir. Esses enjeitados, ou aqueles que desanimavam, essa caterva de renegados e criminosos foi o caldeirão no qual se forjou a população de Leubann.

 

Macau

 

Quando se faz uma análise detalhada do planejamento estratégico da Cidade de Leubann – de seu plano diretor (aliás, ele existiu, embora não pareça), surge uma viva impressão de se estar diante da obra de um demente. Unicamente a mania de um insano perigoso pôde idealizar tamanha concepção de cidade. Como qualquer obra humana, Leubann é mais horrorosa no conceito que na concretização efetiva, mais insidiosa na projeção no papel que na urbe física de materiais.

 

Sobre o pai de Leubann (como acontece com qualquer pai) pouco se sabe ao certo. Alguns pressupõem que foi um urbanista tomado por um delírio religioso, ou um ministro (da religião pretensamente reformada) rendido por suas convicções urbanísticas quem definiu os eixos do crescimento da cidade. Outros acusam um matemático digno de nota e alcoólatra inveterado, que perverteu à náusea (com auxílio dos diabos azuis da embriaguez recorrente) a loxodromia de Mercator (essa loxodromia seria a causa do traçado geodésico e enlouquecedor das avenidas de Leubann).

 

Resulta interessante destacar que, historicamente, a catástrofe – entendida como mal de muitos, ou mal urbano – tem sido a razão de alta política que norteia o crescimento e as vidas dos habitantes de Leubann. Todos os burgomestres – fora seus pitorescos vícios particulares – têm tido particular cuidado em respeitar aquilo que, na Escola de Assuntos Municipais de Leubann, é estudado como Gerenciamento Estratégico das Calamidades. Essa ousada concepção da política urbana e da paisagística social é implantada através da Secretaria de Randomização das Catástrofes. Como o nome indica, essa repartição tem como tarefa a distribuição aleatória das catástrofes, entendendo por tais quaisquer formas de desgraça que possam se abater sobre Leubann. A proposta da administração de Leubann sugere que “nenhum acontecimento (bom ou ruim) pode ser prevenido; portanto, resulta conveniente provocar artificialmente situações prejudiciais (as boas podem chegar por si sós), com o intuito de controlar as catástrofes e seus efeitos”.

 

A distribuição aleatória das catástrofes supõe planejar uma série de calamidades, como epidemias, crimes, acidentes viários, incendios etc. São estabelecidas cotas de mortalidade para cada ponto, de modo que o total chegue a 50% da taxa de mortalidade habitual em Leubann (excluída a catástrofe artificial). Assim, o Burgomestre e seus colaboradores se garantem um maior controle sobre o destino e sobre a desgraça.

 

“As catástrofes são um bem de uso comunitário”, afirma (sic) o estatuto da cidade. A saúde, muito pelo contrário, é considerada do foro íntimo, não sujeita à intervenção do Estado. A última vez que a questão foi discutida no âmbito comunal foi em 1664, quando o herético Doutor D.D. Van Driscoll foi julgado e condenado à fogueira, por defender até a morte que “a saúde é um direito que o Estado deve garantir etc…” A cultura de Leubann considera particularmente despudorado este conceito. Leubann é, por isso e por cima de qualquer outra consideração, uma cidade em secessão permanente: uma secessão, mil secessões; dos bairros entre si, dos quarteirões, das ruas de traçado diabólico ‒ tantas secessões quanto habitantes porventura venha a ter a cidade. Em suma, Leubann nasceu pelo e para o padecimento de seus habitantes. Como toda e qualquer cidade ‒ só que Leubann se mantém particularmente fiel a essa premissa.

 

Alvaro Labarrère. Psicólogo, psicanalista e escritor argentino-peruano. Originalmente, “Ciudad de Leubann” foi publicado em castelhano. In: La Libreta, Rosário: Ediciones de la Sexta, 1996, ano 3, nº 3.

 

 

Tradução de Damian Kraus. Psicólogo, psicanalista, tradutor. Doutor em Psicologia Clínica/Subjetividades pela PUC-SP.

       _______________________________________________________________________________

Imagem

Mapa de Macau, in “Monografia Abreviada de Macau”, Yin Guangren e Zhang Rulin, 1751. [Ying Guangren e Zhang Rulin, Aomen Jilüe (Monografia Abreviada de Macau), Guangzhou, Editora do Ensino Superior de Guangdong, 1988.]
Imagem do artigo “Cartografia antiga da cidade de Macau, C. 1600-1700: Confronto entre modelos de representação europeus e chineses”. In: Scripta Nova – Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, Universidad de Barcelona, vol. X, núm. 218 (53), 1 de agosto de 2006. Disponível, in: http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-218-53.htm
____________________________________________________________________________________________
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s